Roberto Rossellini

Os dez melhores filmes de todos os tempos segundo Jean-Pierre e Luc Dardenne

Os talentosos irmãos belgas são lembrados por grandes filmes realistas e já colecionam duas Palmas de Ouro – por Rosetta e A Criança. A lista abaixo foi publicada pelo Instituto Britânico de Filmes (veja aqui), na eleição dos Melhores Filmes de Todos os Tempos, em 2012, que ouviu críticos, cineastas e outros profissionais ligados à sétima arte. A lista está em ordem de lançamento, não de preferência.

Aurora, de F.W. Murnau

História de amor sobre um homem que luta para reconquistar a mulher após tentar matá-la. De repente, nesse ato de reconquista, ambos se vêem pela cidade, por bondes, entre carros. Obra máxima de Murnau.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin

Comédia sobre a mecanização do mundo e a exploração dos trabalhadores. “Carlitos nas engrenagens é como o filme passando pelas engrenagens da câmera”, observa Luc no episódio de Chaplin Today para Tempos Modernos.

Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini

A história de uma criança entre os escombros da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. O encontro com a miséria é inevitável nesse filme forte de Rossellini, neorrealista e realizador de Roma, Cidade Aberta.

Os Corruptos, de Fritz Lang

Pérola noir de Lang sobre um policial em busca de vingança, em uma rede que envolve corrupção e mafiosos. Glenn Ford tem um grande momento, mas quem rouba a cena é Lee Marvin, como o bandido Vince Stone.

Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi

Retrato da prostituição no Japão, tema antes visitado por Mizoguchi no também extraordinário Mulheres da Noite. Em seu último filme, o mestre japonês mostra os dramas envolvendo mulheres de um bordel.

Rastros de Ódio, de John Ford

Como um homem amargo que aprendeu a odiar os índios, John Wayne retorna para casa e logo vê sua família ser destruída. É quando sai pelo mundo em busca das sobrinhas raptadas, na companhia de um rapaz.

Desajuste Social, de Pier Paolo Pasolini

Primeiro longa-metragem de Pasolini. O cenário é a periferia italiana, na qual se vê a personagem-título, cafetão obrigado a fazer mudanças em sua rotina quando sua fonte de renda, uma prostituta, é atropelada.

Dodeskaden, de Akira Kurosawa

Filme do mestre japonês sobre o cotidiano de um grupo de favelados. Está por ali, por exemplo, um menino com deficiência intelectual que dirige um bonde imaginário. Chegou a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

Loulou, de Maurice Pialat

Outra bela obra que dá espaço a seres à margem. Dessa vez um tipo vagabundo interpretado por Gérard Depardieu, com quem Nelly (Isabelle Huppert) termina envolvida. Filme livre e delicioso de Pialat.

Shoah, de Claude Lanzmann

Para muitos, o melhor filme já feito sobre o Holocausto. Obra extensa (566 minutos) que dá voz a sobreviventes, testemunhas e algozes, sem uma única imagem de arquivo. Brilhante estudo sobre a força da memória.

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Nelson Pereira dos Santos (1928–2018)

O autor no cinema brasileiro se define em Nelson Pereira dos Santos. De certa forma, Humberto Mauro, no seu realismo poético, não busca interferir no mundo fechado da pequeno-burguesia industrial ou agrária. É neste ponto muito próximo ao italiano Mario Camerini, no pré-fascismo. Sendo mais jovem, e saindo das ideias de Alex Viany, com quem trabalhou em O Saci (de Rodolfo Nanni, bucolismo de linha mauriana, já superado na época, 1953) e em Agulha no Palheiro, Nelson Pereira dos Santos realizou, em Rio, 40 Graus, o primeiro filme brasileiro verdadeiramente engajado. O adjetivo é válido e significa, há dez anos passados, uma tomada de posição corajosa, solitária, e consequente. A censura investiu furiosamente: não era um filme para a burguesia, porque a burguesia só aplaude e premia filmes sociais quando eles são evasivos. Rio, 40 Graus era um filme popular, mas não era populista; não denunciava o povo às classes dirigentes, mas revelava o povo ao povo: sua intenção vinda de baixo e para cima, era revolucionária e não-reformista. Suas ideias eram claras, sua linguagem simples, seu ritmo traduzia o complexo da grande metrópole: o autor estava definido na mise-en-scène.

(…)

Rio, 40 Graus desmentiu de vez a epopéia romântica de Lima Barreto, o esteticismo social de O Canto do Mar, a técnica de estufa da Vera Cruz, a demagogia dos italianos ex-assistentes de Rossellini e mostrou aos jovens uma nova perspectiva para o cinema brasileiro. Assim como eu, naquele tempo tateando a crítica, despertei violentamente do ceticismo e me decidi a ser diretor de cinema brasileiro nos momentos que estava assistindo Rio, 40 Graus, garanto que oitenta por cento dos novos cineastas brasileiros sentiram o mesmo impacto.

Glauber Rocha, cineasta, em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Cosac & Naify; pgs. 104, 105 e 106). Abaixo, Nelson Pereira dos Santos.

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Antoine Doinel, o primeiro Truffaut

Nenhuma criança foi tão importante ao cinema quanto o Antoine Doinel de Os Incompreendidos. Não significa que o filme de François Truffaut, uma obra-prima, seja o melhor trabalho já feito sobre a infância. Sua importância deve-se, primeiro, à maneira como o cineasta encara esse período da vida e expõe confrontos com o mundo adulto.

Em essência, é sobre um menino, Doinel, tentando fugir dos mais velhos. Não espelha um mundo apenas fechado e particular, o da infância, como se viu antes em obras extraordinárias como O Pequeno Fugitivo, ao qual Truffaut não escondia adoração.

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Há sempre uma articulação entre os adultos que não compreendem e os pequenos incompreendidos. E há, na busca pelo mais particular possível, o toque da infância como algo enigmático, ao mesmo tempo belo, puro, desconcertante – como o momento em que as crianças são flagradas entre sustos e gestos de graça enquanto assistem a um teatro de marionetes, a certa altura de Os Incompreendidos.

Essa zona inacessível só pode ser reproduzida pela espontaneidade da infância: o meio sem falsidades, sem interpretações, do olhar que talvez observe o espetáculo (a ficção) pela primeira vez, sem entender o que decorre no pequeno palco.

E ao olhar de Doinel, seu protagonista, Truffaut recorrerá incansavelmente para ditar os rumos da incompreensão, da dificuldade de aceitar ou entender o chamado delinquente, ou apenas aquele garoto rumo à praia, ao fim, para se tornar livre dos outros.

As crianças não são perfeitas e idealizadas. E por isso não são sempre bondosas. São crianças. É o ponto ao qual Truffaut condiciona o olhar, que ora volta à mãe, ora ao pai, em sua casa, enquanto os adultos conversam sobre qualquer coisa. O filho está por ali, a participar, ao mesmo tempo ao canto, apenas a compor o espaço da família.

Doinel é repelido em silêncio, depois de forma escancarada. Os pais preferem sua internação. Ainda antes, após fugir de casa, o menino será visto em uma cela, na delegacia, com o rosto fixado em lugar algum. Truffaut não permite acesso.

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A essa direção consciente sobre o local das crianças – e da infância – somam-se a fotografia de Henri Decaë e a música de Jean Constantin. Mescla entre o drama possível, o sofrimento, a alegria em estar livre e marginalizado, o instinto e a insegurança, tudo remoído sob a máscara viva, natural, de Jean-Pierre Léaud.

Dos cinco filmes de Truffaut sobre Doinel, Os Incompreendidos é o único voltado à infância. No seguinte, Antoine e Colette, o protagonista chega à adolescência, ao primeiro amor. Nos outros, a começar pelo extraordinário Beijos Proibidos, encontram-se novas fazes da vida, todas permeadas pelo tom cômico.

Os Incompreendidos dispensa a comédia. Quer dizer, quando surge, esta é intrusa, inerente à infância, alheia aos poderes de Truffaut. A infância focada pelo diretor é difícil e dramática – tem de ser – como foi a do artista: este é, antes, um filme pessoal.

Não é a primeira vez que o cinema expôs a infância com necessário recuo – para não dizer crueldade. Algo mais violento pode ser visto em Alemanha, Ano Zero, de Rossellini, talvez o mais dramático dos filmes sobre esse período da vida (e que ousa, vale lembrar, expor o suicídio da criança, entre os escombros deixados pela guerra).

O que alimenta Truffaut, mais ainda, é Jean Vigo e seu seminal Zero em Comportamento, o ensaio de uma “guerra” de crianças “desviadas”, no interior da escola, todas contra o sistema adulto. Uma de suas sequências famosas – quando os garotos formam fila atrás do professor – seria levada a Os Incompreendidos.

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Como o discípulo, Vigo prefere a infância em sua integridade, também a distância. Prefere o movimento, o grupo, a insubordinação como autenticidade.

O segundo curta-metragem de Truffaut, Os Pivetes, no qual um bando de garotos persegue a bela Bernadette Lafont, é um olhar curioso à descoberta do amor, primeiro passo para Os Incompreendidos. Mas ainda faltava eleger um rosto, uma criança.

Ao escrever sobre Doinel, o cineasta conta que, ao entrar em um bistrô, certo dia, o proprietário achou que ele fosse o protagonista de Beijos Proibidos, ou seja, Jean-Pierre Léaud, seu provável alter ego. A personagem Doinel é o primeiro Truffaut, criação que canalizaria seu entendimento sobre a infância.

Depois da marginalidade vem a cinefilia. A formação do crítico, resgatado por André Bazin, o homem-cinema a quem Os Incompreendidos é dedicado. A interpretação da História permite jogos rocambolescos, mitos sobre encontros e desencontros, formações. A vitória de Truffaut talvez responda a essas necessidades.

Partindo de Doinel, sua obra debruçar-se-á sobre personagens intensas, livres, apaixonadas, um cinema confundido com a vida. Doinel é esse pequeno intruso que, ao fim, incorre ao flagra, torna a plateia sua cúmplice.

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13 filmes sobre relacionamentos em crise

Nem sempre existe amor perfeito no cinema. É o que se vê nos dez filmes abaixo: um amontoado de idas e vindas e sentimentos verdadeiros – tudo em meio a discussões e conflitos. Também um oceano de dores, de descobertas. Há obras que mostram casais unidos após anos, confrontando problemas; outras, como A Mãe e a Puta, lidam com amantes jovens, com suas dificuldades em ter algo sério ou simplesmente viver o momento.

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Aurora, de F.W. Murnau

O homem tem uma amante da cidade e, após pensar em matar a mulher, tenta reconquistá-la. O título original dessa obra-prima fala sobre uma “canção de dois humanos”.

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Viagem à Itália, de Roberto Rossellini

Provavelmente o melhor de Rossellini, o filme apresenta a crise de um casal que viaja pela Itália e passa pelo solo de vulcões e velhos cadáveres conservados.

viagem à itália

A Noite, de Michelangelo Antonioni

Na segunda parte da Trilogia da Incomunicabilidade, Mastroianni e Jeanne Moreau caminham sem rumo: pela cidade, por hospitais e festas. Pela manhã, precisam se confrontar.

a noite

Nós Não Envelheceremos Juntos, de Maurice Pialat

O grande Pialat mostra um relacionamento conturbado entre um bruto cineasta e sua mulher, que sempre o aceita de volta. Isso, claro, poderá mudar.

nós não envelheceremos juntos

A Mãe e a Puta, de Jean Eustache

Em cena, nessa obra-prima de Eustache, não estão pessoas casadas. São amantes livres, em Paris, ainda com questionamentos sobre o tempo passado, o Maio de 68.

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Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman

O filme de Bergman também deu origem a uma minissérie e está entre os melhores exemplares sobre conflitos amorosos na tela. Passa do casamento à separação, depois ao adultério.

cenas de um casamento

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O diretor fez esse filme em homenagem à sua musa, Diane Keaton, e traz a história de um comediante em dúvida sobre seus relacionamentos. Oscar de melhor filme.

noivo neurótico

O Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola

O extravagante musical de Coppola apresenta um casal em fim de relacionamento. Pela noite, eles conhecem outras pessoas e uma nova jornada cheia de cores.

o fundo do coração

Noites de Lua Cheia, de Eric Rohmer

Ela não quer viver com ele, deseja ser independente. Ele não a entende, mas aceita. Nessas idas e vindas, ambos descobrem que amor e liberdade nem sempre são compatíveis.

noites de lua cheia

Closer, de Mike Nichols

Quatro peças distribuem-se em um jogo complicado: o jornalista ama a stripper e talvez não saiba, a fotógrafa prefere a segurança do médico e demora a descobrir isso.

closer

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

O casal, até certa altura, parece ter acabado de se conhecer. Mais tarde o passado vem à tona nesse filme maravilhoso, no qual Kiarostami questiona o que é verdadeiro e o que é cópia.

cópia fiel

Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater

Eles estiveram juntos em filmes passados, separaram-se e voltaram a se encontrar. Agora estão casados: vivem aquele ponto em que tudo parece se dissolver.

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Meu Rei, de Maïwenn

Mulher acredita ter encontrado o homem de sua vida. Depois, grávida, ela passa a enfrentar os obstáculos dessa relação a dois, entre idas e vindas e doses de drama.

meu rei

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Bastidores: Viagem à Itália

Casal são-no, porque são casados. Casal não o são, porque estão razoavelmente fartos um do outro. A viagem – rumo a Nápoles e nos arredores de Nápoles – dura sete dias (número mágico). Alex, o marido (George Sanders), namora por aqui e por ali, engata (ou é engatado) por uma pega, aborrece-se de morte. Katherine, a mulher (Ingrid Bergman) faz muito turismo: Museu Arqueológico de Nápoles, ruínas de Cuma (antro da Sibila), Templo de Apolo, Vesúvio, Pompéia, a solfatara de Pozzuoli. Recorda um poeta que a amou e morreu novo e tuberculoso, finge ciúmes do marido, farta-se com ele e dele. Ao sétimo dia, a propósito de uma discussão absurda sobre o Bentley deles, decidem divorciar-se logo que voltem à Inglaterra. Horas depois, o carro em que viajavam, muito calados, é forçado a parar porque uma procissão atravessa a estrada. Saem, cada um de sua vez, para ver o que se passa. A certa altura, a multidão desata a gritar “milagre” a propósito do tal paralítico. Na confusão, cada um deles é empurrado em direções opostas. Katherine chama pelo marido. Quando este a consegue alcançar, abraçam-se e juram nunca mais se separar.

Nem Katherine nem Alex parecem pessoas muito interessantes. Nada lhes acontece de muito particular. Qualquer pessoa está mesmo a ver que divorciar-se é o que podem fazer de melhor. Uma procissão, o “ave” de Fátima e os dois nos braços um do outro a jurar amor eterno. Milagre da Virgem que protege o santo matrimônio? Quem nunca tinha visto e só isto ler, percebe facilmente as reações da época.

Só que dizer isto ou não dizer nada é praticamente a mesma coisa. Não porque a história não seja isto, mas porque sob isto, ao lado disto, ou sobre isto (e nenhuma das preposições é boa) se passa tudo o que é essencial e não é traduzível em palavras.

João Bénard da Costa, crítico de cinema, em crítica reproduzida on-line pela Revista Foco (leia o texto completo aqui). Abaixo, a estrela Ingrid Bergman e o diretor, então seu marido, Roberto Rossellini, durante as filmagens de Viagem à Itália.

viagem à itália

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