Orson Welles

Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

Alguém questiona as intenções do protagonista, filho de um carteiro: por que ele sairia em uma viagem para tentar entregar a carta que o pintor Vincent van Gogh escreveu para seu irmão, Theo van Gogh, e que nunca chegou ao destinatário? Entender o movimento da personagem tem a ver com a pintura, com o que se vê na tela, não com razões humanas.

É apenas uma desculpa para que a personagem reviva van Gogh desde os primeiros instantes, nos milhares de quadros pintados por mais de 100 artistas, no exercício que dá vez ao extraordinário Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Ou o artista que, mesmo após tantas viagens, tantas questões e pontos de vista, tantas pinceladas e paisagens, insista em residir no espaço do mistério.

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Essa animação feita à pintura a óleo e delineada sobre o rosto de verdadeiros atores é mais uma das provas – entre tantas – das possíveis expansões do cinema. Seja as do sonho, seja as do mergulho na obra do outro (em movimento). Ao mesmo tempo, ganham espaço as questões feitas aos interlocutores pelo jovem carteiro, o que nunca encerra o mistério que revolve o homem ao mesmo tempo ao centro, ao mesmo tempo distante: aqui, Van Gogh.

Mas poderia ser outro. Poderia ser alguém que decidiu se fechar, enlouquecer em alguma pequena cidade perdida no mapa, alguém a se deixar levar pela fúria, sustentado por outros, preso ao pequeno quarto da pensão em que resolveu passar as últimas horas. Alguém como van Gogh, não necessariamente o próprio. À medida que se aproxima, também toma distância: resta o enigma, não o genial pintor sobre o qual tanto se fala.

A estrutura narrativa guarda semelhanças à de Cidadão Kane: uma personagem percorre lugares e fala com pessoas que, em algum momento, em algum lugar do passado, estiveram com a figura a ser analisada e descoberta. O jornalista do filme de Orson Welles deseja saber o que há por trás de Rosebud; o carteiro de Com Amor, Van Gogh pode estar perto de solucionar o que o inquieta: como morreu o famoso pintor.

Quer dizer, levar a carta não é o mais importante. Há algo maior. E mesmo antes de se deparar com questões sobre a morte de van Gogh, o carteiro Armand Roulin está inserido em pele, ou em tinta, no que significa o pintor: sua obra, sua estética, a visão de um sonho, as pequenas linhas que aparecem e desaparecem nos detalhes, nos rostos, nas paisagens.

A animação é, sozinha, a resposta que encerra o enigma. Por isso não vale esperar uma resposta concreta sobre o homem em questão, o pintor que vivia com seus próprios demônios e sob a dor de ser mantido pelo irmão Theo. Cada personagem interpelada tem sua própria visão sobre o artista genial, o que não significa que alguém esteja certo ou errado.

Todos, por sinal, veem-se presos à forma única das pinturas de van Gogh, refletida nessa animação: o contraponto ao olhar dos outros, sobre o que viram e o que podem falar do homem com o qual conviveram, em diferentes momentos e ocasiões, é a própria arte da figura retratada, ou seja, o filme inteiro e seu visual arrebatador. É o que importa, o que há para descobrir, para se mergulhar: cada traço, cada linha em movimento.

(Loving Vincent, Dorota Kobiela, Hugh Welchman, 2017)

Nota: ★★★★☆

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100 grandes vilões do cinema

O que define um vilão? Em termos gerais, a capacidade de fazer o mal e colocar barreiras ao avanço do protagonista ou herói da história. Por outro lado, nem sempre se conta com o protagonista esperado e, por isso, há casos em que reinam os vilões, em que o espectador está sozinho com eles – ou quase. É o caso de obras desafiadoras como Laranja Mecânica ou Taxi Driver, nas quais seus protagonistas são também os vilões e, por consequência, representam o espaço e sintetizam a sociedade ao redor.

A lista abaixo traz vilões conhecidos e outros pouco lembrados. O apanhado tenta fazer justiça a muitos coadjuvantes que roubam a cena. Trata-se de um mergulho no espaço da maldade que o cinema não cansa de reinventar. Nele, não se pode negar a atração, o choque, os efeitos causados por grandes antagonistas. À lista.

100) Michael Myers (Tony Moran) em Halloween – A Noite do Terror

99) Edwin Epps (Michael Fassbender) em 12 Anos de Escravidão

98) Margot Shelby (Jean Gillie) em A Mulher Dillinger

97) Regan/ O Diabo (Linda Blair) em O Exorcista

96) John Fitzgerald (Tom Hardy) em O Regresso

95) General Paul Mireau (George Macready) em Glória Feita de Sangue

94) Iago (Micheál MacLiammóir) em Otelo

93) O Comandante (Idris Elba) em Beasts of No Nation

92) Sargento Barnes (Tom Berenger) em Platoon

91) Senhora Sebastian (Leopoldine Konstantin) em Interlúdio

90) Joe Cooper (Matthew McConaughey) em Killer Joe – Matador de Aluguel

89) Amy Dunne (Rosamund Pike) em Garota Exemplar

88) Jack Wilson (Jack Palance) em Os Brutos Também Amam

87) Assassino mascarado (Cameron Mitchell) em Seis Mulheres para o Assassino

86) Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) em O Abutre

85) John Claggart (Robert Ryan) em Billy Budd

84) Capitão Munsey (Hume Cronyn) em Brutalidade

83) Isabelle de Merteuil (Glenn Close) em Ligações Perigosas

82) Jeanne (Isabelle Huppert) e Sophie (Sandrine Bonnaire) em Mulheres Diabólicas

81) Alonzo Harris (Denzel Washington) em Dia de Treinamento

80) Vince Stone (Lee Marvin) em Os Corruptos

79) Annie Wilkes (Kathy Bates) em Louca Obsessão

78) Bill Cutting (Daniel Day-Lewis) em Gangues de Nova York

77) Verbal Kint (Kevin Spacey) em Os Suspeitos

76) Edoardo Nottola (Rod Steiger) em As Mãos Sobre a Cidade

75) Dobbs (Humphrey Bogart) em O Tesouro de Sierra Madre

74) Antonio Salieri (F. Murray Abraham) em Amadeus

73) Louis Cyphre (Robert De Niro) em Coração Satânico

72) O tenente (Anselmo Duarte) em O Caso dos Irmãos Naves

71) Amon Goeth (Ralph Fiennes) em A Lista de Schindler

70) O senhor Brown (Richard Conte) em Império do Crime

69) Matty Walker (Kathleen Turner) em Corpos Ardentes

68) Tommy DeVito (Joe Pesci) em Os Bons Companheiros

67) Vera (Ann Savage) em Curva do Destino

66) Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

65) Harry Lime (Orson Welles) em O Terceiro Homem

64) Enfermeira Ratched (Louise Fletcher) em Um Estranho no Ninho

63) Asami (Eihi Shiina) em Audição

62) C.A. Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) em Metrópolis

61) Drácula (Bela Lugosi) em Drácula

60) Senhora Danvers (Judith Anderson) em Rebecca, a Mulher Inesquecível

59) Johnny Rocco (Edward G. Robinson) em Paixões em Fúria

58) Johnny Friendly (Lee J. Cobb) em Sindicato de Ladrões

57) Ricardo III (Laurence Olivier) em Ricardo III

56) Henry (Michael Rooker) em Henry: Retrato de um Assassino

55) John Doe (Kevin Spacey) em Seven: Os Sete Pecados Capitais

54) Zé Pequeno (Leandro Firmino) em Cidade de Deus

53) Margaret White (Piper Laurie) em Carrie, a Estranha

52) Eve (Anne Baxter) em A Malvada

51) Vidal (Sergi López) em O Labirinto do Fauno

50) Barrett (Dirk Bogarde) em O Criado

49) Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) em Sangue Negro

48) Tony Montana (Al Pacino) em Scarface (1983)

47) Mark Lewis (Karlheinz Böhm) em A Tortura do Medo

46) Duke Mantee (Humphrey Bogart) em A Floresta Petrificada

45) Chuck Tatum (Kirk Douglas) em A Montanha dos Sete Abutres

44) Hans Landa (Christoph Waltz) em Bastardos Inglórios

43) Dr. Caligari (Werner Krauss) em O Gabinete do Dr. Caligari

42) Inspetor (Gian Maria Volonté) em A Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita

41) Senhor Potter (Lionel Barrymore) em A Felicidade Não se Compra

40) Raymond Lemorne (Bernard-Pierre Donnadieu) em O Silêncio do Lago

39) Szell (Laurence Olivier) em Maratona da Morte

38) HAL 9000 (voz de Douglas Rain) em 2001: Uma Odisseia no Espaço

37) Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering) em Funny Games

36) Príncipe Próspero (Vincent Price) em A Orgia da Morte

35) Travis Bickle (Robert De Niro) em Taxi Driver

34) Rico (Edward G. Robinson) em Alma no Lodo

33) Baby Jane Hudson (Bette Davis) em O que Teria Acontecido com Baby Jane?

32) Noah Cross (John Huston) em Chinatown

31) Tony (Paul Muni) em Scarface – A Vergonha de uma Nação

30) O Coringa (Heath Ledger) em Batman – O Cavaleiro das Trevas

29) Hank Quinlan (Orson Welles) em A Marca da Maldade

28) Anton Chigurh (Javier Bardem) em Onde os Fracos Não Têm Vez

27) J.J. Hunsecker (Burt Lancaster) em A Embriaguez do Sucesso

26) Ryunosuke (Tatsuya Nakadai) em A Espada da Maldição

25) Capitão Bligh (Charles Laughton) em O Grande Motim

24) Zé do Caixão (José Mojica Marins) em À Meia-Noite Levarei Sua Alma

23) Jack Torrance (Jack Nicholson) em O Iluminado

22) Conde Orlok (Max Schreck) em Nosferatu

21) Lady Kaede (Mieko Harada) em Ran

20) Alex DeLarge (Malcolm McDowell) em Laranja Mecânica

19) A Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) em O Mágico de Oz

18) Pinkie Brown (Richard Attenborough) em O Pior dos Pecados

17) Tom Powers (James Cagney) em O Inimigo Público

16) Eleanor Shaw Iselin (Angela Lansbury) em Sob o Domínio do Mal

15) Regina Giddens (Bette Davis) em Pérfida

14) Tio Charlie (Joseph Cotten) em A Sombra de uma Dúvida

13) Ellen Berent Harland (Gene Tierney) em Amar Foi Minha Ruína

12) Harold Shand (Bob Hoskins) em Caçada na Noite

11) Darth Vader em Guerra nas Estrelas e O Império Contra-Ataca

10) Cody Jarrett (James Cagney) em Fúria Sanguinária

Cagney é pura maldade. Um demônio que não esquece a mãe e que, ao fim, chega ao “topo do mundo” para gritar por ela.

9) Don Lope de Aguirre (Klaus Kinski) em Aguirre, A Cólera dos Deuses

O homem levado pelo rio, e que leva todos seus companheiros à desgraça. Alguém do qual pouco se sabe e retém todo o mal dessa expedição.

8) Harry Powell (Robert Mitchum) em O Mensageiro do Diabo

Pode ser até mesmo cômico em alguns momentos. Com os dedos marcados, torna a vida de duas crianças um inferno.

7) Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) em Dr. Mabuse – O Jogador

Fritz Lang fez de Mabuse a síntese do mal que recairia sobre a Alemanha anos mais tarde – e voltaria a ele em outros filmes fantásticos.

6) Frank Booth (Dennis Hopper) em Veludo Azul

É assustador até mesmo quando ajoelha à mulher que aprisiona e interpreta uma criança em busca do seio da mãe.

5) Norman Bates (Anthony Perkins) em Psicose

Duas personalidades duelam nessa figura atormentada, assexuada, que observa a nova vítima com alguma curiosidade antes de atacá-la.

4) Frank (Henry Fonda) em Era Uma Vez no Oeste

Mais lembrado por heróis e figuras honestas, Fonda está assustador como esse pistoleiro que mata adultos e crianças.

3) Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) em O Silêncio dos Inocentes

Ninguém esquece o momento em que ele conta como matou e, em seguida, comeu o fígado da vítima com favas e “um bom Chianti”.

2) Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

A falsa loura mobiliza um homem aos seus pés para matar o marido e, claro, ficar com o dinheiro do falecido ao fim.

1) Michael Corleone (Al Pacino) em O Poderoso Chefão – Parte 2

Transformado em líder na primeira parte, de rapaz assustado à chefe mafioso vingativo, Michael forma-se vilão na segunda parte. É capaz de matar o próprio irmão quando é traído. Seus movimentos são calculados, sua frieza é extrema. Assusta justamente porque é real e palpável.

Atores presentes em dois filmes: Al Pacino, Bette Davis, Daniel Day-Lewis, Edward G. Robinson, Glenn Close, Humphrey Bogart, James Cagney, Kevin Spacey, Laurence Olivier, Orson Welles, Robert De Niro e Rudolf Klein-Rogge.

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A Dama de Shanghai, de Orson Welles

Na pele de Michael O’Hara, o “Irlandês Negro”, Orson Welles traduz – em atos e palavras – a perdição da história. O caminho ao nada, a consciência do fim. Basta lembrar, por exemplo, da pergunta feita pela personagem do advogado ao protagonista, enquanto caminham por um local paradisíaco, à beira-mar, no México. “O mundo vai acabar?”, questiona o homem. “Se teve um começo, acho que terá um fim.”

Diálogo difícil de imaginar em tal local, vindo de tais pessoas. O tom trágico ocupa todos os cantos de A Dama de Shanghai, outro dos grandes filmes de Welles que se fingem maiores – no quesito físico, é bom salientar – do que realmente são. E isso seria ainda mais gritante nas obras posteriores, como as adaptações de Macbeth e Othelo.

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Welles, à época, tinha fama de difícil, dono de trabalhos que não deram bons resultados financeiros e, de quebra, como Cidadão Kane, dispostos a peitar figuras conhecidas. Nesse caso, o magnata William Randolph Hearst, molde para Kane – interpretado pelo próprio cineasta, da juventude à velhice à frente de um império, depois obrigado a conviver trancafiado em seu castelo, sozinho com obras de arte.

O realizador tem fixação por homens aprisionados, por histórias de destino, as quais o espectador inegavelmente conhece e, no fundo, sabe em que ponto terminam. Personagem que entrega tudo antes que se peça, antes que o público espere para saber seus próximos passos. Em apenas uma frase, nas linhas iniciais: “Quando eu começo fazer papel de imbecil, pouca coisa pode me deter”, afirma o protagonista de A Dama de Shanghai.

O homem em questão está preso aos encantos de uma bela mulher. Loura, cabelos curtos, corpo escultural que a ele exibe enquanto nada, e enquanto ele serve de capanga ao marido dela, ou de guia pelas paisagens selvagens às quais apenas alguém iniciado – alguém que lutou contra o exército de Franco na Espanha – poderia se lançar.

Seu ponto fraco é revelado pela presença da estonteante Elsa Bannister, interpretada por Rita Hayworth. Levada pela carruagem, no início, ela esconde mais que outras damas do cinema noir: é mais pura e mais transparente, às aparências, que o normal. O que só torna a experiência difícil e confusa, resumida na extraordinária sequência da sala de espelhos. É ali que as personagens – a começar pelo anti-herói – perdem todas as referências.

Há dificuldade para encostar nesses seres. Seus rostos explodem na tela a ponto de expandir detalhes da gordura, de dar saliência, suor, o ar aterrorizante, sobretudo no caso do estranho Glenn Anders, o advogado com propostas curiosas ao irlandês durante sua viagem pelo México; ou, no caso de Hayworth, a pele perfeita, brilhante.

Elsa tem um marido parcialmente paralisado (Everett Sloane), sobre bengalas, que certo dia surge em um bar de homens sujos – ou machos demais – à procura de O’Hara. O protagonista havia salvado sua mulher, dias antes; agora poderá continuar a vê-la ao se transformar em seu funcionário. A bela é o falso anjo nessa galeria de seres suspeitos.

Aos jogos que o filme leva, nas frases dúbias do marido, O’Hara responde com frases fortes, deslocadas, a exemplo daquela sobre o fim da humanidade. É como se Welles respondesse à aparente falta de profundidade com tom existencial. Curiosamente, essa mescla ainda funciona, mesmo com certa dificuldade em encaixar algumas peças.

A Dama de Shanghai, do livro de Sherwood King, é visivelmente pequeno, em muitos momentos desajeitado, no qual o gênio de seu criador – identificado, em obras-primas como Cidadão Kane e Soberba, pelo fantástico uso da profundidade de campo e de belos planos-sequência, entre outros fatores – parece inclinado mais à decupagem clássica.

O crítico André Bazin observou isso ao escrever sobre o longa: “Considerado do estrito ponto de vista da decupagem e da fotografia, o filme é relativamente clássico, o que não é o caso do conteúdo das imagens”. No início, por exemplo, o espectador atento deverá torcer pela continuidade de alguns planos. Por ali, os cortes sempre dão a impressão de interromper algo, a reforçar o universo fraturado, sinistro, falso, cheio de remendos.

Noir delirante com Welles à vontade no papel central, e com Hayworth no único filme em que morre em cena. O homem que não esconde ser um imbecil certamente continuará vagando de porto em porto, de paraíso em paraíso, ao destino comum a muitas personagens do cinema noir – àquelas que ainda sobrevivem ao fim.

(The Lady from Shanghai, Orson Welles, 1947)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: A Dama de Shanghai

Bastidores: A Dama de Shanghai

À medida que as filmagens prosseguiam, problemas com o roteiro começaram a atrasar a produção. Não restava mínima dúvida de que Rita depositava total confiança no imenso talento de seu marido, sob cuja direção ela começou a dar uma interpretação sincera, provocante e sutil da personagem que encarnava. Havia muita afeição entre os dois (Rita chamava Welles de Papa e ele a chamava de Mama), porém o filme já havia estourado o orçamento e também as previsões do cronograma de trabalho. Cohn [o produtor Harry Cohn] estava irado, mas permitiu que Orson prosseguisse livremente.

A Dama de Shanghai foi o único filme em que Rita Hayworth morre em cena. A sequência é o ponto alto da história: Rita leva um tiro e cai no chão lutando para viver, gritando: “Não quero morrer”.

[A colunista] Hedda Hopper se encontrava no set no dia em que a cena foi filmada. “Welles estava limpando o chão com Rita. De acordo com a minha cartilha, não é esta a melhor maneira de se manter um casamento.” Hopper esqueceu-se de mencionar a interpretação magnífica de Rita.

Anos depois, perguntaram a Rita Hayworth por que motivo ela havia causado tantos atrasos na produção de A Dama de Shanghai. Quem fez a pergunta observou que Rita ficava doente com muita frequência. A atriz retrucou: “Eu nunca estive doente. O coitado do Orsie é quem ficou doente por causa do Harry Cohn”.

Joe Morella e Edward Z. Epstein, na biografia Rita, A Deusa do Amor (Editora Nórdica; pg 112). Abaixo, Rita e o então marido Orson Welles nas filmagens de A Dama de Shanghai, que ele, com comum maestria, dirigiu.

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O Processo, de Orson Welles

Quem tem medo de seres amorfos?

Seres amorfos e perigosos vindos de outro planeta faziam sentido quando a ficção científica de baixo orçamento vivia dias criativos em plena Guerra Fria. Ao não darem forma a seus monstros, realizadores revelavam que o mal daquele tempo, o presente incerto em que viviam, refletia-se na meleca abominável que ataca os heróis.

Não se viam sinais de dubiedade nas personagens em cena. Às gosmas com vida, às coisas, ofereciam-se homens de família, personagens de caráter inabalável. E mesmo quando o vilão ou o perigo tomava alguma forma, ou tentava copiar a já estabelecida, não havia exatamente uma face a atacar. Estavam os monstros em todos os locais.

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Podem ser vistos, em diferentes exemplos, em filmes como Vampiros de Almas, A Bolha Assassina, na produção italiana Caltiki, o Monstro Imortal e, décadas depois, em O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Essas produções baseiam-se na invisibilidade – ou na visibilidade estranha – do antagonista, do outro, o alienígena.

Como doenças incuráveis, infiltram-se nas famílias, fingem o sono ou se revelam cópias perfeitas. Em Vampiros de Almas, por exemplo, passam de vegetais a réplicas dos seres que executaram. As famílias tradicionais americanas, para o susto dos honestos à frente, escondiam casulos no fundo de suas casas, suas vagens gigantes que davam à luz corpos de homens e mulheres da comunidade, agora possuídos.

Em A Bolha Assassina, o monstro amorfo ganha ainda mais destaque, sendo a meleca que cresce até ocupar um cômodo todo, ou uma casa. Os jovens heróicos duelam contra ela para salvar a pequena sociedade que representa, sabe-se, o país inteiro, em imagens que certamente ocuparam a mente de Orson Welles quando narrou A Guerra dos Mundos.

Passado à beira dos monumentos da civilização maia, Caltiki leva também à criatura que pouco a pouco ganha tamanho – na mescla entre ficção científica e filme de monstro, como o clássico A Múmia. Nas ruínas da civilização perdida, exploradores descobrem um ser que se alimenta da radioatividade de um cometa que espreita a Terra. Tudo se conjuga ao momento em que a bela família é desenhada, em que o pai estreito segue à casa, desesperado, contra a polícia, para salvar a mulher e o filho.

A moralidade dos protagonistas sem qualquer tempero faz com que os próprios humanos, ironicamente, disputem com as gosmas o espaço dos seres sem vida. Mas essa falta de forma verdadeira não retira deles a forma cinematográfica da época: o alinhamento à causa política, sobretudo nas produções americanas, quando os cidadãos honestos das pequenas cidades eram atacados pelos seres externos, os soviéticos travestidos de alienígenas.

O general enlouquecido de Doutor Fantástico, de Kubrick, falaria mais tarde sobre a necessidade de combater os fluídos do inimigo. Os monstros, com o som do líquido que dança em seu interior, são geleias com vida que engolem inocentes para se alimentar, para fazê-los parte da bolha que se rasteja rumo a lugar algum.

Confrontar a forma desconhecida, ou algo que não se vê, seria o mote também para Carpenter em seu O Enigma de Outro Mundo, nos anos 80, história já levada aos cinemas em O Monstro do Ártico, de 1951. Diferente do anterior, Carpenter entendeu que às personagens isoladas em meio à neve nada causaria medo maior que o invisível.

Em todos os casos, há uma doença, um contágio, algo a ser combatido antes que atinja toda a civilização. Nesse sentido, não está distante da ideia que move os filmes de zumbi: se algo dá vida aos mortos e estes não podem fazer nada senão atacar, não se trata também de um mal amorfo, no sentido de que não há vilão definido?

A ficção científica feita não raras vezes de baixíssimo orçamento precisava, por condições estruturais, de doenças, gosmas, geleias perigosas, mais do que de seres perfeitos em suas imperfeições, vilões que se servem de atributos humanos. O ser amorfo, comum a essas “pequenas” produções, apenas se ocupa de destruir, de se alimentar.

Foto 1: A Bolha Assassina
Foto 2: Vampiros de Almas

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O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter