Peppermint Frappé

O cinema político e a censura, segundo Carlos Saura

Embora pareça um lugar-comum, todo filme no fundo é político, pelo menos em certo sentido. Basta olharmos para uma página de espetáculos para vermos que todos os filmes são políticos: uns por omissão, outros por alusão, outros por evasão… Mas pondo isto de lado, creio ser possível fazer um cinema diretamente político. E mais, gosto do cinema francamente político; o que sucede é haver uma impossibilidade quase total de fazê-lo, e por outro lado talvez até nem haja diretores capazes disso.

(…)

A censura é um problema. Mas existe, está aí e todos o sabemos. É uma monstruosidade, um contra-senso e além disso a censura é gratuita e inútil. É terrível como destrói coisas que, vistas depois, se mostram inócuas. Até que ponto ela influi no trabalho de um diretor, o obriga a criar uma linguagem, a procurar formas de expressão? É difícil responder a isso. O que é evidente é que a censura obriga a buscar a maneira de contar as coisas fazendo rodeios. Esta necessidade de evitar os fatos sem iludi-los, obriga a procurar formas narrativas e histórias que pouco a pouco moldam a personalidade do autor e seu modo de fazer cinema. Contudo, em certas circunstâncias, essa é a única maneira.

Carlos Saura, cineasta, em entrevista a Cinema Contemporâneo, volume 38 da Biblioteca Salvat de Grandes Temas (Salvat Editora; pgs. 18 e 19). Abaixo, Geraldine Chaplin em Peppermint Frappé, de Saura.

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Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

O reino de máscaras e cópias encontra no cinema um espaço privilegiado. São muitos os filmes que fazem essa abordagem, com personagens divididas, a confrontar o outro, estranho e não raro inerente. A lista abaixo traz filmes de diferentes épocas, alguns baseados em autores famosos, levando o espectador a labirintos e sem respostas fáceis.

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O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

O diretor Stroheim interpreta a personagem-título, ventriloquista que entra em confronto com seu próprio boneco, Otto, sua outra face, seu contato com o mundo feito de festas e amores, de sequências musicais nos palcos da Broadway. Dois lados de um mesmo homem, cujo embate poderá levá-lo à miséria, também à loucura.

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O Médico e o Monstro, de Rouben Mamoulian

A clássica história baseada no livro de Robert Louis Stevenson. Fredric March ganhou seu primeiro Oscar como Henry Jekyll e o oposto, o senhor Hyde, o homem e o monstro, sob os cenários e a câmera subjetiva utilizada na abertura – e segunda a qual todos os espectadores também se tornam parte daquele homem, ou daquela criatura.

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O Homem que Nunca Pecou, de John Ford

Filme menos lembrado do mestre Ford, com Edward G. Robinson em papel duplo: o funcionário padrão que nunca chega atrasado ao trabalho, também o bandido mais temido na cidade. Claro que as duas figuras a certa altura se encontrarão, e claro que a provável troca de papéis gerará situações curiosas. Vale a descoberta.

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Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

Após não conseguir salvar a mulher amada, o detetive de James Stewart vê a possibilidade de transformar “outra” mulher na anterior. Aos poucos, ele descobre que se trata da mesma. Obra-prima de Hitchcock com Kim Novak na pele da loura misteriosa Madeleine Elster e, depois, na da morena Judy Barton.

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Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

O próprio Bergman considerava Quando Duas Mulheres Pecam – ou Persona, como é também conhecido – um de seus filmes mais completos. É o encontro de duas mulheres, depois isoladas em uma ilha, a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que emudeceu, e a enfermeira falante Alma (Bibi Andersson), em um poderoso jogo de máscaras.

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O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso contrata uma organização para simular sua própria morte. Ele deseja mudar de vida e se tornar mais jovem. Na nova roupagem, com seu segundo rosto, ganha a forma do galã Rock Hudson. No entanto, a mudança trará consequências. O grande thriller de Frankenheimer banha-se no clima da Guerra Fria.

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura

O título refere-se à bebida servida nos encontros das personagens. Saura aproxima-se de Buñuel, do surrealismo, com seus tambores de Calanda, e explora uma história às raias do absurdo. É sobre um homem impotente que tenta transformar uma mulher em outra, a morena em loura atraente, a exemplo do já citado Um Corpo que Cai.

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Partner, de Bernardo Bertolucci

Baseado em O Duplo, de Dostoievski, é o filme do cineasta italiano que mais se aproxima do clima político de 68, com seus jovens contestadores e a estrutura que flerta com Jean-Luc Godard. O estudante ao centro, interpretado por Pierre Clémenti, tem suas convicções abaladas quando passa a ser confrontado por seu duplo.

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Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

Antes dos extraordinários A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza, Roeg dividiu com Cammell a direção desse filme conectado com seu tempo, sobre um gângster (James Fox) que, em fuga, pinta o cabelo e termina na grande casa de Turner (Mick Jagger). Com doses de psicodelia, eles começam a se fundir.

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Irmãs Diabólicas, de Brian De Palma

A história de uma mulher que perdeu sua irmã siamesa após a separação dos corpos. Fica a cicatriz, a marca do rompimento em um filme curioso do arquiteto De Palma, sempre se banhando no universo de Alfred Hitchcock. Há o voyeurismo nas sequências da janela, quando a jornalista observa um assassinato, e também a dupla personalidade.

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Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

A personagem de Jack Nicholson, repórter desiludido, vê a oportunidade de mudar de vida: ela assume a identidade do homem no quarto ao lado, em um hotel, em um ponto remoto do globo. Antonioni volta ao campo da identidade nesse belo filme. O encerramento é inesquecível: a câmera percorre o quarto e atravessa as grades da janela.

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Três Mulheres, de Robert Altman

O filme de Altman deve algo a Quando Duas Mulheres Pecam, de Bergman, e insere ainda uma terceira figura feminina. Aborda a relação de duas mulheres (Shelley Duvall e Sissy Spacek) quando passam a trabalhar juntas em uma casa de repouso e quando uma tenta se tornar a outra. Altman, em grande momento, propõe um enigma.

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Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos de Cronenberg compartilham a mesma profissão e a mesma ciência: a ginecologia. Mas ambos expõem suas diferenças, o que aumenta o clima destrutivo, ajudado pela mulher entre eles, a misteriosa Geneviève Bujold. Um dos grandes trabalhos do diretor de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Marcas da Violência.

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A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

A ideia é curiosa: todas as pessoas teriam um duplo em algum lugar do mundo. A protagonista e sua cópia são vividas por Irène Jacob. Ainda no início, uma consegue ver a outra, em um ônibus, enquanto a segunda fotografa seu duplo sem saber. O resultado é mais um trabalho exemplar de Kieslowski, aqui em sua primeira incursão pela França.

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Clube da Luta, de David Fincher

Incluir o filme de Fincher nesta lista é correr o risco de revelar muito. Seu protagonista é alguém sem caminho (Edward Norton), que descobre na violência um novo sentido para a vida. E descobre que essa busca pode, a certa altura, ganhar proporções inimagináveis – enquanto segue atormentado pela figura de Brad Pitt.

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Cidade dos Sonhos, de David Lynch

Duas mulheres, uma loura e uma morena, faces da mesma moeda, na Hollywood delirante de Lynch. Ao que parece, começa como sonho, com a chegada de uma jovem atriz (Naomi Watts) a Los Angeles e os problemas de outra (Laura Harring), que sofreu um acidente e perdeu a memória. Para muitos, o ponto alto da carreira do diretor.

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Adaptação, de Spike Jonze

Outro sobre o mundo do cinema. Aborda as relações de um roteirista (interpretado por Nicolas Cage, e que pode ser o próprio Charlie Kaufman) com seu duplo, seu gêmeo que sempre aparece para soltar palpites sobre sua vida. Detalhe: o roteiro desse filme inventivo é assinado por Charlie Kaufman e um inexistente Donald Kaufman.

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O Rabo do Tigre, de John Boorman

O protagonista, um empresário, descobre que seu duplo vive pelas ruas e representa o outro lado do sistema capitalista em questão: é seu gêmeo que foi deixado para trás, que, diferente dele, não teve as mesmas oportunidades. A aparência kafkiana dá espaço à abordagem social. O duplo retorna para atormentar o protagonista endinheirado.

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O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve

Muitos cinéfilos consideram o filme incompreensivo, com passagens absurdas, como o encerramento com a aranha gigante no interior do quarto. Os tons pastéis salientam um clima de sonho, a cercar o público de dúvidas. E o protagonista, vivido por Jake Gyllenhaal, almeja ser como seu duplo, um ator de vida movimentada.

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Viva a Liberdade, de Roberto Andò

Político atingido por pressões de todos os lados decide desaparecer. Seu partido, na Itália, decide colocar seu irmão gêmeo no seu posto. O que poderia ser um desastre torna-se uma vitória: o outro fala o que vem à mente e logo se torna um sucesso com o eleitorado. E, como costume, há uma (dupla) interpretação acertada de Toni Servillo.

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O Duplo, de Richard Ayoade

Jesse Eisenberg serve bem à personagem, rapaz impotente que tenta se aproximar de uma bela moça (Mia Wasikowska), no trabalho, e que passa a ser atormentado por seu duplo. A cópia representa tudo o que ele não é, e talvez tudo o que sonhasse ser. Mais uma adaptação direta de O Duplo, de Dostoievski, e em um universo surreal.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Ator tenta provar que pode dar a volta por cima, com uma peça séria na Broadway, enquanto é atormentado pelo passado: a personagem que ele viveu no cinema, o herói Birdman, retorna para cobrá-lo, para salientar sua fraqueza nesse labirinto de atores, parentes, nesse meio em que todos tentam se entender e no qual tudo parece efêmero.

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura

Os tambores de Calanda, referência clara a Luis Buñuel, são inseridos em meio a uma história de obsessão, sobre um homem que tenta transformar uma mulher em outra, a morena fria em loura atraente – como em Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock.

Explicar o filme nesses termos, no entanto, é pouco para o mistério de Peppermint Frappé, de Carlos Saura. Trata-se de uma obra aberta, com um homem à beira da feminilidade e encontros em uma casa de campo regados à bebida que dá título ao filme.

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A vida sem compromissos de boa parte das personagens confronta o meticuloso Julián (José Luis López Vázquez). Obsessivo, ele está entre o trabalho como radiologista, a mesa de jogos e o pequeno altar religioso (amostra de sua subserviência). Alguém cuja quietude é quebrada com a chegada de uma mulher, a dama de Geraldine Chaplin, a loura e sofisticada Elena.

Ela também vive Ana, a enfermeira que trabalha com Julián. O homem fica entre ambas: entre a que gostaria de ter e a que poderá ter, mas que não representa seu desejo. O que ele faz, então, é transformar a enfermeira em Elena, casada com seu amigo Pablo (Alfredo Mayo) em segredo.

Em andanças, Julián diz ter visto Elena em Calanda, em uma Sexta-feira Santa na qual essa mulher batia freneticamente contra seu tambor e se divertia entre a multidão.

Como disse o próprio Buñuel em seu livro de memórias, Meu Último Suspiro, Calanda atravessa um dia todo com os tambores em pleno som. O resultado eram mãos machucadas, tambores ensanguentados. Para comprovar que Elena esteve nesse evento religioso, Julián atentar-se-á ao machucado na mão dela.

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O desejo de Saura, com os tambores e Calanda, é unir a obsessão de seu personagem à homenagem ao mestre Buñuel, com inúmeras figuras que circundam a mulher, entre elas Julián. Por isso, Peppermint Frappé tem início com recortes de revistas femininas, representação da busca da personagem central pela mulher ideal, à base de partes, nunca acabada.

Em Elena ele encontra um rascunho do que não pode ter: a mulher livre, nada a ver com seu jeito aprisionado, conservador às aparências. No fundo, deseja fazer sexo com ela, mesmo quando Pablo – o marido e bom amigo – está por perto, a apenas alguns cômodos.

Em Ana encontra seu molde: a mulher vazia, sem perspectivas, um pouco solitária. Não basta apenas torná-la loura e desejável como a outra. Necessário é lhe entregar o tambor.

Há um momento delirante no qual Elena e Pablo riem de Julián, quando ela saca um tambor e, pela ponte, bate contra o objeto em misto de desespero e graça. A imagem da mulher em Calanda – em preto e branco, a primeira que lhe vem à mente ao encontra-la – é uma ideia, desejo, sonho, não necessariamente algo real.

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A junção entre Elena, o tambor e os sons é a busca de Julián pela realização de seus desejos íntimos, no máximo do prazer.

Em Calanda, Buñuel afirmou ter ouvido, ainda um bebê de dois meses, os primeiros sons dos tambores. São sons de um passado perdido, de um desejo diluído em sonho. Não por acaso, Peppermint Frappé é definido como surrealista, com partes que rementem a Buñuel.

A bebida verde socializa e separa, alimenta e envenena. Na casa parte arrumada, parte destruída, Julián assiste ao prazer de Pablo e sofre em silêncio. Fotografa Elena enquanto ela dança entre folhas secas. A alegria é mero verniz frente ao clima frio. A bela mulher e o amigo dão vez a uma vida que renasce, ao prazer de Julián, enfim, em ter seu objeto de desejo: a mulher transformada em outra, a cópia que restou quando a original foi embora.

Nota: ★★★★☆

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