protestos políticos

O Motorista de Táxi, de Hun Jang

O protagonista, motorista de táxi, vive em um universo de cores fortes, a quem a fumaça dos protestos estudantis na rua da capital sul-coreana faz com que procure nova rota. Seu gesto explica muito sobre sua posição: ele engata marcha à ré e vai por outro caminho.

Evita o embate, evita a política sem saber dela, como se tudo não passasse de obstáculo para mais um dia de trabalho na cidade barulhenta. Canta, no veículo, enquanto dirige rumo à cidade. Tem uma filha pequena para cuidar, está em busca de corridas lucrativas para pagar o aluguel atrasado. Interpretado por Song Kang-ho, o herói é ainda um alienado.

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A corrida chega. Em Motorista de Táxi, o guia deverá levar um jornalista alemão a uma cidade vizinha, Gwangju, onde o confronto com o Exército do país leva diversos estudantes à morte. Da música e das cores alegres o filme passa à fumaça, à dor, às vielas cercadas por sobrados mal iluminados nos quais a luz que resta traz tons avermelhados.

Pelos novos espaços, após ver confrontos ao longo do dia, o motorista tenta fugir do barulho da noite, dos militares e dos inimigos infiltrados entre civis. Em vão. Sua mutação é inevitável: a consciência que lhe toma tem combustão política, mas tem, sobretudo, a fórmula que compõe o humano em situações como essa: ele compreende que a batalha supera fatores meramente ideológicos. O que está em jogo é salvar vidas.

Se ganha no tom cômico e na humanidade que Kang-ho retira da personagem-título, o filme perde na caracterização dos outros, entre oprimidos inegavelmente honestos e vilões caricatos, representados pelo matador de cabelo impecável. O jornalista, Peter (Thomas Kretschmann), oferece a zona neutra, o olhar ávido pelo fato.

O texto inverte a situação central: o taxista é antes o guiado, não o guia. A esse protagonista sorridente, até certa altura livre do confronto, não haverá saída senão aceitar sua função. Antes conduzido ao invés de condutor, ele entende que não há fuga à própria consciência: estará depois entre a multidão, com seu táxi na linha de fogo.

Com foco nos confrontos e massacres, o filme evidencia um passado perdido, um quadro em que brota a pequena cidade confortável apesar de sitiada, um espaço de pessoas honestas, de estudantes simpáticos – abobalhados, personagens igualmente cômicas – armados com paus e pedras, com bandeiras e sobre um caminhão.

Da pequena cidade resulta um mundo particular mas violado, ruas feitas de portas fechadas como em um antigo faroeste, ambiente em que os novos visitantes embrenham-se para encontrar a si mesmos: no fundo, o motorista de táxi alienado está em situação semelhante à do jornalista, em terreno em que terá de aprender a “nova língua”. É como se O Motorista de Táxi apontasse sempre a uma paixão perdida.

O filme de Hun Jang, com variações aqui e acolá, foi feito inúmeras vezes. Em cena, o homem honesto e avesso aos problemas do mundo descobre que para preencher certo vazio precisa do gesto fraterno. Dele para os outros. A distância entre Seul e Gwangju pode ser maior ou menor do que se imagina – a depender do ponto de vista.

(Taeksi woonjunsa, Hun Jang, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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