Quentin Tarantino

O tempo de Monte Hellman, segundo Quentin Tarantino

Monte fez faroestes diferentes de qualquer um antes ou depois. Ela desacelerou a ação para que as cenas acontecessem num tempo real ainda não visto num faroeste. O efeito é como se Monte estivesse na cabine de projeção, agarrando um punhado do filme enquanto passava em frente à luz, segurando-o, e então cada frame é iluminado mais tempo para ser examinado melhor. O filme abre com um assalto a uma diligência que provoca risos devido à maneira lacônica preguiçosa dos ladrões. É o exato oposto da cena de ação acelerada a que estamos acostumados (um ladrão recebe uma risada minha toda vez pela forma sem pressa que ele se move fora da diligência). Em direto contraste com o tom de Monte está o argumento de Nicholson, que está longe de ser existencial. Na verdade, poderia facilmente ser um grande episódio vigoroso de Bonanza.

Quentin Tarantino, cineasta, sobre A Vingança de um Pistoleiro, de Monte Hellman, em artigo reproduzido em Quentin Tarantino (“Uma rara tristeza”; organização de Paul A. Woods; Editora Leya, pg. 243). Abaixo, Jack Nicholson, que também assina o roteiro.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
O Homem dos Olhos Frios, de Anthony Mann

A saga Lady Snowblood, de Toshiya Fujita

O caminhar da assassina Yuki Kashima é feito saltinhos. Perigosa, ela não renuncia ao efeito feminino e oriental, rosto branco como porcelana, olhar frio. A forma como mata, tranquila, sequer esconde a coreografia nos dois filmes de Toshiya Fujita, do mangá de Kazuo Koike.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A primeira parte de Lady Snowblood, Vingança na Neve, mostra como Yuki torna-se a dama do título, ou como a morte de sua família dá vez à assassina perfeita. A imagem inicial não poderia ser mais simbólica: Yuki nasce na prisão, com a neve do lado de fora, entre barras de madeira.

A segunda parte, Uma História de Canção e Vingança, é diferente. A ambição leva a dama assassina a esbarrar no mundo de contornos políticos. Se antes os vilões eram visíveis, tudo, depois, fica mais confuso e opaco.

A Yuki do primeiro filme – menos sentimental, não menos consciente – é mais interessante. Na abertura, quando mata um homem poderoso e seus capangas, deixa claro que as vítimas são escolhidas a dedo. Ela cresceu com a missão de matar os quatro criminosos que mataram parte de sua família. Um deles foi morto por sua própria mãe, que terminou presa. Yuki nasce do estupro coletivo, sem família, sem pai.

A direção de Fujita esconde a podridão por trás do visual bem cuidado, de cores e sombras, aparência velha. Essas cores são tão importantes quanto problemáticas: elas dão a ideia de um filme mais antigo do que realmente é. A obra abre possibilidades: nem a coreografia nem a frieza da heroína ocultam frescor e vida. O corte da espada vem acompanhado de um novo plano, no qual o sangue jorra sem economia.

A morte é sempre celebração, ao passo que Yuki quase dança entre homens, em meio à roda, enquanto “passa” sua pequena espada – antes escondida no guarda-chuva – pelos corpos, pelos figurinos bem cuidados, à neve ou à beira-mar.

Treinada com rigor, ela segue a rotina de matanças. Vingança na Neve leva a seu passado. A sequência da morte da família mostra o quanto Fujita propõe a mescla entre clássico e moderno: os enquadramentos da beleza do povo nipônico e suas tradições encontram uma violência aparentemente gratuita.

O sangue em exagero faz parte do jogo. A câmera trepidante nem sempre esconde a estilização que certamente fez brilhar os olhos de diretores como Quentin Tarantino, que inegavelmente levou a estrutura para suas duas partes de Kill Bill. Alguns quadros, como o dos quatro assassinos em contra-plongée, seriam copiados por Tarantino.

Para Fujita – e, mais tarde, para Tarantino – aquele é apenas um rito de iniciação a tudo o que vem a seguir: é a forma de justificar a saída de Yuki, ou da Noiva, ao estranho mundo de descobertas, depois à política. Em Vingança na Neve, Yuki mata os oponentes pouco a pouco. Há mais ação que na segunda parte. Em uma de suas buscas, ao descobrir que o alvo já estava morto, não esconde a insatisfação.

Como explica seu mestre, a moça nasceu apenas para a vingança. Terá dificuldade para tomar novo rumo, descobrir outra missão, viver em um lugar dominado por figuras que nem sempre se definem como heróis ou bandidos. Na parte final do primeiro filme, ela vê-se obrigada a retirar a máscara em um baile de máscaras. Em um Japão em mudanças, o baile, com bandeiras de outras nações, representa a entrada do país no mundo ocidental, nas formas opostas às de Yuki.

Uma Canção de Amor e Vingança, lançado um ano depois da primeira parte, em 1974, tem início com Yuki sem caminho, após perder o mestre e o próprio sentido. Fica sem uma trilha a seguir. Ao prender o pé em uma armadilha para animais, a representação dessa nova condição torna-se então evidente.

Vivida por Meiko Kaji, Yuki é impassível. Presa, condenada à morte em um tribunal de vozes composto apenas por sua face e o fundo escuro, ela será salva pela polícia política, incumbida, mais tarde, de seguir um anarquista. A transformação não demora: a convivência com o outro permite um novo olhar à assassina angelical, nova camada à jornada da personagem que não quer agradar e, com pouco, muito revela.

(Shurayukihime, Toshiya Fujita, 1973)
(Shura-yuki-hime: Urami Renga, Toshiya Fujita, 1974)

Notas:
Vingança na Neve: ★★★★☆
Uma Canção de Amor e Vingança: ★★★☆☆

Veja também:
A saga de Bill Rohan

A Balada de Buster Scruggs, de Ethan Coen e Joel Coen

Situações, personagens e ambientes comuns ao faroeste estão todos ali, às claras. Na superfície, os irmãos Ethan e Joel Coen trabalham com os clichês, e aos poucos introduzem entre os mesmos suas novidades, pequenas situações ou detalhes que distinguem A Balada de Buster Scruggs de outros tantos exemplares do gênero.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O tom obscuro, acentuado pela bela fotografia de Bruno Delbonnel, casa-se à graça, ou à mutação da graça em absurdo, de tiros que não doem, sangue que nem sempre soa repulsivo – como se vê nas comédias que, à moda recente, apelam a efeitos gráficos. Talvez os Coen estejam a sorrir desses efeitos, da tradição de Leone à atualidade.

Filme episódico que, a cada investida na ação ou na palavra, ou mesmo na música, transporta o público a diferentes universos: inicia com a história de um tal Buster Scruggs, “abelhudo” do Texas, que atira para não errar e, quando morto, troca as armas pelas asas e canta aos céus, sobre seu matador que caminha, típico diabo de roupa preta impecável.

Termina com a que pode ser a melhor história, a que dispensa o som das balas, a ação, e se apega ao texto afiado. Os Coen são bons nos dois campos. Diferente de Tarantino, que também tem apostado na faroeste, ou preferem mais o verbo ou mais a bala, nem sempre – como Tarantino – utilizando o primeiro como saturação, a dar vez à segunda.

Os diálogos são perfeitamente pontuados. O capítulo final, o da diligência, expõe em seu interior todo um mundo de personagens e caricaturas do velho oeste, o que talvez ajude a entender o fascínio pelo gênero. São essas misturas – e alguém certamente recorrerá ao clássico dos clássicos, No Tempo das Diligências – que ajudam a explicá-lo.

A cada capítulo um velho lugar revisitado, algum personagem já visto, os ambientes manjados. Tudo velho e novo ao mesmo tempo, ao brilho que se forja às sombras, comum a Delbonnel, como se no capítulo final, à beira de um filme de horror, fosse possível visitar Tim Burton ou alguma obra pop do cinema fantástico, com bruxos e lendas.

Será visto, de história em história, um pouco do que faz o faroeste algo único: o duelo olho no olho, o enforcamento em uma árvore qualquer e depois ao público curioso, a saga do artista itinerante, a busca pelo ouro, a viagem na caravana e o encontro de diferentes na diligência. Em algum momento as personagens cantam, e as situações resolvem-se.

Como outras vezes, os Coen revisitam os signos do cinema clássico para, sem fraturá-los, subvertê-los. O mesmo se deu com O Homem que Não Estava Lá, retorno ao cinema noir. Reverência que não deixa escapar a assinatura dos talentosos irmãos.

A história de um certo local ou uma certa nação; doses de pólvora, religiosidade, sujeira. Nada a esconder. No fim, quando as personagens da diligência veem-se sozinhas em frente à hospedaria, obrigadas a se abrigar com caçadores de recompensa e um cadáver, a ironia vai ao máximo: são condenadas a continuar sob o mesmo teto.

Começa com o Buster Scruggs de Tim Blake Nelson, verdadeiro idiota que se revela rápido com a arma, a quem matar é fácil; termina com a expressão amedrontada do francês interpretado por Saul Rubinek, que, aos colegas de viagem, afirmava retirar alguma filosofia de vida do jogo de cartas. A vida como jogo, cheia de incertezas, como a diligência de um filme de terror, cujo guia misterioso não deixa ver a face.

(The Ballad of Buster Scruggs, Ethan Coen, Joel Coen, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Quadros: Onde os Fracos Não Têm Vez

13 grandes filmes que ganharam a Palma de Ouro e perderam o Oscar

O Oscar é o prêmio mais famoso do mundo. Cannes é o maior dos festivais. No entanto, desde o surgimento de ambos, apenas uma vez o Oscar foi para o ganhador da Palma de Ouro. E isso ocorreu nos anos 50, com o longa Marty. Desde então, nenhum outro filme conseguiu repetir o feito. Abaixo, selecionamos alguns grandes filmes que saíram premiados do festival, mas não ganharam a tão famosa estatueta dourada.

M.A.S.H., de Robert Altman

Comédia passada na Guerra da Coreia e com claras aproximações ao lamaçal do Vietnã. Primeiro grande sucesso de Altman.

Perdeu o Oscar para: Patton – Rebelde ou Herói?

A Conversação, de Francis Ford Coppola

Coppola também levou o Oscar, mas pela segunda parte do Chefão. Aqui, vai ao interior de um homem pago para grampear os outros.

Perdeu o Oscar para: O Poderoso Chefão – Parte 2

Taxi Driver, de Martin Scorsese

Robert De Niro dá um show de atuação como um homem perturbado, a bordo de seu táxi, pelas ruas sujas de Nova York.

Perdeu o Oscar para: Rocky: Um Lutador

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

A obra-prima de Coppola sobre o Vietnã é uma adaptação do famoso livro de Joseph Conrad sobre homens destinados à insanidade.

Perdeu o Oscar para: Kramer vs. Kramer

O Show Deve Continuar, de Bob Fosse

No Oito e Meio de Fosse, até a morte converte-se em show. Roy Scheider tem o melhor momento de sua carreira na pele do protagonista.

Perdeu o Oscar para: Kramer vs. Kramer

Missing, de Costa-Gavras

Um pai procura pelo filho desaparecido no Chile após a tomada de poder por Pinochet. Jack Lemmon e Sissy Spacek estão à frente do elenco.

Perdeu o Oscar para: Gandhi

A Missão, de Roland Joffé

Um comerciante de escravos muda de lado e passa a trabalhar com os jesuítas nesse belo filme com trilha sonora de Ennio Morricone.

Perdeu o Oscar para: Platoon

O Piano, de Jane Campion

Um mulher muda casa-se, atravessa o oceano e não consegue se despregar de seu piano – com o qual poderá ir até para o fundo do mar.

Perdeu o Oscar para: A Lista de Schindler

Pulp Fiction, de Quentin Tarantino

Cannes curvou-se ao filme de crimes de Tarantino, com seus diálogos espertos, frases marcantes e sem economizar na violência.

Perdeu o Oscar para: Forrest Gump: O Contador de Histórias

Segredos e Mentiras, de Mike Leigh

O diretor é mestre em comédias sobre relações humanas, pessoas simples e até irritantes – como a personagem de Brenda Blethyn.

Perdeu o Oscar para: O Paciente Inglês

O Pianista, de Roman Polanski

Um pouco da experiência de Polanski nos campos de concentração, quando criança, está nesse belo filme sobre o Holocausto.

Perdeu o Oscar para: Chicago

A Árvore da Vida, de Terrence Malick

O surgimento da vida – entre ciência e religião – é paralelo à vida de uma família americana, com mãe angelical e pai autoritário.

Perdeu o Oscar para: O Artista

Amor, de Michael Haneke

Um casal de velhinhos vê-se enclausurado a um apartamento e, sobretudo, à doença e à certeza do fim nesse filme sem concessões.

Perdeu o Oscar para: Argo

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Filmes que ganharam a Palma de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro

A força de Laranja Mecânica, segundo Anna Muylaert

O Kubrick para mim virou Deus, mas Laranja Mecânica eu não assistia. Até que finalmente o revi e resultou em algo insone, eu não conseguia dormir, é um filme que, para mim, tem todas as qualidades possíveis que uma obra pode ter. Engraçado porque na época em que foi lançado era um filme violento, agressivo, desagradável. E hoje, quando lançaram um DVD comemorativo, a meu ver, pode ser entendido como uma comédia, mas as pessoas não conseguiram entender assim. Os atores falam no DVD: “Nós sabíamos que estávamos fazendo uma comédia, mas não foi entendido assim”. É um filme engraçado e irônico o tempo inteiro.

Aliás, falando em ironia, gosto também dos irmãos Coen.

De certa maneira, acho que todos esses cineastas são filhos do Kubrick e do Laranja Mecânica, um filme que tem uma dose de violência, mas tem uma dose ainda maior de ironia. Acho que Tarantino é um filho direto do Laranja Mecânica. Porque Kubrick fez filmes seminais, um de cada gênero.

O Steven Spielberg é filho de um lado do Kubrick, não do Laranja Mecânica, mas Tarantino e os irmãos Coen, por exemplo, acho que vêm diretamente do Laranja. E fui entendendo quanta informação tem nesse filme, cada cena é um filme inteiro, se você tirar só uma cena você já pode discutir horas, cada uma tem unidade própria. Sem falar no nome do filme que traz em si uma contradição, o orgânico mecânico, que num primeiro momento parece sem sentido, mas na verdade já era uma discussão visionária, de um momento que estamos vivendo agora, da presença maciça das máquinas no nosso cotidiano, também o tema de 2001.

Anna Muylaert, cineasta, em seu depoimento ao projeto Os Filmes da Minha Vida, que ocorre junto à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no quinto livro do projeto, Cinema é Sonho (organização de Renata Almeida; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; pgs. 15 e 16). Abaixo, Malcolm McDowell em Laranja Mecânica.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Vídeo: Por que Laranja Mecânica continua tão forte?