profundidade de campo

Os Inocentes, de Jack Clayton

Consideradas inocentes, as crianças soam intocadas perante os adultos. Demora para que a senhorita Giddens – por corredores entre sombras e luzes, à procura da resposta para os problemas da grande casa habitada por espíritos – compreenda que as crianças podem ser más, e que talvez tenham aprendido tudo com os mais velhos.

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A protagonista, na pele de Deborah Kerr, quer descobrir o que aconteceu na casa em que acaba de chegar. Espíritos começam a se comunicar com ela, possuem alguma ligação com as crianças das quais passa a cuidar, os irmãos Miles (Martin Stephens) e Flora (Pamela Franklin), com comportamentos estranhos, falas inesperadas.

Não são raros os filmes de terror nos quais o espectador é posto no lugar da criança, em busca da compreensão do mundo adulto. Leva à pergunta: por que são tão maus? Em Os Inocentes, de Jack Clayton, o caminho é outro: as crianças dissimulam, ocultam, mentem, falam como se tivessem todas as certezas à medida que se recussam a ver os fantasmas.

Os adultos – simbolizados por Giddens – vagam perplexos ao ranger da madeira, à luz dos castiçais, ao som do vento na janela com cortinas trêmulas, à volta das estátuas que em algum momento dão espaço à aparência humana, ao espectro que flerta, ri, eleito o agente de todo o mal e, em vida, o suspeito de sempre, o empregado da casa.

Com outra empregada, Giddens descobre a história de um tal Peter Quint, que, antes de morrer, teria se envolvido com a senhorita Jessel, antiga educadora das crianças, também morta. Os espíritos retornam, nunca se encontram. A certa altura da noite, pelos corredores da casa, Giddens ouve o sussurro dos mortos, o indicativo dos problemas: os amantes viveram em conflito e foram assistidos pelas crianças.

Os mais novos refletem os mais velhos. Os fantasmas cobram algo, ou talvez sejam um delírio de Giddens para justificar a maldade das crianças. Só ela consegue enxergá-los: imagens distantes e sons em eco, vidas passadas que se insinuam, amor certamente proibido que confronta a aparência frígida da protagonista recém-chegada.

Ao som dos sussurros, das frases soltas, do pouco que se sabe sobre os amantes mortos, Giddens praticamente flutua por corredores, cabelos soltos, como se chegasse perto de uma libertação, do que crê ser seu grande achado: o que esconde a casa, ou o que escondem as pessoas que habitam o local, que se negam a dizer a verdade.

Kerr, hipnotizada, puritana, é perfeita ao papel. Precisa confirmar o que vê, os espíritos que enxerga, com alguma distância, nesse exercício de esforço. A busca pela confirmação casa-se, segundo Clayton, às distâncias que tem de percorrer no espaço, ou, principalmente, à distância entre o olho e o ponto observado.

Nenhuma sequência reproduz tão bem essa ideia quanto a do golpe de luz, momento em que vê, do jardim, com olhos ao alto, o fantasma de Quint no topo do castelo. O cinema como expressão da busca, o que passa igualmente pelos retornos constantes à face da mulher abobalhada, religiosa demais para não desistir de suas crenças.

Com direção de fotografia do grande Freddie Francis, a partir do livro de Henry James, poucas vezes se expressou tão bem o ponto de transição entre o suspense e o terror, entre a expectativa do que se encontrará e o que efetivamente se vê em tela.

O uso constante da profundidade de campo, que tudo põe em foco, causa dúvida sobre o verdadeiro tamanho desse universo e a distância percorrida entre um ponto e outro, entre o que separa a protagonista e os fantasmas que vê – do outro lado do lago, sobre o castelo, entre estátuas, através da vidraça. Por essas formas de ver, Os Inocentes é sobre o movimento da mulher à descoberta, à possível relação entre crianças e espíritos.

(The Innocents, Jack Clayton, 1961)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Vídeo: Os Inocentes
Bastidores: Os Inocentes

Dez questões para compreender o cinema de Yasujiro Ozu

O “mais japonês dos cineastas japoneses”, dizem alguns especialistas sobre Yasujiro Ozu, dono de filmografia espetacular, de uma forma que, é verdade, repetia-se. Característica de alguns grandes autores: a impressão de que fazem sempre a mesma obra, apesar de pequenas diferenças. Como outros autores, Ozu tinha seus próprios traços, como se vê abaixo.

1) Repetições e defasagens – Em sua tentativa de compreender o cinema de Yasujiro Ozu, Kiju Yoshida, em O Anticinema de Yasujiro Ozu, aborda o uso de repetições incessantes na obra do diretor japonês. Repetições de situações das personagens, mas sempre com algumas pequenas diferenças entre uma ação e outra, ou seja, as defasagens. De certa forma, Ozu repetia-se conscientemente, com a intenção de captar a vida como ela era, mas sempre com pequenas variações. Ozu costumava se comparar ao fabricante de tofu. O alimento, segundo ele, parecia sempre semelhante, mas também tinha pequenas diferenças – como seu cinema.

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2) Espaços intermediários, ou planos intermediários – Talvez seja a grande contribuição de Ozu à linguagem cinematográfica e uma das marcas de seu cinema. Os planos intermediários são imagens entre dois ambientes, ou duas situações, que em geral não possuem nenhuma função na história que se desenrola. São com frequência planos gerais de paisagens da natureza ou urbanas, que por sua vez não indicam um lugar de ação, mas um lugar talvez próximo àquele em que ocorre a ação, talvez na mesma cidade. Vale notar que a muitos desses planos intermediários seguem-se os chamados planos de estabelecimento, ou seja, planos que revelam o local em que se passará a ação seguinte.

3) O drama desdramatizado – O termo, proposto por Denilson Lopes em um ensaio sobre Ozu, está ligado à ideia do neutro e provém de Roland Barthes. “O neutro (…) seria a base de um drama desdramatizado, ao invés do conflito que move a ação, na esteira da poética aristotélica, ou de uma poética do excesso, na explosão dada-surrealista-artaudiana. Em Ozu, o diálogo não é o do olho no olho, das verdades a serem desenterradas e ditas, como nos filmes de Ingmar Bergman. O diálogo em Ozu é tanto com o espaço e objetos quanto com as pessoas que estão nele”, aponta Lopes, em artigo publicado no catálogo de uma mostra sobre o cineasta japonês, de 2010. Em sua análise, o drama de Ozu é o do cotidiano “pequeno”, sem os arroubos comuns a outros tantos criadores.

4) O observador como personagem inexistente – Em boa parte dos filmes de Ozu, a câmera não reproduz o ponto de vista de uma personagem e seu olhar ao redor. Em momentos, ninguém olha a esse universo representado senão a própria câmera, ou o cineasta. Em O Anticinema de Yasujiro Ozu, Kiju Yoshida chega a dizer que os objetos podem estar olhando à vida das personagens, ou a própria cidade poderia estar voltada para elas.

5) O foco no coletivo – Por consequência da ausência do ponto de vista de uma personagem, o coletivo impõe-se quase sempre sobre o individual (Uma Galinha no Vento, por isso, pode ser uma exceção). Em seus filmes, sobrepõe-se quase sempre um grupo de personagens, em geral membros de uma mesma família.

6) Objetos à frente fortalecem a profundidade do campo – Ozu é um mestre na composição de cenas com profundidade de campo (em planos gerais, em conjunto ou médios). No entanto, sua composição de profundidade nunca fica totalmente “achatada”, como a de outros cineastas, e faz com que o espectador perceba melhor o tamanho do ambiente em questão. Isso graças a alguns elementos visuais que o autor embute ao plano, sobretudo à frente, como objetos e a delimitação do espaço por meio, por exemplo, da parte de uma parede. Nos primeiros filmes de Ozu, como Mulher de Tóquio, é possível ver o diretor tentando “buscar” a profundidade, ainda que nem sempre com sucesso, já que determinados elementos ou pessoas terminam fora de foco.

7) Planos médios intercalados por planos e contraplanos – Apesar de comum em filmes de outros cineastas, a construção é utilizada à exaustão por Ozu. Antes de dar início aos diálogos (geralmente com uso de câmera subjetiva), o diretor revela suas personagens no mesmo ambiente por meio de planos médios, ou seja, planos que as mostram de corpo inteiro, geralmente ajoelhadas. Os planos médios dos ambientes são cortados pelos diálogos em planos e contraplanos das personagens, que depois dão vez a outros planos médios, às vezes de outro ponto do mesmo ambiente.

8) Câmera na altura do homem ajoelhado – Ozu é conhecido por manter a câmera próxima ao chão. Aos ocidentais, a impressão é a de ver o mundo pelos olhos de uma criança. No entanto, Ozu obedece à altura de uma pessoa ajoelhada, como é comum na cultura japonesa. Em alguns casos, a câmera está ainda mais baixa, perto do chão. No documentário Tokyo-Ga, um profissional que trabalhou com Ozu revela ao cineasta Wim Wenders que chegava a ficar deitado para executar algumas cenas.

9) Poucos movimentos de câmera (em geral travellings) – Vão dizer que Ozu utilizava movimentos de câmera com alguma constância em seus filmes. É verdade. Filmes como Também Fomos Felizes têm movimentos extraordinários (até mesmo o uso da grua em uma sequência perto do fim). Mas outros filmes do mestre reduzem o movimento ao mínimo, ou a zero. É o caso de Era uma Vez em Tóquio, obra-prima de 1953.

10) A proximidade do cinema mudo – Como Charles Chaplin, Ozu era um entusiasta do cinema mudo e, no início dos anos 30, não via grande vantagem no cinema falado. Dos 54 filmes que fez, entre os anos 20 e os 60, 30 são mudos – e muitos estão perdidos. Ozu sempre manteve os olhos no passado, na forma do cinema mudo, também na do clássico, a recusar o exibicionismo técnico e narrativo de muitos cineastas (típico do cinema moderno). Ozu apostava nas expressões, nos movimentos, nas pequenas ações, às vezes sem depender do som.

Foto 1: Ervas Flutuantes
Foto 2: Ervas Flutuantes
Foto 3: Bom Dia
Foto 4: Bom Dia
Foto 5: Também Fomos Felizes
Foto 6: Era Uma Vez em Tóquio
Foto 7: Ozu (à câmera) durante filmagens

Veja também:
Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

O feminino e o masculino em dois filmes franceses recentes

O feminino, em A Vida de uma Mulher, leva à aproximação, à tela fechada, à falta de profundidade visual, à intimidade e ao sofrimento; o masculino, em Rodin, leva aos gestos bruscos do homem ao centro, o artista que colecionou algumas amantes – entre elas Camille Claudel, a mais conhecida – e mantinha um ar rude e impenetrável.

A exposição desses dois lados, em dois filmes franceses recentes, revela a opção de seus diretores no tratamento dos sexos, não raro a partir de opções estéticas interessantes. O primeiro, Stéphane Brizé, opta pela forma realista, pela câmera livre, às vezes pela aparência de que a feiura pode habitar locais impensáveis: como se vê em A Vida de Uma Mulher, tais escolhas levam à degradação da personagem.

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Nesse universo feminino cercado por mentiras, a protagonista, Jeanne (Judith Chemla), casa-se jovem, após retornar do internato religioso, e logo descobre a traição do marido (Swann Arlaud). Para sua surpresa, o que a leva a um surto e uma fuga em meio à noite fria, o marido engravidou a criada da casa.

Com a intervenção de um reverendo, sob o olhar desconfiado do pai e da mãe, a moça resolve dar uma segunda chance ao rapaz. A felicidade parece retornar. Dura pouco, logo desaba: Jeanne descobre que a nova amante do marido é uma amiga casada, que passou alguns dias se divertindo em sua propriedade.

A vida dessa mulher é entrecortada por lembranças, com a imagem dela já velha, no frio, a imagem do futuro: é a vida de quem teve de viver à sombra de homens (o marido traidor, depois o filho mentiroso) e punida pelos erros dos outros, com segredos que lhe causam dor (como, por exemplo, as cartas do amante de sua mãe).

As lembranças são evocadas com luz forte, mar azul, natureza verde; o presente e seus problemas carregam sombras, chuva, o mar revolto e talvez mais distante do que pareça no momento em que Jeanne caminha pela praia na companhia do pai abatido.

Brizé traduz essas transformações com proximidade, ao passo que o feminino é sempre seu foco: a mulher que resiste a despeito das condições e regras sociais, a despeito das imposições da igreja e, sobretudo, ao fim, da distância do filho. Mulher obrigada a crer no retorno do rapaz que pouco aparece e que, mais tarde, muda-se para a Inglaterra com outra mulher, envolve-se em jogos e contrai dívidas.

A opção pela proximidade e pela câmera trepidante de Brizé segue à contramão do visual adotado por Jacques Doillon em Rodin. Se no primeiro a necessidade de penetrar o ambiente íntimo da mulher e sua degradação é justificada pela câmera intrusa, no segundo o universo masculino pede distância e mistério.

Não por acaso, Doillon não deseja explicar a personagem central, nem justificar seus atos frente às mulheres ou às suas obras (ambas, a certa altura, parecem se misturar). Seu Auguste Rodin (Vincent Lindon) é bruto em cada centímetro, em cada gesto, na maneira como toca a argila ou o corpo de Camille (Izïa Higelin), na cama.

É, nesse caso, a exposição do universo masculino que, pela profundidade de campo adotada, será fundido ao cenário de obras de arte, de peças, de partes de peças que rementem a partes de corpos, ou mesmo de outras formas. Tudo nesse belo filme remete à distância e à indiferença de Rodin em relação ao outro (ou à outra).

A exposição desse mundo masculino, ainda que a interpretação de Lindon nunca seja descartável, deve-se, sobretudo, às opções de Doillon, à sua necessidade de embutir mistério e conferir ao homem o que o público espera: os contornos do gênio, os gestos desse ser distante que rodeia e encara suas obras como se tivessem vida própria.

O tratamento de Brizé em relação a Jeanne é inversamente proporcional: aproxima-se muito para, com o aparente desleixo da câmera, deixar ver a “vida de uma mulher”, a pessoa sem qualquer sinal mítico, mas a mulher que sofre pelas relações que a cercam, cuja vida – ao contrário da de Rodin – é alienada à dos outros.

Na abertura do filme de Doillon, o grande artista prepara A Porta do Inferno, uma de suas obras mais famosas. Ao espectador, graças ao efeito da profundidade de campo, a peça parece ter o mesmo tamanho da personagem. Quando outros homens aparecem em cena, logo se vê o efeito visual e o artista apequena-se.

Mais do que dar grandiosidade a um ou pequenez a outro, o efeito ajuda a compreender Rodin como parte inseparável daquele universo, daquelas peças. O homem torna-se ainda mais bruto em contato com suas estátuas. E raros são os momentos em que ele mostra sensibilidade, como na cena em que visita a exposição de Camille. Com os olhos marejados, o artista observa a estátua de uma mulher nua em busca de um abraço.

Em outro momento, Rodin utiliza uma mulher grávida como modelo para chegar à forma da estatua de Balzac. A imagem não poderia ser mais representativa: a mulher grávida é apenas o molde, o mais importante é a estátua ao fundo. E em outro, ainda mais curioso, o protagonista corta a cabeça de uma estátua feminina, feita em argila, poucos segundos depois de uma mulher elogiar suas formas.

Mesmo com tantas diferenças, não se trata de dizer que um filme apresenta uma mulher fraca e que o outro é misógino. Longe disso. Os trabalhos de Brizé e Doillon possibilitam o mergulho no masculino e no feminino, nas formas que definem um e outro. Assistir ambos em sequência faz enxergar o abismo que os separa.

(Une vie, Stéphane Brizé, 2016)
(Idem, Jacques Doillon, 2017)

Notas:
A Vida de uma Mulher: ★★★★☆
Rodin: ★★★☆☆

Veja também:
Mulheres aprisionadas (em três grandes filmes de Zhang Yimou)

Tarde Demais, de William Wyler

Algumas histórias alimentam o drama com a presença do amor: em geral, o casal ama-se de verdade e algo impõe a separação, como a classe social ou a guerra. Outras histórias preferem o oposto: os gestos de amor revelam-se pura falsidade.

Em Tarde Demais, apenas a protagonista mostra-se verdadeira, moça ingênua para quem o amor supera o dinheiro. Pobre protagonista, vivida com perfeição pela não tão bela – e quase sempre melosa, ainda que de forma proposital – Olivia de Havilland.

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tarde demais1

A falsidade é apresentada pelo pai, Austin Sloper (Ralph Richardson), que não encontra na filha a classe de sua mulher morta, mãe da moça. Para ele, amar a filha é um problema, já que, a seus olhos, ela não poderá substituir a antiga mulher. Por consequência, não credita que outro homem poderá amar a desinteressante menina.

Maior é a falsidade do pretendente, o homem que Catherine (Havilland) provavelmente amará para sempre – e odiará em igual medida. O belo Morris Townsend (Montgomery Clift) não demora a assumir suas intenções, enquanto o diretor William Wyler esculpe verdadeiros gestos de amor.

Ao rever a obra, o espectador descobrirá o quanto a moça é verdadeira, o quanto o rapaz pode ser falso em suas intenções e, ainda mais, questionará se para ela não é melhor viver sem saber nada, mergulhada com o belo pretendente em uma vida de falsidades.

Graças ao pai, que mais tarde prefere dizer à filha o que pensa, Catherine tem seu choque de realidade: descobrirá que o universo ao redor é mais complicado do que parece. Terá de crescer, vagar com suas poucas luzes – como se vê no extraordinário momento final – pela escuridão da escadaria de sua grande casa, na qual vive só.

tarde demais2

Jovem, Catherine está à espera de alguém para cortejá-la. No baile em que segue com o pai e a tia, é retirada para dançar por um rapaz e deixada ao canto pouco depois. Talvez haja algo real por ali, ainda que sobrem pompa e maquiagem.

Poucos cineastas filmaram grandes bailes como Wyler. Basta pensar em Jezebel. O baile de Tarde Demais é um desses exemplos inesquecíveis da beleza do cinema clássico americano, da composição de um velho tempo, de outros modos.

E Catherine é o perfeito exemplar desse tempo perdido: é a menina pouco inserida em sua sociedade, que sofre ao descobrir as regras do jogo, ou que sorri com a cabeça inclinada para baixo, sempre dando ares de submissão.

A obra é composta com planos de profundidade, o que possibilita a Wyler expor diferentes camadas na mesma imagem, com várias “pequenas histórias” – as várias reações de cada personagem – expostas em um único plano.

tarde demais3

Como Orson Welles, Wyler era um dos diretores que apostavam na profundidade de campo e em suas possibilidades narrativas. Passado quase todo em ambientes fechados, Tarde Demais utiliza essa composição para valorizar o espaço do drama.

E o drama até então limitado à não aceitação do pai em relação a Morris migra para o desaparecimento deste, quando percebe que a fuga com a moça não lhe trará a fortuna desejada. Como antecipa o pai, Morris é um caçador de dotes.

Ao longo do filme, sobretudo em sua primeira parte, Wyler não deixa ver as intenções da personagem de Clift, ou simplesmente prefere não julgá-la: talvez – ainda que seja difícil afirmar – não fosse diferente de tantos outros rapazes de seu tempo.

Seu meio social permite-lhe naturalidade, e o que o importa é a situação financeira. O pai, no jeito cínico, contido e perfeito de Richardson, enxerga isso com facilidade. Em seus tropeços, a menina custará a enxergar. Ao recrudescer, refletirá o próprio pai.

(The Heiress, William Wyler, 1949)

Nota: ★★★★☆

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Dez ganhadores do Oscar protagonizados por mulheres

Os filmes de Roy Andersson

Dono de um cinema artesanal, feito com calma e precisão para compor seus quadros, Roy Andersson foi descoberto por muita gente apenas mais tarde, com o sucesso de sua Trilogia do Ser Humano, iniciada em 2000. Ele próprio confessou o desejo de realizar filmes mais realistas no início da carreira, depois se dedicando ao abstrato.

E mesmo quando realista, como no poderoso Uma História de Amor Sueca, o realizador traz o pior dos homens, suas besteiras e desumanidade. Filmografia curta e poderosa.

Uma História de Amor Sueca (1970)

História de amor entre dois jovens. O garoto convive com seu grupo – meninos de jaqueta de couro, motos, cigarros na boca – e certo dia esbarra na menina. Entre descobertas, brigas e problemas familiares, o casal segue unido. O ponto alto é o momento em que o menino vai embora, para deixar tristeza na face da bela Ann-Sofie Kylin.

auma história de amor sueca

Giliap (1975)

Após o sucesso do filme anterior, Andersson encontrou o fracasso de crítica e público com Giliap. Trata-se de um longa interessante, com altos e baixos. Giliap (Thommy Berggren) começa a trabalhar em um restaurante como garçom, faz amizade com tipos estranhos que passam por ali e mais tarde se envolve com uma funcionária do local.

giliap

Mundo de Glória (1991)

O diretor fez um documentário, curtas e peças publicitárias após o fracasso de Giliap. Um desses trabalhos – que já define a estética vista mais tarde na Trilogia do Ser Humano – é esse belo curta-metragem, com profundidade de campo, câmera fixa, atuações pouco naturais e críticas à sociedade que se comporta como morta-viva.

mundo de glória

Canções do Segundo Andar (2000)

A primeira e poderosa parte da Trilogia do Ser Humano traz um bando de pessoas – boa parte delas de passagem – em meio ao caos urbano, indiferente aos outros, em ritos que beiram o grotesco. Nem tudo é explicado. A crítica de Andersson embrenha-se no irreal: para ele, situações impossíveis ajudam a compreender o que é ser humano.

canções do segundo andar

Vocês, os Vivos (2007)

Um pouco mais leve, mais engraçado, novamente no campo do absurdo, com suas personagens confessando sonhos, depois inclinadas à dura realidade. Uma professora deixa que os alunos vejam sua fraqueza e chora, uma menina sonha em casar com um guitarrista, uma banda ensaia a trilha daquelas passagens, aviões preparam um ataque.

vocês os vivos

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (2014)

Com um intervalo de sete anos entre uma parte e outra, Andersson chega ao capítulo final de sua trilogia. Segue as mesmas regras, com a mesma forma, e permite ver um trabalho coerente, sem dúvida autoral. De novo com sequências reais e outras delirantes, realiza aqui o melhor dos três. Leão de Ouro no Festival de Veneza.

um pombo pousou num galho

Veja também:
A Trilogia do Ser Humano, de Roy Andersson