Revolução Cubana

Topázio, de Alfred Hitchcock

Faz falta um protagonista carismático em Topázio. Alguém que faça o espectador sentir um mínimo de segurança, ou graça, ou o braço forte que se espera de um agente secreto em momentos decisivos. Belo mas frio, Frederick Stafford não gera atração: passa o filme todo como um guia, não exatamente a companhia para essa viagem.

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Locomoção, por sinal, há em excesso. Alfred Hitchcock chega ao fim dos anos 1960 rendido por completo ao cinema moderno: o homem que antes se especializou em agentes secretos engraçados, prontos para salvar nações e aguentar o peso do problema quando necessário, dobra-se à humanidade opaca. O real cobra seu preço.

Os filmes de espionagem da fase britânica do cineasta são livremente falsos. Também por isso são muito bons. Ninguém esquece, por exemplo, de Robert Donat algemado e enroscado a Madeleine Carroll em Os 39 Degraus. A gag corta o suspense, a fuga dos inevitáveis amantes é mais importante que as informações dos microfilmes.

Em Topázio o clima é outro. Seu tempo pede passagem, a começar pelos cubanos barbudos, brutos, em oposição ao charmoso Stafford, herói em descompasso, figura à qual não se detém por muito, a quem o espectador certamente não se importará em deixar. Sequer se torce para ele, como se, para Hitchcock, fosse o joguete, homem que, como outros, pode ser vítima dessa realidade cruel, pronto para morrer no meio do filme.

Não foi isso, por sinal, que representou o passo inicial do mestre do suspense ao cinema moderno? Em Psicose, Hitchcock deixou seus espectadores órfãos de uma bela loura fujona, antes vista de sutiã com um homem em sua cama, em seu quarto, na sua intimidade. Depois no banheiro, local incomum para se invadir até então.

Talvez, fosse o caso, e não é, a morte do agente não faria sentir falta do mesmo. Elucubração crítica, apenas, pois não vale se deter à suposição. Hitchcock segue com seu herói torto, distante, para confirmar ao público que, em Topázio, o que pode gerar interesse é a realidade, e o quanto seu cinema ainda vence pela força da direção.

Muitas personagens, várias de passagem. Caso do casal soviético com a filha, no início, pelas ruas de Estocolmo, seguido de perto por um agente soviético. Ele, o pai, é um desertor da cortina de ferro ajudado pelos americanos. A perseguição à família é celebrada com calma por Hitchcock, depois com algum pavor e movimentação.

Os americanos, por meio do soviético desertor, farejam planos que podem incluir mísseis em Cuba. Para confirmar o caso, pedem ajuda ao espião francês Andre Devereaux (Stafford), que vai para o país de Fidel Castro. Os mísseis, claro, estão lá; também a bela amante do mesmo espião, latina com traços de Liz Taylor, a quem fica uma grande casa, como um palácio, visitada pela nata da Revolução Cubana.

Outra vez a bela lança-se aos braços do ocidental a serviço dos americanos, único que pode satisfazê-la, ou amá-la. Hitchcock inclina seus seres mais ao romance, menos ao sexo, o que faz da bela a figura do passado. Vivida por Karin Dor, a boneca precisa colocar a fantasia verde, militar, para assistir a um dos intermináveis discursos de Castro.

Os barbudos rodeiam. Os ocidentais alinhados aos americanos têm meios para conseguir informações e, em Cuba, escondem câmeras e outras máquinas em pães com presunto e nos frangos, como se o verdadeiro esconderijo, no país destinado à pobreza, fosse a cobiçada comida, acima de qualquer suspeita. Tais opções soam engraçadas.

Por sorte os vilões não chegam a ser caricatos por completo. Não se duvida, em um ponto ou outro, da fidelidade ao real. O filme tem bons momentos, é sóbrio, imprime tensão, exala uma forma sinistra que, do início ao fim, reflete um mundo no qual articuladores educados, de terno e gravata, reúnem-se em salas fechadas para decidir o rumo das nações à medida que brucutus militares torturam e matam por muito pouco.

(Topaz, Alfred Hitchcock, 1969)

Nota: ★★★☆☆

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15 grandes filmes que sintetizam o clima político dos anos 60

Os movimentos de renovação do cinema, nos anos 60, trouxeram também uma forte abordagem política. Alguns cineastas deixaram ideologias às claras em obras extraordinárias e contestadoras, sem que renunciassem ao grande cinema em nome do panfleto. A lista abaixo traz 15 filmes que captam o espírito da época, com temas ainda atuais. Comunismo, anarquismo, maoísmo e outras correntes podem ser vistas em fitas de autores como Rosi, Bertolucci, Godard e Saraceni.

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Os Companheiros, de Mario Monicelli

O cotidiano dos trabalhadores de uma pequena cidade muda com a chegada de um professor terno e idealista, interpretado na medida por Marcello Mastroianni. Obra-prima de Monicelli, que se firmou como um dos principais cineastas do chamado cinema político italiano, sempre entre o tom cômico e o trágico.

os companheiros

As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi

O cineasta havia realizado, antes, o extraordinário O Bandido Giuliano. Em seguida, com As Mãos Sobre a Cidade, mantém pleno diálogo com seu tempo, ao abordar as tramoias de um político corrupto em prol da especulação imobiliária. Há grandes sequências de embates e manipulação. Continua tristemente atual.

as mãos sobre a cidade

Antes da Revolução, de Bernardo Bertolucci

Perfeito retrato do jovem que vive um impasse político: tenta se distanciar da burguesia ao mesmo tempo em que vê com receio os comunistas de então. Primeiro filme importante de Bertolucci, após o interessante A Morte. Para alguns estudiosos, antecipa a discussão e o clima que tomaria conta do mundo com o Maio de 68, na França.

antes da revolução

O Desafio, de Paulo César Saraceni

Obra fundamental do cinema novo brasileiro. Como Antes da Revolução, apresenta o impasse de um jornalista, impotente devido ao golpe de 1964. À época, alguns diálogos foram censurados pela Ditadura e, mais tarde, com a abertura política, tais trechos tiveram de ser dublados, evocando as frases originais que constavam no roteiro.

o desafio

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo

A independência da Argélia ainda era recente quando o filme estreou. Muitas das pessoas que participaram da obra, não-atores, viveram o evento real. Não por acaso, esbarra no documentário, com imagens granuladas e interpretações naturalistas. Um documento sobre a resistência do povo argelino contra as forças francesas.

a batalha de argel

Despedida de Ontem, de Alexander Kluge

Ao lado de O Jovem Törless, de Volker Schlöndorff, é um dos filmes que deu origem ao conhecido novo cinema alemão. Nesse caso, a abordagem política não se desprega do passo a passo da protagonista, uma moça que vai da Alemanha Oriental para a Ocidental e encontra obstáculos, terminando sempre como vítima de todos à sua volta.

despedida de ontem

A Chinesa, de Jean-Luc Godard

Talvez o principal filme a retratar o espírito de 68 – e que curiosamente o antecede. Com sua música “Mao Mao”, de Gérard Guégan, com seus jovens de discursos constantes – e cortantes – empunhando o Livro Vermelho, ao mesmo tempo com um clima de improvisação e liberdade. Importante para entender a radicalidade da época.

a chinesa

A China Está Próxima, de Marco Bellocchio

O título, de novo, faz referência ao regime chinês. Na história, ele sai de uma pichação na parede da sede do Partido Comunista. Ao centro há um rapaz que assessora um homem milionário de carreira política e seu irmão, ligado ao grupo maoísta. Alguns momentos aproximam-se da comédia. Um grande Bellocchio.

a china está próxima

Terra em Transe, de Glauber Rocha

Com Eldorado, o país fictício em que se desenrola uma trama política manjada, Rocha faz um claro paralelo com o Brasil. O enredo é conhecido: o político populista é colocado a escanteio, ao passo que o poder termina na mão do líder autoritário e recheado de símbolos da Igreja. O protagonista assiste à transformação e depois adere às armas.

terra em transe

Partner, de Bernardo Bertolucci

As filmagens da obra de Bertolucci ocorreram na mesma época dos atos de Maio de 68. Membros de seu elenco e equipe aproveitavam as horas vagas para viajar à França e se engajar nas fileiras dos protestos. A obra bebe na fonte de Godard e é inspirada em O Duplo, de Dostoievski. Em cena, o enfant terrible Pierre Clémenti.

partner

Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea

Considerado o maior filme cubano já feito. Reflexão sobre um homem que se divide entre ir embora da ilha, quando estoura a revolução, ou continuar por ali e assimilar as mudanças. Realizado sob o regime de Fidel Castro, ainda assim consegue ser crítico. O protagonista vê-se sozinho depois que a família migra para os Estados Unidos.

memórias do subdesenvolvimento

Se…, de Lindsay Anderson

Em 1968, devido aos protestos políticos, o Festival de Cannes foi cancelado. No ano seguinte, a Palma de Ouro terminou nas mãos de Anderson. Em um colégio interno conservador, um grupo de alunos rebela-se contra seus superiores e, ao fim, promove um ataque contra o poder, representado principalmente pela Igreja.

se...

A Piada, de Jaromil Jires

Pequena obra brilhante da Nová Vlna (a nouvelle vague tcheca), que não passou despercebida ao olhar dos censores soviéticos. Por muito tempo não constou na filmografia de seu diretor. Entre passado e presente, aborda a história de um homem expulso do Partido Comunista Tcheco e condenado a “serviços militares” forçados.

a piada

Dias de Fogo, de Haskell Wexler

Mais conhecido pelos seus trabalhos como diretor de fotografia, Wexler foi um artista politicamente engajado e chegou a realizar um documentário sobre o golpe de 64 no Brasil, lançado em 1971. Seu Dias de Fogo capta o momento de transformações nos Estados Unidos, em 68, entre as primárias do Partido Democrata e a ebulição das ruas.

dias de fogo

Z, de Costa-Gavras

Mescla o tom de documentário ao suspense policial. Ganhador do Oscar de filme estrangeiro, trata do caso Lambrakis, o político liberal assassinado na Grécia no início dos anos 60. Os poderosos trataram o caso como acidente, ainda que a morte tenha ocorrido em meio a uma multidão. Filme de resistência, poderoso do início ao fim.

z costa-gavras

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