Orson Welles

20 grandes filmes lançados em 1968

Um ano para não esquecer. Das ruas, dos embates políticos, vêm as principais lembranças. Um ano em que o mundo tremeu. No cinema choveram grandes filmes, como se vê na lista abaixo, com títulos que merecem a atenção de qualquer cinéfilo. Outras belezas não couberam, como Primavera para Hitler e Na Mira da Morte. Sim, listas são cruéis.

20) Sentado à Sua Direita, de Valerio Zurlini

A história de resistência e prisão do “Cristo negro” interpretado pelo gigante Woody Strode expõe a luta dos africanos contra os colonialistas. O drama é ambientado no Congo e inclui interrogatórios e torturas.

19) Teorema, de Pier Paolo Pasolini

Um dos grandes do diretor italiano, sobre um rapaz (Terence Stamp) que transforma a vida de quatro membros de uma família burguesa. Sua figura enigmática atinge também a criada, que se torna santa.

18) Eu Sou Curiosa – Azul, de Vilgot Sjöman

A segunda parte da famosa obra de Sjöman continua a seguir a bela Lena Nyman em suas aventuras amorosas e investidas pela rua, em perguntas aos cidadãos suecos da época. Um filme livre e libertário.

17) O Planeta dos Macacos, de Franklin J. Schaffner

Hoje se tornou um clássico. A história do astronauta (Charlton Heston) que termina em um planeta aparentemente desconhecido e habitado por macacos que falam, que reproduzem uma civilização.

16) História Imortal, de Orson Welles

Filme pouco conhecido do gênio, em cores, e com o próprio Welles em cena. E outra vez ele vive um homem poderoso que deseja transformar uma história fictícia em verdadeira, dar vida à ficção.

15) O Gato Preto, de Kaneto Shindo

Duas mulheres são brutalmente assassinadas por um bando de samurais carniceiros. Em busca de vingança, seus espíritos percorrem a floresta e levam diferentes homens à morte. Grande filme de terror japonês.

14) Vergonha, de Ingmar Bergman

O fracasso do isolamento. Um casal vê sua vida transformada com a chegada da guerra. Ele (Max von Sydow), de homem pacato, passa a alguém violento, à medida que ela (Liv Ullmann) é obrigada a segui-lo.

13) Infância Nua, de Maurice Pialat

Grande obra de Pialat sobre a infância, a partir da história de um garoto um pouco revoltado que muda de casa e tem dificuldades de se adaptar, que se vê rejeitado e custa a encontrar seu lugar no mundo.

12) Nocturno 29, de Pere Portabella

Uma junção de imagens que, às aparências, nada devem umas às outras. No entanto, essas imagens e junções são tão fortes que resultam em nada menos que algo brilhante. Portabella merece a redescoberta.

11) Faces, de John Cassavetes

A forma de Cassavetes está toda aqui: liberdade de elenco, imagens realistas, relacionamentos complicados. É sobre um casal desfeito, sobre a busca por novas relações. E ainda tem a grande Gena Rowlands.

10) A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero

Pequena, barata, cheia de visíveis imperfeições, essa obra maior de Romero ainda assusta. Em uma casa, diferentes pessoas veem-se aprisionadas; do lado de fora, mortos-vivos ameaçam invadir o local.

9) Beijos Proibidos, de François Truffaut

O terceiro filme de Truffaut sobre seu alter ego, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que passa a trabalhar como detetive e se envolve em diferentes aventuras amorosas. Um dos melhores do diretor.

8) O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski

O primeiro trabalho do cineasta polonês nos Estados Unidos é uma entrada triunfal, um mergulho na intimidade de uma moça inocente que se vê no centro de uma trama maligna envolvendo sua sonhada gravidez.

7) Se…, de Lindsay Anderson

Um ano depois do Festival de Cannes ser cancelado por causa dos movimentos de 68, esse grande filme político de Anderson levou a Palma. Em cena, um jovem Malcolm McDowell coloca uma escola abaixo.

6) Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea

As dúvidas de um homem em Cuba após a Revolução. Ficar ou ir embora? Talvez o mais importante filme cubano de todos os tempos e que revelou o talento – e a crítica aguda – do senhor Gutiérrez Alea.

5) A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman

Um filme de terror de Bergman sobre um homem em uma ilha, isolado, ao lado da mulher, e que passa a sofrer tormentos. O título refere-se aos últimos momentos da noite, quando a morte espreita.

4) O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla

Um país de bandidagem em um momento político tenso. Um Brasil para ser “esculhambado”, como diria o bandido de Paulo Villaça. O primeiro longa de Sganzerla é um marco do cinema brasileiro.

3) O Enforcamento, de Nagisa Oshima

Quando a ação do Estado não consegue matar um condenado, os homens do corredor da morte não sabem o que fazer. O mestre Oshima impõe esse impasse, entre realidade e delírio, e faz uma obra-prima.

2) Era uma Vez no Oeste, de Sergio Leone

Tem, entre outros momentos, uma abertura espetacular: três matadores esperam por um homem que deve chegar na estação de trem. Com ele, o duelo. Leone não negligencia as regras do faroeste, mas amplia tudo.

1) 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Da aurora do homem Kubrick parte ao infinito. O osso torna-se nave, o passado converte-se no futuro. Mais tarde, o homem luta contra sua criação e encara, nos confins do universo, seu renascimento.

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Bastidores: Acossado

Acossado é muito mais que o ponto-final no cinema de certa época, é o ponto de partida do cinema moderno dos anos 1960, seu “manifesto e seu programa”, como muito bem disse Marc Cerisuelo, e a história do cinema só faz confirmar essa perspectiva.

É também em referência ao filme de Welles [Cidadão Kane] que Godard suprime toda a ficha técnica e começa seu filme com um título breve, em tela inteira, letras brancas sobre fundo preto, cuja grafia é muito próxima de seu ilustre modelo. Os dois filmes, tanto um como o outro, começam com um prólogo espetacular, de tipo antológico. No corpo de Acossado, os traços do progresso da investigação policial mobilizarão numerosos artigos de jornal e o enquadramento do letreiro luminoso “O cerco se fecha  em torno de Michel Poiccard” evoca aquele que anunciava a morte do magnata da imprensa americana “Cidadão Kane está morto” e toda a sequência inicial das atualidades “News on the March”.

Godard, como Orson Welles, mas também como o jovem Sergei M. Eisenstein de O Encouraçado Potemkin, faz de seu filme um manifesto do poder da montagem, retomando figuras abandonadas desde a passagem ao cinema falado.

Michel Marie, ensaísta, historiador de cinema e professor emérito da Universidade de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle, em A Nouvelle Vague e Godard (pg. 178; Papirus Editora). Abaixo, Jean-Luc Godard e sua equipe nas filmagens de Acossado.

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Os 100 melhores filmes dos anos 40

Os anos 40 trazem transformações profundas ao cinema. O poder dos estúdios americanos visto na década anterior começa a diminuir; a Segunda Guerra Mundial leva o cinema à abordagem de outros temas, além de influenciar em sua carga realista; a fronteira entre heróis e vilões é cada vez mais borrada; novos cineastas dão o tom do que viria pela frente, como Orson Welles, John Huston e Preston Sturges.

Na Itália, o neorrealismo influenciará todo o cinema mundial, com seu apelo à verdade, às ruas, à gente comum e, sobretudo, à estética que se prende ao homem, não ao enredo que o cerca. Na França ocupada, alguns resistentes ainda seguem fazendo cinema, como Marcel Carné e Henri-Georges Clouzot. Outros seguem trabalhando no Japão, autores como Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu.

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Pitadas se sexo ganham espaço em obras de Billy Wilder, Howard Hawks e Sturges. A comédia ganha nova face. Ainda na América, o cinema noir – com seus detetives amargos e damas fatais – pouco a pouco deixa os estúdios e vai às ruas, como se pode ver em maravilhas como Cidade Nua. A lista abaixo oferece o que há de melhor nesse momento e, não custa lembrar, é fruto de uma opinião pessoal.

100) Hamlet, de Laurence Olivier

99) Na Solidão da Noite, de Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden e Robert Hamer

98) Pernas Provocantes, de William A. Wellman

97) Farrapo Humano, de Billy Wilder

96) Verde Passional, de Sidney Gilliat

95) Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock

94) Corpo e Alma, de Robert Rossen

93) Nascida para o Mal, de John Huston

92) Segredos de Alcova, de Jean Renoir

91) O Grande Ditador, de Charles Chaplin

90) A Dama de Shanghai, de Orson Welles

89) O Lobo do Mar, de Michael Curtiz

88) Tarde Demais, de William Wyler

87) Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini

86) O Fantasma Apaixonado, de Joseph L. Mankiewicz

85) Gilda, de Charles Vidor

84) Este Mundo é um Hospício, de Frank Capra

83) A Bela e a Fera, de Jean Cocteau

82) Um Barco e Nove Destinos, de Alfred Hitchcock

81) A Morta-Viva, de Jacques Tourneur

80) Brutalidade, de Jules Dassin

79) Ivan, O Terrível – Partes 1 e 2, de Sergei M. Eisenstein

78) Cão Danado, de Akira Kurosawa

77) Dentro da Noite, de Raoul Walsh

76) Natal em Julho, de Preston Sturges

75) O Destino Bate à Sua Porta, de Tay Garnett

74) Cidade Nua, de Jules Dassin

73) Quando Desceram as Trevas, de Fritz Lang

72) Paixões em Fúria, de John Huston

71) Monsieur Verdoux, de Charles Chaplin

70) Odeio-te Meu Amor, de Preston Sturges

69) Na Teia do Destino, de Max Ophüls

68) Sua Única Saída, de Raoul Walsh

67) Arroz Amargo, de Giuseppe De Santis

66) Correspondente Estrangeiro, de Alfred Hitchcock

65) Sombras do Pavor, de Henri-Georges Clouzot

64) Invasão de Bárbaros, de Michael Powell

63) Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini

62) Juventude sem Arrependimento, de Akira Kurosawa

61) Os Assassinos, de Robert Siodmak

60) O Ídolo do Público, de Raoul Walsh

59) Bambi, de James Algar, Samuel Armstrong e David Hand

58) Entre a Loura e a Morena, de Busby Berkeley

57) Uma Galinha no Vento, de Yasujiro Ozu

56) Ser ou Não Ser, de Ernst Lubitsch

55) Punhos de Campeão, de Robert Wise

54) Consciências Mortas, de William A. Wellman

53) O Condenado, de Carol Reed

52) Desfile de Páscoa, de Charles Walters

51) Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock

50) Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur

49) A Terra Treme, de Luchino Visconti

48) Amar Foi Minha Ruína, de John M. Stahl

47) Céu Amarelo, de William A. Wellman

46) Uma Aventura na Martinica, de Howard Hawks

45) O Último Refúgio, de Raoul Walsh

44) Coronel Blimp – Vida e Morte, de Michael Powell e Emeric Pressburger

43) A Canção da Vitória, de Michael Curtiz

42) As Três Noites de Eva, de Preston Sturges

41) Os Sapatinhos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger

40) Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de William Wyler

39) Desencanto, de David Lean

38) A Sombra de uma Dúvida, de Alfred Hitchcock

37) A Longa Viagem de Volta, de John Ford

36) Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger

35) Fuga do Passado, de Jacques Tourneur

34) Núpcias de Escândalo, de George Cukor

33) Carta de uma Desconhecida, de Max Ophüls

32) Alma em Suplício, de Michael Curtiz

31) Vinhas da Ira, de John Ford

30) Fúria Sanguinária, de Raoul Walsh

29) As Oito Vítimas, de Robert Hamer

28) Curva do Destino, de Edgar G. Ulmer

27) Agora Seremos Felizes, de Vincente Minnelli

26) Interlúdio, de Alfred Hitchcock

25) Jejum de Amor, de Howard Hawks

24) Pérfida, de William Wyler

23) Dias de Ira, de Carl Theodor Dreyer

22) Paixão de Fortes, de John Ford

21) A Força do Mal, de Abraham Polonsky

20) Soberba, de Orson Welles

19) O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston

18) Laura, de Otto Preminger

17) Neste Mundo e no Outro, de Michael Powell e Emeric Pressburger

16) Mulheres da Noite, de Kenji Mizoguchi

15) O Pior dos Pecados, de John Boulting

14) Pinóquio, de Ben Sharpsteen e Hamilton Luske

13) Contrastes Humanos, de Preston Sturges

12) O Boulevard do Crime – Primeira e Segunda Época, de Marcel Carné

11) Obsessão, de Luchino Visconti

10) Rio Vermelho, de Howard Hawks

John Wayne arrebanha Montgomery Clift, que se torna seu filho, nesse faroeste que assume ecos de O Grande Motim. Pai e filho não demoram a se confrontar, a se caçar, nessa obra genial do mestre Hawks.

9) Pacto de Sangue, de Billy Wilder

O noir de Wilder é um dos maiores do gênero. Sua loura fatal, a maior: Barbara Stanwyck tem o papel de sua vida como a mulher que trai o marido e depois o amante para ficar com a fortuna do primeiro.

8) A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

Um filme que ficou lembrado pela sua relação com o Natal. Ainda mais, um filme sobre a importância de um homem para uma cidade, alguém cujo coração, de tão grande, só poderia mesmo ser vivido por James Stewart.

7) O Terceiro Homem, de Carol Reed

Orson Welles morre e renasce, espécie de fantasma do pós-guerra, cheio de cinismo. O amigo escritor, vivido por Joseph Cotten, segue seus passos em uma Viena aos pedaços, repleta de luzes e sombras.

6) À Beira do Abismo, de Howard Hawks

É Bogart o dono do Philip Marlowe mais famoso das telas. Outra vez com Hawks e sua musa, Lauren Bacall, ele lança-se em uma rede de crimes cuja extensão pode fugir facilmente à compreensão do público.

5) Pai e Filha, de Yasujiro Ozu

Uma típica obra de Ozu. Por isso mesmo grande, de planos perfeitos, de drama que aumenta a conta-gotas até o encerramento arrebatador. Em cena, uma filha não quer se casar para não deixar o pai.

4) O Falcão Maltês, de John Huston

O primeiro filme de Huston. O primeiro de Bogart no topo dos créditos. Obra-prima que deu início ao cinema noir, em que Sam Spade tenta solucionar um assassinato e se envolve com uma dama misteriosa.

3) Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica

O maior filme neorrealista, o mais dramático, ao mesmo tempo o mais simples – no melhor sentido da palavra. A história de um homem que, ao lado do filho, sai em busca da bicicleta furtada em uma Itália aos cacos.

2) Casablanca, de Michael Curtiz

O roteiro é feito de uma coleção de frases que cinéfilo nenhum esquece. Bogart passa do cinismo à paixão enquanto Bergman revela o amor nunca esquecido naquele Café em Marrocos. Sempre terão Paris.

1) Cidadão Kane, de Orson Welles

Os jornalistas sem rosto, entre luzes e sombras, questionam a origem da última palavra dita por Charles Foster Kane: “Rosebud”. Passadas algumas décadas, o mistério perdura, vai além do objeto ao fim revelado. Um jornalista sai em busca da resposta e, a cada novo entrevistado, nova personagem secundária, nasce novo enigma.

O primeiro longa-metragem de Orson Welles levou o gênio do céu ao inferno, ainda que não tenha – para a sorte do público – sepultado sua carreira. Outros grandes filmes viriam mais tarde, com incursões no noir e em William Shakespeare, mas nenhum à altura do genial Cidadão Kane, o melhor longa de estreia da História do Cinema.

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Cineastas mais presentes na lista:

  • Seis filmes: Alfred Hitchcock.
  • Cinco filmes: Michael Powell, Raoul Walsh.
  • Quatro filmes: Emeric Pressburger, Howard Hawks, John Huston, Michael Curtiz, Preston Sturges.
  • Três filmes: Jacques Tourneur, John Ford, Orson Welles, William A. Wellman, William Wyler.
  • Dois filmes: Akira Kurosawa, Billy Wilder, Carol Reed, Charles Chaplin, Frank Capra, Jules Dassin, Luchino Visconti, Max Ophüls, Robert Hamer, Roberto Rossellini, Yasujiro Ozu.

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Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

Alguém questiona as intenções do protagonista, filho de um carteiro: por que ele sairia em uma viagem para tentar entregar a carta que o pintor Vincent van Gogh escreveu para seu irmão, Theo van Gogh, e que nunca chegou ao destinatário? Entender o movimento da personagem tem a ver com a pintura, com o que se vê na tela, não com razões humanas.

É apenas uma desculpa para que a personagem reviva van Gogh desde os primeiros instantes, nos milhares de quadros pintados por mais de 100 artistas, no exercício que dá vez ao extraordinário Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Ou o artista que, mesmo após tantas viagens, tantas questões e pontos de vista, tantas pinceladas e paisagens, insista em residir no espaço do mistério.

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Essa animação feita à pintura a óleo e delineada sobre o rosto de verdadeiros atores é mais uma das provas – entre tantas – das possíveis expansões do cinema. Seja as do sonho, seja as do mergulho na obra do outro (em movimento). Ao mesmo tempo, ganham espaço as questões feitas aos interlocutores pelo jovem carteiro, o que nunca encerra o mistério que revolve o homem ao mesmo tempo ao centro, ao mesmo tempo distante: aqui, Van Gogh.

Mas poderia ser outro. Poderia ser alguém que decidiu se fechar, enlouquecer em alguma pequena cidade perdida no mapa, alguém a se deixar levar pela fúria, sustentado por outros, preso ao pequeno quarto da pensão em que resolveu passar as últimas horas. Alguém como van Gogh, não necessariamente o próprio. À medida que se aproxima, também toma distância: resta o enigma, não o genial pintor sobre o qual tanto se fala.

A estrutura narrativa guarda semelhanças à de Cidadão Kane: uma personagem percorre lugares e fala com pessoas que, em algum momento, em algum lugar do passado, estiveram com a figura a ser analisada e descoberta. O jornalista do filme de Orson Welles deseja saber o que há por trás de Rosebud; o carteiro de Com Amor, Van Gogh pode estar perto de solucionar o que o inquieta: como morreu o famoso pintor.

Quer dizer, levar a carta não é o mais importante. Há algo maior. E mesmo antes de se deparar com questões sobre a morte de van Gogh, o carteiro Armand Roulin está inserido em pele, ou em tinta, no que significa o pintor: sua obra, sua estética, a visão de um sonho, as pequenas linhas que aparecem e desaparecem nos detalhes, nos rostos, nas paisagens.

A animação é, sozinha, a resposta que encerra o enigma. Por isso não vale esperar uma resposta concreta sobre o homem em questão, o pintor que vivia com seus próprios demônios e sob a dor de ser mantido pelo irmão Theo. Cada personagem interpelada tem sua própria visão sobre o artista genial, o que não significa que alguém esteja certo ou errado.

Todos, por sinal, veem-se presos à forma única das pinturas de van Gogh, refletida nessa animação: o contraponto ao olhar dos outros, sobre o que viram e o que podem falar do homem com o qual conviveram, em diferentes momentos e ocasiões, é a própria arte da figura retratada, ou seja, o filme inteiro e seu visual arrebatador. É o que importa, o que há para descobrir, para se mergulhar: cada traço, cada linha em movimento.

(Loving Vincent, Dorota Kobiela, Hugh Welchman, 2017)

Nota: ★★★★☆

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