Patricio Guzmán

Dez bons filmes recentes sobre ditadura militar

Ditaduras em diferentes países da América Latina são relembradas em filmes poderosos. As narrativas, em alguns casos, fogem ao esperado: não estão em cena apenas o embate físico, a tortura, as ações clandestinas e outras práticas conhecidas. As obras abaixo – de diferentes países – apostam em abordagens como a infância, a memória, a libertinagem, a família e até uma campanha publicitária com boas doses de graça.

Post Mortem, de Pablo Larraín (2010)

O protagonista (Alfredo Castro) trabalha em um necrotério. Quando os militares tomam o poder no Chile, corpos não param de chegar ao local. Ao mesmo tempo, esse homem recluso aproxima-se de sua vizinha, com pai e amante comunistas. Como no extraordinário Tony Manero, Larraín vai aos anos de chumbo de seu país.

Infância Clandestina, de Benjamín Ávila (2011)

Essa produção argentina foi comparada, na ocasião de seu lançamento, ao brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Tratam de assuntos semelhantes: os efeitos da ditadura na vida de dois garotos com pais na luta armada. O protagonista, Juan (Teo Gutiérrez Moreno), vive esse tempo de apreensão enquanto descobre o mundo adulto.

infância clandestina

A Memória que me Contam, de Lúcia Murat (2012)

Já no período democrático, com a esquerda no poder, um grupo de amigos, no Brasil, encontra-se quando um deles está no hospital, à beira da morte. Mesmo antes de morrer, Ana (Simone Spoladore) é o espírito questionador entre todos: é a imagem da liberdade, da revolta nos anos de chumbo, contraponto ao hospital monocromático.

a memória que me contam

O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer (2012)

Documentário poderoso, em momentos difícil de ver, sobre os assassinos a mando dos ditadores na Indonésia. Ao cineasta, eles contam como exterminaram os inimigos comunistas, em detalhes, inclusive reencenando as ações e as torturas. Os homens desse esquadrão da morte gozam a vida em liberdade e ainda reconstroem suas histórias – suas versões – para o cinema daquele país.

No, de Pablo Larraín (2012)

Larraín de novo. Situa-se nos momentos finais da ditadura de Pinochet, no Chile, quando alguns comunicadores – entre eles René Saavedra (Gael García Bernal) – unem-se para derrubar o velho sistema. Utilizam uma arma comum às eleições de regimes democráticos: a propaganda. Nasce assim a campanha pelo “não” (o “no”), com boas doses de criatividade.

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Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti (2012)

É curiosa a nostalgia que move Giorgetti, mostrando como os tempos de chumbo também davam vez a aventuras amorosas e artísticas. Ao olhar esse passado amargo, o cronista paulistano revela histórias deliciosas, entre elas a da garota Lilian (Julia Ianina), neta de um general (Walmor Chagas), que acaba escondendo dois guerrilheiros em sua casa.

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Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013)

O contraponto ao militarismo é a libertinagem de um grupo de artistas. Na bela obra de Lacerda, quase tudo está à margem, a começar pelas personagens. E ao centro surge o desejo do soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) pelo homem à frente do cabaré, Clécio (Irandhir Santos), depois de visitar o local. O abismo está exposto: são dois países em um só.

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O Clã, de Pablo Trapero (2015)

Mesmo após o fim, a ditadura argentina deixou algumas práticas nefastas em sua sociedade. Entre a família Puccio, seu líder (Guillermo Francella) arrasta o filho mais velho para um trabalho inglório: sequestrar pessoas ricas para conseguir boas quantias de dinheiro. Os crimes são descobertos à medida que a família desfaz-se.

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O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán (2015)

O documentário do mestre Guzmán (responsável pelo referencial A Batalha do Chile) é uma continuação de A Nostalgia da Luz. Mescla a história do universo, a do cosmos, à sede de poder que culmina com a presença dos militares e as vítimas de Pinochet. Delas, sobram os botões de pérola: as partículas que resistem à água salina.

Uma Noite de 12 anos, de Álvaro Brechner (2018)

A história do cárcere de três revolucionários no Uruguai ditatorial dos anos 1970 e 1980, um deles José Mujica (Antonio de la Torre), que se tornaria presidente do país anos depois. Momentos de dor são casados à ternura. O tempo passa e os homens tentam sobreviver à escuridão dos buracos em que são lançados, em luta contra a insanidade.

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Os 20 melhores filmes de 2016

O ano que terminou deixou grandes filmes. Fechar a lista com 20 revelou-se tarefa difícil. Poderiam ser 30, até 40. Obras relevantes não faltaram. O cinema que desfila abaixo, do 20º ao primeiro colocado, espelha o que há de melhor no mundo recente da sétima arte.

Sim, faltaram algumas obras, não houve espaço para todas. Uma lágrima para Carol, Francofonia e Sully. Listas são sempre injustas. Recado: só entraram na lista filmes lançados comercialmente no Brasil em 2016.

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20) Elle, de Paul Verhoeven

O diretor que flagrou a cruzada de pernas de Sharon Stone volta ousado, com Isabelle Huppert em um de seus melhores momentos como uma mulher abusada que se aproxima do criminoso, homem de máscara preta que invade sua casa e talvez até lhe excite.

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19) As Montanhas se Separam, de Jia Zhangke

A relação entre três personagens – dois homens e uma mulher – em três tempos. Ou como essa relação de união e rompimento desencadeia tudo o que vem a seguir. Zhang-ke debruça-se novamente sobre as transformações da China – no passado, presente e futuro.

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18) A Passageira, de Salvador del Solar

A viagem de um taxista pelas ruas faz com que retorne ao passado militar no Peru: ele reencontra uma mulher que foi abusada por um coronel. O protagonista, vivido por Damián Alcázar, tenta reparar os erros do passado e volta a procurar a vítima.

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17) A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien

Um dos principais nomes do novo cinema taiwanês, Hsiao-Hsien volta-se à tradição das artes marciais em obra misteriosa sobre uma assassina profissional (Qi Shu) e seus embates para levar à frente seu próximo trabalho: matar o próprio primo, por quem é apaixonada.

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16) Amor & Amizade, de Whit Stillman

A melhor adaptação de Jane Austen para o cinema. Comédia adulta cheia de ironia e classe. Realizador do ótimo Metropolitan, Stillman traz relacionamentos diversos, sempre a circular a personagem de Kate Beckinsale, a imponente Lady Susan Vernon.

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15) Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy

Feito de diálogos, pulsante, sobre os inúmeros casos de abuso a crianças pelos padres da Igreja Católica. Começou em Boston, depois ganhou o mundo. O filme não recorre aos abusos. Prefere o trabalho de jornalistas, de porta em porta, atrás de informações.

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14) Certo Agora, Errado Antes, de Hong Sang-soo

Duas histórias com o mesmo ponto de partida: a chegada de um diretor de cinema a uma cidade para a apresentação de seu filme. Ele conhece uma garota, a relação não progride. Vem a segunda história: ele conhece a mesma garota, as palavras mudam, e o resultado é outro.

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13) O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra

O índio observa o nada, a natureza, espera algo. Feito em belíssimo preto e branco, esse filme aborda a relação do homem com a natureza. Há também a crítica à exploração dos índios, inclusive pela Igreja Católica, na jornada para tentar encontrar a cura para um homem branco.

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12) A Bruxa, de Robert Eggers

Filme de terror que pede um mínimo de paciência, sem os sustos fáceis comuns ao cinema atual e ao gênero em questão. Sim, há um bode falante, um bebê que desaparece à base de um corte e mulheres levitando no plano final. Belo, de arrepiar.

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11) Belos Sonhos, de Marco Bellocchio

O título refere-se ao desejo da mãe dirigido ao filho enquanto dorme. Ao acordar com um barulho, no meio da noite, ele, ainda uma criança, descobre que ela está morta. Entre tempos que expõem sua infância e sua maturidade, ele terá de lidar com essa perda.

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10) O Valor de um Homem, de Stéphane Brizé

O grande Vincent Lindon é o homem ao centro, cujo valor é ressaltado, posto à prova, cuja forma – o corpo, mas também a alma – deverá ou não ser tomada pelo sistema. Ele busca um emprego e termina como vigilante em um supermercado, sufocado pelas regras.

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9) Sangue do Meu Sangue, de Marco Bellocchio

Muita gente disse que Bellocchio fez um filme de vampiros. Não é bem isso. Aborda dois tempos: no primeiro, padres tentam descobrir se uma mulher está possuída pelo diabo; no segundo, um velho homem (o vampiro) vê-se frente a frente com um novo tempo.

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8) Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi

Documentário sobre os refugiados que tentam chegar à Itália pelo mar. Realizador do também ótimo Sacro GRA, Rosi prefere as palavras soltas e os movimentos de seus seres à narração ou qualquer manobra explícita da narrativa. Humano e inesquecível.

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7) Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul

O diretor tailandês mergulha novamente no espaço de homens e espíritos em uma escola abandonada que serve como hospital. Abaixo dela, dizem, havia um antigo cemitério de reis, que estariam usando a energia dos soldados vivos, acima, tomados pelo sono.

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6) Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi

Olhar sobre o confinamento nas trincheiras, sob frio intenso, durante a Primeira Guerra Mundial. O mestre Olmi, realizador de obras como O Posto e A Árvore dos Tamancos, leva a homens amedrontados, à proximidade da morte, à bestialidade do autoritarismo.

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5) Boi Neon, de Gabriel Mascaro

As vaquejadas dão espaço às personagens desse filme extraordinário, feito de contrastes: o protagonista (Juliano Cazarré) investe em figurinos; a companheira de viagem (Maeve Jinkings) dirige o caminhão. A proximidade dos corpos, o sexo, os currais.

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4) O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán

Após o extraordinário A Nostalgia da Luz (talvez superior), o diretor chileno mostra a relação entre a água, os nativos da Patagônia e os mortos da ditadura, dos quais restaram apenas os botões. Extraordinária reflexão sobre o oceano como espaço da memória.

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3) Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

O apartamento de Clara (Sonia Braga) é um baú de memórias. Um espaço de vida que os especuladores de fala mansa não conseguem entender: guarda não só seu passado, com suas dores e momentos de descontração, mas também a memória dos outros.

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2) O Filho de Saul, de László Nemes

O ambiente é o pior possível, a tragédia pode ser vista em todos os cantos. Em um campo de concentração, o protagonista encontra um cadáver que pode ser de seu filho. A partir daí, corre contra o tempo – e arrisca a vida – para levar à frente o enterro.

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1) O Cavalo de Turim, de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

Pai e filha convivem sob o som do vento, do lado de fora, em uma casa afastada. O pai diz ouvir o som dos cupins, à noite, enquanto dorme, e a filha alerta que o cavalo – o único da família – deixou de comer. Algumas pessoas passam por ali, em uma carroça, outro homem também surge, enquanto os diretores compõem um dos filmes mais belos dos últimos anos, ou da década que ainda corre. Obra de mestre.

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Seis grandes filmes que discutem a origem da vida e do universo

A origem da vida não deu trabalho apenas a cientistas e religiosos. O cinema abordou essa aurora – como o fim do mundo – em diferentes filmes e épocas. No entanto, apenas alguns longas conseguiram ser mais que apenas científicos ou religiosos, distantes daqueles típicos documentários feitos para a televisão. É o caso das seis obras da lista abaixo. São trabalhos complexos para pensar nas origens e no papel do homem no mundo ao redor – sem respostas fáceis.

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2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

A estrela-feto, ao fim, dá uma ideia da ambição de Kubrick: um filme que vai da aurora do homem – com a violência – ao crepúsculo, com os cenários do interior de grandes naves, esculturas alienígenas, um robô enlouquecido e o homem rumo ao renascimento.

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Fata Morgana, de Werner Herzog

O diretor alemão empenhou-se em questionar o lugar do homem no mundo e sua relação com a natureza. Fata Morgana (nome que remete a uma miragem) tem um pouco de ficção científica, com os mais variados locais ao redor do globo, entre criação e destruição.

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Globo de Prata, de Andrzej Zulawski

Astronautas caem em um planeta que pode ser a Terra, renunciam à ciência e, mais tarde, aderem ao misticismo. O grande diretor polonês mostra o caminhar da civilização ao contrário: do moderno ao primitivo, passando pela guerra e por outro homem crucificado.

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Baraka, de Ron Fricke

Não é um documentário convencional. Não há qualquer narração. O que vem à tona é o mundo em imagens extraordinárias, de pontos diferentes do planeta: culturas distantes, animais exóticos, paisagens assustadoras. Um resumo da vida e de suas estranhas particularidades.

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Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán

Os astrônomos que trabalham no Deserto do Atacama, no Chile, buscam explicações para a origem da vida a partir das estrelas. Nesse mesmo deserto, mulheres buscam os restos mortais de vítimas da ditadura. Tipos diferentes de morte questionam essas pessoas.

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A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Uma típica família americana divide a cena com a origem do universo, passando do cosmos à água, dos primeiros e pequenos seres aos dinossauros. Sinais religiosos não faltam. A obra de Malick é ousada, carregada de belas imagens, inúmeras simbologias.

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