revista de cinema

Amor pela mulher morta

Scottie “sente” o absurdo da aventura e é tocado principalmente naqueles instantes em que sua dignidade profissional é ameaçada. Primeiro, a vergonha de sentir a vertigem das alturas; depois, o complexo de culpa, somado a um amor que se iniciava nas cenas posteriores à morte de Madeleine. A importância que o diretor confere ao seu abatimento, à maneira desconsolada com que acompanha as palavras do promotor (admiravelmente jogadas em um recitativo lento, espécie de humor macabro muito do gosto de alguns realizadores), supera aquela rapidez que, nos filmes de “suspense” comum, o herói é colocado à salvaguarda de sentimentos desse tipo. De forma idêntica, o amor de Scottie pela mulher loura é prolongado além de uma simples enunciação, pois as sequências que apresentam o detetive recompondo a figura que julga morta são, todas elas, isentas daquele jogo de cenas que torna a ação exclusivamente física – o caso de Ladrão de Casaca. Como o acordo entre Farley Granger e Robert Walker, em Pacto Sinistro, é filmado sobre a ingenuidade e incredulidade, levando a um tipo de crime totalmente novo, nos anais do “suspense” cinematográfico (o rapaz que mata a noiva do outro, esperando que este, em compensação, assassine o seu próprio pai), a perseguição da verdade, em Vertigo, leva a uma descoberta diferente, quase metafísica – o amor desesperado do detetive pela mulher morta, o retorno dessa mulher, a repetição do acidente, levando Scottie a um círculo interminável de dúvidas e deduções.

Maurício Gomes Leite, crítico de cinema, na Revista de Cinema (fevereiro de 1961; a crítica está no livro Revista de Cinema – Antologia 2; Azougue Editorial; pg. 329). Abaixo, Kim Novak em Um Corpo que Cai.

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Os oito principais erros cometidos pela crítica de cinema

Poucas profissões são mais atacadas e odiadas que a do crítico de cinema. Questionam alguns, com certa constância: que direito tem ele de dizer se o filme é bom ou não? Se vale o ingresso ou não? Como se verá na lista abaixo, a função do crítico não é dar respostas fáceis e indicar o que merece ser visto. O (bom) crítico de cinema deve, antes, convidar o leitor à reflexão, decifrar os elementos que formam o filme e ter conteúdo para sustentar sua opinião (concorde o leitor/espectador ou não).

Em 1956, na lendária Revista de Cinema, Jomard Muniz de Britto já observava que “o crítico atingiu uma comercialização total. Quase não se distingue do repórter, do noticiarista. Vai ao cinema por obrigação. Por obrigação, também escreve”. E mais: “O estudo meticuloso e demorado cedeu lugar a uma tarefa brasileiramente apressada e superficial”.

Os críticos apresentados nas imagens não são os únicos que cometeram os citados erros. São apenas exemplos. Esta lista, vale lembrar, é fruto de uma opinião pessoal. Bons críticos também cometem equívocos.

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1) Reduzir o texto à sinopse e a um guia de consumo

Como quase tudo na internet se reduz a espaço e velocidade, negócios e pouco aprofundamento, o guia de consumo que se disfarça de crítica de cinema tem crescido bastante. Nele, apela-se ao básico: a sinopse e talvez algumas pinceladas que podem gerar uma opinião ou outra, mas nada com profundidade. Que fique claro: não há problema algum em usar sinopses e oferecer serviços com guia de consumo (com salas e horários de exibição), mas isso não é papel do crítico. E o leitor, por sua vez, não deve esperar do crítico a resposta para sua “compra certa”.

2) Mandar o espectador assistir ou não ao filme

Ao invés de perder tempo mandando o leitor ir ver ou não um filme, o crítico deve se preocupar em colocar sua opinião com um mínimo honestidade intelectual. O filme é bom ou ruim apenas para ele, e o que importa no texto – desde que utilize bons argumentos e conhecimento – é sua opinião. Críticos não tem o poder de mandar, de guiar as pessoas. Não basta tecer elogios vazios ou apenas distribuir estrelas.

3) Gastar tempo abordando a bilheteria de um filme

Em um momento em que a bilheteria depende diretamente dos gastos com publicidade, perder tempo em abordá-la – ou, pior, fazer dela o foco da análise – é um dos pecados da crítica de cinema. Desde quando faturamento tem a ver com qualidade? Casos de filmes ruins que estouram na bilheteria existem aos montes. O contrário também: grandes filmes que fazem público exíguo. Números interessam a produtores, distribuidores, marqueteiros, não a críticos de cinema.

4) Dizer como o filme deveria ser feito

Um filme é produto de um realizador, ou de um autor, ou mesmo de um produtor. Este, por sua vez, fez dele o que desejava. Em suma, a obra é o que é, está acabada e não cabe ao crítico – responsável por sua análise, não por sua realização – dizer como deveria ter sido feita, que metragem deveria ter etc. É comum ver observações do tipo “o filme é longo demais” ou “se o diretor X tivesse feito, e não o diretor Y, o resultado seria melhor”. Quer realizar? Então passe para trás das câmeras!

5) Escrever análises de trailers, de fotos e alimentar o buzz

Produtoras e distribuidores adoram isso. O filme sequer foi lançado e já surgem as primeiras críticas do… trailer! Isso mesmo, senhores leitores! Trailer, vale lembrar, é apenas uma propaganda, uma embalagem, menos que um petisco. Nem sempre bons trailers dão luz a bons filmes (quem não se lembra de Esquadrão Suicida?). Críticos que se debruçam sobre propagandas, ou fotos vazadas para gerar barulho, servem apenas ao propósito dos marqueteiros. Adoram alimentar o buzz e os números.

6) Bajular distribuidoras, produtoras, cineastas e estrelas

Outro problema constante. Críticos de cinema costumam ter uma relação de proximidade com produtores, frequentando festas, eventos, junkets e as conhecidas cabines. Há críticos que desejam estar nesses eventos para alavancar sites, blogs e perfis no Facebook (nem vamos falar aqui dos digital influencers, não vale a pena). E, para tanto, precisam bajular o dono do ingresso, e do filme. O elogio à obra, ou à estrela em questão, vem à reboque. Viva o entretenimento!

7) Acreditar que basta ter espaço e audiência para ser crítico

Na era dos youtubers, dos bloggers e demais figuras do mundo digital, muitos acreditam que ser crítico é fácil: basta ter espaço. Se tiver audiência, melhor ainda! É desse meio que nascem algumas figuras que não sabem nada ou pouca coisa do assunto e se arriscam a comentar as obras. Muitos desses supostos críticos adoram efeitos de edição no vídeo, piadas e chegam até a cantar. Vale tudo para agarrar a atenção! Não se decidiram entre o ofício do ator ou o do crítico de cinema.

8) Acreditar que tem influência no destino comercial de um filme

Antes do marketing ditar os rumos da indústria do cinema, críticos tinham mais poder. Você já deve ter visto a cena em algum filme, alguma vez na vida: os artistas acordam cedo e correm à banca de jornal para saber o que falam deles e da obra em que trabalharam. Atualmente, esse poder de fogo é questionável. Talvez existam exceções, como o caso de filmes em circuito reduzido e que dependem de algumas linhas a mais para ganhar atenção. Mas são situações cada vez mais raras. As estreias esmagadoras – que chegam a ocupar até metade das salas de um país como o Brasil – não dependem da crítica. Dependem, sim, do buzz, da publicidade, dos memes e de outros objetos da modernidade.

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Estilo western

Naturalmente, o estilo western existiu antes do cinema. Estou convencido de que a história real das velhas civilizações europeias se desenvolveu largamente num estilo próximo ao do chamado filme de arte, e que a história da construção da América moderna durante o século 19 foi feita num estilo western. As lutas pela conquista do Texas, a febre do ouro, a conquista do território através das grandes planícies, a organização dos meios de transportes, a diligência, o trem, o telégrafo, a guerra civil, as grandes criações de gado, o complemento da ocupação do território pelo massacre dos índios, tudo é western, tudo, antes do aparecimento do cinema já estava estilizado pelo folclore, pelo mito, pela literatura. Quando no começo do século nasceu o cinema, a América, que já estava contando para si própria sua história recente, não tardou em lançar mão do novo meio de contar histórias. Como nessa mesma ocasião ela se tornava a primeira produtora de ferro e de carvão do mundo, logo começou, e não cessou mais, de contar para todo mundo a sua história, cinematograficamente, e em estilo western.

Paulo Emílio Sales Gomes, crítico, professor e fundador da Cinemateca Brasileira, na Revista de Cinema, em 1955. O texto integral, “A ópera de cavalo e do pobre”, foi publicado em dois livros, Revista de Cinema – Volume 1 (Editora Azougue; pg. 265) e O Cinema do Século (Companhia das Letras; pgs. 548 e 549), que reúne textos de Paulo Emílio. Abaixo, uma imagem de O Cavalo de Ferro, épico mudo de John Ford.

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Bastidores: Encontros e Desencontros

Coppola extrai do ator a disposição de atuar em um incontável elenco de situações cômicas: do mais delirante registro físico (as sequências da piscina, da sala de ginástica, da massagista) à observação mais detida do rosto e das expressões (as sequências em que assiste TV no quarto, a sessão de fotos), passando pelo desacerto com os gadgets, à maneira de Tati (os ruídos emitidos pelo celular, pelo aparelho de fax e pelos aparelhos de ginástica), Murray encontra espaço para desenvolver uma personagem absolutamente adorável, palpável em sua fragilidade e desespero mudo.

Fernando Veríssimo, sobre o trabalho do ator Bill Murray no filme de Sofia Coppola, em uma crítica para a Contracampo – Revista de Cinema (leia texto completo aqui).

encontros e desencontros

Entrevista: Ivonete Pinto

Em uma viagem ao Irã, Ivonete Pinto teve a oportunidade, em um auditório lotado, de fazer uma pergunta ao cineasta Abbas Kiarostami. O conteúdo da questão dizia respeito a um conterrâneo do diretor de Cópia Fiel, Jafar Panahi, em prisão domiciliar a mando do regime de Mahmoud Ahmadinejad. Ivonete perguntou “o que ele, com toda sua força, iria fazer para tentar tirar Panahi da prisão”. E o público respondeu à sua maneira: aplaudiu não apenas a resposta de Kiarostami, que disse que jamais havia visto uma situação como aquela em seu país, mas também a pergunta da brasileira.

Do outro lado da trincheira, como entrevistada, a professora adjunta do curso de cinema e audiovisual da Universidade Federal de Pelotas e editora da revista Teorema não faz muitos rodeios para responder às perguntas da entrevista abaixo, concedida ao Cinema Velho.

Ler as entrevistas feitas com diversos cineastas e pensadores por Ivonete, na Teorema, é como embarcar em suas viagens, em questões que a mesma já definiu como “aula de cinema”. Em uma delas, com o também iraniano Mohsen Makhmalbaf, a jornalista passa por filmes que o mestre viu na infância, como Fahrenheit 451, de François Truffaut (justamente sobre uma ditadura que queima livros), ou mesmo por experiências vividas pelo diretor na realização de Close-Up, de Kiarostami, e no qual aparece como ele próprio.

Ivonete nasceu em Canela, no Rio Grande do Sul. Fez cinema como atriz e dirigiu dois médias em super oito. É jornalista, mestre em Comunicação pela PUC-RS e doutora em Cinema pela USP. Foi uma das fundadoras e a primeira presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Além de compor o grupo de fundadores, atualmente ela é vice-presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Sobre seus filmes “de cabeceira”, a professora diz que não tem. “Mas tem filmes que sinto enorme prazer cada vez que revejo em sala de aula, com os alunos, como Os incompreendidos, O Desprezo e Deus e o Diabo na Terra dos Sol.”

Antes da entrevista, vale um pequeno parêntese sobre a Teorema, na qual ela atua como uma das editoras. Trata-se de uma rara publicação (ou seria única?) impressa no país dedicada totalmente ao cinema fora do eixo comercial, com análises e ensaios de profundidade. Perto de sua vigésima edição, a revista não é lá muito fácil de encontrar, mas vale a procura. Pelas páginas estão interessantes entrevistas feitas por Ivonete e artigos de críticos variados, sobre produções de cantos diferentes do mundo. Um bom exemplo, por isso, àqueles que perderam suas esperanças quanto ao nascimento de uma publicação de cinema de qualidade no Brasil.

Como surgiu a paixão pelo cinema? Alguma influência familiar ou próxima?

Nenhuma influência familiar. Talvez tenha surgido desde criança, pois acompanho o Festival de Gramado. Sou de Canela, vizinha de Gramado, e comecei a ver filmes muito cedo. Aos 17 anos, ao entrar na faculdade, comecei a fazer teatro com um grupo que logo começou a fazer cinema, ainda no super 8. Pessoas como o Werner Schünemann (ator e cineasta gaúcho) e o Rudi Lagemann (ator, cineasta e roteirista gaúcho) faziam parte do grupo.

Vivemos em um país onde está cada vez mais raro ver pessoas que realmente pensam e interpretam o cinema com brilhantismo nos veículos de comunicação e na internet. Ou mesmo que param para viver e interpretar artes em geral. Em contrapartida, o país nunca ofereceu tantas possibilidades de cursos e graduações. Existe algum paradoxo entre o ensino e a produção cultural?

Sim, é um paradoxo, mas por outro lado nunca se teve tanto acesso a tantos diferentes meios de veiculação de produtos audiovisuais. O crescimento do número de escolas de cinema é o reflexo deste novo cenário.

Parece cada vez mais difícil, também, surgir uma revista de peso e circulação nacional, com venda em bancas. Acha que existe alguma chance de uma revista nos moldes da Cahiers, por exemplo, dar certo no Brasil em circulação nacional?

Não sei. Não sei quem bancaria tal aposta. A Teorema, mal comparando, é uma revista que vende pouco, para um publico super segmentado, e sabemos que as pessoas esperam hoje encontrar tudo na internet, não querem gastar.

Procurei e não encontrei. A Teorema não está na internet? Acha que uma versão on-line não chegaria a mais pessoas?

Certamente chegaria, mas seria ainda outro esforço nosso. Nós, os seis editores, já bancamos a publicação, e colocar na internet requer outro investimento. Além do mais, temos nosso publico fiel, que tem, talvez, o fetiche do papel: gosta de guardar os exemplares para consultar depois ou simplesmente ter ali, à disposição.

O público da Teorema é formado apenas por críticos e cineastas ou existem outros públicos que estão descobrindo a revista? Como ela se mantém financeiramente?

No inicio, há 10 anos, tentamos viabilizá-la comercialmente, mas não valeu o esforço. Preferimos agora dividir os custos entre os editores e produzi-la como gostamos, sem nenhuma concessão a um público que não nos interessa. Além dos leitores que você citou, temos cinéfilos e estudantes de cinema e outras áreas afins.

Você chamou a entrevista que fez com o professor Michel Marie de “aula de cinema”. O que você aprende em conversas com esses grandes mestres? Poderia citar outros nomes com os quais teve o privilegio de conversar ou entrevistar e dizer o que eles pensam, em geral, do cinema brasileiro?

Dizer o que eles pensam daria um pouco de trabalho, não é… Melhor consultar as 19 edições. Claro que sempre aprendemos com nossos entrevistados, caso contrario não teria sentido. Destaco a entrevista com o professor Ismail Xavier (professor da ECA), com o Manoel de Oliveira (cineasta português), Ruy Guerra (cineasta), Amos Gitai (cineasta israelense) e Giba Assis Brasil (cineasta gaúcho).

O título da revista na qual você escreve serve também a um famoso filme de Pasolini, dos anos 1960. O que a obra significa para você? Os títulos (do filme e da revista) têm alguma ligação?

Sim, é uma homenagem ao clássico do Pasolini. Significa que é um filme que não envelheceu. Ao contrario, aquela figura estranha (personagem de Terence Stamp, que invade a vida de uma família e, aos poucos, destrói a todos) que chega e modifica tudo é sempre uma figura moderna no cinema.

Ainda sobre a época do filme de Pasolini, havia grande efervescência cultural, política e contestadora. Na França, os episódios de 1968 são muito conhecidos. Não acha que um pouco de contestação, como nessa época, ajuda na realização de filmes de protesto e de boa qualidade? Ou acha que política e arte não devem se misturar?

Não sei. A arte é sempre política de uma certa forma, não se pode reduzir o sentido de “política”. A questão é: tem quem sabe e quem não sabe “misturar”. Cinema panfletário é um horror, cinema político é outra coisa…

Consegue lembrar de algum filme político que transcendeu o tempo – e a política – sem soar panfletário?

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo.

Quem melhor representa a crítica de cinema hoje no Brasil e que você costuma ler para enriquecer seu conhecimento?

Sempre que Ismail e Jean-Claude Bernardet (teórico e pensador) escrevem, é algo muito acima da média. Gosto do Inácio Araújo (crítico de cinema da Folha de São Paulo), do meu presidente Luiz Zanin (presidente da Abraccine, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e crítico do jornal O Estado de São Paulo). Do meu colega da Teorema, Éneas de Souza, do meu colega da Abraccine João Nunes (crítico do jornal Correio Popular). Os outros são críticos já mortos, que admiro.

Os grandes mestres do cinema, na atualidade, estão concentrados nos países orientais? Ou é difícil, ainda, fazer tal colocação?

Difícil…

Leia aqui a entrevista de Ivonete com Mohsen Makhmalbaf.

Rafael Amaral (28/03/2012)