Richard Brooks

Seis filmes que tornaram Sidney Poitier o maior ator negro de todos os tempos

A carreira de Sidney Poitier soma mais de 50 filmes. Sacar seis obras para resumir sua carreira, por isso, pode parecer pouco à trajetória do grande ator. Mas elas seriam suficientes para colocar seu nome na História. São filmes que mostram o melhor do ator, que também esteve em O Ódio é Cego, Um Homem tem Três Metros de Altura, O Sol Tornará a Brilhar, Tormentos D’Alma, Quando Só o Coração Vê, entre outros.

Da última geração de mitos do cinema, ainda com os pés no clássico, Poitier vê um tempo de transformações. As questões raciais eram levadas às telas. Nascido em Miami, ele logo sentiu os problemas da população negra nos Estados Unidos. Tentou ingressar no Teatro Americano Negro, ainda nos anos 40, só conseguindo na segunda tentativa.

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A primeira oportunidade no cinema veio com O Ódio é Cego. Depois, com Acorrentados, vem a primeira indicação ao Oscar. A estatueta chegaria pouco depois, pelo seu papel em Uma Voz nas Sombras, de 1963. Marcou época. Um ator à altura de seus grandes filmes.

Sementes de Violência, de Richard Brooks

Poitier interpreta um aluno um pouco problemático. A escola está em ebulição. A sociedade também. O professor de Glenn Ford acaba de chegar ao local para dar aula e precisará confrontar os jovens da instituição. O filme pertence à época em que o moderno batia à porta, na geração de Brando e James Dean, e fez história.

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Acorrentados, de Stanley Kramer

Dois prisioneiros, um branco e um negro, fogem acorrentados e precisam se entender. As complicações dão vez a uma grande história de amizade, com a questão racial ao fundo – temática à qual o diretor Kramer retornaria. Produtor de filmes de sucesso como Matar ou Morrer e A Nave da Revolta, ele voltaria a trabalhar com Poitier.

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Uma Voz nas Sombras, de Ralph Nelson

Com a personagem Homer Smith, Poitier tornou-se o primeiro afro-americano a ganhar o Oscar na categoria principal. Ele está perfeito nos momentos cômicos, quando canta e ensina inglês às freiras, e nos dramáticos. Interpreta um herói sem raízes, com a missão de construir uma capela para cinco freiras no meio do deserto do Arizona.

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Ao Mestre, com Carinho, de James Clavell

Esse sucesso popular volta ao tema do professor em sua luta para ensinar, a exemplo de Sementes de Violência. No entanto, de aluno Poitier passa à função do professor. Em 1974, o astro recebeu o título de “Sir” do Império Britânico e, em 1996, voltaria ao papel em uma continuação feita para a televisão, mas menos lembrada.

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No Calor da Noite, de Norman Jewison

“Eles me chamam de senhor Tibbs” é a frase que marcou época, do policial Virgil Tibbs, confundido com um criminoso ao chegar a uma pequena cidade e depois engajado na caça ao criminoso ao lado de outro policial (Rod Steiger). Oscar de melhor filme e melhor ator para Steiger. Em clara injustiça, Poitier sequer foi indicado.

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Adivinhe Quem Vem Para Jantar, de Stanley Kramer

O beijo entre a menina branca e seu noivo negro é visto pelo retrovisor do veículo, de forma distante. O impacto, na época, foi grande, ainda que hoje o filme pareça comportado demais. Além de Poitier, o elenco conta com o casal Spencer Tracy e Katharine Hepburn, em sua última união na tela. Ela ficou com o Oscar de melhor atriz.

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Brutalidade, de Jules Dassin

Presidiários que não se comportam bem terminam em um ambiente perigoso, um túnel repleto de lama. É para lá, em Brutalidade, que alguns perseguidos são levados, e dele nem todos saem vivos, como se constata no início da obra de Jules Dassin.

Quando esse túnel é enfim mostrado, na parte final, o protagonista, um distante Burt Lancaster, já se lançou ao sacrifício: descobre ter sido traído por um companheiro de cela, nada restando senão se entregar à luta, sem esperanças como está.

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O drama de Brutalidade faz do presídio instransponível a representação da sociedade americana da época, ao passo que seu roteirista, Richard Brooks, explorava o clima anticomunista que ganharia, não muito depois, ainda mais espaço.

O diretor Dassin teria de ir embora ao cair na malha fina da “caça às bruxas” do macarthismo. Fez carreira na Europa, com outros filmes exemplares como Rififi.

À exceção das lembranças, todo o resto se passa na prisão. Uma nova sociedade repressiva cercada por muros, de estruturas metálicas certamente menores do que parecem, algo ao mesmo tempo falso e assustador – como se vê nos créditos.

A chuva ajuda a compor o clima: é, como se vê, de um ambiente amargo, mas ainda não caótico, que se fala. Amargo o suficiente para matar aos poucos, com sua repressão sob o rosto aparentemente frágil do vilão, interpretado por Hume Cronyn.

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A história é antecipada pelo rosto de Lancaster, sob a chuva, em abertura extraordinária em composição e clima. Dassin articula as faces dos outros presos, no interior da cela, à do homem sofrido, que vê o amigo morto ser levado embora, do lado de fora, ainda na chuva – como se a saída fosse possível apenas pela morte.

É da morte que se serve a personagem de Lancaster, Joe Collins. Existe por ali um profundo ressentimento em relação à instituição (a sociedade de paredes espessas e guardas armados), personificada pelo raquítico e malvado capitão Munsey (Cronyn).

Ou seja, a história antes da história é evidente, o que comprova a grandeza do trabalho de Dassin. Explica-se muito com muito pouco, com a vida que brota nos homens – um mundo de homens, por isso com antigas histórias sobre mulheres – que exercem diferentes funções. Há por ali, por exemplo, o jornalista em busca de novas histórias.

Há o cinema, local em que os presos reúnem-se para alguns momentos de descontração, ou a igreja, na qual Collins explica seu plano de fuga, depois, a um de seus parceiros. Sociedade miniaturizada, fria, feia, guiada pelo pequeno ditador inclinado à tortura.

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Collins não é o herói típico. Sua pequena história quase o absolve: do lado de fora, antes de ser encarcerado, ele envolve-se em um crime para salvar uma garota com problemas de mobilidade. Lancaster sabe como parecer verdadeiro, não menos honesto. Os homens têm seus motivos para escapar, enquanto sonham com as companheiras.

Sonho resgatado pelo desenho de um rosto feminino colado na parede da cela. É uma e ao mesmo tempo todas as mulheres, como uma figura feminina morta à espera do olhar de cada um desses homens: voltam a ela para recordar a realidade.

Pouco antes da tentativa de fuga, o vilão Munsey é alçado ao cargo de líder máximo. Como já havia anunciado o médico da prisão, ele chega assim à cobiçada cadeira desse reino – à base de tortura – e cuja calmaria é capaz de enlouquecer os outros.

Do material que são feitos os piores. Brutalidade inverte os lados: os prisioneiros são os oprimidos, distantes do direito de escolha, vigiados, sob as regras dos verdadeiros criminosos, estes aparentemente serenos e fãs de música clássica.

Nota: ★★★★☆

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Os dez melhores filmes com Paul Newman

Poucos atores envelheceram tão bem. Enquanto James Dean morreu cedo e Brando degradou-se com sua vida particular, Paul Newman construiu uma carreira invejável. Sempre esteve ao lado de uma única mulher, sempre manteve a beleza sem esforço, sem se esconder em maquiagens ou simplesmente se transformar.

No início da carreira, com Marcado pela Sarjeta, deixou claro seu poder. Viriam outras obras brilhantes, com o ator sendo cativante ou menos, ou apenas o ordinário que se veria outras vezes, como em O Indomado, ou mesmo o bandido camarada de Rebeldia Indomável, Butch Cassidy e Golpe de Mestre.

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Na pele do vilão, como se veria em Estrada para Perdição, era também inigualável. Reunir dez filmes do grande ator, por isso, é um desafio a qualquer cinéfilo.

10) Quinteto, de Robert Altman

Ficção científica sobre o mundo à beira do fim, congelado, ambiente em que alguns poucos sobreviventes aderem ao estranho jogo que dá nome ao filme.

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9) Doce Pássaro da Juventude, de Richard Brooks

Crítica política poderosa, com Newman na pele de um garoto de programa que retorna à sua velha cidade ao lado de uma atriz famosa e disposto a reencontrar seu velho amor.

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8) Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock

O cientista interpretado por Newman demora a mostrar seu lado heroico. Mais tarde, o espectador descobre que ele serve de agente secreto na Alemanha Oriental.

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7) Rebeldia Indomável, de Stuart Rosenberg

Várias sequências tornaram-se marcantes nesse filme sobre camaradagem e, como outros do ator, sobre remar contra o sistema, sobre o amado desajustado.

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6) O Veredicto, de Sidney Lumet

A cena inicial revela o protagonista, o advogado decadente, em um bar, e que joga para passar o tempo. Mais tarde ele terá sua grande chance para dar a volta por cima.

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5) Gata em Teto de Zinco Quente, de Richard Brooks

De opção sexual dúbia, o homem de Newman recusa o irrecusável: mesmo com os desejos evidentes de Elizabeth Taylor, ele não consegue esquecer o amigo do passado.

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4) O Mercador de Almas, de Martin Ritt

Como um jovem incendiário, perseguido, o astro encontra-se ao lado de sua companheira Joanne Woodward nesse grande filme de Martin Ritt.

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3) Um de Nós Morrerá, de Arthur Penn

Em uma bela e brutal sequência, o diretor Penn antecipa a câmera lenta do encerramento de Bonnie & Clyde. Aqui, aborda outro mito: o jovem Billy The Kid.

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2) O Indomado, de Martin Ritt

Ao lado de Ritt, de novo, e mais uma vez como um desajustado. Dorme com diferentes mulheres, seduz sua criada e ainda tenta convencer o pai a vender uma boiada doente.

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1) Desafio à Corrupção, de Robert Rossen

A melhor personagem do ator é Eddie Felson, que lhe renderia o Oscar em outro filme (A Cor do Dinheiro) e tem de enfrentar o lendário Minnesota Fats nas mesas de sinuca.

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Dez filmes que mudaram a cara do cinema americano

Alguns cineastas foram fundamentais, nos anos 40 e 50, para colocar o cinema americano de cabeça para baixo. Na terra do Tio Sam, as mudanças demoraram mais para ocorrer, talvez por força do sistema de estúdios. No entanto, diferentes cineastas já apostavam em novas abordagens estéticas e temáticas. Abaixo, dez filmes resumem os novos ares do cinema americano da época, com gêneros e propostas distintas.

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Cidadão Kane, de Orson Welles

Tomar a história de William Randolph Hearst e dar forma a Charles Foster Kane é apenas o relevo. Por muitos motivos, Cidadão Kane ainda é o maior filme da história do cinema americano e talvez mundial. A utilização da profundidade de campo, a narrativa não linear, o constante contra-plongée, a resolução de diferentes situações em um mesmo quadro (ressaltada por André Bazin, citando a decupagem de Welles), entre outras características, explicam tamanha ruptura. Tudo para mostrar que uma vida não cabe em uma palavra: Rosebud.

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Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur

Martin Scorsese chegou a declarar que o filme de Tourneur é tão importante quanto Cidadão Kane. Pode parecer exagero, mas aqui o cinema fantástico para vender pipoca deixa espaço ao psicologismo, com controle exemplar do suspense. É sobre uma mulher sem poder sobre si mesma, sobre seus instintos, e que se transforma em pantera. Marcaram época as parcerias do produtor Val Lewton com Tourneur.

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Tramas do Entardecer, de Maya Deren

Filme surrealista de 1943, com estrutura rara ao cinema americano da época. É a história de uma mulher que retorna para casa, dorme e vive situações que podem ser sonhos ou não. Aparentemente sem sentido, a obra se apoia nesse mergulho à personagem e oferece uma experiência perturbadora e ainda poderosa.

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Amarga Esperança, de Nicholas Ray

Muito antes de Bonnie & Clyde, outro casal havia levado às telas o drama de jovens em fuga. Tem início em tom realista, com bandidos que fogem da prisão. Um deles, o protagonista, recebe os cuidados de uma garota após se envolver em acidente. Tem início a relação de ambos. Um dos renovadores do cinema americano, Ray mostra agilidade na direção. O encerramento inclui o olhar enigmático de Cathy O’Donnell.

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Matei Jesse James, de Samuel Fuller

Em seu primeiro filme, Fuller subverte a história de Jesse James ao apontar à dúbia relação entre ele e seu algoz, Robert Ford. Há, por exemplo, a sequência em que Fuller enquadra as costas de Jesse – pelo ponto de vista de Ford – enquanto a personagem toma banho, momento em que pede a arma ao companheiro. Para completar, Ford viverá à sombra da tragédia: nos palcos, ele terá de reencenar o crime e, de quebra, Fuller mostra o fascínio americano pelo espetáculo.

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Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis

Outra obra sobre amantes em fuga, saída perfeita para Lewis (autor, mais tarde, do extraordinário Império do Crime) evidenciar o fascínio de seu país pelas armas. Na trama, um rapaz bom com o gatilho apaixona-se por uma bela garota, atriz de circo, e acaba tragado ao mundo do crime. A sequência mais famosa inclui um plano-sequência de alguns minutos, com a câmera no interior do veículo do casal e o momento do assalto a banco, como também sua fuga – ponto alto do cinema americano da época.

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O Pequeno Fugitivo, de Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin

François Truffaut declarava-se apaixonado por esse filme realista, no qual a infância é vista distante dos contornos comuns ao cinema clássico. Aqui, um garoto vaga sozinho, à beira mar, e faz contato com adultos – enquanto seu irmão deseja encontrá-lo. A infância é vista pela infância, sem interferência do protagonista mais velho, sem julgamentos, com liberdade e realismo, crua, ainda assim bela demais.

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Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan

O protagonista não é o típico herói em busca de vingança. Também não é o anti-herói estabelecido por Bogart em O Falcão Maltês, de Huston. Tampouco um vilão. Suas palavras sobre consciência ajudam a defini-lo, ao passo que o destroem por dentro e o levam ao sacrifício. O filme de Kazan – resposta às críticas sobre sua deleção ao Comitê de Atividades Antiamericanas, na Caça às Bruxas – é um retrato social poderoso, com imagens de outro cinema.

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Sementes de Violência, de Richard Brooks

À frente, a possível amizade entre um professor branco e um aluno negro e problemático – mas um aluno cuja evidente diferença leva-o à mudança. À época, com Brando e James Dean no radar dos estúdios, Sidney Poitier era o perfeito contraponto ao astro Glenn Ford e aos rostos do passado. O filme de Brooks começa ao som de “Rock Around the Clock” – primeira vez que o rock aparecia nas telas do cinema, o que conferia seu clima de mudança.

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Sombras, de John Cassavetes

Considerado pai do cinema independente americano, Cassavetes trabalhava como ator para financiar seus projetos pessoais. Como se vê em Sombras, sua primeira obra, a câmera (16mm) é intrusa, o clima é realista, sem retoques, e os atores seguem as ideias de Cassavetes sobre improvisação. Antes de os estúdios se renderem aos novos temas e plateias, na rabeira da revolução dos cinemas novos pelo mundo, Cassavetes já apontava ao novo caminho.

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Maggie, a gata

Gata em Teto de Zinco Quente ainda é minha peça favorita. Mas eu detesto o filme. Acho que ele não tem a pureza da peça. E Elizabeth Taylor nunca correspondeu à ideia que tenho de Maggie, a gata.

Tennessee Williams, autor da peça que deu origem ao filme de Richard Brooks, lançado em 1958 (entrevista à revista Playboy, abril de 1973). A foto abaixo foi feita durante as filmagens da obra, enquanto Elizabeth Taylor estava em seu camarim.

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