Ornella Muti

A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola

A personagem-título forma-se no palco, em situação difícil de explicar, em meio à improvisação constante – ou ao erro – dos atores. Segue o tom desse filme de Ettore Scola sobre uma trupe ambulante pelas estradas de terra da França, no século 17. Começa com um pequeno teatro, talvez de marionetes, do qual nasce a história.

Das cortinas passa-se ao estúdio, ao clima fechado, ao imobilismo que percorre A Viagem do Capitão Tornado. O efeito é estranho: um filme sobre viajantes, mas no qual não saem do mesmo lugar. Filme propositalmente falso, com cenários não muito distantes dos vistos por anos na era clássica de Hollywood.

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Entre esses atores há certa alegria em viver na miséria. Algo falso, portanto, e que serve à perfeição ao espírito do filme, à comédia imaginativa. O teatro é justamente a forma de vencer os problemas, ainda que pareça clichê, além da ideia de que com fome “sente-se menos a tristeza”, segundo a personagem de Massimo Troisi, Pulcinella.

É Troisi, com seu rosto meio triste, meio esperançoso, que narra parte dessa história. Quem ouve é um inspetor de saúde que fiscaliza vilas e cidades. Pede que os atores não tomem a água de uma mina, à estrada, e descobre que um deles se encontra doente. É quando Pulcinella passa a narrar os eventos anteriores, a partir do encontro com um jovem barão pobre e que vivia em um castelo aos pedaços.

Os atores ficam ancorados ali em noite chuvosa. O criado do rapaz pede que Pulcinella leve-o com a trupe para a França. Há no jovem uma espécie de bilhete premiado: seu pai, o velho barão, teria salvado a vida do antigo rei. Com uma espada, o jovem poderá reivindicar algo e, quem sabe, restituir a riqueza e a importância de sua linhagem.

Vivido por Vincent Perez, o Barão de Sigognac é, entre outros, o retrato da pequenez evocada por Scola: um garoto escondido em seu chapéu, que dorme sobre a carroça e se vê enfeitiçado pela beleza de Serafina (Ornella Muti); depois, com a chance de mostrar bravura, cresce e se vê levado pela paixão, pela linda Isabella (Emmanuelle Béart).

O filme é uma homenagem ao teatro. Nem por isso é menos cinema. Scola, mergulhado em livre falsidade, investe no encanto de pessoas que interpretam a todo o momento, em um universo livre de julgamentos e no qual se prefere metáforas às palavras diretas. À medida que a viagem avança, a trupe perde tamanho: um dos atores, magoado, morre em meio à neve; duas atrizes passam a viver com barões ricos.

E o barão pobre, munido apenas de sua espada e aos poucos se vendo homem de verdade, descobre ser um ator. Resolve escrever uma peça. E então se depara com seres analfabetos, pessoas que não precisaram ler o texto. No fundo, são seres que vivem para interpretar, para improvisar, não para deglutir frases e versos decorados.

A beleza do filme está na leveza, na falta de compromisso com a realidade. Trata-se de um mundo de sonhos, fechado, feito por frágil embalagem. Em uma sequência interessante, a câmera passa pelo rosto de todos, com olhos atentos, enquanto se tem acesso a pensamentos e desejos.

Suas intenções depositam-se no possível encontro do jovem barão com o rei, no acesso à corte e, na sequência, alguns dias de glória. O teatro – ou a simples arte de representar – resume-se, segundo Scola, àqueles olhos atentos, àquela gente feliz e miserável.

(Il viaggio di Capitan Fracassa, Ettore Scola, 1990)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Ettore Scola (1931–2016)

A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile

À beira mar, um homem desenha sobre uma folha em branco. Às aparências, um homem velho, sozinho, em busca de paz para executar seu trabalho. Ele não sabe que está próximo a uma descoberta: o encontro com uma menina, ou mulher, saída do mar e carregada por homens, afogada, que mudará sua vida. Fará dele um obsessivo.

Esse clima inicial – que retorna ao fim – é fundamental em A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile: é uma fusão de dois mundos diferentes, quando o homem busca fazer, no papel, a sua mulher, e quando ele acaba por encontrá-la.

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Talvez não seja a mulher esperada: jovem demais, impulsiva demais, inconfiável quase sempre. Mas ele, Dino Romani (Ben Gazzara), deseja-a cada vez mais. Torna-se incontrolável. No início, parece não dar bola: olha para a moça como se ela fosse não mais do que uma garota fútil e aventureira. Mais tarde, e pouco a pouco, estará à sua procura como um louco apaixonado, às vezes em papel de pai protetor.

Ela é Nicole, com o corpo, a pele e o olhar que deixaria qualquer homem maluco. É Ornella Muti, uma das mulheres mais belas do mundo à época. Triste, por isso, constatar que falta algo àquelas curvas tão perfeitas: um pouco mais de substância interna, com uma personagem que, apesar de atraente fisicamente, nada tem a oferecer quando se deixa tomada – sempre – pelo desequilíbrio psicológico.

Não poderia ser diferente: é a história de um homem aparentemente equilibrado, atrás de preciosos traços, contra uma menina inclinada à loucura constante.

Completam-se: ele corre atrás, ela finge paixão. Não há, em ambas as personagens, muito respeito ou muita sinceridade. Quando ele descobre os problemas dela, simplesmente se fecha em seu próprio mundo. Ignora-a. Ela, por sua vez, fará sexo com outro homem por puro prazer momentâneo, na praia, quando tomava sol.

Em um hotel, quando ela despe-se ao camareiro, para que simplesmente seja vista, ele apenas observa de outro cômodo: é como compreendesse o jogo a ser jogado.

Na verdade, a bela de A Garota de Trieste precisa se sentir viva e esse é o meio encontrado: parecer desejada, observada, parecer uma mulher completa ao olhar masculino sedento, de homens variados e desconhecidos.

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Terá amado Dino? O espectador tem dúvidas. Ao passo que fala de amor, age às vezes de forma oposta: escreve cartas como se estivesse em outro lugar, com outro homem em seu caminho. Em Nicole, tudo é inconstância. Ela é o desenho que o cartunista não consegue completar, a imagem que não consegue esculpir.

Não por acaso, em determinada altura ele sacará uma câmera e a fotografará enquanto dorme, em sua cama. É a forma de tentar captá-la por completo, sem a representação da tinta sobre o papel. Nesse caso, ele necessita algo mais.

A câmera mostrará essa menina de diferentes formas. Ela, ao longo do filme, surgirá sempre outra, nunca a mesma. Às vezes mais velha, às vezes mais livre. Ao fim, como a Constance Towers de O Beijo Amargo, exibe mais do que uma careca: um olhar indecifrável, um olhar de repúdio, de vazio, como se chegasse o fim.

Outra sequência também faz pensar em outro filme de Samuel Fuller, Paixões que Alucinam. Trata-se do momento em que Nicole é atacada por três mulheres no hospital psiquiátrico em que está internada, comandado pela personagem morosa de Jean-Claude Brialy. Elas abusam da moça, simulam sexo, em momento tão forte quanto o ataque de um bando de mulheres ao jornalista infiltrado na obra de Fuller.

Os encantos de Nicole deixam Dino sem ação. Resta desenhar, ao fim, enquanto olha à jovem musa com perplexidade, enquanto ela desaparece no mar. Pensava ter encontrado o traço final e perfeito, a mulher formada. Ironicamente, encontrou alguém sem identidade definida, nova personagem a cada instante.