Os Filmes da Minha Vida

O filme que ensinou Wim Wenders a fazer cinema

Foi com esse filme, O Homem do Oeste, que de repente eu entendi como os filmes são feitos. Eu era finalmente capaz de ler toda aquela arquitetura. Claro que poderia ter acontecido com outros filmes – mas, não por coincidência, aconteceu com os de Anthony Mann. Ali, eu percebi como uma cena era construída com planos abertos – Mann fazia planos abertos fantásticos. Só outro mestre, John Ford, alcançava a perfeição de seus planos, planos médios, closes, planos gerais, planos em movimento e steadicam. Claro que você pode aprender isso em qualquer filme, mas eu aprendi a arte de fazer cinema com uma série de filmes de Anthony Mann exibida na Cinemateca [Francesa] – e especialmente com O Homem do Oeste. (…) Em O Homem do Oeste, entendi como um cineasta pode guiar seu olhar, te deixar confortável e te colocar no meio da cena. Entender isso foi um longo passo para mim, quase uma revelação.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pg. 21). Abaixo, Gary Cooper em O Homem do Oeste.

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Bastidores: Boneca de Carne

Todos os grandes cineastas aspiram libertar-se das exigências dramáticas e sonham em fazer um filme sem progressão, sem psicologia, onde o interesse dos espectadores seria suscitado por meios outros que mudanças de lugar e de tempo, a astúcia de um diálogo, entradas e saídas dos personagens. Um Condenado à Morte Escapou, Lola Montès, A Mulher Desejada e Janela Indiscreta subiram bem alto nesse pau de sebo, cada um à sua maneira.

Em Boneca de Carne Kazan conseguiu quase perfeitamente – graças ao poder de uma direção de atores única no mundo – impor um filme dessa natureza, escarnecendo dos sentimentos expostos e analisados nos filmes habituais.

François Truffaut, cineasta e crítico de cinema, em Os Filmes de Minha Vida (Editora Nova Fronteira; pgs. 147 e 148; a crítica é de 1957). Abaixo, Elia Kazan dirige Carroll Baker e Eli Wallach.

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A força de Laranja Mecânica, segundo Anna Muylaert

O Kubrick para mim virou Deus, mas Laranja Mecânica eu não assistia. Até que finalmente o revi e resultou em algo insone, eu não conseguia dormir, é um filme que, para mim, tem todas as qualidades possíveis que uma obra pode ter. Engraçado porque na época em que foi lançado era um filme violento, agressivo, desagradável. E hoje, quando lançaram um DVD comemorativo, a meu ver, pode ser entendido como uma comédia, mas as pessoas não conseguiram entender assim. Os atores falam no DVD: “Nós sabíamos que estávamos fazendo uma comédia, mas não foi entendido assim”. É um filme engraçado e irônico o tempo inteiro.

Aliás, falando em ironia, gosto também dos irmãos Coen.

De certa maneira, acho que todos esses cineastas são filhos do Kubrick e do Laranja Mecânica, um filme que tem uma dose de violência, mas tem uma dose ainda maior de ironia. Acho que Tarantino é um filho direto do Laranja Mecânica. Porque Kubrick fez filmes seminais, um de cada gênero.

O Steven Spielberg é filho de um lado do Kubrick, não do Laranja Mecânica, mas Tarantino e os irmãos Coen, por exemplo, acho que vêm diretamente do Laranja. E fui entendendo quanta informação tem nesse filme, cada cena é um filme inteiro, se você tirar só uma cena você já pode discutir horas, cada uma tem unidade própria. Sem falar no nome do filme que traz em si uma contradição, o orgânico mecânico, que num primeiro momento parece sem sentido, mas na verdade já era uma discussão visionária, de um momento que estamos vivendo agora, da presença maciça das máquinas no nosso cotidiano, também o tema de 2001.

Anna Muylaert, cineasta, em seu depoimento ao projeto Os Filmes da Minha Vida, que ocorre junto à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no quinto livro do projeto, Cinema é Sonho (organização de Renata Almeida; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; pgs. 15 e 16). Abaixo, Malcolm McDowell em Laranja Mecânica.

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Bastidores: Ben-Hur

Para destacar filmes, então, o primeiro que eu me lembro de ter causado um impacto especial, que se diferenciou então dessa massa de filmes divertidos e interessantes, foi o Ben-Hur, filme do William Wyler que todo mundo conhece. Um filme bíblico, ou de ambientação bíblica, com o Charlton Heston. Não vi na época em que ele foi feito e lançado, não sou tão velho assim, já vi em uma reprise. O filme é de 1959, devo ter visto em meados dos anos 60. Na época me marcou muito, lembro de ter sonhado várias vezes com cenas do filme. Algumas, como a célebre cena da corrida de bigas, em que acontece o atropelamento do adversário do Ben-Hur, por exemplo. Ele se chamava Messala, é atropelado e cai. Ele é o mau da história, que tenta causar um acidente com a biga do Ben-Hur, mas é ele que acaba sofrendo um acidente, é atropelado e vira uma posta de carne e sangue, uma coisa muito impressionante. Lembro que eu tinha pesadelos com isso. E com a mãe e a irmã do Ben-Hur, que ficavam leprosas e iam parar no vale dos leprosos. Esse vale dos leprosos foi um lugar imaginário que povoou a minha infância, um lugar de horror, uma espécie de inferno, uma coisa assustadora. Qualquer manchinha na pele eu achava que estava com lepra e que ia parar no vale. Esse foi o primeiro filme que me causou uma grande comoção.

José Geraldo Couto, crítico de cinema e tradutor, em seu depoimento ao projeto Os Filmes da Minha Vida, que ocorre junto à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e publicado no quarto livro do projeto, O Real e o Imaginário (organização de Renata Almeida; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; pg. 59). No mesmo livro, a crítica de cinema Isabela Boscov diz que Ben-Hur também lhe marcou, ao vê-lo no cinema, nos anos 70. Abaixo, fotos dos bastidores das versões de 1925, de Fred Niblo, e 1959, de Wyler. Nos dois casos, são os bastidores da corrida de quadrigas.

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Ben-Hur

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Ben-Hur (em três versões)
Entrevista: José Geraldo Couto