Peter Finch

Sete filmes sobre o mundo louco da televisão

A lista abaixo vai além da televisão. O meio de comunicação é a deixa para invadir o mundo moderno: gente com uma câmera no interior da cabeça, ou que teve a vida toda gravada, por décadas, sem saber da farsa. Há vilões e seres estranhos, pessoas que fazem tudo pelos sonhados números de audiência ou apenas para conquistar o sucesso e colocar o rosto na tela. O espetáculo pode ser repulsivo.

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Rede de Intrigas, de Sidney Lumet

É provavelmente o filme mais famoso a abordar a caixa de imagens. Ao centro, um homem (Peter Finch) enlouquece e se torna o novo profeta do horário nobre. A ele é dado muito poder, o que se torna um problema. Ao vivo, fala demais e faz sucesso: diz verdades que o público deseja ouvir, também os podres de seu próprio meio.

rede de intrigas

A Morte ao Vivo, de Bertrand Tavernier

Uma famosa editora (Romy Schneider) é seguida por um homem (Harvey Keitel) com uma câmera no interior da cabeça. Ela assina um contrato para ter seus últimos dias registrados por uma emissora de tevê, em um reality show. Mais tarde, quando ela tenta fugir, o homem com a câmera persegue-a e termina descobrindo seu lado humano.

a morte ao vivo

O Rei da Comédia, de Martin Scorsese

Tem ganhado adoradores com o passar dos anos e não fez o sucesso merecido na época de seu lançamento. Além de Robert De Niro, o elenco conta com Jerry Lewis em papel sério. Apesar do título, é drama. Narra a história de Rupert Pupkin (De Niro), que sequestra um apresentador de televisão para tomar seu lugar e ter sua noite de fama.

o rei da comédia

O Show de Truman, de Peter Weir

Todos os passos de Truman (Jim Carrey) são registrados pela câmera. Seu mundo – uma pequena cidade tipicamente americana – é um estúdio de televisão. Ele é vigiado. Não fossem os naturais desvios humanos, a insistência em escapar do roteiro moldado para sua vida, Truman terminaria como desejavam os produtores: um alienado.

o show de truman

Reality – A Grande Ilusão, de Matteo Garrone

O vendedor de peixes Luciano (Aniello Arena) sonha em participar da versão italiana do programa Big Brother. À medida que cresce sua expectativa em relação ao show, ele passa a acreditar que está sendo constantemente vigiado por seus realizadores. A consequência é uma personagem à beira da loucura.

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O Abutre, de Dan Gilroy

O protagonista, interpretado por Jake Gyllenhaal, transforma-se em grande vilão quando descobre uma maneira de ganhar muito dinheiro: captar imagens de acidentes e crimes em Los Angeles. O belo filme de Gilroy questiona a falta de limites do jornalismo quando se busca, a qualquer custo, bons números de audiência.

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Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster

Mesmo com pouca ousadia, o filme de Foster gera boas doses de emoção e tem um roteiro ágil. Narra os momentos em que o apresentador Lee Gates (George Clooney) é feito refém por um rapaz (Jack O’Connell) que perdeu tudo na Bolsa de Valores ao seguir uma de suas dicas, em um programa de nome sugestivo: Money Monster.

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O Abutre, de Dan Gilroy
Cinco momentos inesquecíveis de Rede de Intrigas

Cinco momentos inesquecíveis de Rede de Intrigas

Rede de Intrigas é o melhor filme já feito sobre o mundo da televisão. E é o melhor filme de seu diretor, Sidney Lumet. Com um roteiro afiado de Paddy Chayefsky e um elenco em seus melhores dias, Lumet compõe a loucura de seu tempo, quando o jornalismo comprometido perdia espaço e dava vez ao espetáculo barato.

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Continua verdadeiro e até atual: retrata a busca desenfreada pela audiência. Por ela, permite-se tudo, ou quase: a aliança da emissora com grupos criminosos, um homem enlouquecido à frente de um programa popular e até mesmo um crime ao vivo. Lumet apresenta assim as regras – ou a falta delas – desse grande circo consumido por milhões.

Suicídio anunciado

O apresentador do programa, um tal Howard Beale (Peter Finch), precisou anunciar o próprio suicídio, em cadeia nacional, para voltar ao centro do jogo: passou assim de coadjuvante em fim de carreira à profeta da televisão. Suas doses de loucura não o retiram de cena. Ao contrário. Uma produtora sedenta por audiência, Diana Christensen (Faye Dunaway), vê nele a possibilidade de salvar as finanças da empresa.

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“Não vou suportar isso!”

O grito do profeta, repetido várias vezes, tem desespero e toca o espectador: “Estou muito bravo e não vou mais suportar isso!”. Sinal dos tempos. É da América maluca que fala Lumet nesse grande filme. Ao proferi-lo, o profeta pede que os outros gritem alto, para fora de suas janelas. É prontamente atendido. Para o delírio de Christensen – e para a estranheza do amigo Max Schumacher (William Holden) –, a audiência vai às alturas.

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Orgasmo

Enquanto parece levar Max ao amor de juventude, quando correm ao quarto para fazer sexo, Christensen não para de falar sobre televisão. Torna-se uma máquina de informações e números. À medida que o plano de sucesso dela ganha mais e mais detalhes, a tensão sexual também aumenta. Culmina no orgasmo. É um entre outros momentos geniais do roteiro de Chayefsky, ganhador do Oscar.

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Despedida

Os poucos minutos Beatrice Straight são inesquecíveis. Momento forte em que ela, mulher de Max, recebe a notícia do próprio sobre sua relação extraconjugal – justamente com Christensen. “Diga alguma coisa, pelo amor de Deus”, pede a mulher. “Não tenho nada a dizer.” Pouco depois, ela ainda o questiona sobre os sentimentos da outra. O roteiro dessa relação, ele diz, está pronto. A outra não tem sentimentos.

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Fim do show

Quando Howard deixa de apresentar os números desejados pela emissora e passa a ser um problema ao falar o que pensa, os graúdos de sua empresa bolam um plano para retirá-lo de cena. Desenha-se um crime ao vivo, com a ajuda de um grupo comunista. Com a montagem paralela, o espectador assiste à reunião entre os executivos e à execução do crime, passado e presente, em encerramento brutal e revelador.

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Os 100 melhores filmes dos anos 70

16 grandes duplas indicadas ao Oscar na mesma categoria

Ao longo de décadas, atores de um mesmo filme disputaram diversas vezes entre si a sonhada estatueta do Oscar. São confrontos memoráveis. Com tamanho peso, nenhum deles terminou como coadjuvante (ainda que Barry Fitzgerald, em 1945, seja uma exceção, quando foi indicado como ator e ator coadjuvante pelo mesmo papel, ganhando na segunda categoria).

Duplas excelentes, grandes interpretações. Por outro lado, tais casos são cada vez mais incomuns: a última vez em que uma dupla dividiu a mesma categoria ocorreu em 1992. Desde então, os estúdios têm optado em indicar atores com peso de protagonista como coadjuvantes. A intenção é faturar mais prêmios. Ou alguém acredita que Jake Gyllenhaal, em O Segredo de Brokeback Mountain, e Rooney Mara, em Carol, são coadjuvantes?

Barry Fitzgerald e Bing Crosby em O Bom Pastor (1944)

Quem venceu? Bing Crosby

o bom pastor

Anne Baxter e Bette Davis em A Malvada (1950)

Quem venceu? Judy Holliday em Nascida Ontem

a malvada

Burt Lancaster e Montgomery Clift em A Um Passo da Eternidade (1953)

Quem venceu? William Holden em O Inferno Nº 17

a um passo da eternidade

James Dean e Rock Hudson em Assim Caminha a Humanidade (1956)

Quem venceu? Yul Brynner em O Rei e Eu

assim caminha a humanidade

Sidney Poitier e Tony Curtis em Acorrentados (1958)

Quem venceu? David Niven em Vidas Separadas

acorrentados

Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn e De Repente, No Último Verão (1959)

Quem venceu? Simone Signoret em Almas em Leilão

de repente no último verão

Maximilian Schell e Spencer Tracy em Julgamento em Nuremberg (1961)

Quem venceu? Maximilian Schell

o julgamento de nuremberg

Peter O’Toole e Richard Burton em Becket, O Favorito do Rei (1964)

Quem venceu? Rex Harrison em Minha Bela Dama

Becket

Dustin Hoffman e Jon Voight em Perdidos na Noite (1969)

Quem venceu? John Wayne em Bravura Indômita

perdidos na noite

Laurence Olivier e Michael Caine em Jogo Mortal (1972)

Quem venceu? Marlon Brando em O Poderoso Chefão

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Peter Finch e William Holden em Rede de Intrigas (1976)

Quem venceu? Peter Finch

rede de intrigas

Anne Bancroft e Shirley MacLaine em Momento de Decisão (1977)

Quem venceu? Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

momento de decisão

Albert Finney e Tom Courtenay em O Fiel Camareiro (1983)

Quem venceu? Robert Duvall em A Força do Carinho

o fiel camareiro

Debra Winger e Shirley MacLaine em Laços de Ternura (1983)

Quem venceu? Shirley MacLaine

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F. Murray Abraham e Tom Hulce em Amadeus (1984)

Quem venceu? F. Murray Abraham

amadeus

Geena Davis e Susan Sarandon em Thelma & Louise (1991)

Quem venceu? Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes

thelma e louise

Para lembrar: Franchot Tone, Charles Laughton e Clark Gable em O Grande Motim (1935)

Caso único na história do Oscar, com três atores indicados na mesma categoria principal. Em 1936, a Academia ainda não havia criado as categorias de coadjuvante.

Quem venceu? Victor McLaglen em O Delator

o grande motim

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A morte será televisionada

A busca pela audiência faz as mulheres de Rede de Intrigas e O Abutre chegarem ao gozo: a primeira, interpretada por Faye Dunaway, delira enquanto sonha com bons números, ao lado do amante; a segunda, na pele de Rene Russo, está seduzida pelas imagens da criminalidade de Los Angeles, fornecidas por um amigo cinegrafista.

Ambas retratam essa busca insana, desenfreada, e que revela os exageros do jornalismo. Elas são capazes de qualquer coisa para prender olhos e mentes ao conteúdo apresentado.

rede de intrigas faye

Como Diana Christensen, Dunaway é o retrato da nova televisão dos anos 70. Perto dela estão alguns grandes homens que deram início a esse trabalho, homens como o correto Max (William Holden). E também seres estranhos como o apresentador Howard Beale (Peter Finch), levado a momentos de loucura e “iluminação” em seu programa.

Tal homem faz sentido nesses tempos estranhos e é tudo o que Christensen deseja: o suposto monstro que fala o que vem à mente, o novo profeta das massas.

Ela, ao contrário de Max, entende que o sucesso da emissora – que passa por momentos ruins – depende dessa nova atração. Deixam Beale dizer o que quiser, com o espaço necessário. Ele faz sua parte. Com ele, a audiência desejada.

Por outro lado, apenas números dão significado a Christensen, também o gozo. Há neles certa emoção, o que parece incompreensível a um homem de emoções antigas, de piadas em rodas de amigo, como Max, justamente o amante da nova produtora.

Mais do que sentimentos, são os números que estão em jogo. Rede de Intrigas, dirigido por Sidney Lumet e escrito por Paddy Chayefsky, é o melhor filme já feito sobre a televisão justamente porque não renuncia nunca às emoções.

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As personagens de O Abutre, por sua vez, não têm qualquer emoção. É a proposta – e a crítica – do cineasta Dan Gilroy, também autor do roteiro. Aos americanos em cena o que importa é empreender, é ter a sonhada empresa, é ter o lucro e os números desejados. Quase não há espaço para as emoções.

Se de um lado há o perseguidor de tragédias vivido por Jake Gyllenhaal como a face da desumanização, de outro, em Rene Russo, há a verdadeira maquiagem. Em seu papel de dama poderosa, presa às salas cheias de máquinas e imagens, ela mostra-se seduzida por tudo o que aponta ao “mundo cão” visto do lado de fora.

Ela não ama o novo colaborador vivido por Gyllenhaal. No fundo, como o espectador, ninguém poderia amá-lo. A mulher deseja apenas aquele material captado sob o risco de levar um tiro, feito tão perto da morte que é possível ver detalhes das vítimas.

Com essas mulheres, o circo midiático ganha outra face: elas provocam o espectador à medida que parecem frágeis, ou à medida que deixam surgir seus orgasmos.