representação

Representação da realidade

No fundo existe uma questão de memória antropológica das formas artísticas. Em diferentes épocas, com diferentes meios, a humanidade vai tentar representar mais ou menos as mesmas coisas. Isso é algo que está muito em voga hoje, por conta dessa abordagem antropológica da história da arte que é o paradigma que vigora hoje nos estudos sobre as artes visuais. Houve um determinado momento em que era a pintura a arte visual encarregada de majoritariamente produzir uma representação da realidade.

Com a passagem do século XIX para o século XX, eu acho que o cinema tomou a dianteira e passou a ser a arte à qual a gente recorria quando queria ver a mimesis, quando queria ver a representação da realidade. Porque nós temos essa necessidade desde que habitávamos cavernas. A gente quer ver a representação do mundo em que a gente vive, a gente quer exteriorizar, quer gravar num suporte uma representação do mundo. Não só uma representação fantasiosa, não só uma criação de novos universos a partir das inscrições, gráficas ou não, a partir dos nossos mecanismos de representação – orais, verbais, visuais, icônicos, enfim. Mas a gente tem tanta necessidade de inventar novos universos como também de recriar o nosso mundo, cristalizá-lo numa forma que represente sua realidade. Aristóteles fala da imitação como um dos elementos definidores do animal humano: o homem é um animal que imita. Um animal que tem necessidade da mimese.

Luiz Carlos Oliveira Jr., crítico de cinema e pesquisador, autor de A Mise en Scène no Cinema (Papirus Editora), em entrevista ao Coletivo Atalante (leia a íntegra aqui). Abaixo, uma imagem do filme Um Dia no Campo, de Jean Renoir.

um dia no campo

Veja também:
Os 100 melhores créditos de abertura da História do Cinema

Realidade e representação

Fitzcarraldo fez transportar seu navio por cima de uma montanha, mas Herzog também. Aguirre comandou a descida de uma expedição dos Andes até a floresta Amazônica, assim como Herzog. As filmagens aconteciam em meio a desastres, crises e acidentes. Os índios se ofereceram a Herzog para matar Kinski. Herzog precisava de um ator obsessivo como ele próprio, capaz de levar seu trabalho tão a sério a ponto de arriscar-se a morrer e a matar. Um ator que borrasse as fronteiras entre realidade e representação, que atuasse o tempo todo e, portanto, nunca estivesse atuando, que fosse um louco e um virtuose de sua arte.

Otavio Frias Filho, sobre a relação entre o cineasta Werner Herzog e o ator Klaus Kinski nos filmes Fitzcarraldo (foto abaixo) e Aguirre, a Cólera dos Deuses (Folha de S. Paulo, fevereiro de 2001).

fitzcarraldo