Pawel Pawlikowski

Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski

O momento supera a História. Em cena, homem e mulher vivem suas vidas marcadas pelo instante. O título é enganoso e não é: Guerra Fria. Pode soar falso pela indicação histórica, como se abordasse décadas de um mundo dividido; revelar-se-á, ainda assim, verdadeiro: a história que importa é a humana, aparentemente pequena.

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A História segue ali, aos cantos, não imperceptível. Os amantes relutam em ficar juntos não por falta de amor, mas por algo que insiste em separá-los, difícil de ver e explicar. A cada encontro, contrapõem o frio – não só o do título – com abraços calorosos, toques que, sem esforço, indicam a paixão que sobrevive à História, ao correr dos anos.

A história de amor, estranha como qualquer outra, que não se quer certa e frequentemente se serve de distâncias e trombadas, é o molde à confrontação de algo maior, dos eventos que cortaram o globo, das ideologias que respiravam as nações desse tempo em que se insistia na impessoalidade, na mecanização, na estupidez.

Do gelo aos tapas, às revelações de traição, até aos pequenos vícios de relacionamentos – qualquer um, é bom que se diga -, surgem amostras de um mundo verdadeiro, a dois, do que realmente importa: contra todos os caminhos, à vista de todos os obstáculos, os amantes seguem a se encontrar – nos bares, no círculo dos partidários, no cárcere.

Essa história de amor que poderia ser como qualquer outra é, para o diretor Pawel Pawlikowski, ao mesmo tempo afirmação e recusa: o sentimento resiste, as vidas expostas nunca serão semelhantes às outras, a despeito de certa padronização dos corpos no palco, dos blocos de gelo, do homem político reproduzido em série.

Zula (Joanna Kulig), de dentes um pouco afastados, rosto feito à revolta, é intrigante. Aparece à frente das paredes descascadas em uma grande casa, no pós-guerra, que abrigará uma companhia de dança e músicos. Quem a avalia é Wiktor (Tomasz Kot), logo apaixonado pela pequena beldade, musa escondida em roupas surradas.

O espectador não demora a compreender o homem: Zula é diferente, é forte, feita de ferro e fogo – inclusive contra as ideologias de então, e nem sempre a gritar o que pensa. É o centro de uma relação, a busca do músico polonês que foge de seu país embebido em política para se ver à luz do jazz, na França, em noites badaladas de gente livre.

Eles voltam a se encontrar de tempos em tempos. Guerra Fria é a história desse reencontro, no universo de dois seres que insistem na inconstância, na exposição do humanismo frio, deslocado, dos estouros de pessoas apaixonadas – a começar por Zula. Ao público – de seus shows, do cinema -, a moça evidencia magnetismo, canta com dor.

Essa voz que tanto se esforça, dessa sobrevivente que, contam, teria matado o próprio pai e sido presa no passado, reproduz aos demais a melancolia de um tempo do qual pouco se espera, a paralisia contra a qual os amantes lutam, a feminilidade sem perder o embrutecimento – o que tais dias, por certo, não dispensavam.

A fotografia de Lukasz Zal é espetacular. No início, um dos homens da companhia de música, entusiasta dos stalinistas, vê-se no interior de uma igreja abandonada. Símbolo do pós-guerra e da guerra – a fria – a qual adentra. Nas paredes, Zal, sob o comando de Pawlikowski, flagra os olhos do que parece ser o Cristo da pintura de Andrei Rublev. Se não é, parece.

À mesma igreja perdida os amantes retornam no fim. Não é coincidência. O último refúgio àqueles com alguma fé, não por simples acidente. Juram o amor que resta, ou o que manterão – espíritos – para sempre. Sem concessões, encontram o caminho possível para continuarem juntos – contra tempos politizados, de ufanistas e falastrões.

(Zimna wojna, Pawel Pawlikowski, 2018)

Nota: ★★★★☆

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Cinco filmes recentes sobre as consequências do nazismo

O nazismo foi explorado inúmeras vezes no cinema, sob múltiplos ângulos e gêneros. Não faltam filmes para esmiuçar as destruições causadas pelo regime de Adolf Hitler, das propagandas evidentes de Leni Riefenstahl à vida íntima do carrasco, como em Moloch e A Queda! As Últimas Horas de Hitler. A lista abaixo prefere as consequências do mal, o rastro deixado pelos criminosos e os traumas causados pelo regime, após a Segunda Guerra Mundial.

Ida, de Pawel Pawlikowski

Esse drama extraordinário centra-se nas descobertas da noviça que dá nome ao filme. O nazismo serve de fundo. É um passado incômodo, uma tragédia familiar. Em suas andanças, a moça descobre a própria linhagem: então chamada de Anna, Ida (Agata Trzebuchowska) é descendente de judeus. E há mais a explorar: o filme trata de suas descobertas familiares, sexuais, seu choque com o mundo dos homens, fora dos muros do convento, e ao lado da tia libertária.

ida

O Médico Alemão, de Lucía Puenzo

Filha do consagrado diretor Luis Puenzo, de A História Oficial, Lucía compõe um filme intrigante sobre a passagem de Josef Mengele (Àlex Brendemühl) pela Argentina. A diretora explora o olhar de uma garota, de mudança com a família, que acaba se aproximando do médico procurado. Ao invés de recorrer ao estereótipo do vilão nazista, a cineasta prefere um retrato até humano desse criminoso. Interessante observar a forte presença alemã na Argentina dos anos 60.

o médico alemão

Labirinto de Mentiras, de Giulio Ricciarelli

O diretor italiano Ricciarelli está à frente da produção alemã, sobre um jovem procurador (Alexander Fehling) que tenta colocar alguns nazistas atrás das grades. O caso desenrola-se no fim dos anos 50, momento em que os crimes nos campos de extermínio ainda estavam frescos na memória e os próprios alemães evitavam o assunto. Da geração seguinte, o herói sai em busca dos criminosos e descobre a dificuldade de se encarar a própria história.

Phoenix, de Christian Petzold

Passa-se logo após a derrota alemã, com Berlim aos pedaços. A protagonista Nelly Lenz (Nina Hoss) sobreviveu aos campos de concentração e retorna em busca do marido (Ronald Zehrfeld), responsável por seu cárcere. Ao amor ao algoz e à possível mudança para Israel, ainda em formação, soma-se a transformação da heroína, submetida a uma cirurgia na face. O trabalho de Petzold carrega contornos do cinema noir, além da bela interpretação de Hoss.

phoenix

A Dama Dourada, de Simon Curtis

Drama quadrado, ainda que com um ponto de partida original: é sobre Maria Altmann (Helen Mirren), refugiada judia que luta para reaver um valioso quadro de sua família, A Dama Dourada, de Gustav Klimt. A valiosa obra de arte encontra-se na Áustria, depois de roubada pelos nazistas durante o apogeu de Hitler. O caso vai parar nos tribunais. Nessa cruzada, Altmann conta com a ajuda do advogado certinho vivido por Ryan Reynolds, escolha ruim para o papel.

dama dourada

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Os 20 melhores filmes de 2014

Fazer listas é sempre uma dificuldade. Ver todos os filmes que estrearam no Brasil, em 2014, ainda mais. Ou simplesmente impossível. Fontes indicam que estrearam mais de 300 filmes, quase sete por semana. Claro que alguns são descartáveis, e outros sumiram tão rápido quanto chegaram. O fato é que, para ver um número relevante deles, é necessário peregrinar, escolher bem. No fim, valeu a pena.

Difícil, também, é chegar a 20 e perceber que muitos filmes ficaram para trás. Vale lembrar alguns: Jersey Boys: Em Busca da Música, Dias de Pesca, A Imagem que Falta, Uma Família em Tóquio, Amar, Beber e Cantar, Uma Relação Delicada, entre outros. Em todo caso, prevaleceu a sétima arte. E que venha 2015!

20) O Congresso Futurista, de Ari Folman

O futuro do cinema como nunca antes se viu, pelo diretor de Valsa com Bashir. Mescla atores à animação e o resultado é poderoso.

o congresso futurista

19) Oslo, 31 de Agosto, de Joachim Trier

Caminhada difícil, cheia de reflexão, de desejo de desistir ou mesmo de aceitar ser o que é, sem máscaras. O protagonista aceita tudo isso. E encontra seu alívio.

oslo 31 de agosto

18) Garota Exemplar, de David Fincher

Mais do que o conflito entre homem e mulher, é sobre a sociedade de aparências, sobre o culto à menina desejável, à esposa perfeita.

garota exemplar

17) Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara

Ferrara gosta de incomodar. A história, claro, remete ao caso Strauss-Kahn. Em cena, Depardieu está à vontade: sem roupa, um verdadeiro animal em ternos caros.

bem-vindo a nova york

16) Ela, de Spike Jonze

Apesar do futuro, das estranhezas, não deixa de ser sobre gente comum, como se Theodore fosse não o futuro de todos, mas o presente próximo.

ela

15) Saint Laurent, de Bertrand Bonello

Não é sobre a vida do famoso estilista, do nascimento à morte. É sobre exageros, com uma das cenas insuportáveis do ano, quando um cão morre após ingerir remédios.

saint laurent

14) Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki

Ao abordar os males do progresso, Miyazaki revisita o difícil período do Japão durante a guerra – além dos amores prováveis e do desejo em sobreviver à natureza.

vidas ao vento

13) Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

A acidez do roteiro, com personagens que quase não se importam em parecer selvagens, deu vez a um dos filmes mais divertidos dos últimos anos.

relatos selvagens

12) O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira

A câmera não se movimenta em mais um incrível trabalho do centenário Oliveira. Em cena, as opções contrárias de pai e filho, mundos que se confrontam.

o gebo e a sombra

11) Sob a Pele, de Jonathan Glazer

A humanidade e seus vícios, suas besteiras e animalidades pelos olhos de uma alienígena. Aqui, Scarlett Johansson tem talvez a melhor interpretação de sua carreira.

sob a pele

10) O Abutre, de Dan Gilroy

Com características de Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres, Jake Gyllenhaal é capaz de tudo para conseguir suas imagens: mover corpos, esconder evidências, matar.

o abutre

9) O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

Nesse filme de periferia, de “gente comum”, nada é o que parece. O pai desesperado talvez seja um lobo, a megera talvez seja uma vítima. Embaralham-se.

o lobo atrás da porta

8) Instinto Materno, de Calin Peter Netzer

Mais uma prova de que o cinema romeno está entre os melhores do mundo na atualidade. E, de quebra, com a atuação espetacular de Luminita Gheorghiu.

instinto materno

7) Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, de Ethan e Joel Coen

O músico pouco conhecido dos Coen vaga pelo frio, ao lado de seres estranhos, e com um gato – ou mais – nesse filme magnífico.

Inside Llewyn Davis

6) Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro

A dificuldade de se aproximar – e amar – esse cinema faz pensar na relação com a obra de Weerasethakul. Não à toa, gerou opiniões extremas entre a crítica.

ventos

5) Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater

O cinema como registro da vida, da formação, sem se preocupar com grandes firulas dramáticas, tampouco sendo documentário (no sentido claro do gênero).

boyhood

4) O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer

A verdade é contata por linhas tortas, estranhas: as atrocidades cometidas no passado, na Indonésia, são revividas nos filmes dentro do filme. Porrada.

o ato de matar

3) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

O melhor Scorsese desde Os Bons Companheiros. E isso não é pouco. Aqui, ele conta a história de um homem capaz de tudo para enriquecer, enquanto ri até do espectador.

o lobo de wall street

2) Ida, de Pawel Pawlikowski

O fim também leva ao começo: a noviça segue seu caminho, após descobrir algumas coisas da vida nesse extraordinário filme de Pawlikowski.

ida

1) Era Uma Vez em Nova York, de James Gray

Em uma carreira de cinco filmes, James Gray consagrou-se autor. Suas obras abordam relações de estrangeiros na América – ou estrangeiros em seus próprios países, mafiosos, homens da lei. Nelas, os extremos tocam-se. Os maus nem sempre são o que parecem. Pais e filhos têm seus problemas, homens sofrem de amor. É como se o cinema sempre olhasse ao passado, sem medo de se repetir, ao mesmo tempo íntimo e épico.

era uma vez em nova york1

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