Oscar

Bastidores: Lawrence da Arábia

Fiquei obcecado por esse homem, e isso foi ruim. Um verdadeiro artista devia ser capaz de pular num balde de merda e sair cheirando a violetas, mas passei dois anos e três meses fazendo aquele filme, e foram dois anos e três meses pensando em nada além de Lawrence, e eu era ele, era assim dia após dia, foi ruim para mim, pessoalmente, e prejudicou minha atuação posterior.

Peter O’Toole, em declaração a Gay Talese, no perfil Peter O’Toole de volta à terrinha, publicado no livro Fama & Anonimato (Companhia das Letras).

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Dez filmes superestimados que venceram o Oscar

O tempo encarrega-se de apontar os equívocos do senhor Oscar, o prêmio mais famoso do cinema. São vários os filmes que ficaram com a estatueta principal sem apresentar a grandeza esperada, em escolhas de momento, opções sem ousadia e que procuraram o caminho confortável. Bom lembrar: a lista abaixo é fruto de um olhar pessoal.

A Vida de Emile Zola, de William Dieterle

Uma cinebiografia do importante escritor feita com todos os vícios do subgênero, aqui centrada no caso Dreyfus, militar preso injustamente. A personagem-título ganha ares míticos nessa composição que chega ao paralelo com Cristo. Mais um caso de filme de mensagem com roupagem pacifista, em um mundo perto de outra guerra.

Quem merecia o prêmio? Beco Sem Saída ou Cupido é Moleque Teimoso

O Bom Pastor, de Leo McCarey

A fusão de Bing Crosby e Barry Fitzgerald dá certo e fornece pura bondade. Crosby é o padre um pouco moderno que traz mudanças na bagagem; Fitzgerald é a graciosa figura do passado. O primeiro encontrará espaço para cantar, claro, e outras diversas personagens secundárias, previsíveis, passarão pela tela, como os adolescentes da comunidade.

Quem merecia o prêmio? Pacto de Sangue

O Maior Espetáculo da Terra, de Cecil B. DeMille

O mundo do circo, cheio de cores, pelo olhar do pai dos épicos hollywoodianos: o senhor DeMille. Produção inchada, feita de nomes famosos, como um James Stewart oculto pela máscara do palhaço. A Academia rendeu-se ao luxo, ao tamanho da empreitada, enquanto produções menores e melhores foram preteridas.

Quem merecia o prêmio? Matar ou Morrer

Gente como a Gente, de Robert Redford

Drama familiar sobre um menino que não se entende com a mãe após a morte do irmão. No papel do rapaz, o jovem Timothy Hutton ganhou o prêmio de coadjuvante. É humano, verdadeiro, mas não empolga. Ainda assim, Redford provou que era, além de bom ator, um realizador com sensibilidade. A indicação estaria de bom tamanho.

Quem merecia o prêmio? Touro Indomável

Coração Valente, de Mel Gibson

Não dá para negar que tem momentos fortes e emocionantes. O ponto alto, contudo, é a fotografia de John Toll. Gibson, que adora o uso da câmera lenta, acumula também o protagonismo, como o guerreiro de cabelos longos que compra briga contra o rei da toda poderosa Inglaterra após ter a companheira assassinada.

Quem merecia o prêmio? Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo

Gladiador, de Ridley Scott

A Academia sempre teve uma queda por épicos. A obra de Scott é, do início ao fim, fruto de puro esquematismo: o avanço do general traído que se torna escravo e termina no centro do Coliseu, onde tenta derrubar inimigos e conspiradores. Scott já foi melhor outras vezes. No embalo do sucesso, até Russell Crowe ganhou um Oscar.

Quem merecia o prêmio? Traffic: Ninguém Sai Limpo ou O Tigre e o Dragão

Crash: No Limite, de Paul Haggis

Um daqueles momentos vergonhosos do prêmio. Crash é inferior aos quatro filmes com os quais concorria. Sua trama de vidas paralelas – que o fez ser comparado inclusive às obras de Robert Altman, o que soa brincadeira – representa um retrato da vida em Los Angeles, sem mocinhos e bandidos. No fim, o azarão riu por último.

Quem merecia o prêmio? O Segredo de Brokeback Mountain

O Discurso do Rei, de Tom Hooper

Outra produção certinha que agradou a crítica e os prêmios. Tem seus altos e baixos, é caprichada, com elenco afinado e aquela forma britânica que a Academia adora premiar. O rei gago, em tela, precisa descobrir sua voz (e seu poder) e confronta seu professor, interpretado na medida pelo sempre simpático Geoffrey Rush.

Quem merecia o prêmio? A Rede Social

Argo, de Ben Affleck

O roteiro é esperto e o filme tem lá seus momentos inspirados. Mas é pouco para uma estatueta que, no passado, foi dada a obras como O Poderoso Chefão e Lawrence da Arábia. De qualquer forma, Hollywood curvou-se a essa história sobre si própria, sobre como sua falsidade pode ser utilizada como arma política.

Quem merecia o prêmio? Amor

12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen

A temática certa no momento certo. Além disso, um filme considerado corajoso por encarar a escravidão de frente, colocando o escravo como protagonista. Em cena, um homem negro livre (Chiwetel Ejiofor) é preso e levado a uma fazenda, no início de uma jornada repleta de dor, sob as ordens de um homem branco (Michael Fassbender).

Quem merecia o prêmio? Gravidade ou O Lobo de Wall Street

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Kitty Foyle, de Sam Wood

Os confrontos de Kitty Foyle são conhecidos e seriam explorados muitas vezes mais tarde. Mulheres contra homens, contra o mundo, contra as tradições – mas levadas, e sem muita a fazer, pelo coração. Traem a si mesmas, estão à margem. À época, na passagem aos anos 40, a personagem de Ginger Rogers tinha ainda alguma novidade.

No início da obra de Sam Wood, com roteiro de Dalton Trumbo, as mulheres pediam por direitos, desejavam espaço na sociedade. Logo vem o sufrágio. Antes, enquanto os homens davam as cartas, restava a elas o prazer de “pertencer a uma posição”, a um “papel”, como no momento em que uma delas entra no bonde. Forma-se um corredor para que desfile.

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É como se o filme dissesse: as mulheres eram mulheres, eram damas, como princesas. A igualdade leva ao mesmo bonde, mas a novo visual: agora as mulheres amontoam-se, desajeitadas, entre homens. Alguns em pé, outros sentados. Entre a multidão, todos chegam ao mesmo patamar. Passou o estado da beleza, da classe, do sonho.

O filme tem seu lado machista. É inteiro sobre o confronto da protagonista com este estado, com esse mundo que, em um cinema acanhado, não revela todas as suas transformações. Pequenas são elas, ainda que marcantes: Foyle, ao centro, é a datilógrafa que aprendeu a não sonhar, vítima (mais de uma vez) dos sentimentos, disposta a enfrentar séculos de uma linhagem familiar emoldurada em palácios, à moda da Filadélfia.

Ama o rapaz rico, seu chefe. Nem ele, um homem, pode contra sua linhagem. Está destinado a seguí-la: casar-se com uma mulher do meio, ter um filho com seu nome. O destino está dado. Ao contrário, desafio o texto, o destino só pode ser quebrado quando é o homem que dá o passo: ele resolve fugir para a América Latina (refúgio predileto dos bandidos do cinema americano) na companhia da amada. É a forma de ficarem unidos.

Trumbo tem boa resposta ao fim. Não vale revelar o desfecho, claro. Sua mulher ainda guarda força – sem renunciar à beleza dos sentimentos. Não se pede tanto, claro. Foyle é uma boneca cuja força escorrega pelos dedos, perde-se no sorriso irresistível e infantil de Rogers, que ficou com o Oscar de melhor atriz em 1941.

A resposta para resolver seu impasse – entre dois homens, duas cidades, dois tempos – vem por ela própria: seu reflexo no espelho encara-a para lhe dizer verdades. Ou seja, a mulher precisa confessar a si mesma, do reflexo racional à carne cheia de paixão, que seguir o coração pode não ser o melhor negócio. É a vez dos tempos racionais. Os sentimentos aquietam-se. O trabalho de Wood tem algo moderno.

O filme dá-se em confronto interno, da mulher à mulher. Apenas ela poderá resolvê-lo. Entre uma lembrança e outra a neve de seu pequeno globo de vidro toma a tela: estão por ali as partículas que embaçam, que talvez impeçam que se veja a verdade. A trilha de Foyle é longa, não a mais justa. Difícil resistir ao filme – mesmo com seus pontos baixos, sua visão estreita das mudanças que, nos anos 40, gritavam a todos os lados.

(Idem, Sam Wood, 1940)

Nota: ★★★☆☆

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Sete obras-primas que ganharam o Oscar de direção, mas não o de filme

Nem sempre dá para entender as escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar. Há filmes que ganham estatuetas importantes, mas terminam a noite sem a mais cobiçada: a de melhor filme. E ainda que a Academia costume conceder os prêmios de filme e direção na maior parte das vezes à mesma obra, são vários os casos em que preferiu fatiar. A lista abaixo traz sete obras-primas que ficaram com o prêmio de melhor diretor, o que não significa que sejam superiores aos ganhadores da estatueta principal. Mas vale refletir e comparar.

As Vinhas da Ira, de John Ford

O segundo dos quatro Oscars que Ford recebeu em sua carreira. O diretor ainda é o recordista em número de estatuetas nessa categoria. Conta a história de uma família que viaja em busca de trabalho e uma terra para viver nos Estados Unidos da Grande Depressão. Vencedor de melhor filme na ocasião: Rebecca, a Mulher Inesquecível.

O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston

Huston ficou com o prêmio de direção e, pelo mesmo filme, seu pai, Walter, abocanhou o de coadjuvante. Um faroeste belíssimo, em preto e branco, sobre três homens que se embrenham no México em busca de ouro. O que começa com camaradagem dá vez à loucura e mais tarde ao confronto. Vencedor de melhor filme na ocasião: Hamlet.

Um Lugar ao Sol, de George Stevens

A história do jovem pobre com um tio rico e que, da noite para o dia, entre um pouco de amor e outro tanto de oportunismo, vê a possibilidade de ingressar no mundo dos grã-finos. O problema é que ele já engravidou outra mulher. A dificuldade de viver uma vida dupla o leva à tragédia. Vencedor de melhor filme na ocasião: Sinfonia de Paris.

Cabaret, de Bob Fosse

Esse grande musical moderno de Bob Fosse levou oito estatuetas douradas, entre elas a de diretor, atriz (Liza Minnelli) e ator coadjuvante (Joel Grey), mas não a de melhor filme. Na Alemanha à beira do nazismo, o cabaré é a fuga ao show e a um pouco de libertinagem. Vencedor de melhor filme na ocasião: O Poderoso Chefão.

Reds, de Warren Beatty

O diretor, também ator famoso, levou anos para colocar a história do jornalista John Reed na película. O resultado é uma obra monumental cuja estrutura narrativa traz declarações de pessoas que conviveram com as figuras reais retratadas, mesclando documentário e ficção. Vencedor de melhor filme na ocasião: Carruagens de Fogo.

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

A história de amor entre dois rapazes (Jake Gyllenhaal e Heath Ledger) que dividem algum tempo pastoreando ovelhas em uma montanha. Do encontro nasce uma relação inesperada que atravessa décadas e, devido ao preconceito, não aparece aos olhos de todos. Comovente e delicado. Vencedor de melhor filme na ocasião: Crash – No Limite.

Gravidade, de Alfonso Cuarón

Uma cientista está presa ao espaço em que nada tem fim, em que tudo parece aberto e, ao mesmo tempo, onde se vive em clausura. A vida no espaço é impossível. Cuarón investe em planos-sequência extraordinários e coloca o público no interior dessa luta pela sobrevivência. Vencedor de melhor filme na ocasião: 12 Anos de Escravidão.

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