psicodelia

A Garota da Motocicleta, de Jack Cardiff

As roupas de couro coladas no corpo servem à excitação. Há nada por baixo, sabe o espectador, apenas ele, que acompanha a curta aventura da garota que pode ser uma ninfomaníaca, a menina que corre atrás do belo amante após uma noite de sonhos ao lado do marido desinteressante em A Garota da Motocicleta.

Sua viagem será de descobrimento, com um pouco do prazer que a fuga – física ou não – oferece. Ela, Rebecca (Marianne Faithfull), sonha com o sexo, com o outro, e retorna a ele, ou a algum estranho, durante sua viagem. Às vezes a tela deixa-se tingir: o rosa explode e as pinceladas do psicodelismo típico do momento dão as caras na obra de Jack Cardiff, com roteiro de Ronald Duncan, do livro de André Pieyre de Mandiargues.

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As marcas do tempo, por sinal, mais atrapalham do que ajudam: a impressão é que o filme, em grande parte, foi “refeito”, remodelado em diferentes ambientes, sob os sinais das back projections que retiram o espectador rapidamente dessa balada. É como se os sinais do mundo livre perdessem espaço ao bom e velho clássico de estúdio, com o galã Alain Delon encurvado, falso, à frente de estrada alguma, um menino de campanha publicitária.

A moto potente oferece à moça a força que não tem em seus ambientes reservados: antes, com o pai dono de livraria e que tudo proíbe; depois, com o futuro marido louro de traços abobados, que à mesma oferta apenas a companhia. A menina descobre o amante enquanto trabalha na livraria com o pai. É o belo professor que chega em uma moto, que a leva para escapadas pela estrada, que depois lhe presenteia com o veículo.

A escapada de Rebecca em uma manhã como qualquer outra, após uma noite de sonhos e desejos, é a representação de sua necessidade de sexo, sua busca pelo amante perfeito que talvez não exista, o que sua perfeição – a de um Delon de passado misterioso, de amor fracassado, que fala sobre a importância de se ligar à máquina – só faz corroborar.

À estrada, Rebecca encontra tempo para paradas e novos sonhos. Lembra os dias em que, na companhia de amigos, esquiando por montanhas geladas, outra vez se deparou com o amante. Não há acasos aqui. Naquela mesma noite, um homem estranho – alguém com coragem para arrombar a janela do quarto tingido de vermelho – fez sexo com ela.

Desses momentos fica o sentido do filme, o da menina antes feita de porcelana e agora convertida na mulher que veste trajes de couro, cujos sonhos levam ao picadeiro de um circo em que se vê atração principal, às chicotadas do mestre de cerimônias que vem a ser justamente o amante. Menina que escolhe fugir da vida de amarras, previsível, pela máquina potente, presente do outro, sobre a qual ela prega o corpo, as curvas.

Um filme sobre uma mulher que não sabe lidar com os desejos, que, nesse clima de psicodelia e fuga dos anos 60, escolhe viajar para qualquer lugar, para novas estradas, levada pelo objeto que, dúbio, pode conferir instantes de prazer e morte, no caminho em que, pelo filme inteiro, perigo e excitação convivem lado a lado, inescapáveis.

(The Girl on a Motorcycle, Jack Cardiff, 1968)

Nota: ★★★☆☆

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Excalibur, de John Boorman

É possível sentir o peso dos trajes de metal, a dificuldade de se movimentar. Os heróis são desajeitados, sem a aparência que os recobre nos tempos atuais. Em Excalibur, é como se entregassem a espada e a armadura a um rapaz qualquer, um Nigel Terry cuja figura de liderança é tão frouxa quanto a de Mark Hamill em Star Wars.

Por algum milagre, o filme ainda funciona. Seu herói será engolido à força graças ao talento do diretor John Boorman, também por ser um coadjuvante (ou quase) em um filme sem protagonista. É o que torna Excalibur um objeto estranho ao cinema moderno: é difícil definir um filme que embute momentos cômicos à tragédia épica, no qual o psicodelismo confunde-se o tempo todo com a cafonice.

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Parecerá psicodélico e bonito para alguns, ao mesmo tempo o retrato de uma época na qual o cinema do Ocidente somava a influência dos blockbusters aos ainda tempos loucos do Vietnã e da libertação sexual. Pode soar, para outros, uma experiência sem emoção, uma obra cuja grandeza é levada apenas ao exibicionismo. E é provável que a obsessão de Boorman inclua um pouco de tudo do que foi citado.

Começa com o pai do futuro rei Arthur, Uther, vivido por Gabriel Byrne, um carniceiro que decide quebrar o pacto de boa vizinhança com outro rei ao se sentir atraído sexualmente por sua amada, uma tal Igrayne (Katrine Boorman). Guerras representam menos problemas que os desejos da carne. Reinos são destruídos quando seus reis e rainhas resolvem frequentar outros cômodos e camas.

Uther, depois de engravidar Igrayne, crava sua espada, Excalibur, em uma rocha, no meio da floresta. O objeto só poderá ser retirado pelo futuro rei. Como sabe, será retirado por Arthur após tentativas, em vão, de outros homens (com demonstrações de força inconvincentes). O novo rei, não sem algumas mortes, será coroado e se casará com a bela e fria Guenevere (Cherie Lunghi).

A teia de relações ainda dá espaço à paixão de Guenevere por Lancelot (Nicholas Clay) e à presença da traidora meia-irmã de Arthur (Helen Mirren). Boorman dispensa a naturalidade. Seus seres são abertamente artificiais, e o filme é a exposição de uma lenda como deve ter sido imaginada por uma criança, em alguns momentos, ou por alguém chegado ao realismo da guerra, em outros. Das luzes artificiais segue-se aos homens ensanguentados, à lama, à beira de um lago escuro, em tempos de peste.

Ora ou outra surge o mago Merlin (Nicol Williamson), personagem cômica, quase um mestre de cerimônias exagerado e que dá piscadelas ao espectador na tentativa de adiantar o pior. Alguém dúbio e que reforça certa ousadia desse filme curioso. Em uma sequência estranha, o mago é preso a um grande bloco de gelo e o cenário faz pensar nos espaços do planeta Krypton no Superman de 1978.

A crítica Pauline Kael encontrou boa definição à obra de Boorman: “um conto de fadas sério e impróprio para menores”. O cineasta britânico não dispensa a seriedade, não abre mão dos corpos em sangue – ou do sexo – entre belas imagens e cenários suntuosos. A sequência em que Uther finge ser outro rei e faz sexo com Igrayne aos olhos da pequena Morgana é ousada e aponta ao que vem a seguir.

Perdidos em cena, os homens de lata de Boorman deixam ver suas fraquezas. E o filme, nessa conexão com a realidade, com o defeituoso, é então mais excitante. Aposta em um universo irregular, hoje cafona, algo desgovernado e que oferece certo prazer.

(Idem, John Boorman, 1981)

Nota: ★★★★☆

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Dez grandes filmes com universos delirantes

O universo delirante está ligado aos cenários, à representação dos atores, aos cortes, ao roteiro, aos efeitos especiais – e, às vezes, à junção de tudo isso. A lista abaixo traz dez filmes que mais parecem delírios, ou sonhos, e com atmosferas poderosas.

Vai de Resnais a Roger Corman, de Godard a Raoul Ruiz. Obras que revivem grandes autores (Kafka, Proust) para falar do passado ou mesmo para levar ao futuro difícil e ditatorial – às vezes não muito diferente do tempo das obras, como se vê em Alphaville. A lista poderia ir além, mas se detém a dez grandes filmes.

O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais

O caminhar pelo grande castelo evoca muitas perguntas, enigmas, enquanto o casal discute sobre um possível encontro no mesmo local, no ano anterior.

o ano passado em marienbad

O Processo, de Orson Welles

O próprio diretor interpreta o advogado e, para o papel do suposto culpado, está Anthony Perkins, perseguido pelo sistema e suas regras.

o processo1

A Orgia da Morte, de Roger Corman

Talvez a melhor obra de Corman, sobre moribundos tomados pela peste e o grande castelo do Príncipe Próspero e suas orgias regadas a rituais satânicos e libertinagem.

a orgia da morte

Alphaville, de Jean-Luc Godard

O cineasta francês recorre ao tempo sem tempo, passado e futuro, com traços de filme noir, de ficção científica e o contraste entre Eddie Constantine e Anna Karina.

alphaville

As Margaridas, de Vera Chytilová

Político sem parecer ser, a obra livre de Chytilová é uma das mais importantes da nouvelle vague tcheca e traz duas mulheres em uma jornada psicodélica.

as margaridas

Satyricon, de Federico Fellini

Na Roma de Fellini, o profano surge em todos os cantos. O tom é de libertinagem, com a jornada de dois garotos por um mundo sempre próximo de explodir.

satyricon

Alice, de Claude Chabrol

A adaptação de Chabrol para Alice no País das Maravilhas resultou em uma obra original, com a sempre excitante Sylvia Kristel como a mulher presa a um castelo.

alice

Eraserhead, de David Lynch

Lynch ganhou o status de surrealista devido a obras como Eraserhead, que coloca em cena suas obsessões e monstruosidades, ao mesmo tempo em seu universo de horror.

eraserhead

O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

O mergulho nos delírios ou lembranças de um escritor dá vez a uma obra original a partir de Proust. O emaranhado de situações não deixa saber qual é o início e o fim.

o tempo redescoberto

Holy Motors, de Leos Carax

Considerado um agitador, Carax compõe um filme às vezes bizarro, às vezes existencial, sobre um homem que vive muitas vidas em apenas um dia.

holy motors