Robert Rossen

Corpo e Alma, de Robert Rossen

Desde o início há o corpo. O pedaço do homem desfigurado, a forma fixa sobre os pés, que deita para rememorar o que ocorreu – minutos antes de ser chamado ao ringue, em sua luta decisiva, em Corpo e Alma, de Robert Rossen. O homem em questão vê sua vida correr por alguns instantes, ou alguns minutos. É quando começa a surgir a alma.

Difícil, desajeitada, em briga com o mesmo corpo. A fúria, aqui, é comum. O ator é John Garfield, talvez aquele que esteve mais próximo, em Hollywood, de James Cagney. Há atores que conseguem expressar com facilidade essa estranha força animal, o odor fétido que, em um piscar de olhos, converte-se em humanidade. Garfield era um deles.

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Em Corpo e Alma, ele é o boxeador Charley Davis. Sabe-se de seu status desde o início, antes de retornarem as lembranças: ele é o campeão e segue à luta de sua vida. Será a última, é certo. Charley tem ali, antes de ser assaltado pelo passado, luta maior, esta com a consciência. Antecipa assim o Marlon Brando de Sindicato de Ladrões.

No entanto, vale lembrar, Terry Malloy nascia à tela como total fracassado. Às margens – ou ainda mais distante – dos ringues. Charley teve tempo de ver o sucesso, ainda que à sombra dos mafiosos de rostos lisos e ternos caros. A mitologia do perdedor dava seu passo decisivo: o campeão é avisado pelo bandido que deve entregar a luta.

Retornaria, depois, em filmes variados. Dinheiro, esse intrometido, casava-se com a luxúria. Atrás vêm as mulheres, as festas, o bar brilhante – repleto de garrafas – que surge da parede giratória como mágica ao rapaz pobre, agora sucesso entre os figurões. O lutador desfigurado encontra-se no terreno das facilidades, do falso conforto.

O filme deixa ver contornos do melodrama, do menino que insiste em seguir aos figurões, a despeito dos avisos ao lado. Ao espectador, é fácil – não menos sedutor, nesse cinema de clima, de alma, sobretudo de dor intensa – entender em que ponto tudo vai dar. Ponto que ainda pode possibilitar um retorno, não sem tropeços.

As figuras que aliviam, que facilitam o acesso ao paraíso: a mãe interpretada por Anne Revere, que se diz “linda”, adjetivo para indicar plenitude; a namorada Peg (Lilli Palmer), bondosa e pintora, pouco inclinada ao dinheiro; os amigos, como o agitado Shorty (Joseph Pevney) e mais tarde o treinador Ben (Canada Lee).

Do outro lado, os malvados, a começar pelo vilão Roberts (Lloyd Gough) e pela bela Alice (Hazel Brooks). Em uma cena especial, ela observa Charley treinando. Rossem enquadra-a de baixo para cima. A mulher ganha potência, ocupa toda a tela. Nem mesmo o homem bruto, a esmurrar o saco de pancadas, alcança tal força.

Em outro momento, entre a plateia, ela grita para que Charley mate seu oponente. Ao lado, Peg sofre com a violência, revira-se na cadeira. Anjos e demônios duelam à câmera, com suas formas, paralelos à luta de tons realistas. Entre cinéfilos, corre a história de que o diretor de fotografia, James Wong Howe, teria usado patins nas sequências de luta.

Esse mesmo tom realista seria levado, mais tarde, ao Touro Indomável de Martin Scorsese, com fotografia de Michael Chapman. O homem desfigurado – Garfield ou Robert De Niro – via-se sob as luzes de um espaço essencialmente às sombras, no centro de uma redoma, no ponto sem volta em que o corpo ainda deixa ver sua consciência, sua alma.

(Body and Soul, Robert Rossen, 1947)

Nota: ★★★★☆

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Segredos do Poder, de Mike Nichols

Sentir-se intoxicado pelos sinais da vida americana não é difícil em Segredos do Poder, de Mike Nichols. A começar pela expressão do candidato à corrida presidencial, o governador Jack Stanton (John Travolta), moldado ao jogo de aparências.

Um filme sobre política feita por políticos, homens de um mundo novo e estranho da propaganda. Há sempre o excesso, a dificuldade de esconder os pecados: há sempre alguma mulher a denunciar o candidato, a acusá-lo de sexo fora do casamento.

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Claro que ele rebaterá a acusação. Usará fieis escudeiros para buscar provas contrárias, ou para descobrir algo que possa acabar com a corrida do concorrente. No campo do poder vale tudo, mas Nichols não joga com o suspense ou com o drama.

Prefere a comédia, o jeito irônico do protagonista reservado, o candidato, e sobre o qual pesam dúvidas. Não é fácil acusá-lo. Ele mantém distância. Nichols faz uma radiografia do real, porque a verdade é sempre ocultada, sempre submetida à propaganda.

Até o fim, o sorriso falso de Travolta (perfeito para o papel) deixa perguntas. Seria apenas uma interpretação? Ou seria alguém que acredita no próprio papel a ponto de sequer perceber ser um canastrão, produto barato do marketing político?

Como A Grande Ilusão, de Robert Rossen, Segredos do Poder é contado pelo olhar de um jovem idealista. Ao político reserva-se a dúvida. Ao jovem, não se espera nada senão a ética, a maneira como se move em desespero, como se põe ao lado do espectador e oferece, sem surpresas, a segurança do olhar sóbrio (e talvez ingênuo).

Ao que parece, Henry (Adrian Lester) é escolhido para integrar a campanha de Stanton porque é negro, além de neto de um importante líder negro. É um estrategista de campanha, profissão à qual se lançam as raposas, não homens como ele.

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O protagonista tenta se convencer de que o candidato realmente vale a luta: não quer embarcar nessa candidatura apenas para produzir e vender um produto; quer, antes, ter certeza de que o produto pode ser vendido sem que precise esconder defeitos.

Tudo indica que ele não sabe muito sobre a engrenagem das coisas, e que ainda crê naquele homem sorridente, no meio da noite, sozinho, comendo uma rosquinha em uma lanchonete cercada por luzes verdes, em meio à escuridão. É a essa lanchonete que o mesmo jovem negro segue, à contramão dos outros escudeiros, para ter o prazer de encontrar ali o homem simples, não o candidato viciado em palanques.

E Stanton pode oferecer esse lado, o que talvez denuncie a ilusão que lança sobre si mesmo: ele realmente crê na personagem que moldou durante décadas, que vestiu e da qual não se separou mais. Personagem que preparou para ser o novo presidente.

Diferente, assim, do Broderick Crawford de A Grande Ilusão, o caipira convertido em governador e que não esconde, em suas passagens por bastidores, ser um político sem qualquer escrúpulo. Stanton é de outra estirpe: é a propaganda viva.

Stanton é estranho, pacato, típico americano médio e camarada, casado com a “mulher perfeita” encarnada por Emma Thompson, a única que não precisa mais acreditar em seus discursos. Em um filme em que quase tudo é falso, colorido e desagradável, a companheira é material obrigatório ao candidato e possível presidente.

(Primary Colors, Mike Nichols, 1998)

Nota: ★★★☆☆

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Oito grandes filmes sobre os bastidores da política

De um lado a política dos palanques, da propaganda escancarada; de outro, os truques e conchavos de bastidores, ambiente em que homens e mulheres revelam-se ao público. Os oito filmes abaixo se embrenham nesses bastidores para fazer vazar a podridão da política partidária, feita de interesses e da busca desenfreada pelo poder.

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A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra

A América idealista de Capra era feita de homens como Jefferson Smith (James Stewart), herói incorruptível que se torna senador e, em Washington, confronta o interesse dos poderosos. A atuação de Stewart é comovente, resistindo por horas no centro da arena política, no Senado, e tentando provar que ainda existem homens honestos.

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Cidadão Kane, de Orson Welles

O magnata da imprensa Charles Foster Kane (Welles) resolve se envolver com política. O homem que cria guerras em seus próprios jornais vê-se em meio a um caso de chantagem quando, às vésperas da eleição, seu principal concorrente ameaça revelar a existência de sua amante. Ele decide manter a candidatura e paga um preço alto.

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A Grande Ilusão, de Robert Rossen

Caipira é convertido em líder político, ganha visibilidade e se torna governador. Visto pelo olhar de um jornalista, o grande filme de Rossen conta a trajetória de altos e baixos de Willie Stark (Broderick Crawford). Aparentemente honesto, no início, Stark passa a usar táticas escusas para seguir no poder e, ora ou outra, corre aos braços do povo.

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Júlio César, de Joseph L. Mankiewicz

Produção cheia de astros e adaptada da obra de Shakespeare. Mostra como Júlio César (Louis Calhern) foi traído por Brutus (James Mason), acompanhado por um cínico Cassius (John Gielgud), depois vingado pelo leal Marco Antonio (Marlon Brando). Os discursos de Mason e Brando – dois dos melhores atores de todos os tempos – são os pontos altos.

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Tempestade Sobre Washington, de Otto Preminger

O presidente dos Estados Unidos tem problemas quando indica seu novo secretário de Estado (Henry Fonda), acusado de inclinações comunistas em plena Guerra Fria. Entre tantas tramas de bastidores, a situação precisa sufocar o outro lado e, a certa altura, revive o passado homossexual de um senador, interpretado por Don Murray.

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O Caso Mattei, de Francesco Rosi

A queda do avião que matou o engenheiro Enrico Mattei (Gian Maria Volontè) foi considerada, em 1962, um acidente. Alguns discordam: teria sido um atentado. O grande diretor Rosi concorda com a segunda versão. Sua obra acompanha o engenheiro sem nunca se aproximar demais, em tom documental. Poderoso filme político dos anos 70.

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O Exercício do Poder, de Pierre Schoeller

O ótimo Olivier Gourmet interpreta o ministro dos Transportes da França, durante alguns dias em que deverá enfrentar obstáculos. Entre um problema e outro, ele encontra uma breve amizade em seu novo motorista. A imagem da abertura é uma metáfora das mutações políticas: uma bela mulher nua flerta com um crocodilo e é engolida pela fera.

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No, de Pablo Larraín

A campanha pelo “não”, no Chile, mostra como o bom humor venceu a ditadura instalada por anos no país latino, com a chegada de Augusto Pinochet ao poder. O protagonista é um publicitário (Gael García Bernal), não um combatente político ou o líder de algum grupo de oposição. As propagandas levadas à tevê são um bom retrato da época.

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Os dez melhores filmes com Paul Newman

Poucos atores envelheceram tão bem. Enquanto James Dean morreu cedo e Brando degradou-se com sua vida particular, Paul Newman construiu uma carreira invejável. Sempre esteve ao lado de uma única mulher, sempre manteve a beleza sem esforço, sem se esconder em maquiagens ou simplesmente se transformar.

No início da carreira, com Marcado pela Sarjeta, deixou claro seu poder. Viriam outras obras brilhantes, com o ator sendo cativante ou menos, ou apenas o ordinário que se veria outras vezes, como em O Indomado, ou mesmo o bandido camarada de Rebeldia Indomável, Butch Cassidy e Golpe de Mestre.

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Na pele do vilão, como se veria em Estrada para Perdição, era também inigualável. Reunir dez filmes do grande ator, por isso, é um desafio a qualquer cinéfilo.

10) Quinteto, de Robert Altman

Ficção científica sobre o mundo à beira do fim, congelado, ambiente em que alguns poucos sobreviventes aderem ao estranho jogo que dá nome ao filme.

quinteto

9) Doce Pássaro da Juventude, de Richard Brooks

Crítica política poderosa, com Newman na pele de um garoto de programa que retorna à sua velha cidade ao lado de uma atriz famosa e disposto a reencontrar seu velho amor.

doce pássaro da juventude

8) Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock

O cientista interpretado por Newman demora a mostrar seu lado heroico. Mais tarde, o espectador descobre que ele serve de agente secreto na Alemanha Oriental.

cortina rasgada

7) Rebeldia Indomável, de Stuart Rosenberg

Várias sequências tornaram-se marcantes nesse filme sobre camaradagem e, como outros do ator, sobre remar contra o sistema, sobre o amado desajustado.

rebeldia indomável

6) O Veredicto, de Sidney Lumet

A cena inicial revela o protagonista, o advogado decadente, em um bar, e que joga para passar o tempo. Mais tarde ele terá sua grande chance para dar a volta por cima.

o veredicto

5) Gata em Teto de Zinco Quente, de Richard Brooks

De opção sexual dúbia, o homem de Newman recusa o irrecusável: mesmo com os desejos evidentes de Elizabeth Taylor, ele não consegue esquecer o amigo do passado.

gata em teto de zinco quente

4) O Mercador de Almas, de Martin Ritt

Como um jovem incendiário, perseguido, o astro encontra-se ao lado de sua companheira Joanne Woodward nesse grande filme de Martin Ritt.

o mercador de almas

3) Um de Nós Morrerá, de Arthur Penn

Em uma bela e brutal sequência, o diretor Penn antecipa a câmera lenta do encerramento de Bonnie & Clyde. Aqui, aborda outro mito: o jovem Billy The Kid.

um de nós morrerá

2) O Indomado, de Martin Ritt

Ao lado de Ritt, de novo, e mais uma vez como um desajustado. Dorme com diferentes mulheres, seduz sua criada e ainda tenta convencer o pai a vender uma boiada doente.

o indomado

1) Desafio à Corrupção, de Robert Rossen

A melhor personagem do ator é Eddie Felson, que lhe renderia o Oscar em outro filme (A Cor do Dinheiro) e tem de enfrentar o lendário Minnesota Fats nas mesas de sinuca.

desafio à corrupção

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Fast Eddie Felson segundo Scorsese

Era um homem que estava ficando velho, que entendia a natureza disso. Fast Eddie Felson estava num ponto da vida em que tinha de aceitar um desafio, voltar ao que tinha feito. Tinha de parar de apostar. Tinha de se tornar um outro tipo de vigarista, vendendo bebida. Mas ele não conseguia resistir à alegria do jogo. Não só o bilhar, mas para animar o jogo da vida, que é o jogo da verdade. Mas ele tinha de lidar também com suas limitações como pessoa mais velha. Eu queria que fosse a história de uma pessoa mais velha que corrompe uma pessoa mais jovem, como uma serpente no jardim da inocência.

Martin Scorsese em entrevista a Richard Schickel, no livro Conversas com Scorsese (Cosac Naify). Scorsese fala da personagem de Paul Newman em seu filme A Cor do Dinheiro, de 1986, que rendeu ao ator seu único Oscar. Newman já havia interpretado o mesmo papel em Desafio à Corrupção, de 1961, dirigido por Robert Rossen. Na obra de Scorsese, Newman divide a cena com um jovem jogador de sinuca interpretado por Tom Cruise. Sobre o filme de Rossen, Scorsese diz:

Desafio à Corrupção é uma obra-prima, então eu não podia imitar aquilo. Mas eu adorava Newman, e ele estava nos dando uma grande chance.

cor do dinheiro

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