Richard Gere

E a Vida Continua, de Roger Spottiswoode

As lembranças que perturbam o protagonista, o médico Don Francis (Matthew Modine), levam a outro país, a outras pessoas, a outra doença. Ele estava às margens do rio Ebola, no Congo, quando viu a devastação causada pela doença que levaria o nome do afluente. Veria, anos depois, a devastação causada pela aids, ao longo dos anos 80.

Ainda no continente africano, ele é interpelado por um jovem desesperado. Deseja saber por que ele, um médico, não pode salvar as vítimas. Mais ainda, por que não tem as respostas àquela ação do inimigo invisível. Por sinal, o médico não tem respostas. O rapaz tem alguma razão. O filme de Roger Spottiswoode lida o tempo todo com a impotência.

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Reconstrói, no início dos anos 90, o surgimento da aids e sua proliferação por alguns países do mundo, especialmente os Estados Unidos. Passa por inúmeras vidas sem perder o mesmo médico de vista. Chega à politicagem e seu silêncio perpetrado, por certo tempo, pelo republicano Ronald Reagan, depois à vaidade do médico americano que queria para si a descoberta do vírus que, antes, havia sido detectado pelos franceses.

Para além de questões políticas e científicas que o filme reconstrói, na luta e no clima da época, há questões humanas que, não raro, proporcionam o drama do qual a obra alimenta-se. Sequências como a caminhada de Francis pela chuva, que o faz retornar àquele fatídico dia no Congo, são postas propositalmente para emocionar.

Verdade que esse filme feito para a televisão, bancado pela HBO, tem inúmeros méritos. O elenco é adequado, a direção é eficiente na medida do possível. Por outro lado, resta a impressão de que houve certo cuidado para “não avançar demais”, “não mostrar muito”, talvez pelo medo da recepção pelos telespectadores da época.

A questão social retratada, como lembra o crítico Heitor Augusto, não pode ser restringida aos anos 80. A época em questão, com a aids, é um momento para soterrar o sentimento de liberdade, a luta e os avanços de décadas anteriores – com seus altos e baixos. A aids tomava o mundo de assalto ao embutir medo, ao frear liberdades sexuais, além de ser chamada de “praga gay”, o que atingia em cheio determinado grupo.

A abertura no Congo tem justificativa: os afetados e esquecidos, antes, eram os negros de um continente pobre; as vítimas de outra doença, em seguida, são os homossexuais de um país rico então governado por um presidente conservador. Era mais fácil, ao que parece, deixar os gays em gueto próprio, a se virar como podiam com seus problemas.

Vilão maior, aos investigadores ou aos doentes, é o medo. O do médico, o medo de não ter as respostas que os outros exigem. A doença, durante bom tempo, está à frente, disseminada, à espera de compreensão. Homens batem cabeças o tempo todo. O filme é recheado de diálogos, de cruzamentos, de pequenas personagens que somem e depois reaparecem, de figuras que sequer têm nome – como a personagem de Richard Gere.

Um dos infectados, comissário de bordo, fala com prazer à médica – ainda pouco consciente do estrago da doença, sem saber que ele próprio está doente – dos vários homens com os quais foi à cama, dos quais, em muitos casos, sequer lembra o nome. O filme, nesse ponto, fornece a imagem do gay que ronda a cabeça dos preconceituosos. É um dos pontos baixos. O gay em cena é promíscuo e despreocupado, caricato.

Tal personagem passageira pode gerar ainda outra interpretação: o relato prazeroso de suas aventuras pelo mundo é o sinal que de as liberdades individuais atingiram – para o bem e contra o medo e a culpa – o máximo. Pode ser vista com dubiedade, até coragem.

Ao que parece, o título original, And the Band Played On, faz referência à peça Os Rapazes da Banda, de Mart Crowley, que virou filme pelas mãos de William Friedkin. Interessante pensar no título, na tal banda que segue tocando, viva, sem que seja necessário se esconder, com medo, após as muitas conquistas de décadas anteriores.

(And the Band Played On, Roger Spottiswoode, 1993)

Nota: ★★★☆☆

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Os filmes de Todd Haynes

A ousadia de filmes como Veneno e Não Estou Lá divide espaço na filmografia de Haynes com o melodrama à maneira de Douglas Sirk, com os preconceitos da sociedade americana, em obras como Longe do Paraíso e Carol. Um diretor mutante e capaz de retirar interpretações inesquecíveis de seus elencos. Abaixo, o blog traz seus principais trabalhos para o cinema.

Veneno (1991)

O longa-metragem de estreia de Haynes deixa claro seu lado experimental: são três histórias visualmente distintas, a partir de textos de Jean Genet, em cores e em preto e branco. Em uma delas, um homem faz uma experiência científica e fica leproso; em outra, um presidiário tem experiências homossexuais e lembra o passado; na terceira, o cineasta desenvolve um falso documentário sobre um garoto que fugiu de casa.

veneno

Mal do Século (1995)

Após trabalhar com Robert Altman e Louis Malle, Julianne Moore encara uma personagem desafiadora no grande filme de Haynes. Poderoso mergulho no mal-estar social criado na América rica e branca dos anos pós-Aids, a partir da paranoia de pessoas que pensavam estar doentes. Na pele de uma dama da alta sociedade, Moore é a personagem central que entra em processo de loucura e se isola.

mal do século

Velvet Goldmine (1998)

O cenário é a Inglaterra dos anos do glam rock, no início dos anos 70, tempo de artistas como David Bowie e Iggy Pop. Os excessos, as frases de efeito, as drogas: uma reunião de situações fortes, às vezes engraçadas, quando ter estilo era uma forma de viver. Em paralelo, nos anos 80, um jornalista tenta investigar o que teria ocorrido a uma das lendas dessa época – em uma narrativa que remete a Cidadão Kane.

velvet goldmine

Longe do Paraíso (2002)

A inspiração é Douglas Sirk e seus inesquecíveis melodramas feitos para a Universal nos anos 30. Seus ingredientes estão ali: o amor proibido, a sociedade preconceituosa e repressiva, o falso belo mundo por trás das grandes casas, em bairros abastados. Julianne Moore volta a brilhar no papel da mulher que descobre a atração do marido por outros homens, ao mesmo tempo em que recebe a visita de um belo jardineiro.

longe do paraíso

Não Estou Lá (2007)

Parte dos fãs de Bob Dylan não aceitava sua conversão à guitarra elétrica. E isso é representado pelo momento em que o artista atira contra seus espectadores. Para diferentes fases de sua vida, diferentes atores. Estão por ali Christian Bale, Richard Gere, Heath Ledger e Cate Blanchett. A última tem um momento iluminado na pele do músico (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em passagens em preto e branco.

não estou lá

Carol (2015)

O diretor retorna à América de hipocrisia e repressão ao abordar o caso de amor entre duas mulheres, a Carol do título, vivida por Blanchett, e a Therese de Rooney Mara. Verdadeira batalha de interpretações, enquanto a primeira luta com seus problemas familiares (com o marido, sua família, seu passado) e a segunda tenta se descobrir. Bela história sobre o universo feminino, com alta dose de sensibilidade.

carol

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Chicago, de Rob Marshall

Tudo se converte em espetáculo na terra em que o show não pode parar. A vida confunde-se com esse espetáculo: ora há músicas, ora há lamentações. A realidade perde a vez, fica pequena, quase desaparece aos olhos do público.

Em Chicago, de Rob Marshall, é assim: um show divertido com tom de crítica, em uma cidade que transforma criminosos em celebridades. Era o tempo de Al Capone, do jazz, de bebidas a regar a noite, de criaturas malvadas que o cinema adorava mostrar.

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Ao centro está uma lourinha Roxie Hart, com o mesmo tipo de Ginger Rogers. Não por acaso, a própria Rogers viveu Hart em um filme de 1942, dirigido pelo mestre William A. Wellman. Ela reúne inocência e maldade, aquele tipo ao mesmo tempo sexy e disposto a se inclinar a qualquer homem que apenas diga um “sim”.

Como ela explica, a certa altura de Chicago, cantando, durante boa parte da vida sofreu com a turma do “não”. Nessa terra de aparentes facilidades, em plena Depressão, todos querem o “sim”: a comprovação de que tudo podem, de que não há impedimentos.

No filme de Marshall, Hart é vivida por Renée Zellweger, que precisou emagrecer para ficar com aquele tipo raquítico, aquele jeito de menina frágil, a quem o pequeno cabelo louro e as mechinhas onduladas servem à perfeição. Nasce então esse belo retrato americano: ingênuo, perigoso, sonhador.

A câmera, na abertura, vai ao fundo de seus olhos, segue a seus sonhos. E quais são eles? Ela deseja se tornar um estrela, cantar nos palcos, ser apresentada, talvez, a um grande produtor disposto a bancá-la, a lhe dar o sucesso.

Mas Hart só poderá chegar a tal sonho quando o crime surge em sua vida. Para estar nos jornais, ela terá de matar, de se tornar uma atiradora e, depois, lutar para vender sua marca e se tornar a excitante assassina, querida da mídia sensacionalista.

Forja-se assim algo acima do bem e do mal: a marca que essa menina terá de sustentar para escapar da forca e, de quebra, encontrar seu meio perfeito: o palco onde tudo pode ser falso e, ao mesmo tempo, prazeroso e recompensador. Ela deseja apenas fingir, fazer o que sabe fazer muito bem, talvez até se aliar a uma inimiga para tanto.

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Nessa América, tudo vale. Como ponte ao sucesso dela está o advogado Billy Flynn (Richard Gere). Dizer que se trata de alguém corrupto é tão desnecessário quanto dizer que Hart está disposta a parecer uma vítima, em público, em alto e bom som. Jogam o mesmo jogo: ele finge gostar do amor, ela finge estar disposta a amar.

Ambos forjam o equilíbrio: falam à imprensa aglomerada como se falassem como santos. Ao fundo, no número musical em que Hart é um ventríloquo de Flynn, todos são manipulados – e a imprensa, coitada, torna-se mera marionete. Todos servem ao show da cegueira enquanto Marshall, em paralelo, apresenta o verdadeiro show.

À espreita está o furacão Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), exato oposto a Hart: morena, sedutora, nada ingênua, mas igualmente assassina. Essas mulheres completam-se sem saber: são seres que alimentam um ramo de atividade no qual o ódio, explicará Velma ao fim, não fará qualquer diferença nos palcos. Tudo termina em show.

Todas as canções dialogam com as situações mostradas. Mais ainda: elas ajudam a narrar a história, como deveria ser em qualquer musical. O filme não tem aquela aparência às vezes anárquica de Cabaret, de Bob Fosse, nem mesmo sua libertinagem. Chicago é mais “limpinho”, mais cômico, aparenta ser mais calculado.

Ainda assim, faz pensar na obra de Fosse, também situada em um período complicado da história da humanidade, na Berlim à beira do nazismo, quando os cabarés – como na Chicago dos anos 30 – serviam de fuga. Bastava abrir os olhos e sonhar. Ou, como parece ser o caso de Hart, deixar que os sonhos entrem ali.

Nota: ★★★★☆