palavras de cinema

O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca

Ao entregar uma arma ao protagonista de O Homem do Ano, o vendedor compara o poder do objeto ao poder da coroa. A citação faz sentido em um filme sobre relações de poder.

Pior é imaginá-lo nas mãos de uma personagem alienada, à qual é dado o poder de matar, o próprio direito ao poder. É ela o “homem do ano” que não esperava ser, mas convertida a tal a golpes do acaso.

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O protagonista é Máiquel (Murilo Benício), misto entre o desavisado dos faroestes e o brasileiro que quer pertencer a algo, sentir-se incluído. É o tipo possível aos tempos em que a irracionalidade das grandes cidades soma-se à falta de consciência social.

Máiquel é o “mal necessário”, desprovido de papel e que fica, curiosamente, com o papel principal: é o homem levado pela multidão. O que ele deverá fazer é tomar essas rédeas, como se domasse um cavalo enlouquecido.

O jovem assassino pinta o cabelo, torna-se louro no início de O Homem do Ano. O processo de coloração passa do ponto enquanto ele faz sexo com a cabeleireira, depois transformada em sua mulher (Cláudia Abreu). Como o cabelo, tudo sempre ultrapassa o ponto desejado, sai do controle.

Ele observa seu reflexo no espelho e se reconhece novo. Passa a sentir orgulho de si próprio. E segue em sua saga de matanças: primeiro por pura raiva, fruto de algumas risadas e ofensas; depois, a mando de poderosos que o utilizarão como massa de manobra.

Os contratantes agem às escondidas, falam em patriotismo e utilizam alienados como Máiquel, cuja história leva a um jovem sem consciência e posição. Curioso notar o ainda pingo de dor, simplismo e pena no interior do protagonista. Enquanto não sente qualquer remorso em matar, ele entra em crise quando sua mulher sacrifica seu porco de estimação e o coloca à mesa, para um banquete.

O Homem do Ano estabelece uma estranha ligação entre esse homem, a massa suína guiada pelos poderosos e a nulidade do animal entre todos, que come, dorme e permite a seu dono louro um rastro – ainda pequeno – de humanidade.

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O enigma do filme talvez esteja mesmo em encontrar humanidade em Máiquel, primo distante de personagens conhecidas do cinema, como o Travis de Taxi Driver e, mais tarde, o jovem que se torna líder de uma prisão em O Profeta.

Não se trata de um filme sobre o confronto do homem com a lei, mas sobre a consciência do indivíduo, os sinais de seu cotidiano e a busca pela sobrevivência. O diretor José Henrique Fonseca leva às descobertas da personagem, aos seus conflitos de identidade.

Ela quer trabalhar honestamente, mas sempre termina a matar mais; não quer viver uma vida de casado, mas é tragada àquele clima de sonho expresso pelo dia do casamento: o bolo que fica na espátula, a bela noiva sorridente e todos os amigos que o cercam.

Aos poucos, a violência é institucionalizada. Matar é parte de um trabalho. Nasce uma empresa e Máiquel, o desajeitado louro armado da periferia, ganha um terno e uma mala. Passa a trabalhar, a bater de comércio em comércio. Evidente que não se reconhecerá nesse novo papel social, o que, de novo, faz pensar na busca por identidade.

Durante todo o decorrer de O Homem do Ano, o desafio de Máiquel é se tornar algo, descobrir-se. O cabelo louro é uma livre representação de falsidade, de algo barato, como era a peruca loura de Barbara Stanwyck no grande Pacto de Sangue.

(Idem, José Henrique Fonseca, 2003)

Nota: ★★★☆☆

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20 grandes filmes, há 40 anos

À época, em 1975, um filme como Tubarão poderia parecer estranho. Mais tarde, seria quase regra. Tornar-se-ia, então, a maior bilheteria de seu ano, o primeiro filme a ultrapassar 100 milhões de dólares em ingressos nos Estados Unidos. Algo mudava.

Spielberg apontou ao retorno das grandes produções, o cinemão de entretenimento. Apenas dois anos depois viria Guerra nas Estrelas. A história seguinte é conhecida. Em 1975, Tubarão dividia espaço com outros grandes filmes, de autores já com carreira consolidada, como John Huston, e outros próximos de grande sucesso, como Milos Forman. Ano de filmes extraordinários, inesquecíveis, como provam os 20 abaixo.

20) O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston

Bela aventura de Huston com uma dupla incrível à frente, Michael Caine e Sean Connery, exploradores que desejam se dar bem em terras distantes.

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19) Dersu Uzala, de Akira Kurosawa

História de amizade entre um militar e um homem da tribo Goldi. Depois de tentar o suicídio, Kurosawa foi convidado pelos soviéticos para fazer esse belo filme.

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18) A História de Adèle H., de François Truffaut

Amor e sofrimento, com a mulher, Adèle, filha de Victor Hugo, em busca do homem que ama, em meio à guerra, com a extraordinária direção do francês Truffaut.

a história de adele h

17) O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski

Começa com uma filmagem, quando a atriz (Romy Schneider) fica paralisada em cena e não consegue dizer “eu te amo”. Zulawski explora a relação entre arte e vida real.

o importante é amar

16) Xala, de Ousmane Sembene

Crítica aos novos poderosos na África independente (ou nem tanto), com um encerramento bizarro e a personagem que crê estar impotente após o terceiro casamento.

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15) Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmüller

A trajetória de um fraco mafioso, Pasqualino, que termina em um campo de concentração, sob as ordens de uma líder alemã gorda e que o trata como um rato.

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14) Um Lance no Escuro, de Arthur Penn

O cinema com mistério, em seu lado marginal, sobre dublês e estrelas decadentes, enquanto Gene Hackman é o detetive em busca de uma ninfeta desaparecida.

um lance no escuro

13) Picnic na Montanha Misteriosa, de Peter Weir

Outra bela produção cheia de mistério, a comprovar o então bom momento do cinema australiano. Aborda o desaparecimento de algumas garotas em uma montanha.

picnic na montanha misteriosa

12) Tubarão, de Steven Spielberg

Após alguns filmes originais, entre eles o incrível Encurralado, Spielberg entrega esse arrasa-quarteirão. Nenhum filme sobre tubarão, depois, conseguiria o mesmo resultado.

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11) Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

Entre comédia e tragédia, Lumet oferece esse belo retrato da sociedade da época, na qual assaltantes humanizados dão corpo às imagens que a mídia tanto deseja.

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10) A Honra Perdida de Katharina Blum, de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta

Poderosa crítica à imprensa, que persegue a protagonista, a estranha e distante Katharina Blum. Ela está apaixonada por um suspeito de terrorismo procurado pela polícia.

a honra perdida de katharina blum

9) Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach

Uma história marginal com uma protagonista impensável: em suas andanças, Maria torna-se Lilian, passa do campo à cidade, e revela um país de cabeça para baixo.

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8) Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

A impressão é de que nada ocorre. Por algum tempo, vê-se apenas a mulher em seu espaço: na cozinha, fazendo comida, ou trabalhando, recebendo homens por ali.

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7) Barry Lyndon, de Stanley Kubrick

Épico frio, extraordinário, que começa com um embate de armas, com o aventureiro a quem tudo dá errado para dar certo. Depois, o oposto: tudo dá certo para dar errado.

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6) Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Obra de choque, testamento de seu autor, assassinado por um garoto de programa pouco antes de o filme estrear. Mescla tortura, jovens inocentes e fascistas.

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5) O Espelho, de Andrei Tarkovski

A mulher espera pelo marido, fora de casa, sobre a cerca. Tarkovski consegue uma das mais belas imagens do cinema, com as lembranças de um homem sobre a infância.

o espelho

4) Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O diretor italiano explora novamente a identidade, com o repórter que vê a oportunidade de mudar de vida ao assumir o nome de um homem morto, em um hotel distante.

profissão repórter

3) Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Texto afiado, com Jack Nicholson explosivo e um ambiente nem sempre fácil de abordar: o hospital psiquiátrico. É mais trágico que engraçado, e pode levar às lágrimas.

um estranho no ninho

2) A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Obra grande em diferentes sentidos, com Angelopoulos a abordar a história da Grécia. Tem alguns dos planos-sequência mais extraordinários do cinema moderno.

a viagem dos comediantes

1) Nashville, de Robert Altman

O típico filme-coral de Altman, com mais de 20 personagens, com uma cidade em festa, com a política ao fundo e ecos de tempos passados: o assassinato em local público.

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O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

O esporte praticado pelos nativos chama a atenção dos britânicos em O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston: em uma espécie de “polo afegão”, eles transformam a cabeça humana em bola, para o desprazer dos recém-chegados exploradores.

O desprazer logo dá vez ao comodismo: os dois homens de fora desejam dominar essa região distante. Talvez se tornem reis, enriqueçam.

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Ao escritor Rudyard Kipling, que ganha destaque como uma das personagens, a aventura anunciada pelos dois homens mais parece loucura: atravessar um território difícil, da Índia sob o comando britânico ao território do Afeganistão.

Embrenham-se em tribos, com armas em punho, com o jeito malandro que Sean Connery e Michael Caine conferem aos protagonistas. Para Kipling (Christopher Plummer), eles não mentem: querem se dar bem, dominar os outros.

Até certo ponto, dá certo: suas armas e os ensinamentos do exército permitem que façam promessas, como deuses para salvar os maltrapilhos. Os nativos são enganados com facilidade. Um deles fala inglês, já foi levado pela malícia dos colonizadores.

Logo, a entrada de Daniel Dravot (Connery) e Peachy Carnehan (Caine) torna-se mais fácil: possuem um tradutor e, sobretudo, sorte. Ao contrário de Peachy, Daniel começa a enxergar algo a mais: talvez tudo não passe de obra do destino, e talvez ele – com a barba avantajada, grande e forte – nasceu para governar a região.

A partir da obra de Kipling, Huston faz uma poderosa crítica ao colonialismo. Crentes em sua superioridade, mas malandros sempre, os homens ao centro ensinam seus súditos ignorantes a matar como “homens civilizados”, nas palavras de Daniel.

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Pouco a pouco, começam a conquistar novas tribos, novos castelos. Daniel, salvo da morte graças a um de seus artefatos, ao receber uma flechada, é considerado um deus, o descendente espiritual de Alexandre, o Grande, que antes havia governado o local.

O diretor conduz a aventura com graça. Seus heróis nunca perdem a vontade de viver, mesmo quando encaram os piores momentos. Huston foi um aventureiro bebedor, e seus filmes não escondem a delícia que o risco envolve.

Isso não significa que não leve o material a sério. Ele quase sempre prefere tomar distância dos nativos. O filme é contado pelo ponto de vista de Peachy, que retorna a Kipling para relatar como o poder pode ser – ou quase sempre é – volúvel.

O tesouro reserva-se à aventura, à simples piada bem contada, à história que se degusta talvez sem acreditar em cada detalhe. A história de Peachy é, ironicamente, uma história de destino, não de acaso – como quase toda boa história parece ser. Huston não escapa desse caminho: satisfeitos, seus homens cantam até mesmo à beira da morte.

(The Man Who Would Be King, John Huston, 1975)

Nota: ★★★★☆

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30 grandes filmes, há 60 anos

Não é exagero: 1955 tem tanto peso ao cinema quanto 1939. Talvez não tenha o mesmo número de filmes americanos importantes, mas tem todos os ingredientes que dariam vez ao cinema moderno, além de filmes com contornos clássicos.

Lançados há 60 anos, alguns desses filmes abordam a juventude, têm grandes diretores que ainda não tinham chegado ao topo, outros que terminavam a carreira, além da façanha de antecipar movimentos como a nouvelle vague e o cinema novo. Ano para não esquecer.

30) Sementes de Violência, de Richard Brooks

Professor pacato tem de conviver com os conflitos de uma nova geração. O filme de Brooks marcou época e tem na abertura o som de “Rock Around The Clock”.

sementes de violência

29) Geração, de Andrzej Wajda

Primeiro filme de Wajda, sobre a luta de resistência polonesa contra tropas nazistas. É o primeiro da Trilogia da Guerra, da qual fazem parte Kanal e Cinzas e Diamantes.

geração

28) A Trapaça, de Federico Fellini

Trapaceiros profissionais encabeçados pelo bonachão Broderick Crawford fingem ser homens da igreja para levar dinheiro de fieis em pequenas vilas pobres da Itália.

a trapaça

27) Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos

Filme brasileiro que abriu caminho ao cinema novo da década seguinte, com um panorama da “cidade maravilhosa”, seus abismos e, claro, o futebol.

rio 40 graus

26) As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot

Para compensar a falta de talento de Véra Clouzot há a presença de Simone Signoret nesse suspense sobre duas mulheres (amante e esposa) unidas para matar um homem.

as diabólicas

25) Noite e Neblina, de Alain Resnais

Marcante documentário sobre a memória do Holocausto, com imagens em cores dos campos de concentração e outras da época dos fatos, com doses de horror.

noite e neblina

24) Conspiração do Silêncio, de John Sturges

Homem misterioso e correto desembarca em pequena cidade perdida no mapa para investigar um assassinato. É o suficiente para deflagrar diferentes conflitos.

conspiração do silêncio

23) Ricardo 3º, de Laurence Olivier

Mais lembrado pela adaptação de Hamlet, Olivier levou às telas – com fotografia extraordinária – essa exuberante história de cobiça a partir de Shakespeare.

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22) O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger

O diretor só conseguiu fazer esse trabalho graças à presença de Frank Sinatra. À época, tratar o uso de drogas ilícitas no cinema era algo novo e poderia causar afronta.

o homem do braço de ouro

21) Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel

Filme de serial killer que segue a mania de Buñuel sobre a impossibilidade de concretizar um ato. Algo sempre dá errado quando a personagem tenta matar alguém.

ensaio de um crime

20) Sorrisos de Uma Noite de Amor, de Ingmar Bergman

Traições entre diferentes casais embalam a comédia de Bergman, com a presença luminosa de Harriet Andersson, empenhada a provocar um rapaz puritano.

sorrisos de uma noite de amor

19) A Morte de um Ciclista, de Juan Antonio Bardem

Grande filme mexicano sobre um casal que mata acidentalmente um ciclista, à estrada, e tem a vida transformada quando há a suspeita de que alguém teria presenciado o crime.

a morte de um ciclista

18) Quinteto da Morte, de Alexander Mackendrick

Contra os experientes bandidos está o impensável: a pacata senhora que acredita se tratar de um grupo de músicos profissionais. Última comédia dos Estúdios Ealing.

quinteto da morte

17) Abandonada, de Francesco Maselli

Rapaz burguês tem a vida transformada ao hospedar uma família pobre em sua fazenda, nos tempos de guerra. A certa altura, ele vê-se obrigado a lutar com a resistência.

abandonada

16) A Rosa Tatuada, de Daniel Mann

Presença de força, Anna Magnani é a mulher deixada pelo marido e que tem de cuidar da filha. A certa altura, conhece outro homem, vivido pelo ótimo Burt Lancaster.

a rosa tatuada

15) Stella, de Mihalis Kakogiannis

A presença da atriz Melina Mercouri entrou para a história do cinema, interpretando uma cantora que seduz homens diversos e não aceita ser domada.

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14) Grilhões do Passado, de Orson Welles

O mestre Welles interpreta mais uma figura curiosa, Gregory Arkadin, com um trabalho estranho a um homem perdido no mundo: investigar sua própria vida.

grilhões do passado

13) Império do Crime, de Joseph H. Lewis

Com toques expressionistas, a obra de Lewis tem sequências magistrais. Segue a corrida do policial vivido por Cornel Wilde, no rastro do chefão do crime e preso às sombras.

império do crime

12) Juventude Transviada, de Nicholas Ray

Com O Selvagem e Sementes de Violência, o filme de Ray coloca o jovem definitivamente nas telas do cinema. Nesse caso, o rebelde sem causa.

juventude transviada

11) Férias de Amor, de Joshua Logan

O forasteiro recém-chegado à cidade arranca suspiros das mulheres: com o peito nu, sem raízes, ele logo se envolve com a garota mais bela do local.

férias de amor

10) La Pointe-Courte, de Agnès Varda

Antes dos filmes que deram vez à nouvelle vague, no fim dos anos 1950, a diretora Varda utilizou parcos recursos e conseguiu antecipar o movimento.

La Pointe-Courte

9) Rififi, de Jules Dassin

Após ir embora dos Estados Unidos, perseguido pelo macarthismo, Dassin realiza esse grande filme de assalto. A sequência do roubo, meticulosa, entrou para a história.

rififi

8) Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Melodrama classe A, talvez o melhor de Sirk ao lado de Palavras ao Vento, sobre o amor (quase) impossível entre uma mulher madura e seu jardineiro.

tudo que o céu permite

7) Casa de Bambu, de Samuel Fuller

No Japão cheio de americanos do pós-guerra, a bandidagem ianque lucra alto enquanto policiais infiltrados tentam descobrir os tentáculos dessa organização.

casa de bambu

6) A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

Como o típico filme noir, as mulheres são inconfiáveis, o chão é um tabuleiro de xadrez e a surpresa final, nesse caso, ainda permite a abertura da Caixa de Pandora.

a morte num beijo

5) Lola Montes, de Max Ophüls

Último filme do mestre Ophüls, mais uma de suas obras-primas. Chegou a ser mutilado na época e só mais tarde ganhou a versão que o diretor desejava.

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4) Vidas Amargas, de Elia Kazan

O rapaz deslocado de James Dean é um inconformado: deseja ajudar o pai a todo custo e reencontrar a mãe. De quebra, talvez acabe apaixonado pela namorada do irmão.

vidas amargas

3) A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

A religião divide mais do que une nesse grande filme de Dreyer, com a incrível sequência final, capaz de emocionar até os espectadores mais céticos.

a palavra

2) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray

A primeira parte da Trilogia de Apu é também o primeiro filme de seu diretor, sobre a difícil vida de um garoto em região rural da Índia, em meio à pobreza absoluta.

a canção da estrada

1) Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton

Com os dedos tatuados e amedrontador, às vezes até engraçado, Mitchum é o vilão perfeito, o falso pregador que persegue duas crianças inocentes.

o mensageiro do diabo

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Jurassic Park, de Steven Spielberg

Os homens são um pouco infantis e incapazes de prender as feras que criaram. Um deles – com pinta de rock star e interpretado por Jeff Goldblum – diz que a natureza deve seguir seu curso. Reviver monstros do passado pode ser má ideia.

Esse homem faz parte do grupo de pessoas levado ao Parque dos Dinossauros ainda não inaugurado do filme de Steven Spielberg. Ganha vida ali um sonho antigo: recriar os dinossauros com engenharia genética, unir passado e futuro.

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Essa junção de tempos logo dá vez ao confronto: os homens, claro, fracassam na tentativa de dominar suas feras. Os gigantes de garras à mostra logo derrubam as estruturas feitas de cimento, metal e cercas elétricas.

De 1993, Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros tem momentos vivos na mente de qualquer cinéfilo – entre outros de Spielberg, como o do policial que diz necessitar de um barco maior, em Tubarão, ou mesmo o do garoto e do alienígena em frente à Lua, em E.T. – O Extraterrestre.

Mais de uma vez, homens olham à água que treme pouco antes da aparição do tiranossauro. São pequenos instantes nos quais Spielberg mostra a que veio: trata-se de uma deliciosa e amedrontadora celebração de detalhes.

Em suma, um filme – ou mais um – sobre o fracasso dos homens, impossibilitados de domar suas criações. Vale lembrar os diferentes tipos em cena, como o que anuncia o apocalipse (Goldblum), o obsessivo e sonhador dono do parque (Richard Attenborough) e o especialista com traços de aventureiro (Sam Neill).

Perto da concretização do sonho, todos viram crianças: ao verem os primeiros dinossauros, elevam-se sobre o carro, desejam tocá-los, emocionam-se como se tudo fosse o que parece. Nessa perfeita harmonia, o grande animal busca o alimento.

Primeiro, o paraíso com sol; depois, o inferno e sua tempestade – somados ao grito das crianças, ao som e à respiração dos dinossauros. Os próprios homens – nesse caso, Alan Grant (Neill) – não sabem lidar com as crianças, suas criações.

De tal ponto nascem os monstros: quando saem do ovo, parecem belos e inocentes; depois começam a perseguir os outros, a dominar o espaço de seus criadores – como Frankenstein ou King Kong, vítimas de homens obsessivos. Passam por trás do desenho que deveria reproduzi-los, na parede, e se revelam piores: são reais.

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Grant, o protagonista, precisa aprender a lidar com as crianças para escapar da selva e retornar à segurança. Faz parte de sua sobrevivência. E será uma criança, por sinal, que conseguirá lidar com o sistema informatizado e devolver a energia elétrica ao parque – depois de horas na escuridão, contorno do velho mundo selvagem.

A certa altura, as crianças são encurraladas pelos temidos velociraptors na cozinha do parque. Spielberg aproveita para lançar um interessante jogo de espelhos em que os monstros refletem os inocentes, no qual esses mesmos monstros são vítimas do desejo de devorar a última esperança entre os adultos.

O mal, como se vê, sempre recai sobre os homens, não sobre a fera. Com suas palavras sábias, com seu ar de certeza e sua teoria do caos, Ian Malcolm (Goldblum) assume o posto do profeta. Conclama a força da natureza, a vitória dos dinossauros.

O cinema necessita desse ar religioso, como se o mal e a revolta das criações, ou da natureza, não pudessem ser obra do acaso. O cinema de Spielberg não abarca acasos. Entretenimento e algo mais, com boa aventura e sinais de Henry Frankenstein.

(Jurassic Park, Steven Spielberg, 1993)

Nota: ★★★★☆

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