pedofilia

Border, de Ali Abbasi

Os cães são treinados para atacar, latem e estranham a protagonista de Border, com a qual dividem a mesma casa, o mesmo terreno. Será uma relação difícil, ainda que ela pareça compreender os animais, em entrega – à frente, sobretudo – à natureza. Mas os cães respondem aos homens, autores de todos os problemas, ou quase todos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A mulher tem traços animais. Descobre, mais tarde, ser uma troll, dona de capacidades especiais – tal como o faro aguçado para sentir o que está ou não na superfície dos homens. Seu sexto sentido é usado pelas autoridades na fronteira de seu país, ponto de encontro entre diferentes ou invasão à nova terra, onde nem sempre se aceita o outro.

Ela própria será transformada quando encontra seu par, um troll de olhar estranho, deslocado, que a faz se confundir: à primeira vista, crê que o mesmo carrega algo ruim, leva-o para ser revistado e descobre que é apenas outro qualquer nos limites dessa fronteira borrada. Ao achá-lo, vê-se no espelho, sabe mais sobre si mesma.

Heroína estranha para um filme estranho, da curta história de John Ajvide Lindqvist, com roteiro co-assinado pelo diretor Ali Abbasi. É a história de seres deslocados em ambientes que lhes servem à perfeição: ou na fronteira, em que a vigia e o mal-estar são contínuos, ou na floresta, lado oposto do jogo, em que todos encontram espaço para se livrarem das amarras sociais, das belezas humanas que, como se verá, podem desembocar em pedófilos.

O filme de Abbasi é difícil de definir. Sua Tina (Eva Melander) esconde sensibilidade. Vê-se mais livre quando descobre seu lado bruto, ou apenas entende que tudo faz sentido quando este aflora. No encontro com Vore (Eero Milonoff), o outro troll, passa a se alimentar das ideias do companheiro: talvez seja melhor rosnar, ser como cães.

Como guarda de fronteira, Tina aprendeu as virtudes – ou o que deveriam ser – do chamado mundo civilizado. Sob a imagem fria, trepidante, às vezes sem foco, a personagem obriga o público a olhar para o outro enquanto olha a si mesmo, ao passo que o “estranho” é o “normal”: o espelho invertido une o monstro à donzela.

Tina, deslocada, ao mesmo tempo dona de poderes especiais, descobre com Vore o ato sexual que parece estranho, até bizarro, com sua diversidade. Ela vibra, explode em desejo e alegria, nunca havia vivido algo semelhante. Esse universo (novo) não conduz a outro ponto senão ao de início. A mulher, como tantas, almeja ser mãe.

Na cidade, a protagonista encontra o falso cortês. Com sua ajuda, a polícia chega à casa em que se escondem criminosos de uma rede de pedofilia. Em algum momento, entre os menos e os mais suspeitos, todos passam pela mesma fronteira, o mesmo corredor, ao faro de Tina, aos seus olhos desconfiados, como os de um animal que pressente o problema.

Os dias de felicidade, na natureza, dão espaço às estranhezas de Vore, aos pequenos monstros que gere e guarda na casa dos fundos, ainda no terreno dela. O igual começa a parecer diferente para Tina. Os problemas do mundo urbano tocam a vida dos afastados.

O novo companheiro não pode dar a Tina o novo mundo que promete. Será apenas um passo à transformação. De tempos em tempos, ela visita o pai de criação em um asilo. Precisa encarar outras pessoas, vizinhos, gente do trabalho, ou os bandidos que ajuda a perseguir, os anônimos que vigia, dias a fio, na fronteira. Os humanos perseguem-na.

(Gräns, Ali Abbasi, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti

A insígnia é uma desculpa. Símbolo a ser perseguido, ideia de unicidade, a de um certo alemão superior. O que está em jogo, na verdade, é o poder, o que explica o olhar de dentro para fora, ou apenas para dentro, em Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti. O poder como projeto, a atropelar uma família, membro a membro.

Esta se desfaz pela podridão, enquanto seus membros disputam a direção de uma grande fábrica siderúrgica. Família rica de seres belos, cujo patriarca, velho homem, entende que não há mais como escapar da influência nazista: o partido ficou forte e, naquela noite em que confraternizam, no início, são avisados que o Reichstag foi incendiado.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Em pleno teatro em família, entre o puro e o degenerado, entre as crianças que experimentam o palco pela primeira vez e o neto pedófilo que se veste de mulher, o patriarca é avisado do incêndio. O ano é 1933. Os simpatizantes nazistas falam do fogo com certa paixão: é o motivo que precisavam para inflamar a opinião pública.

O país muda, os negócios mudam. Não demora para que aquelas pessoas comecem a se atacar. Para Visconti, em texto escrito em parceria com Nicola Badalucco e Enrico Medioli, a podridão emerge com a tomada do poder pelos nazistas. Já estava por lá, na família, à espera do governo certo para tocar essa nação de louros talhados como estátuas gregas.

Das falsas belezas fala Visconti: o verdadeiro homem germânico está entre seus pares, confinados em um casa de campo na qual os homens são “mais” homens, seres livres, maquiados, bêbados, em pecado, pouco antes da manhã na qual são acordados pelas metralhadoras dos próprios nazistas fardados. O sistema é autofágico.

Aos poucos não restará ninguém: o partido que brada a pureza não sabe lidar com seu mau cheiro, com suas inclinações àquilo que, de algum modo, aproxima-os. O que há de animalesco é domado sob as fardas, ou salientado em algum quarto escuro, algum cômodo secreto, da grande casa da família de linhas perfeitas ao olhar de fora.

A nora do patriarca, interpretada por Ingrid Thulin, arma um plano para tomar a liderança da siderúrgica da família após o sogro ser encontrado com uma bala na cabeça. A ideia é usar o filho pedófilo (Helmut Berger) como fantoche à frente da empresa, enquanto seu amante, Friedrich Bruckmann (Dirk Bogarde), caminha para ficar com o poder.

O problema é que pequenos demônios são incontroláveis, imprevisíveis. O filho pedófilo – que surge na festa da abertura em uma imitação de Marlene Dietrich em O Anjo Azul – expõe o quanto esse casamento entre devassos e poderosos pode ser frutífero. Não que a devassidão seja um problema; no filme, e nas ideias de seu realizador, ela confronta a ordem imposta pela farda: os devassos escondem-se em rituais particulares.

Ao fim, quando o mesmo Martin surge fardado, sob os sinais nazistas, e quando leva os mesmos sinais à festa à luz de velas, entende-se que dali não se segue a lugar algum, que o filme encontra seu desfecho: nessa última etapa, Martin ressurge como o novo líder da família, o inesperado, ainda que continue um fantoche, agora do partido.

A ideia de que nazistas e outros fascistas concretizavam seus desejos em encontros secretos, em festas regadas à libertinagem, seria levada a outros filmes. Há quem negue, há quem diga que eram pessoas como outras quaisquer em seus encontros privados. Certo ou errado, o que se imprime na tela é o ataque a regimes doentios, militaristas, intitulados “conservadores”, e que se serviam do que diziam combater.

Martin, antes de abusar de uma criança judia, sofre ao ouvir os gritos da garota, no quarto ao lado, quando visita sua amante. A criança é agredida pela própria mãe, o que talvez remeta ao passado do rapaz, à mãe que lhe violou, e por quem é apaixonado. Martin é resultado dessa sociedade que levou a farda ao homem doente, de traços demoníacos, o que alguns exageros de Visconti – nada condenáveis – apenas fazem confirmar.

(La caduta degli dei, Luchino Visconti, 1969)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os filmes de Josef von Sternberg com Marlene Dietrich

12 bons filmes recentes que criticam diferentes religiões

As religiões e seus abusos não saem da mira do cinema. Filmes sobre o estado do mundo sob o extremismo religioso são lançados todos os anos. Ainda que alguns voltem ao passado, continuam tristemente atuais. Abaixo, um apanhado recente com diretores variados e talentosos como Michael Haneke e Pablo Larraín.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O Pecado de Hadewijch, de Bruno Dumont

Dumont não costuma fazer concessões. Seu filme é forte, sobre uma personagem que vive em extremos, estudante de teologia que ama Deus e a quem é dado o passe para viver fora do convento. Ao conhecer rapazes muçulmanos, na França, ela envolve-se em uma teia perigosa.

A Fita Branca, de Michael Haneke

Passa-se em uma vila, uma sociedade fechada, sob a extraordinária fotografia em preto e branco. Nos dias que antecedem a Primeira Guerra Mundial, tudo remete à maldade – não a de um, mas a do grupo. O vilão é o próprio mal nesse filme que termina no interior de uma igreja.

Habemus Papam, de Nanni Moretti

Bela comédia sobre o homem por trás do grande líder religioso da Igreja Católica, o papa. Aqui, o novo homem a desempenhar o papel, a acenar à multidão, não deseja o ofício. Para descobrir a si mesmo, ele sai às ruas da Itália e se vê enredado, de novo, pelo teatro. Brilhante e engraçado.

Fora de Satã, de Bruno Dumont

Dumont, de novo. O cineasta gosta dos ambientes rurais, de “outra” França. A menina em questão é Alexandra Lemâtre, um pouco masculina, na companhia de um rapaz mais velho. Nessa jornada, eles cometem crimes enquanto tentam se aproximar de Deus.

Além das Montanhas, de Cristian Mungiu

O romeno Mungiu leva ao ambiente frio, isolado, onde está um monastério. Duas meninas, uma relação estranha que inclui o desejo físico. Uma delas está presa ao local, a outra tenta libertá-la. Dor, silêncios, o sentimento da passagem do tempo.

Calvário, de John Michael McDonagh

Brendan Gleeson brilha no papel de um padre ameaçado de morte durante uma confissão. Enquanto ele vaga entre os fiéis de seu rebanho, descobre mais sobre a sociedade ao redor. Não se trata de um filme sobre revelar o assassino, mas sobre lidar com o mal.

14 Estações de Maria, de Dietrich Brüggemann

Filme pesado sobre uma menina que se desintegra pouco a pouco, em 14 atos em que se vê tomada pela religiosidade. Em cena, a pequena Maria (Lea van Acken) reproduz os passos de Cristo. O diretor Brüggemann executa seus 14 atos com longos planos-sequência, sem cortes.

O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

Deus é um homem mau e desleixado que agride a mulher e maltrata a humanidade. Certo dia, sua filha escapa ao mundo real e passa a convocar novos apóstolos. É quando o mesmo Deus (Benoît Poelvoorde) sai em sua busca e tenta fazer com que tudo volte a ser como antes.

O Clube, de Pablo Larraín

Esse grande filme de Larraín mostra o cotidiano de alguns padres excluídos da vida social, em um “clube” à beira-mar. São padres pedófilos que ainda convivem sob os ecos de seus pecados, com seus próprios conflitos, ora ou outra perseguidos pelos erros do passado.

Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

O título refere-se à cidade do Mali, na qual extremistas islâmicos tomam o poder e impõem suas próprias regras. Impedem as pessoas de ouvir música, de se casar com quem desejam, além da vigia constante. Sissako traça um panorama triste do extremismo que resiste na África.

Spotlight, de Tom McCarthy

Outro filme recente sobre pedofilia. Os padres, criminosos, pouco são vistos. O que interessa à câmera de McCarthy é o trabalho dos jornalistas do Boston Globe, que descobrem as histórias obscuras envolvendo os líderes religiosos – e a força da igreja para tentar escondê-las.

Agnus Dei, de Anne Fontaine

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma jovem médica (Lou de Laâge) da Cruz Vermelha termina em um convento no qual as freiras estão grávidas, após serem abusadas por nazistas e soviéticos. O problema é que nem todas desejam revelar os crimes.

Veja também:
O Clube, de Pablo Larraín
Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Ao longo de sua ainda curta história, o cinema sempre explorou alguns temas tabus. E após décadas de seus lançamentos, alguns filmes ainda incomodam ao colocar o dedo na ferida, ao questionar as regras impostas pela sociedade, também pela Igreja – e por todos os patrocinadores dos bons modos, em nome “de Deus e da família”, para não se esquecer de discursos recentes. É cinema em sua função: causar questionamentos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Os filmes abaixo foram escolhidos pela temática, não pela estética – ainda que ambas estejam quase sempre relacionadas. A ideia é ampliar o debate e, claro, fazer pensar.

Meu Passado me Condena, de Basil Dearden

Homossexualidade – Os homossexuais demoraram a conquistar direitos ao redor do mundo (e ainda hoje a prática é crime em alguns países). Nesse grande drama de Dearden, um promissor advogado é chantageado por ser homossexual. O filme foi lançado em 1961, quando relações com pessoas do mesmo sexo ainda eram crime na Inglaterra. O assunto seria retomado mais tarde em O Jogo da Imitação.

meu passado me condena

Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca

Antibelicismo – Outros filmes trataram da questão como comédia, entre eles o incrível Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick. Mas o que torna o filme de Philippe de Broca tão original é o fato de ser protagonizado por personagens saídas de um hospício. Situa-se na Primeira Guerra Mundial, em uma pequena cidade francesa recém-desabitada. Libertados, os loucos ficam por ali, interpretando papéis nessa nova sociedade. E quando os alemães invadem o local, a obra questiona quem são os loucos da história.

esse mundo é dos loucos

Sopro no Coração, de Louis Malle

Incesto – O diretor francês trata a questão com delicadeza e dá vida a um filme inesquecível. Ao descobrir que seu filho tem sopro no coração, uma mãe isola-se com o menino em um clube de campo. Na fase adolescente, o garoto faz as primeiras descobertas sexuais, ao mesmo tempo em que observa a beleza da mãe – uma estonteante Lea Massari. A exemplo de Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, a mãe é a porta para a descoberta sexual do filho.

aa aasopro no coração

O Medo Devora a Alma, de Rainer Werner Fassbinder

Relação inter-racial – Outra questão tabu em tempos não tão distantes. A obra de Fassbinder explora a relação entre um imigrante negro marroquino (El Hedi ben Salem) e uma viúva alemã de 60 anos (Brigitte Mira). O casal terá de enfrentar o preconceito da sociedade. É uma homenagem do cineasta a Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk, sobre o relacionamento de um jardineiro com uma mulher mais velha.

o medo devora a alma

Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

A tecnologia e a deformação como fetiches – As personagens de Cronenberg sentem prazer ao reconstituir famosos acidentes de carro. Algumas fazem sexo nesses veículos enquanto correm riscos. O diretor, a partir do livro de J.G. Ballard, discute a adoração à máquina, também às deformações do corpo – temas recorrentes em sua filmografia. O desejo pela deformação é também abordado em A Tortura do Medo.

crash

Os Idiotas, de Lars von Trier

Comportamento e organização social – Um grupo de amigos resolve se isolar em uma casa e dar vez ao “idiota” interno de cada um. Para tanto, essas personagens vivem momentos de liberdade intensa, sem as amarras e os bons modos da sociedade. O diretor von Trier constrói um filme forte dentro do movimento Dogma, com improvisação e aparente registro documental. Cumpre, em muitos momentos, sua principal função: incomodar o espectador.

os idiotas

O Lenhador, de Nicole Kassell

O lado humano do pedófilo – Não é fácil digerir o protagonista desse drama, um pedófilo (Kevin Bacon) que acabou de deixar a prisão. Trata de seu difícil retorno à sociedade e, pior, de seu olhar compartilhado com o espectador: a maneira como se sente atraído por uma menina, ou a repulsa que sente por si próprio ao ver as ações de outro pedófilo, na escola infantil em frente ao pequeno apartamento em que passa a morar.

o lenhador

Mar Adentro, de Alejandro Amenábar

A opção pela eutanásia – Ainda que utilize alguns efeitos para dramatizar – como o voo da personagem, em sua imaginação, até o mar –, o filme de Amenábar consegue bons resultados ao discutir a eutanásia. Em cena, a luta de Ramón Sampedro (Javier Bardem): após sofrer um acidente e ficar tetraplégico, ele deseja conquistar na Justiça o direto de morrer. Isso lhe traz problemas com a igreja e com a sociedade em geral.

mar adentro

Tomboy, de Céline Sciamma

Identidade de gênero – O que define um homem ou uma mulher? Trata-se apenas de uma questão anatômica? É o que pretende discutir esse belo drama da cineasta Sciamma, sobre uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que passa a se apresentar aos vizinhos como Michaël. Questão que se impõe: já que a personagem identifica-se como menino, não seria correto evitar o termo “menina” na sinopse? A obra vai muito além da rasteira dualidade religiosa.

tomboy

Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob

Negação da maternidade – A atriz ao centro (Olivia Corsini) passa de seu papel anterior, na peça A Gaivota, de Tchekhov, a um novo e difícil papel: ser mãe. E o filme de Costa e Glob confronta a ideia de que a maternidade é sempre um momento de felicidade plena. Não há registro de outro filme que encare a questão dessa maneira – não, pelo menos, fora do gênero terror, como em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Ao trabalhar em registro documental, em um apartamento que serve como prisão, torna a experiência ainda mais interessante.

olmo e a gaivota

Veja também:
Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca
Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia

O Clube, de Pablo Larraín

Os padres não demoram a confessar seus pecados. Tal confissão é sempre estranha, sem jeito, como se não pudessem revelar seus problemas. Há sempre a necessidade de manter as aparências, a ordem. É dessa necessidade que trata O Clube, de Pablo Larraín.

A base dessa ordem dá-se às escuras, em uma região sem sol, à beira-mar, em uma casa que abriga quatro padres e a criada do local. Os líderes religiosos reclusos são pedófilos. Foram colocados ali para serem esquecidos, a mando da Igreja, sem que pagassem por seus crimes. São “esquecidos” enquanto tentam conviver com o passado.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

o clube1

Larraín não deixa ver mais do que seres decrépitos e estranhos. Apenas um deles, Vidal (Alfredo Castro), aproxima-se do espectador e deixa enxergar (ou quase) seus pecados – e, por isso mesmo, é mais humano e palpável. Mas há outra explicação para essa proximidade: em diálogo revelador com o padre enviado à casa de repouso, ele diz que seu cão humaniza-o, e oferece assim uma resposta elegante ao público.

Difícil, portanto, a tarefa do espectador: entender o que esses homens são nessa vida reclusa. E, por isso, não resta mais que a aparência de um universo à beira do fim, no qual a câmera passa longe da revelação. Ao contrário, perde o contato com o real em seu granulado constante, em um meio borrado pela indecisão, pela paralisia, pela dificuldade de ver ações concretas. É de mal-estar que fala esse trabalho extraordinário.

A trama que se desenha em tom escuro nasce com o suicídio de um padre, o quinto que chega para integrar o clube. Com esse novo integrante vem uma de suas vítimas, um homem com aparentes problemas mentais que, na parte externa da casa, grita os pecados do “santo homem” agora colocado em quarentena.

Suas palavras são verdadeiras: dão detalhes sobre os abusos, sobre o tempo em que era criança e, mais ainda, o drama de quem não conseguiu seguir em frente: continuou à espreita de seu velho padre abusador, um espírito sem caminho.

O padre, ainda nesse início perturbador, sucumbe às palavras de sua antiga vítima: toma uma arma dada por outro padre, vai ao lado de fora da casa e se suicida com um tiro na cabeça. E os demais logo se encarregam de encontrar outra versão ao caso.

o clube2

Ao longo do filme, Larraín utiliza dois recursos narrativos interessantes para o espectador entender o meio e suas personagens: o primeiro é a inclusão de pequenas situações, mais de uma vez, em que os padres estão separados, em seus afazeres diários; o segundo é a confissão, em entrevistas, ao jovem padre que chega ao local.

A construção permite que todas essas pequenas situações e histórias passadas ajudem a entender o drama do local em que nada ocorre, ou parece não ocorrer – à exceção do suicídio da abertura e do espancamento do inocente, ao fim.

Nessa história de busca pela ordem, as personagens sempre deixam ver, aos cantos, o desejo reprimido, a dificuldade de se assumir. Larraín trabalha com esconderijos, com ofuscamento, nunca com a evidência. São os restos de uma instituição arcaica.

(El Club, Pablo Larraín, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia