revolução

Sedução da Carne, de Luchino Visconti

O fato de o casal central não funcionar não retira a grandeza da história de amor. No filme de Luchino Visconti, o amor revela-se no isolamento, na distância, na estranheza entre seres envolvidos também em uma causa política: ela como uma condessa nacionalista que, apaixonada, descontrolada, permite que o sentimento ultrapasse o engajamento; ele como um oficial austríaco do qual mulher nenhuma escapa.

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Nenhum deles, sabe-se cedo, encontrará a felicidade: essa história de amor em tons envelhecidos está fadada a dar errado desde o início. De novo, o espectador reconhece, fareja o que está fora do lugar – o que culmina com a mulher perdida, nos instantes finais, vestida de preto, rente aos paredões; com o homem fuzilado.

Fala de sentimento, não da “sedução da carne”, como diz o título brasileiro. O que talvez tenha ajudado a inflamar a crítica a Visconti feita pelas esquerdas da época. Não era “histórico” o suficiente, era apaixonado demais, confinado demais, de aparência retocada, como uma daquelas pinturas caras para se pregar em um museu.

Mas Sedução da Carne é estranhamente um filme histórico no qual as personagens centrais revelam o espírito de uma época: são, por um lado, figuras que se contentam em viver sob o fogo de uma paixão, de gritos inesperados quando consumidas por essa mesma paixão, condicionadas a correr todos os riscos – ainda que o outro não mereça.

No extremo oposto, a figura do oficial pouco a pouco se revela odiosa, pequena, o retrato do dominador que não quer estar ali, covarde que caça mulheres ricas para tomar dinheiro, para conseguir comprar sua liberdade com um falso atestado médico. Nesse conflito entre dominadores e nacionalistas se esconde um mundo real de sentimentos.

Há, inclusive, uma explicação implícita para a vitória inevitável dos italianos: a mulher, tão apaixonada, tão disposta a seguir seu coração, não se deixa inclinar àquilo que corre ao lado – seja uma revolução, seja o conforto, seja a sobrevivência – e se deixa consumir pelo sentimento a ponto de enlouquecer, como o filme sugere.

Do outro lado, o dominador austríaco não quer mais que conforto, do qual desfruta a partir do dinheiro que retirou da amante casada. Vive na companhia de belas prostitutas, à base das cartas que manda à protagonista (nas quais ainda joga com o fingimento), e por isso mesmo não serve à batalha que corre do lado de fora.

A mulher casada é a condessa Livia Serpieri. No papel, Alida Valli olha para o nada, desvia, e deixa ver o que sente. Ele, o verdadeiro falso da história, é Farley Granger. Ao fim, quando ela procura-o, descobre o embuste, o derrotado em túmulo pequeno-burguês, em roupão de banho, sob o efeito de bebidas, ao lado de uma companhia de ocasião.

E se o filme de Visconti não precisa ser tão “histórico”, quem liga? Desde o título, não joga com o falso. Inicia no teatro, com juras de amor seguidas por gritos de guerra. Todo o filme está ali. Quando a guerra vem, do lado de fora, será feita como uma pintura da mesma época, do Risorgimento. Pintura que não permite ser tocada, ser feia demais, que desvia da sujeira da verdadeira guerra. Visconti aferra-se à beleza.

A euforia do início, dos palcos e dos camarotes de adornos dourados, sintetiza ainda um universo confinado às interpretações, à arte como refúgio: lados diferentes da guerra estão ali, antes, como espectadores, à espera de algum movimento, dos panfletos lançados à plateia pelos nacionalistas à tentativa de ver tudo com indiferença pelos invasores.

Visconti não deixa escapar a figura humana em luta com (e contra) seus próprios sentimentos, isolada, que é o que é, de necessidades salientes mesmo sob a menor expressão, contra os fatos históricos, as ações políticas. Chega a ser nobre toda a cegueira de sua bela Alida Valli, mulher que, de tanto amar, só pode mesmo enlouquecer.

(Senso, Luchino Visconti, 1954)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O teatro do amor e da morte em duas obras de Marcel Carné

Carlos, de Olivier Assayas

O espectador tenta entender se o terrorista Carlos, ou Ilich Ramírez Sánchez, sente medo durante suas ações e se está pronto para morrer.

Não é possível invadir o homem ao longo da minissérie dirigida por Olivier Assayas. Para provocar, o diretor joga com o oposto: vê-se o Carlos conquistador, furioso, nu entre paredes, gordo em momentos de ociosidade, nunca quem se deseja ver.

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Carlos, com mais de cinco horas, narra as aventuras desse homem belo e estranho. Ele (Edgar Ramírez) chega a ser sincero com suas vítimas, a negociar com quem não deveria, a fugir como se tivesse medo. Seu pouco humanismo constrói-se à base da ação, um pouco aos trancos.

A série não deixa momentos para respirar. É feita de luzes fortes, levando suas personagens – Carlos incluso – à luta nas ruas, às corridas, aos aeroportos e embaixadas. O protagonista denomina-se um soldado e talvez sonhe em ser um líder.

No fundo, como denunciam os olhos, não gosta de receber ordens. Quando pode dá-las, como na sequência do sequestro do avião, também está disposto a negociar, com dólares e cabeças importantes, a continuidade da empreitada.

Essa capacidade coloca-o às vezes como político estrategista, não como o guerrilheiro enérgico que parece. As palavras de Carlos anunciam isso muito cedo, somadas ao seu jeito de enfrentar os outros – inclusive seus pagadores – e assim estabelecer o mito.

Parece capaz de tudo, imbatível e sem floreios. Se necessário, troca de máscaras. E se precisa recuar, como no desfecho do sequestro do avião, aparentemente o faz para sobreviver. Levanta dúvidas sobre suas intenções, sobre o medo da morte (ou não), sobre se manter vivo para conservar o mesmo mito – e talvez ao contrário de Che, que aceitou morrer na selva e invadiu o imaginário de alguns como novo Cristo.

Ainda que não demonstre ter tal vaidade, seus olhos, de novo, denunciam-no: talvez tenha certa paixão oculta, talvez seja mais cerebral do que outros, mortos por se deixarem levar pelas fraquezas do coração. Está entre o grito da revolução e o olhar fixo à mala de dinheiro – U$ 200 mil – enviada pelo líbio Gaddafi.

Não esconde a satisfação ao dar entrevista a um poeta, na terceira e última parte de Carlos. Na ocasião, a pergunta que abre não poderia ser outra: o entrevistador deseja saber se o revolucionário tem medo da morte. E continuam a falar sobre ideologia, religião, crenças. “Sigo apenas uma religião”, pontua. “O marxismo.”

Conforme evolui a mutação, ou a necessidade de sobreviver, Carlos muda: diz estar aberto ao islamismo. Tem um relacionamento longo com uma guerrilheira que se sente secundária, Magdalena Kopp (Nora von Waldstätten), e termina nos braços de outra bela mulher, com quem se esconde após a queda do bloco socialista.

Guerrilheiros como Carlos passam de solução a problema: o mundo mudou, os comunistas perderam a guerra. É o que lembra um amigo, já perto do fim, quando são convidados a deixar a Síria. A certa altura, ninguém mais quer Carlos, e o mito soçobra, dá vez ao pai de família.

Ao escolher uma revolução sem fronteiras, Carlos torna-se vítima da condição de homem sem pátria. Em seus dias de glória, vagava de um lado para outro como vagam hoje os empresários: de aeroporto em aeroporto, de país em país. O guerrilheiro custa a entender que o mundo é outro. E apenas o refúgio servir-lhe-á.

Assayas ocupa cada minuto de suas cinco horas com segurança invejável, de forma rápida e hipnótica. Para não correr riscos, anuncia, a cada episódio, que se trata de ficção. Mesmo que todas as personagens e situações fossem falsas, restaria ainda a recriação de um tempo feito por figuras raras e indefiníveis como Carlos.

(Idem, Olivier Assayas, 2010)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Os cinco melhores filmes de Olivier Assayas

O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

Os humanos de O Lagosta não conseguem se adaptar aos seus grupos: de um lado, são obrigados a conseguir companheiros; de outro, a viver sozinhos, na floresta, como rebeldes que resistem às amarras do sistema. Em que época é ambientada a história? Não se sabe. Há indícios de que esteja próxima do presente.

O fracasso na busca de sociedades alternativas move a comédia absurda de Yorgos Lanthimos, escrita em parceria com Efthymis Filippou. Ou a tentativa da ordem em domar animais que os humanos ora ou outra se revelam. Questão de tempo.

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Nesse estranho presente, ou anúncio de um futuro distópico, as pessoas estão proibidas de viver sozinhas. Quem não tem ninguém é levado primeiro a um hotel afastado, submetido a conhecer alguém, talvez, a sair dali com um companheiro. Caso contrário, o solitário é transformado em um animal de sua escolha, em um quarto secreto.

O absurdo é a saída para Lanthimos espreitar a normalidade dos estranhos: esses seres só conseguem se sair bem em seus meios quando fingem, quando se “adaptam” às regras, e precisam escapar mais de uma vez para se descobrirem cegos ao fim.

Nem o sistema e nem os rebeldes servem ao homem ao centro, a personagem de Colin Farrell. Com óculos, bigode e barriga saliente, o ator molda-se perfeitamente ao desajustado, ao solitário que apenas encontrará seu caminho quando se coloca à contramão das regras: finge ser o homem certo à mulher errada, finge não ter sentimentos ou ser digno de um relacionamento quando encontra a certa.

Em todos os casos, os grupos que o atacam dizem o mesmo: esse homem reprimido não pode assumir seus instintos e viver com seu lado animal (ou natural). Mas os mesmos grupos não se dão conta da suposta selvageria à qual apelam para manter a ordem: eles próprios, agentes do sistema ou rebeldes, tornam-se animais descontrolados.

Eis a ironia de O Lagosta: a ditadura impõe-se dos dois lados. E a comédia darwinista de Lanthimos abusa da máxima “a liberdade acima de qualquer coisa”. Terminar cego, no caso do protagonista e de sua companheira (Rachel Weisz), é outro ponto real, representativo: a liberdade total é uma cegueira, algo inatingível.

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O gesto de amor, deslocado, aqui funciona: não pode se reproduzir no meio em que todos fingem (aos agentes do sistema) e se reproduz com facilidade no qual todos estão proibidos de mostrar sentimentos. O protagonista apaixona-se pela mulher que finge ser sua companheira quando ambos cumprem missões na cidade. Em qualquer um dos lados, no hotel ou na floresta, o homem será obrigado a viver outra vida.

As estranhezas dão vez pouco a pouco ao natural, ou seria o oposto? O estranho está em todos, fechado, como se viu no filme anterior de Lanthimos, Alpes, no qual um grupo de pessoas assume a vida de quem já morreu. A certa altura, um deles só conseguirá viver se continuar a interpretar, sendo sempre o outro, escravo de sua máscara.

O diretor grego não é acostumado à normalidade. Suas personagens são sempre automáticas, como se estivessem congeladas, ou como se vivessem uma nova descoberta a cada instante. Nem mesmo a floresta que as cerca, na segunda parte de O Lagosta, consegue conferir a esses seres certa naturalidade.

Para o realizador, o que parece natural é sempre fingimento. Os autênticos buscam a liberdade para ser o que quiserem. Em alguns casos podem terminar mortos, ou cegos, ou ainda sob a mira de uma arma, caçados por alguém que antes se dizia um amigo.

(The Lobster, Yorgos Lanthimos, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Alpes, de Yorgos Lanthimos

Dois faroestes spaghetti de Giulio Petroni

As diferenças aproximam as personagens de A Morte Anda a Cavalo e Tepepa, assinados pelo cineasta Giulio Petroni. Em ambos há três tipos de homem: o típico herói movido à paixão, a personagem cômica tragada ao destino revolucionário (à causa maior) e o pistoleiro experiente que pode encontrar a redenção.

No primeiro, de 1967, é Lee Van Cleef quem confere a sabedoria dos vívidos, à maneira das personagens de Sergio Leone, que parecem saber de tudo e, ainda assim, ora ou outra terminam presas e torturadas. Enxergam o mundo do alto. No segundo, de 1969, o sábio é desleixado, sorridente, o revolucionário mexicano que dá nome à obra.

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Petroni mergulha na sujeira desses homens. Ao mesmo tempo, apresenta personagens estreitas e secundárias, dotadas de consciência: são vingadores louros, um pouco à forma dos heróis do faroeste clássico, à contramão de quase todo o resto.

Em A Morte Anda a Cavalo, um garoto presencia a chacina de sua família, sobrevive, cresce e, mais tarde, arma-se e treina para encontrar os criminosos. Bill (John Phillip Law) esbarra em Ryan (Cleef), que, por acaso, acabou de sair da prisão.

Entre sequências cômicas e tiros certeiros, em bares lotados de homens sujos, faladores, e também de mulheres belas e com decotes à mostra, os pistoleiros descobrem que perseguem o mesmo bando – mas por diferentes motivos. Desnecessário dizer que o experiente Ryan importa-se com o dinheiro, ao contrário do jovem Bill.

Em Tepepa vê-se algo mais confuso, uma trama mais interessante. A personagem-título, ao contrário dos homens da fita anterior, assume-se anti-heroica completa, desajustada entre uma revolução. É considerada lenda já no início e, encarcerada, logo será resgatada por um soldado inglês vagando dos dois lados do conflito.

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Ambos se movem por paixão. Tepepa, interpretado na medida por Tomas Milian, pela paixão a seu país, à causa revolucionária; no caso do médico inglês Henry Price (John Steiner), por vingança, pela missão de encontrar e matar o próprio Tepepa.

Histórias pessoais casam-se às questões sociais e históricas. Em A Morte Anda a Cavalo, é possível ver os criminosos agindo como homens da política – e pelos homens da política – para ganhar grandes quantidades de dinheiro. Há sempre o povo pobre e oprimido, ao fundo, como se pode ver também na obra seguinte de Petroni.

São esses seres ao centro – em oposição aos seres ao canto, reais, sem interpretações – que fornecem o exagero – e, em certa medida, a adorada ficção – aos dois espetaculares faroestes. A comédia encontra a ação de características únicas do chamado “faroeste spaghetti”, subgênero que marcou época e do qual saíram grandes filmes.

A Morte Anda a Cavalo abusa das linhas clássicas do gênero mítico: o vingador talhado ao jeito americano, em busca de justiça; os duelos olho no olho, mais de uma vez, nos salões de jogos, bebidas e mulheres; o pistoleiro experiente que tenta se distanciar do passado; os sinais do suposto progresso, quando homens tentam aplicar a lei.

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O outro se situa no chamado “faroeste Zapata”, ou seja, passado na Revolução Mexicana. Seu protagonista errante oferece saídas às situações impensáveis, sem que ele próprio tente se redimir. Ao contrário: o filme assume linhas nada agradáveis.

Os piores tipos estão por ali, a começar por Tepepa: homens machistas, de um meio patriarcal, entre revolucionários e soldados. Todos imperfeitos. O britânico em busca de vingança poderia ser, em outro caso, o antagonista civilizado, mas ele próprio não aguenta: embrenha-se tanto na revolução que revela sua selvageria peculiar.

O olhar estrangeiro é fundamental para desmistificar o revolucionário, e entregar ao espectador o verdadeiro Tepepa. Pelo outro, o anti-herói é sempre repugnante, chegado ao abuso de mulheres indefesas. O britânico leva o público sempre ao olhar particular, individualizado, à criança sem pai que fica sob sua proteção; já o revolucionário volta-se ao coletivo. Ao fim, a mesma criança terá de escolher qual lado seguir.

O vilão de Tepepa é interpretado por ninguém menos que Orson Welles, especialista em coadjuvantes repulsivos. É a representação viva dos militares de postura abusiva, o gigante lento, gordo, em contraponto ao povo chicoteado. Petroni, aqui, prefere um faroeste sem heróis, o que o torna raro entre outros do mesmo gênero.

(Da uomo a uomo, Giulio Petroni, 1967)
(Idem, Giulio Petroni, 1969)

Notas:
A Morte Anda a Cavalo:
★★★★☆
Tepepa: ★★★★☆

Foto 1: A Morte Anda a Cavalo
Fotos 2 e 3: Tepepa

Veja também:
Quando Explode a Vingança, de Sergio Leone

A fúria de Glauber Rocha em dois filmes do exílio

Como sonâmbulos, ou às vezes estátuas gregas, as personagens de Glauber Rocha em O Leão de Sete Cabeças e Cabeças Cortadas não têm qualquer ambiguidade psicológica. Servem à mensagem política do diretor – contra a colonização, a favor da liberdade.

Glauber definiria seu cinema como uma amostragem da luta do homem pela liberdade, à contramão dos líderes poderosos. Tema comum em sua filmografia. O Leão e Cabeças Cortadas, feitos no período de seu exílio, retomam essa ideia.

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o leão de sete cabeças

O prêmio de direção em Cannes pelo grande O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro valeu-lhe convites para filmar fora do Brasil. Tonou-se respeitado na Europa.

Foi ao Congo com atores prestigiados da época, como o francês Jean-Pierre Léaud e o brasileiro Hugo Carvana, para realizar O Leão. Como outros de seus trabalhos, a obra é carregada de fúria: as personagens não vivem, representam; não dizem palavras com naturalismo, apenas declamam discursos imbuídos de política, de destruição.

A primeira imagem mostra um guerrilheiro debatendo-se pelo desejo. Ou seria um soldado explorador? Tenta tocar o seio feminino, frente a frente com a bela Rada Rassimov, representação do capitalismo e seus desejos. Ele sofre, rasteja.

A bela faz com o homem, na abertura, o que fará com outro, mais tarde, o revolucionário capturado pelo pregador (Léaud) e uma das peças da revolução que, no encerramento, avançará à libertação do país africano em que se situa.

O cinema de Glauber em questão ainda usa a alegoria, mas é mais frio e distante se comparado às manifestações vistas em obras como Terra em Transe. Está mais próximo de Jean-Luc Godard, em sua fase politizada, no Grupo Dziga Vertov.

As representações são evidentes, em momentos são até mutáveis: os exploradores (alemão, português e americano); a bela Marlene, cujo nome remete ao cinema, a Dietrich, e ao fascínio pelo produto americano; o pregador com o martelo em mãos; o revolucionário enlaçado; o líder fantoche; e Zumbi, à frente do levante.

o leão de sete cabeças2

Todas as figuras encontram-se em cenários reais, com pessoas reais ao fundo, ao lado, gente simples que às vezes parece não compreender a encenação. Os exploradores, diz Glauber, ganham primeiro e depois se intoxicam com o poder, perdem-se logo.

Isso leva à sequência da exaltação do líder fantoche, vestido como colonizador inglês, no momento mais forte de O Leão: desfila entre os nativos, em um carro, ao som eufórico da multidão, enquanto o guerrilheiro, ainda preso, é exposto como animal.

Os conflitos ganham outro rumo: em um banquete canibal, os exploradores e seus asseclas alimentam-se sobre o corpo do negro detido. O fêmur, a marca da dominação do homem, seu maior osso, é conferido à personagem da bela Rada, e todos circulam aquele pedaço de gente como se fosse o bem mais precioso.

Glauber evita closes. Suas sequências são painéis com seres em movimento, em tom até mesmo teatral – o que se evidencia ainda mais, logo depois, em Cabeças Cortadas.

Feita na Espanha, a obra seguinte tem defeitos e qualidades em peso semelhante. Como a anterior, mas sem a mesma potência, não é para ser compreendida no sentido narrativo comum: não há uma história a ser contada. O que há são figuras que representam um pensamento político, figuras de uma ação política em cenário fictício.

cabeças cortadas

A personagem política ao centro, verdadeira em sua representação, chama-se Diaz II (Francisco Rabal), produto de Terra em Transe, líder exilado, ao telefone (na verdade, dois), dando ordens àqueles que ficaram no outro país.

Suas raízes remetem a Eldorado, cidade fictícia, palco para golpes inesperados, para movimentos políticos canhestros, para líderes conhecidos da América Latina (em um tempo de governo militar no Brasil), com seus discursos e armas em riste.

Em um momento esclarecedor, Diaz rasteja pela lama. Animaliza-se. Deixa-se ver entre seus tesouros, atolado na sujeira, e chega mesmo a tentar consumi-la com os dentes. Passam por ele novas figuras que representam o painel de Glauber: um pregador com a foice, a camponesa, a esposa, os filhos, um médico e outros mais.

No encerramento de ambos os filmes, como costume nos trabalhos de Glauber, há a abertura ao indefinido. Ao mesmo tempo em que se avizinham resoluções, o desenrolar ainda segue incerto: em O Leão, os revolucionários armados continuam a marchar; em Cabeças Cortadas, a camponesa é coroada rainha, ou alçada à santificação.

Em seu delírio pelas ruínas do castelo, pelo cenário seco, Glauber flerta com Macbeth em Cabeças Cortadas, com seu líder moribundo, morto antes da hora. O poder é frágil. Os sinais da religiosidade são gritantes. Glauber é, de novo, um criador em fúria.

(Der Leone Have Sept Cabeças, Glauber Rocha, 1970)
(Cabezas cortadas, Glauber Rocha, 1970)

Notas:
O Leão de Sete Cabeças: ★★★★☆
Cabeças Cortadas: ★★★☆☆

Fotos 1 e 2: O Leão de Sete Cabeças
Foto 3: Cabeças Cortadas

Veja também:
A Trilogia da Vida, de Pier Paolo Pasolini
Entrevista: ‘O cinema de Glauber Rocha rompe com os padrões estabelecidos’