Os Pássaros

Bastidores: Os Pássaros

Assistindo a Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, (…) pela primeira vez fiz uma possível leitura do filme como uma parábola política. Ora, de um lado temos a América branca e conservadora de uma cidadezinha litorânea; de outro esses pássaros ameaçadores de várias espécies, de corvos a gaivotas, misteriosamente organizados em bando para atacar os humanos invadindo seu território.

Pássaro bom, no filme, é pássaro engaiolado e subserviente, como vemos logo no início, na cena em que Mitch (Rod Taylor) conhece a jovem socialite Melanie (Tippi Heddren) numa loja de animais de estimação. Em seguida, observamos os comentários preconceituosos que a irmã pequena de Mitch faz sobre os negros dos casos em que ele atua como advogado em São Francisco. Ou seja, se São Francisco é a cidade infernal e infestada de negros que se agridem por motivos banais (Mitch relembra, em tom de piada, a briga de um casal que terminou em morte porque a mulher trocou o canal da televisão), Bodega Bay é um pequeno paraíso habitado exclusivamente por anglo-saxões. Na emblemática cena do bar, uma mãe apavorada acompanhada de seus filhos lourinhos tem um ataque de pânico frente à iminência do ataque dos pássaros; uma senhora ornitóloga parece ser a única voz da razão a questionar a capacidade de organização das aves com fins bélicos, enquanto outro frequentador chega a sugerir que é melhor exterminar logo todos os pássaros da face da Terra para que eles não incomodem os humanos. Ataque após ataque dos pássaros, sem uma razão aparente para tal, o caos chega a Bodega Bay, até o ponto em que se sugere que a única solução seja a intervenção de tropas do exército.

Marcelo Janot, crítico de cinema, no site Críticos (leia aqui o artigo completo). Abaixo, Alfred Hitchcock no estúdio, durante as filmagens.

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Os Pássaros, um filme de mulheres

Os Pássaros, um filme de mulheres

Em Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, os homens apenas vagam de um lado para o outro, fundamentais mas sem expressão. O homem ao centro é o advogado vivido por Rod Taylor, Mitch Brenner.

A rica e um pouco aventureira Melanie Daniels (Tippi Hedren) vai atrás dele em uma pequena cidade na qual cada centímetro remete a um mundo passado, com gente pacata e conservadora, nada a ver com a loura atrevida da cidade grande.

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Com ela vem a fúria da natureza, os pássaros. E a mulher, coitada, leva o mal ao grupo de pessoas. A cidade transforma-se em palco de destruição, pavor, com doses de ação e suspense controladas com maestria por Hitchcock.

O filme assume contornos bíblicos, com a mulher entre destruição, proibição e mudança. Impossível, por exemplo, não se ater ao olhar daquele velho senhor de um pequeno mercado, a quem Melanie pede ajuda ao chegar à cidade. É o velho americano desconfiado frente à modernidade feminina.

Para Hitchcock, a mulher traz diferenças, sendo também a rival e a dominadora. Aqui, Melanie tem concorrentes de peso.

A figura da mãe

Mitch tem uma mãe desconfiada. Ao ser apresentada a Melanie, nota-se o desconforto dela: a ideia de que pode, àquela altura, perder o filho definitivamente para a cidade grande. Talvez, acredite a mãe, ele não volte à pequena cidade, à sua casa à beira do lago, ao clima interiorano de todos os fins de semana.

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O que se vê é o risco em mudar hábitos. Hitchcock apresenta, visualmente, essa luta da mãe para estar entre a nova loura, a nova mulher, e o filho desinteressante. Em uma sequência-chave, ela atende ao telefone enquanto os novos amantes estão ao fundo, um de cada lado. Jessica Tandy interpreta essa mulher com perfeição.

Nessa mesma sequência, o homem muda de lugar no espaço, vai ao outro ponto da sala, desloca-se como se já deixasse claro estar em busca da outra mulher.

A professora

Naquela mesma cidade há o contraponto a Melanie: a professora de cabelos pretos que cultiva o hábito de limpar o jardim, Annie Hayworth (Suzanne Pleshette). Por trás dela, de seu rosto aparentemente frágil, corre uma história – e Hitchcock permite que corra.

Talvez deseje ser o que representa Melanie: a mulher emancipada, com o direito a sair em busca de seu homem sem que isso gere constrangimento. Os lados são invertidos. Também as cores. Seus cabelos pretos indicam a mulher fria, impedida de ser vista por Mitch, ou mesmo retornar para seus braços. Está presa àquela cidade, àquele estado de vida, a ser o que Melanie não é.

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O filme representa a oposição perfeita quando elas estão à porta, uma de cada lado, com um pássaro morto ao chão. A mulher passa por uma transformação. O pássaro é um aviso do mal: a passagem da morena presa à loura liberta.

Há, para Hitchcock, a vingança da natureza – e é provável que isso esteja também na obra que deu origem ao filme, assinada por Daphne Du Maurier. Spielberg entendeu esse espírito em Tubarão, quando, na abertura, o monstro representa também uma vingança da natureza – ou de Deus, de um velho mundo – contra a modernidade dos jovens em busca de sexo à beira-mar, que nadam nus e cantam.

Se a mãe de Tandy não pode dividir o filho com mulher alguma, tampouco a professora poderá se libertar de sua prisão. No fundo, essas pessoas estão em suas próprias gaiolas, em suas vidas comuns – até surgir a moça loura íntima às fofocas de colunas sociais.

Melanie pertence a uma nova espécie, gera atração em todos ao redor, representa o desejo, o passo à frente. Difícil é escapar da grande gaiola.

(The Birds, Alfred Hitchcock, 1963)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock
Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock

Relaxando nos bastidores

Porque diretores, atores e toda a produção têm aquele merecido tempo para descansar entre uma filmagem e outra. Abaixo, algumas imagens que mostram momentos de descontração e relaxamento em obras famosas do cinema.

Frankenstein, de James Whale

Boris Karloff toma café ao lado de Colin Clive.

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Uma Aventura na África, de John Huston

Ao lado de sua amada Lauren Bacall (de óculos), Bogart prepara-se para entrar em ação.

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O Rio das Almas Perdidas, de Otto Preminger

A estrela Marilyn Monroe dorme durante as filmagens.

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Os Incompreendidos, de François Truffaut

Truffaut com sua jovem revelação, Jean-Pierre Léaud.

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Ben-Hur, de William Wyler

Em clima italiano, Stephen Boyd leva Charlton Heston na garupa de sua lambreta.

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Spartacus, de Stanley Kubrick

O jovem Kubrick, ao lado de Tony Curtis, conversa com o astro Kirk Douglas.

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Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards

Pelas ruas de Nova York, Audrey Hepburn espera o momento para filmar.

bonequinha de luxo

007 Contra o Satânico Dr. No, de Terence Young

Nada como uma boa praia. Melhor ainda com Ursula Andress e Sean Connery.

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Os Pássaros, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense explica sua “forma do filme” a Rod Taylor (à esquerda).

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O Planeta dos Macacos, de Franklin J. Schaffner

Com a máscara de macaco e o jornal na mão.

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Tubarão, de Steven Spielberg

Robert Shaw descansa ao lado de seu “companheiro”.

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Taxi Driver, de Martin Scorsese

Jodie Foster (à direita), como a jovem prostituta que é salva por Travis (Robert De Niro).

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Guerra nas Estrelas, de George Lucas

Alec Guinness coloca óculos escuros para escapar do sol.

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Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter

Michael Myers toma seu refrigerante. Ou melhor: Tony Moran toma refrigerante.

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Conta Comigo, de Rob Reiner

A garotada do elenco se diverte com as máquinas de filmagem.

conta comigo

Titanic, de James Cameron

Leonardo DiCaprio e Kate Winslet fazem graça antes de o elevador ser tomado pela água.

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Rod Taylor (1930-2015)

Astro estranho, de rosto quadrado, quase esculpido, de beleza que chega a incomodar. Às vezes falso de tão calculado. Quem o viu em Zabriskie Point, de Antonioni, talvez não tenha feito a ligação: trata-se do mesmo ator dos famosos A Máquina do Tempo e Os Pássaros, de 1960 e 1963, respectivamente.

No filme de Hitchcock, por qual é mais lembrado, ele vive um rapaz rico ainda sob os olhos da mãe, interpretada por ninguém menos que Jessica Tandy. Os Pássaros, vale lembrar, é um filme de mulheres: a história da loura rica (Tippi Hedren) que sai da cidade grande para bagunçar a pequena cidade de Mitch (Taylor), onde vive com a mãe e a pequena irmã.

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Mais tarde, Taylor interpretou o líder britânico Winston Churchill em Bastardos Inglórios, seu último filme. Abaixo, sua imagem no longa de Quentin Tarantino e um vídeo com entrevista, na qual ele conta como foi convidado para fazer essa ponta no filme de 2009.

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