Orson Welles

O cinema, segundo Orson Welles

Peter Bogdanovich: O que você diria a alguém que lhe perguntasse o que é ensinar a um grupo de pessoas interessadas em dirigir cinema?

Orson Welles: Ponha um espelho na frente da natureza – esta é a mensagem de Shakespeare ao ator. Não seria um conselho mais válido e mais verdadeiro ainda para o criador de um filme? Se você ignora certas coisas a respeito da natureza que seu espelho mira, como deve ser limitado seu trabalho! Quanto mais tributos o pessoal de cinema prestar a diretores e filmes, em detrimento da vida, tanto mais próximos estarão da última cena de A Dama de Shangai – uma série de espelhos refletindo-se mutuamente. Um filme é um reflexo de toda a cultura de quem o faz – sua educação, conhecimento humano, largueza de conhecimento – são essas coisas que informam um filme.

PB: Um diretor, então, cria seu próprio mundo…

OW: Claro, e até que ponto consegue fazê-lo depende da matéria-prima que tem em si mesmo. Aliás, o diretor de cinema precisa permanecer sendo sempre uma figura meio ambígua, porque há tanta coisa que foi originada com sua assinatura alhures, tantos bons momentos que são meros acidentes presididos por ele. Ou sorte. Ou graça.

PB: E a mecânica de se fazer um filme…

OW: …pode ser ensinada em um fim de semana a qualquer pessoa inteligente.

PB: Assim como Toland [Gregg Toland, diretor de fotografia de Cidadão Kane] ensinou a você a mecânica da câmera.

OW: Exato. O resto é o que você tem que levar para a máquina.

PB: O que você é…

OW: O ângulo no qual segura aquele espelho. No fim, o interessante não é a inclinação romântica nem o trejeito besta que você dá ao espelho – e sim o que o espelho mostra de volta.

Trecho retirado do livro de entrevistas Este é Orson Welles, de Peter Bogdanovich (Editora Globo; pg. 320; tradução: Beth Vieira). Abaixo, Welles, sobre uma caixa, nas filmagens de Cidadão Kane.

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Stefan Zweig, dentro e fora do Brasil

Primeiro o homem dentro, embriagado pelo “país do futuro”, que se entrega a uma bela prostituta negra de seios fartos, alta, como o sonho de qualquer estrangeiro que se colocou a pensar nessa nação sul-americana. Depois o homem fora, que observa um canavial em chamas enquanto pensa em sua Alemanha sob a mão forte de Hitler.

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Os dois homens são um, a mesma personagem, o escritor Stefan Zweig, judeu que veio para o Brasil quando os nazistas chegaram ao poder. O primeiro mescla-se aos brasileiros, parece brasileiro, vicia-se por aqui em Lost Zweig. É mais enérgico. O segundo prefere certa distância, e todo o recuo que proporciona vem acompanhado pela paciência que transmite, pela dor, pelo pensamento em Stefan Zweig: Adeus, Europa.

Assistir aos filmes de Sylvio Back e Maria Schrader é perceber o abismo que separa as composições de homens que, em algum ponto, pretendem ser o mesmo. Assusta perceber que a fraqueza de um, na obra de Back, resulta em uma quase caricatura, enquanto o silêncio do outro, na de Schrader, reveste-se de grandeza.

Os problemas ou as soluções nem sempre têm a ver com a interpretação dos atores. Não se pode falar em fracasso em um caso ou no outro. O que interessa, nesse paralelo, é confirmar que a tentativa de se aproximar de uma cinebiografia típica, no caso de Back, resulta em algo frágil que mais olha ao Brasil do que à personagem.

Por outro lado, ao apostar em algumas passagens da vida da personagem, no caso de Schrader tem-se uma compreensão maior de quem foi esse pensador tomado pela melancolia, que em exílio nem sempre esteve no Brasil, e que se serviu de um refúgio para encontrar a própria morte quando a paz não era possível de maneira alguma.

O filme de Back toma a parte (a personagem) pelo todo (a situação do mundo naquele momento e o refúgio do intelectual); o de Schrader toma o todo pela parte e, em sua aparente pouca ambição, conduz o espectador ao interior da personagem calada, que sofre pelo olhar, à menor expressão, ao passo que descobre novos ambientes.

Nem um nem outro pretende revelar o verdadeiro Stefan Zweig – e é importante que o espectador não o procure. Em Lost Zweig, é interpretado por Rüdiger Vogler, cuja caracterização deixa ver um homem de ficção feito ao drama, à dor, que tenta parecer torto à medida que range os dentes com o som de uma buzina que não para de tocar.

No filme seguinte, de 2016, a personagem central fica com Josef Hader, dessa vez em sentido oposto: sua caracterização necessita de pausas, de tempo para que o público penetre-a, para que pense o que ele pensa, por exemplo, enquanto assiste àquele canavial em chamas – ainda que o paralelo com a Europa em fogo, a essa altura, seja evidente.

Para perdoar Back vale se desviar à própria nação, ao Brasil convertido em marca, ou em clichê, o da era Getúlio Vargas. Por ali, Zweig rende-se à beleza das mulatas cariocas, depara-se com Orson Welles envolvido pela multidão nas filmagens de seu É Tudo Verdade, tenta explicar aos poderosos que não pode escrever sob encomenda.

Um cartão-postal invertido, mas conhecido, sai do jogo manjado de Back, ainda que seja prazeroso retornar ao tempo mítico retratado. Neste, Zweig está dentro, entregue, seja ao país ou ao drama. Deixa-se ver. Oposto à personagem fechada de Schrader, que observa a vegetação à frente como refúgio não desbravado.

Partir do mesmo homem, aqui, serve para enxergar diferenças, reparar o quanto alguém como Stefan Zweig – poderia ser outro – pode ser múltiplo e, em um caso ou outro, longe do verdadeiro. Não se trata de comparar os filmes, mas de colocá-los lado a lado para se compreender a impossibilidade de tocar o homem em destaque.

A empreitada de Back surge amarrotada, sem jeito, sem emoção. Mais parece um olhar aos vícios do Brasil. A de Schrader apela conscientemente ao efeito menor, com direção consciente, como se vê na opção em filmar a abertura e o fechamento em um único plano, com a câmera parada, sem corte. Cabe tudo ali, elegante e eficaz.

A primeira é sobre o homem de fora que permanece dentro, dono de um drama que aponta tanto aos seus problemas quanto aos do Brasil. Vargas, que queria se confundir com o própria nação, é o fantasma do autoritarismo que continua a perseguir Zweig. O momento em que o presidente é cercado pelas crianças que gritam seu nome e empunham bandeiras é o reflexo de líderes nacionalistas, ou fascistas.

A segunda prefere o homem que, mesmo dentro, segue fora, calado, alguém que sofre porque não tem as palavras – e a crítica – que esperam quando o assunto é o nazismo. Eis um desses mistérios que mais explicam do que atrapalham a personagem em questão: é pela falta das palavras que se observa o quanto o escritor está encurralado.

(Idem, Sylvio Back, 2002)
(Stefan Zweig: Farewell to Europe, Maria Schrader, 2016)

Notas:
Lost Zweig:
★★★☆☆
Stefan Zweig: Adeus, Europa: ★★★★☆

Foto 1: Lost Zweig
Foto 2: Stefan Zweig: Adeus, Europa

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Os 20 melhores filmes de 2018

O ano termina com um saldo bom: se até a metade 2018 parecia pouco promissor, os seis meses seguintes trouxeram filmes interessantes, alguns na Netflix, como A Balada de Buster Scruggs, Lazzaro Felice, Roma e o ressuscitado O Outro Lado do Vento, do mestre Orson Welles.

Filmes variados, de países e autores diversos, ganham espaço na lista abaixo: três brasileiros (além de duas coproduções), dois coreanos e, entre outros, uma beleza vinda de Portugal. Dos 20, quatro possuem mulheres na direção ou codireção. E, a exemplo de outras listas, não é possível abarcar tudo. Ausências são sentidas, como o já citado filme dos Coen, ou os ótimos Projeto Flórida e Uma Noite de 12 anos.

20) Hannah, de Andrea Pallaoro

Charlotte Rampling envelheceu bem. Nesse filme denso, ela é uma mulher que perde o chão sem explodir, pelos caminhos de uma cidade que nunca a acolhe, que tenta se aproximar do filho que não a quer.

19) As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas

Filme brasileiro com toques fantásticos que esbarra no social, sobre uma empregada que fica com o filho lobisomem da patroa e, passados os anos, aprende a amar o menino que precisa de carne vermelha.

18) Três Anúncios Para um Crime, de Martin McDonagh

Não é sobre uma mãe atrás do assassino da filha, nem sobre um protesto. É sobre uma pequena cidade americana ocupada por seres tortos, microcosmo de certa América ressentida, cheia de cicatrizes.

17) Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans

Esse belo filme brasileiro mergulha na vida de um trabalhador marginalizado – como tantos outros – que pega a estrada para viver. Peão, aparentemente pequeno, descobre-se pelas palavras que narra.

16) Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher

A personagem-título é explorada sem saber, sofre um acidente e, em salto no tempo, vê-se no mundo urbano. Em tom de fábula, sem perder o realismo, a talentosa Rohrwacher outra vez se volta à Itália rural.

15) Western, de Valeska Grisebach

Em local isolado, homem trava embates com colegas de trabalho ao mesmo tempo em que se relaciona com a população de uma pequena cidade. Uma obra em que a secura converte-se em sensibilidade.

14) Amante por um Dia, de Philippe Garrel

Cineasta de amores inconstantes, das relações em crise, Garrel é um dos filhos – um dos últimos – da nouvelle vague. Em cena, uma garota termina o namoro e descobre que o pai tem uma amante mais jovem.

13) O Dia Depois, de Hong Sang-soo

O diretor tem traço próprio e a cada filme repete um pouco do anterior – sem que isso soe um demérito. Pelo contrário. Em preto e branco, aborda os problemas de uma garota em seu primeiro dia de trabalho.

12) A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho

Com três horas de duração, o filme registra ora com realismo, ora com certas liberdades (como o número musical), a vida dura de operários portugueses que assumem o controle de uma fábrica falida.

11) Custódia, de Xavier Legrand

O garoto não quer ver o pai. Por ordem judicial, será obrigado a passar alguns dias com ele. Os problemas aumentam quando o homem tenta se reaproximar da família, em conflitos que beiram o insuportável.

10) Em Chamas, de Lee Chang-dong

Elogiado pela crítica desde a estreia em Cannes, o novo filme do diretor coreano narra a relação de um jovem com uma amiga – e amante – do passado, além dos encontros com um rapaz rico com quem ela envolve-se.

9) Zama, de Lucrecia Martel

Martel tornou-se um nome respeitado no cinema mundial após o maravilhoso O Pântano. Com Zama, sobre os dias de espera e dor da personagem-título, na América Latina, faz seu filme mais arriscado.

8) Benzinho, de Gustavo Pizzi

O melhor filme brasileiro de 2018 leva às relações conflituosas de uma família, tratadas de maneira sempre delicada pelo diretor. Ao centro, a mãe sofre ao perceber que o filho está cada vez mais fora de casa.

7) Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson

A relação de amor e obsessão entre um estilista e sua nova companheira, mulher, amante, ajudante e musa. O diretor de Sangue Negro volta a unir forças com o astro Daniel Day-Lewis nessa obra poderosa.

6) The Square: A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund

Östlund é o realizador do ótimo Força Maior. Com The Square, apresenta as relações de pessoas que orbitam galerias de arte, a partir da história de um curador que enfrenta vários problemas após ter a carteira furtada.

5) O Outro Lado do Vento, de Orson Welles

A ressurreição do filme de Welles foi o acontecimento cinematográfico do ano. Em cena, um cineasta experiente (John Huston) recebe convidados para seu aniversário e mostra a todos seu novo trabalho.

4) Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Vai além da história de amor. É sobre a descoberta da sexualidade, do garoto perdido, atingido como que por um raio ao conhecer o belo aluno de seu pai, louro alto e experiente que passa uma temporada com ele.

3) 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

Retrato poderoso do grupo Act Up, nos anos 90, na França, em luta contra a epidemia de Aids que atingia a sociedade, em investidas para conscientizar as pessoas – entre atos de violência e gestos de amor.

2) Sem Amor, de Andrey Zvyagintsev

Um filme sobre a ausência. Do amor, da família, da empatia. O estopim é o desaparecimento de um garoto. Perto do fim, quando sua mãe cai em lágrimas, o espectador percebe a tamanha complexidade do drama.

1) Roma, de Alfonso Cuarón

A história de uma empregada mexicana, nos anos 70, na Cidade do México, permitiu que Cuarón retornasse ao próprio passado em um filme tocante. Da fotografia ao elenco, tudo funciona nessa obra magistral.

Dez menções honrosas: Projeto Flórida, de Sean Baker; Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay; Uma Noite de 12 anos, de Álvaro Brechner; A Forma da Água, de Guillermo del Toro; A Balada de Buster Scruggs, de Ethan e Joel Coen; 1945, de Ferenc Török; A Câmera de Claire, de Hong Sang-soo; The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg; O Amante Duplo, de François Ozon; e Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega, de Erik Poppe

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O Outro Lado do Vento, de Orson Welles

O velho cineasta vaga entre os jovens da Nova Hollywood, toda a fauna que compõe o novo mundo do cinema americano e mundial: abre a porta de sua casa, lugar afastado, entre rochas, para recebê-los no dia de seu aniversário, momento em que ainda prepara seu último filme, em que precisa, pelos pedaços, apresentar o que a obra propõe.

E a partir dessas partes – a perseguição de um rapaz a uma mulher, entre lugares desertos, estúdios de cinema e sexo – é possível argumentar que o filme dentro do filme, O Outro Lado do Vento, é seu movimento, o do velho cineasta, àquela forma jovem perpetrada pelas novas ondas europeias, distante do caduco cinema americano.

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Nem tudo faz sentido, a começar pelo título. O diretor de verdade, Orson Welles, conta um pouco de sua própria história e relação com Hollywood: o cineasta em questão, interpretado por John Huston, é sua variação – e, como confessaria o realizador de Cidadão Kane, a segunda opção para viver a personagem era ninguém menos do que ele.

Huston, a primeira, aceitou o desafio. À época em que se integrou à equipe de Welles, uma parte dessa obra mítica já havia sido filmada. Atores interagiram com o protagonista sem que o mesmo estivesse presente. Welles arrastou as filmagens por anos e morreu sem ver o filme pronto, o que só ocorreu em 2018, em lançamento patrocinado pela Netflix.

Sinal dos tempos, coube ao fenômeno do vídeo sob demanda desenterrar Welles e dar vida a seu último longa, impressionante ensaio sobre um cineasta tentando domar seus demônios, a encarar os mais jovens, a assistir as partes de um filme que, sem surpresas, não será concluído. O Outro Lado do Vento é, como Verdades e Mentiras, uma história real.

Reflexo de Welles, sobretudo. Um filme sobre o cinismo necessário para sobreviver às festas hollywoodianas, de aberrações moldadas à normalidade, excêntricos feitos ao brinde de taças, reunidos à espera dos mesmos pedaços tão logo projetados na tela branca. E por pedaços o espectador pode esperar: subitamente, a casa isolada fica sem energia, e da história do filme dentro do filme o público é remetido outra vez ao cineasta e seus convidados.

As duas histórias chocam-se através de uma montagem veloz. Para uma obra que esperou tanto para nascer, seguida por todas as dificuldades com as quais Welles aprendeu a conviver, seriam necessários muitos cortes, às vezes sem continuidade, propositalmente descuidados: um resumo do realizador febril que se ocupou de sua condução.

Justamente Welles, tão celebrado por seus planos-sequência. Seus últimos filmes extraem dos cortes o truque aberto, um como representação do que seu realizador pensa dos artistas e do cinema (Verdades e Mentiras), o outro como amostra de seu meio, ou de sua tentativa de se reerguer no solo da indústria (O Outro Lado do Vento).

Huston é perfeito para o papel. Bogdanovich, filho da Nova Hollywood, amante do cinema clássico e que dispensou esforços para escrever sobre Welles e até defendê-lo, terminaria em cena como alguém amargo. É justamente o filho traidor, jovem cineasta que chega para eclipsar o mais velho. A relação de amor e ódio entre ambos é clara.

Pela tela na casa do realizador desfila a bela Oja Kodar, amante de Welles, chamada de índia e que, como Huston, toma uma arma, a certa altura da noite, para detonar a cabeça dos manequins posicionados sobre rochas, figuras mortas para ocupar o mesmo espaço dos vivos que se engalfinham nos corredores e cômodos da casa.

À outra tela, pouco depois, passados os intervalos sem energia, segue Welles: todos os convidados são levados a um drive-in. Outra parte do filme não terminado será exibida ali. Explode, entre poeira e carros quadrados, com direito a garçons para servir a bebida, o velho mundo feito aos animais exóticos de Hollywood, incapazes de enxergar seus próprios papéis – à exceção do cineasta cansado e de seu “filho” cínico.

O filme de Welles não tem encerramento. Seu cinema, com este belo O Outro Lado do Vento, continua aberto, recortado, fruto de um gênio incompreendido pela indústria que, em seus primeiros dias, deu-lhe pleno poder e logo tratou de retirá-lo. Seu retorno a essa terra é, compreende-se, um gesto de rebeldia, cada ato um golpe de navalha.

(The Other Side of the Wind, Orson Welles, 2018)

Nota: ★★★★☆

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