relação pai e filho

Rio Vermelho, de Howard Hawks

O confronto entre as personagens de John Wayne e Montgomery Clift é inevitável. A segunda, já adulta, observa a primeira sabendo de seus problemas, de suas mudanças de humor. Reconhece no velho homem do mundo o carrasco, e ainda assim aguarda a hora para confrontá-lo, para, de filho para pai, levantar-se em revolta.

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Brigam na primeira vez em que se encontram. O menino Matt Garth saca uma arma e leva uma bofetada do outro, que acabou de perder sua companheira, morta pelos índios em Rio Vermelho. Sem pressa, o diretor Howard Hawks desenvolve a história a partir da relação desses homens com alguns outros, a partir de suas diferenças.

O filme, um dos maiores faroestes do cinema, apoia-se nesse reino masculino de encaradas e intenções silenciosas – descrito, por Pauline Kael, como uma versão a cavalo de O Grande Motim. Assim, Thomas Dunson (Wayne) passa à posição do Capitão Bligh, o tirano imortalizado por Charles Laughton na versão clássica de 1935.

Segundo Kael, Borden Chase, autor da história e um dos roteiristas, confirmou a relação de proximidade com O Grande Motim. Nesse sentido, ousa dar a Bligh, aqui na pele de Wayne, um passado, ou um motivo para sua insanidade. Faz-se o carrasco sem perder algum princípio, a quem não escapará a missão de guiar a boiada.

No momento da saída, em mar bovino que toma a tela, Hawks move a câmera em panorâmica, revela o tamanho da encrenca, da aventura. Dunson pede que Matt conduza os homens e os animais; o rapaz dá o grito inicial, à medida que se corta para a alegria de todos aqueles seres envolvidos na empreitada, com rostos de felicidade.

Pela transformação de Matt, da criança ao adulto, do menino de frases fortes ao rapaz de dubiedade sexual, corre o tempo de maturação – e de mistério – da loucura do outro, Dunson, cujos cabelos escorridos para trás alimentam seu aspecto intocado, um pouco fantasmagórico. A frieza que Wayne leva à personagem ajuda nesse aspecto.

Rio Vermelho, contudo, é um filme de Hawks. Isso explica por que os socos e o confronto final podem dar vez à graça: diferente de outros cineastas que reservavam ao faroeste o espaço de seres que nunca se curvam, Hawks não descarta a leveza da comédia, a história que se guia sem enredo claro, fincada em personagens.

Os camaradas – pai e filho – podem rir ao fim sem que fique a impressão de que traíram o público. O entendimento entre homens, às gargalhadas, é possível. A culpa resta à mulher, que teria “enfeitiçado” Dunson com seu amor antes de ser morta pelos índios, dama a quem o mesmo deu a pulseira de sua mãe, objeto encontrado no punho do estranho.

Matt é verdadeiro, é diferente de Dunson. Enquanto Clift carrega outro tipo de interpretação, Wayne reserva a aparência petrificada, a certeza do mal, a promessa de que vai encontrar todos que o traíram, caçá-los. Não se duvida – fantasmagórico como é. Clift, o jovem em ascensão, atira como se brincasse, troca de armas com outro rapaz, vivido por John Ireland, em interessante subtexto gay, outra das brincadeiras de Hawks.

O diretor força o gênero, como se o reinventasse pela leveza desses atos, pela impossibilidade (a muitos) de dois homens sentirem-se atraídos naquele meio. Aproxima a aventura da vida comum e, ao colocar a câmera no interior da carroça enquanto atravessa o rio Vermelho, põe todos na mesma jornada real desses homens entre gado.

Importante não se confundir: apesar das concessões, é um clássico faroeste que tem ao centro o maior dos atores do gênero, um galã da geração de Marlon Brando, alguns homens tipicamente caipiras e sujos, uma dama a apimentar a situação, além dos gritos de cada um, como eco, enquanto guiam a boiada à água, para cortar o rio e algum estado.

(Red River, Howard Hawks, 1948)

Nota: ★★★★★

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O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho

O cinema é um sinal quase imperceptível de sensibilidade em O Último Cine Drive-in. Está ao fundo, quase a desaparecer na tela branca do sobrevivente cinema drive-in, em Brasília, cidade em que os sinais embrutecedores parecem mais fortes.

É assim já na abertura da obra de Iberê Carvalho: a partir do vidro da porta do hospital, o espectador percebe a discussão de um rapaz com dois seguranças. Ele deseja entrar, passar a noite com a mãe hospitalizada, mas é impedido pelos funcionários.

o último cine drive-in

Termina sozinho, vaga por ruas e avenidas. Vai dar, não à toa, naquele cinema drive-in. O local, que sobrevive com dificuldade, com alguns poucos carros por noite, é o que une pai e filho no belo O Último Cine Drive-in.

Sem a mãe, resta o pai a Marlombrando (Breno Nina). Como os cartazes de alguns filmes famosos, como a imagem de outros na grande tela, o nome do protagonista logo remete a algo perdido no tempo: o nome de um grande astro, um dos maiores.

Tudo é meio perdido, quase artificial. A cidade ajuda a dar o tom: meio futurista, meio árida, terra estranha que une passado e futuro. Quando algum carro moderno entra no drive-in, de noite ou de dia, logo se percebe o encontro de tempos, e sua estranheza.

O pai de Marlombrando é um lutador, como são todos os que ainda insistem no velho mundo do cinema, da película, dos antigos projetores. Sobretudo, no tipo de cultura popular que une pessoas, com doses de sensibilidade em oposição ao mundo real.

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O pai é Almeida (Othon Bastos), com plena noção da realidade e suas agruras. É uma característica de todos em cena no filme de Carvalho: eles compreendem os problemas para fora daquele cinema drive-in, ou mesmo para dentro.

A chata realidade também invade o local, que corre o risco de fechar, que, como a mãe de Marlombrando, está em seus últimos dias, presa à cama do hospital. Não por acaso, o cinema reflete-a, ao fim, naquela que pode ser a última sessão a céu aberto.

A realidade é insistente: pode ser vista nos pacientes acamados, pelos corredores do hospital, e pode ser vista nos políticos acusados de corrupção, nos seguranças truculentos, na oficina mecânica que guarda um bar em seu interior.

Resumo da obra: a cachaça tomada entre o som do aperto do parafuso, da perfuração do ferro. É a cidade que impõe seus sinais estampados na tela branca do cinema.

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E este, em exercício de imaginação, também estampa a realidade. Os cartazes ao fundo fazem viajar em velhas histórias: nas macas de hospital, com seus pacientes sofrendo, em As Invasões Bárbaras; na cidade suja confrontada pelo “justiceiro” Travis em Taxi Driver; ou mesmo no fim do cinema popular em Cinema Paradiso, de Tornatore, referência óbvia a O Último Cine Drive-in.

Na tela, é possível ver, de passagem, uma bela cena de Central do Brasil. Depois, outra de Na Mira da Morte, de Bogdanovich, cuja última sequência passa-se justamente em um cinema drive-in, no qual o assassino é perseguido e encurralado.

Cinema e vida encontram-se na obra de Carvalho. Tristemente, a vida é mais forte, ou mais chata. Sempre presente, ainda que o espectador – sintetizado na imagem do pai e do filho, também na da mãe enferma – lute para resistir, com olhos pregados na tela.

Nota: ★★★☆☆

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