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A Professora de Piano, segundo Isabelle Huppert

No caso de A Professora de Piano, não sou de bancar a falsa modesta, sei que tenho a capacidade de interpretar algo bastante opaco e, ao mesmo tempo, muito frágil. Muito do sucesso obtido pelo filme se deve à opacidade, à hipótese de uma violência, de uma brutalidade, mesmo de uma monstruosidade. Se interpreto Medeia ou A Professora de Piano, não faço nunca economia de monstruosidade, da maldade que há nesses personagens, e sei onde colocar a fragilidade, onde está o ponto de ruptura no qual podemos nos reconhecer. Isso é o essencial.

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É a história de alguém que de nenhuma maneira quer ser considerado como objeto sexual, que quer ser mestre de seu desejo, de seus sentimentos, de seu amor. Como atriz me senti bastante protegida por tudo isso. Não me sentia como um brinquedo, nem do diretor, do ator com quem contracenava ou mesmo do tema do filme. Foi um papel adulto para mim. Não era simplesmente um sofrimento mudo, era algo bastante ativo.

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A personagem de A Professora de Piano é alguém que reflete, calcula, e que habita seu cálculo. É um filme sobre o controle e a perda de controle. Num certo momento, ela perde o controle de algo que quer evitar, mas não consegue.

Isabelle Huppert, atriz e protagonista de A Professora de Piano, de 2001, dirigido por Michael Haneke, em entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg no livro Entre Aspas volume 1 (L± pgs. 322, 323 e 324).

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O novo Bond

O homem rochoso de Daniel Craig, que bate antes e fala depois, tem mais complexidade do que se poderia pensar. Talvez o ator não dê conta da profundidade, com os contornos de sua própria história em meio às agitadas sequências de ação.

A partir de Cassino Royale, de 2006, com a entrada de Craig, James Bond deixou ver um pouco mais seu interior: o roteiro de Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade, a partir da obra de Ian Fleming, investe em seus sentimentos, em seu passado, e deixa pistas que, mais tarde, seriam exploradas novamente.

quantum of solace

Pode parecer pouco – muito pouco – perto das doses de aventura, ou dos diálogos com inúmeras informações enlatadas, rápidas. Basta piscar para perdê-las.

Nos filmes que retomam a franquia, a partir de 2006, a ação eclipsa o charme do velho Bond, uma de suas marcas registradas. E Craig, por isso, não deixa de ser a escolha certa. Seu passado apenas se anuncia, sem ganhar maior destaque.

Em Cassino Royale, Vesper (Eva Green) chega perto de definir Bond, no primeiro encontro de ambos. Ele também tenta defini-la. Bond, como são os agentes secretos, não tem pátria, vive como andarilho pelo mundo – e, por isso, é órfão.

E talvez seja assim, também, em sua vida privada, desconhecida ao espectador. Na verdade, sequer tem vida privada: seu lado privado também inclui trabalho, pois o agente sempre encontra tempo para ir para a cama com algumas das mulheres que vigia. Vida priva e pública, prazer e trabalho – tudo se confunde.

cassino royale

Entre um país e outro, ele encontra tempo para entrar na casa de sua “mãe”, sua mestra, M (Judi Dench), para acessar o computador dela e encontrar ali alguns dados importantes. É, como se vê, o filho rebelde, despregado, que não deseja agradar.

A única coisa que sabe é fazer seu trabalho, e não se sabe ao certo por que nunca se corrompe – como outros. Bond, rochoso, nada deixa ver além de pequenas partes. Pode amar alguém, como amará Vesper, mas tem problemas em demonstrar isso.

Em Quantum of Solace, ele sempre hesita em declarar para M sua necessidade de acertar as contas com o passado. Para a “mãe”, pode significar a existência de uma concorrente. E, em Cassino Royale, o que faz Bond quando começa a amar de verdade? Deixa o trabalho e sua pátria – talvez a verdadeira mãe, a Inglaterra.

Alguns vilões oferecem um delicioso contraponto ao Bond de Craig – e nenhum deles supera o Silva de Javier Bardem, em Operação Skyfall. A começar pelo jeito efeminado e falador – outro filho rebelde, que volta para matar a “mãe”, e não sem causar confusão à velha pátria.

skyfall

Quantum of Solace começa no exato ponto em que termina Cassino Royle. Há algumas pontas soltas na trama. Os diretores e roteiristas têm pressa. O vilão de Mathieu Amalric é o falso moralista em busca do lucro; depois, com Silva, o vilão assume o lado doentio, mais inclinado a causar o mal do que lucrar. A luta com Bond ganha outro contorno.

Entre socos e explosões, o passado do herói força sua própria entrada: em Operação Skyfall, ele termina no início, ponto em que começa sua história, local em que cresceu, com armas antigas, com velhas maneiras de vencer o inimigo, armado até os dentes com o que há de mais moderno no mundo dos terroristas.

A ação não pode ser culpada pela aparente falta de relevo de Bond. Faz parte do jeito de James, ou de Bond, que não deseja se revelar. Talvez seja ele o mistério da série.

Veja também:
007: Operação Skyfall, de Sam Mendes

Personagem de uma vida

O interesse do público na minha atuação como Rhett Butler me intrigou. Eu era o único que, aparentemente, não achava que seria um grande sucesso. Eu encontrei-me preso por uma série de circunstâncias sobre as quais eu não tinha controle. Foi uma sensação engraçada. Acho que sei agora como uma mosca deve reagir depois de ser pega em uma teia de aranha. Scarlett nem sempre ama Rhett. Foi a primeira vez em que uma menina não tem certeza se ela me deseja a partir do momento que põe os olhos em mim.

Clark Gable, sobre sua personagem no clássico E o Vento Levou, de 1939.

e o vento levou