Os Idiotas

Oito bons filmes sobre famílias e sociedades alternativas

As personagens dos filmes abaixo decidiram viver à margem da sociedade, decidiram resistir aos sinais e às tentações de um meio conservador, capitalista e não raro nocivo. Algumas também se viram excluídas, simplesmente por não se encaixarem no sistema. E os filmes apresentam a luta para estar fora, contra os membros de dentro, ou mesmo os conflitos no interior dessas famílias e sociedades alternativas. Filmes para bons debates, com drama e até humor.

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Um Gosto de Mel, de Tony Richardson

Após se apaixonar por um marinheiro negro e se ver sozinha e grávida, uma garota (Rita Tushingham) passa a viver com um amigo homossexual. Em convivência diária, ambos desenvolvem grande afeto. O diretor Tony Richardson é um dos nomes centrais do novo cinema britânico e ganhou o Oscar por As Aventuras de Tom Jones.

Deixem-nos Viver, de Arthur Penn

O belo filme de Penn narra as andanças de Arlo Guthrie (o verdadeiro) e o universo dos hippies em sua sociedade alternativa. Realidade e ficção confundem-se o tempo todo. A comunidade fundada pelas personagens vive no interior de uma igreja abandonada e o ponto alto da obra é a cena de um casamento nada convencional. Uma beleza.

Os Idiotas, de Lars von Trier

Um grupo de amigos decide viver à margem da sociedade e funda uma comunidade em que todos podem se comportar como “idiotas”, ou seja, como seres sem qualquer compromisso com regras sociais. Esse filme à vezes radical faz parte do movimento Dogma, cujas regras incluem câmera na mão, luz natural e improvisação do elenco.

A Praia, de Danny Boyle

Em viagem pela Tailândia, a personagem de Leonardo DiCaprio descobre um paraíso perdido e de acesso restrito. Ali, encontra uma sociedade fechada formada por pessoas de diferentes países e comandada com mão de ferro por uma mulher (Tilda Swinton). Mas o que seria um bom exemplo de coletivismo aos poucos cai por terra.

E se Vivêssemos Todos Juntos?, de Stéphane Robelin

Para enfrentar os problemas que chegam com a idade, amigos de longa data têm uma ideia: e se passassem a viver todos juntos, em uma mesma casa? É o ponto de partida dessa bela comédia francesa. Entre um câncer e problemas de falta de memória, as personagens tentam não perder o bom humor e, claro, a unidade do grupo.

Tatuagem, de Hilton Lacerda

Filme libertário sobre um grupo de artistas em um cabaré anarquista, no Nordeste, durante a Ditadura Militar no Brasil. Em meio às apresentações que não escondem o desejo de escandalizar, nasce uma relação entre o líder do grupo (Irandhir Santos) e um jovem soldado (Jesuíta Barbosa). Uma obra sobre liberdade e resistência.

A Comunidade, de Thomas Vinterberg

O casal formado por Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm decide abrir as portas de sua grande casa para mais pessoas e fundam ali uma comunidade libertária, na qual as decisões são feitas por votação. Os problemas começam quando ele resolve levar sua amante, também sua aluna, para dentro da casa. É quando a esposa entra em crise.

Capitão Fantástico, de Matt Ross

Viggo Mortensen é Ben, homem que cria os filhos longe da sociedade, com educação rígida e regada a senso crítico. Após a morte de sua mulher, ele segue em viagem à sociedade para tentar cumprir o último desejo da falecida, e contra as intenções de sua família conservadora: ser cremada e ter as cinzas lançadas em um vaso sanitário.

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Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Ao longo de sua ainda curta história, o cinema sempre explorou alguns temas tabus. E após décadas de seus lançamentos, alguns filmes ainda incomodam ao colocar o dedo na ferida, ao questionar as regras impostas pela sociedade, também pela Igreja – e por todos os patrocinadores dos bons modos, em nome “de Deus e da família”, para não se esquecer de discursos recentes. É cinema em sua função: causar questionamentos.

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Os filmes abaixo foram escolhidos pela temática, não pela estética – ainda que ambas estejam quase sempre relacionadas. A ideia é ampliar o debate e, claro, fazer pensar.

Meu Passado me Condena, de Basil Dearden

Homossexualidade – Os homossexuais demoraram a conquistar direitos ao redor do mundo (e ainda hoje a prática é crime em alguns países). Nesse grande drama de Dearden, um promissor advogado é chantageado por ser homossexual. O filme foi lançado em 1961, quando relações com pessoas do mesmo sexo ainda eram crime na Inglaterra. O assunto seria retomado mais tarde em O Jogo da Imitação.

meu passado me condena

Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca

Antibelicismo – Outros filmes trataram da questão como comédia, entre eles o incrível Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick. Mas o que torna o filme de Philippe de Broca tão original é o fato de ser protagonizado por personagens saídas de um hospício. Situa-se na Primeira Guerra Mundial, em uma pequena cidade francesa recém-desabitada. Libertados, os loucos ficam por ali, interpretando papéis nessa nova sociedade. E quando os alemães invadem o local, a obra questiona quem são os loucos da história.

esse mundo é dos loucos

Sopro no Coração, de Louis Malle

Incesto – O diretor francês trata a questão com delicadeza e dá vida a um filme inesquecível. Ao descobrir que seu filho tem sopro no coração, uma mãe isola-se com o menino em um clube de campo. Na fase adolescente, o garoto faz as primeiras descobertas sexuais, ao mesmo tempo em que observa a beleza da mãe – uma estonteante Lea Massari. A exemplo de Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, a mãe é a porta para a descoberta sexual do filho.

aa aasopro no coração

O Medo Devora a Alma, de Rainer Werner Fassbinder

Relação inter-racial – Outra questão tabu em tempos não tão distantes. A obra de Fassbinder explora a relação entre um imigrante negro marroquino (El Hedi ben Salem) e uma viúva alemã de 60 anos (Brigitte Mira). O casal terá de enfrentar o preconceito da sociedade. É uma homenagem do cineasta a Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk, sobre o relacionamento de um jardineiro com uma mulher mais velha.

o medo devora a alma

Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

A tecnologia e a deformação como fetiches – As personagens de Cronenberg sentem prazer ao reconstituir famosos acidentes de carro. Algumas fazem sexo nesses veículos enquanto correm riscos. O diretor, a partir do livro de J.G. Ballard, discute a adoração à máquina, também às deformações do corpo – temas recorrentes em sua filmografia. O desejo pela deformação é também abordado em A Tortura do Medo.

crash

Os Idiotas, de Lars von Trier

Comportamento e organização social – Um grupo de amigos resolve se isolar em uma casa e dar vez ao “idiota” interno de cada um. Para tanto, essas personagens vivem momentos de liberdade intensa, sem as amarras e os bons modos da sociedade. O diretor von Trier constrói um filme forte dentro do movimento Dogma, com improvisação e aparente registro documental. Cumpre, em muitos momentos, sua principal função: incomodar o espectador.

os idiotas

O Lenhador, de Nicole Kassell

O lado humano do pedófilo – Não é fácil digerir o protagonista desse drama, um pedófilo (Kevin Bacon) que acabou de deixar a prisão. Trata de seu difícil retorno à sociedade e, pior, de seu olhar compartilhado com o espectador: a maneira como se sente atraído por uma menina, ou a repulsa que sente por si próprio ao ver as ações de outro pedófilo, na escola infantil em frente ao pequeno apartamento em que passa a morar.

o lenhador

Mar Adentro, de Alejandro Amenábar

A opção pela eutanásia – Ainda que utilize alguns efeitos para dramatizar – como o voo da personagem, em sua imaginação, até o mar –, o filme de Amenábar consegue bons resultados ao discutir a eutanásia. Em cena, a luta de Ramón Sampedro (Javier Bardem): após sofrer um acidente e ficar tetraplégico, ele deseja conquistar na Justiça o direto de morrer. Isso lhe traz problemas com a igreja e com a sociedade em geral.

mar adentro

Tomboy, de Céline Sciamma

Identidade de gênero – O que define um homem ou uma mulher? Trata-se apenas de uma questão anatômica? É o que pretende discutir esse belo drama da cineasta Sciamma, sobre uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que passa a se apresentar aos vizinhos como Michaël. Questão que se impõe: já que a personagem identifica-se como menino, não seria correto evitar o termo “menina” na sinopse? A obra vai muito além da rasteira dualidade religiosa.

tomboy

Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob

Negação da maternidade – A atriz ao centro (Olivia Corsini) passa de seu papel anterior, na peça A Gaivota, de Tchekhov, a um novo e difícil papel: ser mãe. E o filme de Costa e Glob confronta a ideia de que a maternidade é sempre um momento de felicidade plena. Não há registro de outro filme que encare a questão dessa maneira – não, pelo menos, fora do gênero terror, como em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Ao trabalhar em registro documental, em um apartamento que serve como prisão, torna a experiência ainda mais interessante.

olmo e a gaivota

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