Robert Zemeckis

Oito ficções científicas sobre jornadas ao desconhecido

O contato do homem com o desconhecido – o que pode ser definido como uma força alienígena – é tema recorrente em filmes de ficção científica, como se confere na lista abaixo. Em muitos casos, o que se vê é o descortinar de si próprio, mais que o do outro, o alienígena que tem o espaço invadido e nem sempre é vilão.

Planeta Proibido, de Fred M. Wilcox

Sob a carcaça do típico filme de ficção científica dos anos 50 há questões inquietantes: no espaço, em um planeta distante, homens tentam criar uma sociedade capaz de realizar suas vontades apenas com o poder da mente, envolvendo paz e justiça. Mas, como se sabe, as realizações nem sempre acompanham os desejos.

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Três momentos, três histórias, um salto na evolução que liga o fim ao início. Há muitas maneiras de descrever essa obra-prima sobre o homem rumo ao contato com uma força superior. Em viagem final, dois astronautas confrontam um computador fora de controle, em um duelo pelo controle da própria nave.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

O homem em questão, vivido por Richard Dreyfuss, fica fascinado pela presença alienígena que cruza os céus, pelas luzes que sobrevoam seu veículo a certa altura. Sai atrás dessa força na companhia de uma mulher cujo filho foi abduzido. Está disposto a deixar tudo para trás para embarcar na grande nave e ir embora.

Stalker, de Andrei Tarkovski

Três homens – um stalker, um cientista e um escritor – entram em uma região fechada pelo governo, chamada de Zona. Nesse espaço – no qual o verde contrasta a imagem sépia do que fica de fora – há outro espaço, o quarto, no qual os desejos humanos podem ser realizados. À beira desse espaço, os homens veem-se paralisados.

O Segredo do Abismo, de James Cameron

Antes de “conquistar o mundo” com Titanic e Avatar, e pouco depois do primeiro Exterminador do Futuro e do segundo filme da série Alien, Cameron assinou esse filme sobre um grupo de mergulhadores que descobre uma força alienígena no fundo do oceano. Há espaço ainda para a intriga entre humanos e uma história de amor.

Contato, de Robert Zemeckis

Uma ficção científica em que a possibilidade de se encontrar uma crença sobrepõe o ceticismo. E uma frase sempre lembrada dá o tom do filme: “seria um desperdício de espaço se não houvesse vida fora da Terra”. Os humanos recebem uma mensagem alienígena. A cientista vivida por Jodie Foster tenta respondê-la.

A Chegada, de Denis Villeneuve

Dessa vez é uma linguista quem deve se aproximar dos alienígenas. Certo dia, diferentes naves com formato de concha surgem no planeta. Os americanos recorrem ao conhecimento da personagem de Amy Adams, cujo avanço ao interior da nave, cada vez maior, faz com que descubra a si mesma, como também seu futuro.

Aniquilação, de Alex Garland

A bióloga interpretada por Natalie Portman vai a uma região sob efeitos alienígenas, afastada, chamada de Brilho. Do local, seu marido militar retornou perturbado. O que ela descobre é que, em contato com o ambiente, seres vivos sofrem mutações e a vida obedece novas regras. Do mesmo diretor de Ex_Machina: Instinto Artificial.

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Contato, de Robert Zemeckis

Sem perceber, a cientista Eleanor Arroway (Jodie Foster) apoia-se em uma crença: o pai e o amante, em momentos diferentes, dizem a ela a principal frase do filme: “seria um desperdício de espaço se não houvesse vida fora da Terra”, ou algo do tipo. Seus olhos brilham. Não importam aqui as provas. O que vale é não acreditar no vazio.

Ao fim de Contato, resta a crença. A cientista que tanto lutou para provar suas descobertas termina sozinha, apenas com o que foi levada a crer. Vítima da experiência que viveu e não dividiu com ninguém. A constatação, com pingos de ironia, de que o homem – ou, nesse caso, a mulher – continua isolado, sem armas para provar o que deseja.

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Após descobrir um sinal vindo de uma estrela distante, Eleanor consegue decifrar códigos, abrir mensagens (com a imagem de Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos da Alemanha, em 1936, que os alienígenas devolveram após receberem dos humanos) e, nos momentos decisivos, ver-se-á frente a frente com uma grande máquina e sua viagem no tempo.

A máquina – feita de arcos, com uma estrutura ao alto na qual se prende a cápsula com o tripulante – lança a cientista a uma espécie de fenda no tempo. Um portal que a faz viajar a outra galáxia, uma corrente que possibilita ver estrelas de perto, enquanto resta ao espectador, na maior parte do tempo, o olho de Eleanor, ao passo que a câmera invade-o.

Pode ser a invasão a outra dimensão, o espaço alienígena, ou apenas a invasão à mente dessa mulher sonhadora – até demais para uma cientista. Leva a pensar que tudo talvez não passe de delírio. E é nesse ponto – para ela, algumas horas; para os outros, fora da cápsula, apenas alguns minutos – que a personagem isola-se em sua crença, presa à sua ação científica.

O filme de Robert Zemeckis funde a religião à ciência. Ou, se preferirem alguns, a crença às máquinas, aos estudos, ao olhar que não permite acreditar no que não pode ser provado. E é por aí que a heroína perde-se, ou se descobre. O filme todo passa por seu olhar, o deslumbramento da jovem ao observar o espaço, ou seu ambiente de trabalho, ou o deserto que se coloca à frente. Ou, sobretudo, as estrelas, mais tarde.

Seu par amoroso é um escritor especialista em religião. Na gestão Bill Clinton, trabalha como “conselheiro religioso” da Casa Branca. Conhecem-se quando a moça tentava encontrar vida alienígena e voltam a se encontrar, mais tarde, em outro local e projeto, quando ela enfim encontra os sinais, ou o contato, que desejava.

O rapaz, interpretado por Matthew McConaughey, é o elo com a crença. Não o conflito, mas a união possível. É ele, à frente, que a questiona sobre a existência de Deus. É quem retorna à cena para confrontá-la sobre como explicar cientificamente a presença de um sentimento, ou se é possível dizer que este não existe se não pode ser provado – ainda que sua argumentação pareça apelativa. Eis ela: “Você ama seu pai? Prove.” A heroína, claro, vê-se desarmada.

É a frase sobre o espaço desperdiçado que faz a moça cair de joelhos pelo rapaz, antes, quando se conhecem. A frase remete ao pai. A cientista – cuja expressão sonhadora, perdida, leva sempre à mesma menina curiosa da infância – talvez seja apaixonada pelo único homem que amou e quer perdeu, o homem que a estimulou a fazer contato.

O filme todo será sobre essa busca: a da filha incansável à procura do até então intocado, do que não se pode ver com os olhos, das estrelas no céu. Move-se pelos caminhos da ciência, de maneira consciente, para reencontrar o pai – e se move, talvez inconscientemente, pelos caminhos da crença, da religião, atrás de seu espírito.

A experiência final – científica ou religiosa, com o espírito do pai, um alienígena ou apenas sonho ou devaneio – pertence apenas a ela, diz Zemeckis, com o roteiro de James V. Hart e Michael Goldenberg, a partir da história de Carl Sagan. Contra todos os outros – administradores, políticos, homens em sua maioria -, Eleanor continuará acreditando.

(Contact, Robert Zemeckis, 1997)

Nota: ★★★★☆

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Aliados, de Robert Zemeckis

Espiões que não se conhecem permitem certa artificialidade enquanto desempenham um papel. Não possuem entrosamento, afinal. O problema de Aliados é a continuidade dessa forma artificial e, por isso, a clara fraqueza de sua direção.

Mesmo depois de casadas, as personagens centrais do filme de Robert Zemeckis continuam a não se envolver. Não convencem. É o principal problema para um filme que, em suma, depende dessa relação: Brad Pitt e Marion Cotillard seguem gélidos e automáticos como sempre foram, como se ainda estivessem em missão.

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aliados

Pitt e Cotillard são dois espiões em um trabalho em Casablanca, no Marrocos – justamente na cidade que, recriada em estúdios, deu ao cinema a sua mais bela história de amor. Eles precisam matar o embaixador nazista em plena Segunda Guerra Mundial.

Vão além, acabam se envolvendo. Vivos após a missão, terminam casados, têm um filho e passam a morar na Inglaterra de bairros aconchegantes e ataques aéreos. Tudo vai bem até o exército britânico sugerir que a mulher, Marianne Beauséjour (Cotillard), é uma espiã nazista, para o desespero do marido correto, Max (Pitt).

A artificialidade de Zemeckis recai ao exibicionismo barato. Pode ser visto já na primeira cena, quando resolve embutir efeitos digitais no momento em que Max chega ao Marrocos em um paraquedas. Esse apelo ao embelezamento, pelo ângulo impossível (que recorre ao digital), nada mais é que perfumaria, sem naturalidade.

É como se o cineasta precisasse dizer que tudo isso é Hollywood, mas sem os cenários frágeis e os enquadramentos formais do cinema clássico. A encenação de Zemeckis não tem paixão, é automática, coreografada nos momentos em que não deveria. A pior delas é a cena de sexo no interior do veículo, em pleno deserto, quando a câmera rodeia as personagens à medida que a tempestade de areia ganha força.

Outras vezes tão eficiente, investido de trejeitos cínicos e cômicos, Pitt termina aqui como o homem silencioso e quadrado, sem capacidade de se comunicar com o público: erra na tentativa de parecer apaixonado, ou mesmo tomado pela paranoia.

Aliados não chega nem a ser um filme sobre os problemas da época, em seu revezamento entre a vida íntima e a militar. A paranoia não convence. Basta prestar a atenção nas atitudes de Marianne, no Marrocos, para saber que se trata de alguém inconfiável, ou mesmo levada a interpretar sempre.

O filme encontra uma saída para absolvê-la. O amor prevalece sobre o tempo sombrio. Entre tantas opções equivocadas, a atriz ainda arranca alguns bons momentos, como no nascimento da filha sob o som de bombas e explosões, na representação que Zemeckis, claro, não deixa escapar: a vida que nasce – e que persiste nas fotos antigas, nos momentos finais da obra – mesmo em tempos de guerra.

(Allied, Robert Zemeckis, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

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13 filmes pretensiosos e medíocres do cinema recente

Há filmes que partem de uma grande ideia e não conseguem sustentá-la ao longo da projeção. Ideias políticas, científicas, sociais etc. Há também aqueles que se envolvem nessas mesmas ideias, com o estofo de grande produção, e apostam em histórias de figuras verdadeiras ou se baseiam em livros consagrados – como se apenas essas figuras e as obras originais fossem suficientes para garantir sucesso.

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A lista abaixo traz 13 exemplos de filmes pretensiosos, de 2011 a 2015, que não se sustentam. A certa altura, o naufrágio é sentido. O espectador não sai saciado. E vale lembrar: no caso de adaptações literárias, a mediocridade dessas obras nada tem a ver com o fato de estarem à altura ou não das originais, mas simplesmente porque não se realizam como cinema. Simples assim.

A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd

Abordar figura tão ambígua como Margaret Thatcher é um desafio. E ainda que Meryl Streep dê conta do fardo, o filme não se realiza nunca. Drama de idas e vindas, sobre o poder e, no presente, sobre sua fragilidade estampada na senil personagem.

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Os Miseráveis, de Tom Hooper

O livro é um monumento. Não vale a comparação, claro. A versão de Hooper coloca as famosas personagens em estrutura de filme musical, tudo um pouco rápido e atropelado, sob as canções que tentam forçar o drama a todo custo. Bonito, inchado e vazio.

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Looper: Assassinos do Futuro, de Rian Johnson

A ideia é interessante: assassino de aluguel viaja no tempo com a missão de matar a versão mais velha de si mesmo. Resulta em uma mistureba sem empolgação, com Bruce Willis no piloto automático, na rabeira de filmes como A Origem e Matrix.

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Anna Karenina, de Joe Wright

Outro caso de filme recente baseado em livro consagrado. E, aqui, um caso ainda mais curioso, pois o diretor Wright embala a história em visual teatral, com todos os cenários abertamente falsos – o que só o faz parecer mais maquiado e distante.

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O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann

O carnaval de Luhrmann não tem fim. A partir da obra de F. Scott Fitzgerald, o diretor embute peso em quase todas as sequências, com Leonardo DiCaprio como a personagem-título, o ricaço distante e festeiro, sem graça e emoção.

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Serra Pelada, de Heitor Dhalia

A corrida pelo ouro em Serra Pelada tornou-se um episódio histórico e selvagem da História brasileira. O filme de Dhalia, para tentar imprimir a grandeza dessa miséria, recorre sempre a imagens de arquivo, e foge à trama manjada e esquemática de amor proibido.

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A Vida Secreta de Walter Mitty, de Ben Stiller

Stiller, ator e diretor, tenta embarcar em uma obra existencial sobre a passagem do tempo: o fim da revista Life e a perseguição à ideia de viver intensamente, de desbravar o mundo. Tenta parecer “descolado”, “inteligente”, e termina quadrado.

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Interestelar, de Christopher Nolan

A avalanche de ideias científicas, de teorias, choca-se com a mensagem do amor como “única salvação” aos heróis astronautas. Os efeitos são o ponto alto do filme de Nolan, que não chega a ser tão ruim como seu anterior, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

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A Teoria de Tudo, de James Marsh

A pretensão tem lugar no título, nesse drama sobre a vida de Stephen Hawking, outra figura ambígua e desafiadora a qualquer realizador. Alguns momentos têm inegável beleza. A tal teoria do físico quase não tem espaço. Perde vez ao drama conhecido.

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Lucy, de Luc Besson

A bela Scarlett Johansson é uma assassina nesse filme que vai da origem do homem à sua materialização em pen-drive. Tudo não passa de desculpa para a ação desenfreada, com violência gráfica e Morgan Freeman tentando assegurar alguma seriedade à obra.

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A Travessia, de Robert Zemeckis

Ao que parece, nasceu para ser uma experiência em 3D, um capricho do diretor, em mais uma daquelas tentativas de colocar o público à beira de um abismo. A ironia não poderia ser maior: o documentário de 2008, sobre o mesmo caso, é mais emocionante.

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Viva a França!, de Christian Carion

Mais um drama sobre a Segunda Guerra Mundial. E, nesse caso, nada mais amargo do que ser “mais um”. Carion trata de uma história com várias personagens em encontros e desencontros, cujo tamanho da empreitada não acompanha o roteiro sem emoção.

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As Sufragistas, de Sarah Gavron

Esse momento histórico do movimento feminista merecia algo melhor. Outro caso em que o realizador prefere o drama de contornos lacrimosos à questão política que deveria se impor, talvez para afagar um público em busca de histórias emocionantes.

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Crime artístico

Lá em cima [no World Trade Center], um jovem francês chamado Philippe Petit caminhava sobre um cabo de ferro suspenso entre as duas torres. Andou por cerca de uma hora. Há momentos em que ele se senta, outros em que se deita sobre o arame. Numa atitude de irreverência, ele acena para os policiais, que subiram para persuadi-lo a dar o fora dali. Àquela altura, no entanto, o espetáculo estava feito, e Petit já ganhara os corações dos milhares de cidadãos de Nova York – que sorriam, entre incrédulos e encantados, com o que logo depois seria considerado o maior “crime artístico” do século 20.

André Nigri, jornalista, sobre O Equilibrista (Revista Bravo, abril de 2009).

A audácia de Petit retorna aos cinemas em A Travessia, de Robert Zemeckis. Se o documentário de James Marsh investe no registro da travessia do francês por um olhar segundo, como se o criador fosse alguém do bando do equilibrista, o filme de ficção deseja colocar o espectador sobre os pés do protagonista – e no alto das torres.

Não deixa de ser uma experiência emocionante, ainda mais quando se vê a recriação perfeita das torres, em estúdio, e dos belos efeitos de profundidade, a simular a altura. Por outro lado, vale questionar por que o documentário é mais emocionante.

O trabalho de Marsh – ainda que utilize algumas cenas recriadas, justamente para preencher a ausência do registro da época – não pretende colocar o espectador à beira do abismo físico, visível, no alto das torres. O que deseja é questionar o que leva o homem a tal empreitada.

o equilibrista