perseguição

A morte no cinema de Michel Franco

A morte produz diferentes consequências em dois filmes de Michel Franco, Depois de Lúcia e Chronic. No primeiro, a morte não é vista, mas provoca silêncio e separação entre pai e filha; no segundo, a morte tem efeito oposto: é o que dá sentido à vida do protagonista, o que o faz se aproximar de seus pacientes e até tentar viver suas vidas.

É de comunicação, ou de sua falta, que tratam esses filmes frios e cruéis. Cineasta mexicano, Franco não poupa doses de mal-estar. Os abusos, o estupro, toda a humilhação da protagonista de Depois de Lúcia, Alejandra (Tessa Ia); ou os movimentos do enfermeiro, o protagonista de Chronic, lidando com seus pacientes terminais.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

No primeiro, a morte provoca a mudança. Outra cidade, outra casa, outras amizades. O que poderia ser um novo começo para Alejandra converte-se em pesadelo: certa noite, em uma festa adolescente, ela faz sexo com um rapaz e o ato é registrado por um celular.

O pior é previsível: o vídeo cai na internet e Alejandra torna-se, da noite para o dia, a “menina fácil” da escola, a ser atacada por todos, de todos os lados. Franco revela a intolerância entre jovens. Mais ainda, a crueldade como maneira comum ao lidar com o outro, como algo engraçado, o que leva o longa às raias do insuportável.

O pai, como a filha, não se comunica. Triste, ele foge, move-se para qualquer lugar. É visto abandonando o carro, ainda no começo. Trata-se do veículo no qual sua mulher morreu. A câmera de Franco – a começar pela abertura – prefere o imobilismo, o quadro aberto. Personagens cruzam a imagem; não há aparente dramaticidade ou envolvimento.

Mero engano. O drama é feito à lentidão. A frieza causa repelência ao mesmo tempo que atrai: o espectador sente pena e um pouco de ódio de Alejandra. Por que ela não faz algo, não revela os abusos que sofre? A crueldade, tão indefinida, tão difícil de compreender, é como seu silêncio: pertence a um universo estritamente adolescente.

Nesse meio as regras são outras. Difícil penetrar. Franco não pretende compreender esses seres, ou fazer um registro íntimo, a ponto de se “ver” o interior das personagens. As festas, regadas à bebida e maconha, são feitas de conversas sobre nada e coisa alguma, sons que se cruzam, risos perdidos – todos sob a aparência feliz, sentimento de fazer parte.

Em Chronic, o diretor move a história ao contato físico, aos gestos de intimidade que se reproduzem no trabalho da personagem. O enfermeiro David (Tim Roth) ama o que faz. Não vive sem o contato com os doentes terminais que atende. Sua rotina é banhada ao mesmo silêncio que a de Alejandra, o que torna o movimento brusco algo inesperado.

Em seu caso, a dor, o vômito, a sujeira do corpo a ser retirada com banho. Franco, vê-se, não tem qualquer pressa: seu cinema de crueldade é, antes, sobre a passagem do tempo, para então se extrair a força da misè-en-scene. Tanto Depois de Lúcia quanto Chronic só deixam ver suas intenções após o primeiro terço. Antes há apenas mistério.

Nos dois casos, o estado de um mundo em lentidão, real, difícil de suportar, no qual homens nascem à tela com dramas prontos que, ora ou outra, não com demora, retornam. Ao pai e à filha de Depois de Lúcia, a morte da mãe; ao enfermeiro de Chronic, a do filho.

Ser outro, para David, é o passo seguinte. A morte causa-lhe estranha fascinação. Sua primeira paciente, à beira da morte, vítima da Aids, é depois convertida em sua mulher – pelo menos será assim ao casal que ele acaba de conhecer em um bar. Depois, finge ser um arquiteto para descobrir o trabalho de outro paciente, também terminal.

Ao cineasta mexicano, a morte é encarada de frente, exposta sem rodeios, seguida pelas particularidades da vida real. Seu cinema de choque não poupa ninguém, retrato doloroso de seres humanos que se movem ao isolamento – no caso da abusada Alejandra – ou à necessidade do toque, do outro – no caso de David.

(Después de Lucía, Michel Franco, 2012)
(Idem, Michel Franco, 2015)

Notas:
Depois de Lúcia:
★★★☆☆
Chronic: ★★★☆☆

Foto 1: Depois de Lúcia
Foto 2: Chronic

Veja também:
O Insulto, de Ziad Doueiri

Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright

Os movimentos de Baby, pela rua, enquanto busca café para sua equipe de ladrões, fornece dados suficientes sobre a personagem em questão: trata-se de alguém desconectado do universo comum, dos carros e dos prédios, dos manifestantes, do perigo que ronda. Torna assim sua passagem mais leve, ainda que precise crescer ao longa da jornada.

E crescer, no esperto Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright, significa passar para o outro lado, confrontar homens armados, assassinos, damas perigosas, tomar a estrada e fugir para lugar algum com a garota dos sonhos. Sim, o crescimento de Baby, personagem de Ansel Elgort, ainda embute um pouco de sonho – e não dispensa sua trilha sonora.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A música, por sinal, embala o filme. A edição é pautada nela, do início ao fim, das arrancadas à lentidão do tom da mixagem, entre a vida e a morte de um capanga qualquer, após um banho de sangue. A trilha movimenta Baby e leva o filme ao ritmo que Wright deseja imprimir. Mas não só: há também a harmonia das cores, o universo que se desenha para Baby – ou que ele mesmo desenha -, assumidamente artificial.

Baby é o melhor no seu ofício. Ele dirige para criminosos. É a peça importante que fica do lado de fora do banco, aquela que sempre vê, com medo, um carro de polícia passar de um lado para outro – enquanto canta e dança, enquanto tenta encontrar a música para a ocasião.

Trabalha para o poderoso Doc, interpretado, não por acaso, por Kevin Spacey. Se Elgort sintetiza o menino que não se transformou em homem, com iPod, jaqueta esporte e óculos escuros, Spacey é alguém que já viveu tudo. O bandido sob a fachada do homem de negócios. Ou a do político, a do apostador de Wall Street, o camaleão.

Doc representa tudo o que Baby não deseja ser: é, como se prevê, alguém fadado ao figurino do empresário em jantares caros, o estrategista que, no fim da corrida, fica com a maior parte do dinheiro apenas para dar ordens. O mundo de homens como Doc – e também de alguns outros criminosos que passam pela tela – exclui trilha sonora. Escuro, apagado.

A história de Baby logo vem à tela. O rapaz ainda não conseguiu se despregar do espírito da mãe. Ainda é um bebê – mesmo que tal ligação possa parecer pura forçação de barra. Ainda pequeno, ele sofreu um acidente de carro enquanto seus pais discutiam. Do acidente ficou um zumbido que ele tenta ocultar com o iPod ligado o tempo todo. À tragédia recaem o mundo em cores, as músicas, o olhar de Baby.

Logo encontra a menina perfeita. Não poderia ser diferente. A garçonete de dentes um pouco saltados, com olhar e pinta de princesa, por sinal a atriz que interpretou Cinderela na versão mais recente, Lily James. E encontra os bandidos de sempre, os matadores que insistem em tornar seu universo mais real – entre um assassinato e outro, enquanto fogem.

Wright constrói um mundo harmonioso – de momentos engraçados e toques idiotas, no qual nenhuma peça está fora do lugar – com inegável maestria. Seu trunfo é ser infantil e ousado ao mesmo tempo. Como no engraçado Homem-Formiga, que ele escreveu, a ideia é voltar ao universo aparentemente indolor dos brinquedos. Ao trenzinho, no caso do super-herói, ou aos carrinhos que Baby e Doc gostam de manusear.

Citados pela crítica, os “toques de Tarantino” não fazem sentido. Em Ritmo de Fuga, ainda que com explosões de violência, não recorre à saturação do diálogo – só para ficar em uma (talvez a principal) característica do autor de Pulp Fiction. Wright prefere a disposição perfeita das peças no tabuleiro, o ritmo e a música ideais para a ocasião, o herói inesperado e os vilões que tentaram ser Jordan Belfort e não conseguiram.

(Baby Driver, Edgar Wright, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Homem-Aranha: De Volta ao Lar, de Jon Watts