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Victoria, de Sebastian Schipper

O desafio de fazer um filme em um único plano-sequência impõe o duelo com o espaço e o tempo. O roteiro deve estar a serviço de cada instante, já que o corte não é permitido e, por consequência, a impressão de continuidade em diferentes quadros.

Desafio proposto por Sebastian Schipper em Victoria, feito inteiro em um único “mergulho”, de uma festa, em uma casa noturna berlinense, a uma manhã simples, com a rua vazia, pela qual caminha a protagonista e personagem-título.

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O plano-sequência deixa a impressão de que o filme nutre-se do tempo perdido: é a ideia de que cada pequena partícula poderia ajudar a compreender mais as personagens, menos o que se deseja contar. Como Victoria (Laia Costa), esses seres mostram-se também nas banalidades, nos pequenos gestos. O filme custa a “começar”.

É sobre uma noite com Victoria, sempre feliz, permissiva, fugaz. Ela deixa-se levar pelos rapazes, aceita praticar um crime. Sequer sabe do que se trata aquela ação noturna: eles simplesmente pedem sua ajuda e ela aceita dirigir o carro para o bando.

Terminam em uma garagem ao lado de homens armados. Um dos novos amigos tem uma dívida da época em que esteve preso e precisa pagá-la. O preço é o assalto a um banco, no começo da manhã, ação da qual Victoria não pode se livrar.

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Com o plano-sequência, segue-se para dentro do carro, para as pequenas frestas, para as sombras – nem sempre se vê tudo com clareza, o que não deixa de ser proposital. O mundo trepida e escurece demais, um pouco confuso como a vida parece ser.

Essa falta de clareza impõe estranhos obstáculos: não se pode saber muito, nem passado nem futuro. Só se tem o instante seguinte – à exceção da parca história de Victoria, sobre sua infância em um internato, o que ajuda a entender por que aceita as condições dadas com facilidade e a visão da beleza onde não há.

A personagem é também a estrangeira, a estranha que tenta falar a língua dos outros e quase nunca tem sucesso. A suposta inocência não demora a perder espaço: Victoria envolve-se com os criminosos, traça planos para escapar da polícia.

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Fica entre a inocência e a bandidagem, levada ao sonho, ou a um jogo de videogame alucinado – o que também faz pensar nessa noite como pesadelo, com corridas e a dificuldade de dizer “não”, apenas parar e não fazer nada.

A entrada da trilha sonora marca uma transformação, ou apenas assinala o entrosamento entre personagens, como se passassem a compor o mesmo espaço. A música é ouvida apenas pelo público. É a maneira de Schipper dizer que as figuras da tela são dignas do drama verdadeiro, e não é necessário conhecê-las a fundo para crer nisso.

O que dita a força é sempre a velocidade, a falta do pensar, a agitação. A parte final passa-se em um hotel, local perfeito às pessoas de passagem, aos estrangeiros que não se entendem. A eles, restam apenas trombadas.

Nota: ★★★☆☆

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Bastidores: Arca Russa

Em Hitchcock, o tempo do filme corresponde ao tempo da narração. Com Sokurov, o tempo da filmagem é o tempo do filme, mas não daquilo que é contado. Ele pressupõe uma espécie de tempo anterior, primordial, em que história e cinematografia se combinam. Não há quebras: a única ruptura é a definitiva, quando o filme se conclui e as luzes do cinema se acendem. Por uma coincidência voluntária, o término do filme mostra a grande ruptura da história russa moderna, ou seja, o fim do fastígio da corte dos czares trazido pela revolução.

Jorge Coli, professor de História da Arte, na Revista Bravo! (março de 2003; pg. 59). A análise, escrita na ocasião do lançamento do filme de Aleksandr Sokurov no Brasil, aborda também Festim Diabólico, de Hitchcock, feito com apenas alguns cortes ocultos. No caso da obra de Sokurov, são 92 minutos sem um único corte. Abaixo, Sokurov (à direita) comanda sua equipe.

arca russa

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Dez grandes filmes feitos com ‘partes chatas’ da vida

É importante explicar o que a lista significa. As tais “partes chatas” estão longe de significar algo maçante, ou o chamado “filme parado”. Elas são o contraponto à narrativa clássica americana, na qual “algo” sempre precisa estar acontecendo, movendo a história.

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O blog já trouxe uma análise sobre a questão (leia aqui). A ideia partiu de Hitchcock, adepto à narrativa clássica, ao cinemão, que teria dito que o cinema é a vida sem suas “partes chatas”. Esta lista comprova a grandeza que essa “chatice” pode conter. E é verdade que existem milhares de filmes que poderiam servir de exemplo. A lista abaixo apenas pinça algumas grandes obras com espaço garantido na história.

Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini

A parte final é extraordinária e explora o tempo do menino: ele circula sozinho pela cidade em ruínas, tenta fazer amizade com outros jovens que jogam bola e ouve o som do piano vindo da igreja. Tudo isso antecede a tragédia, enquanto Rossellini faz o espectador sentir o tempo – sem que seja maçante ou sem profundidade.

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O Eclipse, de Michelangelo Antonioni

O tempo, ao fim, será novamente sentido, mas também no início – quando a personagem central, interpretada por Monica Vitti, conversa com o companheiro – e em outros momentos da obra. De novo, o encerramento: há a cerca de madeira, o tambor, as estruturas de metal, a água que escorre – cada parte indispensável dessa cidade vazia.

o eclipse

Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

Sobre nada e ao mesmo tempo sobre tudo. O filme de Akerman é um dos melhores exemplos da exploração do cotidiano, do controle absoluto da narrativa, da personagem que dispensa a narração, a palavra perdida. O drama ainda assim persiste, à vista, à medida que ela passa por diferentes cômodos e recebe alguns homens em casa.

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A Cidade das Tristezas, de Hou Hsiao-hsien

O diretor fez outros grandes filmes sobre a passagem do tempo, em geral sobre a relação de personagens com suas famílias, sobre as transformações, sempre com perdas familiares. Como Poeira no Vento, da mesma época, o cineasta prende-se às vezes às partículas e toma sempre alguma distância para compor um magistral painel de vidas.

a cidade das tristezas

Sátántangó, de Béla Tarr

O filme de Tarr é grande em todos os sentidos. Tem sete horas de duração. Inicia com um plano-sequência que leva alguns minutos, com a câmera perseguindo o gado que se movimenta. Explora-se, sem surpresas, o tempo. Algumas vidas surgem por ali, em ambiente rural, e passagens chegam a gerar mal-estar devido à situação das pessoas.

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Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

O filme dentro do filme inclui um homem apaixonado. Fora do filme, ele também ama essa mulher, mas só pode se aproximar dela quando a cena tem início, ou mesmo em alguns intervalos. E sempre é ignorado. É talvez o maior Kiarostami, a fechar uma trilogia que inclui Onde Fica a Casa de Meu Amigo? e E A Vida Continua.

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Taurus, de Aleksandr Sokurov

Em sua segunda parte da Tetralogia do Poder, o russo contempla, com calma, a fase final da vida do líder Lenin. Em cena está o homem simples, doente, preso a uma casa de campo, em momentos íntimos. Á frente, ele receberá a visita de Stalin. Nada chegado ao cinema de montagem, Sokurov está mais próximo de Andrei Tarkovski.

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Eternamente Sua, de Apichatpong Weerasethakul

Os créditos de abertura só aparecem mais tarde, com 40 minutos de filme. A essa altura, o casal jovem, ao centro, foge à floresta, talvez em busca de liberdade. Com esse filme reflexivo, de passagens longas, o diretor tailandês inscreve seu nome entre os grandes do cinema atual. Saiu de Cannes com o prêmio da mostra Um Certo Olhar.

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Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu

Fita policial diferente de qualquer outra, sobre um policial em uma investigação. Em seu trabalho diário, fica horas a esperar a saída do investigado, um garoto que estaria envolvido com o tráfico. Trata-se de um dos melhores filmes do novo e surpreendente cinema romeno. O diretor realizou antes a bela comédia A Leste de Bucareste.

polícia adjetivo

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

No Recife, Brasil, diversas personagens encontram-se em um bairro nobre, próximo ao mar. O crítico e diretor Mendonça Filho evoca a relação entre diferentes classes e mostra como a senzala sobreviveu aos tempos de condomínios de luxo. Os conflitos ganham destaque quando alguns homens aparecem no bairro e oferecem segurança aos seus moradores.

o som ao redor

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Dez planos-sequência inesquecíveis

Pode, para alguns, parecer navegação. Para outros, uma simples andança. Ou ainda um mergulho, uma processo de fluidez sem cortes. Nas mãos de grandes diretores, a possibilidade de invenção: levar o espectador a momentos inimagináveis e de rara beleza. Abaixo, dez planos-sequência que estão entre os melhores já feitos.

10) A caçada no estádio (O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella)

9) A Caminhada (Sátántangó, de Béla Tarr)

8) A chegada no restaurante (Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese)

7) O assalto ao banco (Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis)

6) Fuga na estação (O Pagamento Final, de Brian De Palma)

5) Incêndio lá fora (O Espelho, de Andrei Tarkovski)

4) Dentro do estúdio (O Jogador, de Robert Altman)

3) Através da janela (Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni)

2) Funeral (Eu Sou Cuba, de Mikhail Kalatozov)

1) Na fronteira (A Marca da Maldade, de Orson Welles)