Oriente Médio

O Insulto, de Ziad Doueiri

A insistência em sobrevoar a cidade, em O Insulto, indica a ambição do longa-metragem. O problema ultrapassa o bate-boca entre os homens em cena. Começa com a calha quebrada na casa do cristão, defeito que poderia ser consertado pelo palestino que executa obras no bairro. A tentativa de ajuda abre o conflito entre ambos.

Volta-se então à cidade, aos prédios, aos lados do conflito aparentemente silencioso, levado depois à arena do tribunal e ao fogo das ruas: o concreto que esconde o humano, o labirinto que não deixa ver esse confronto cujo estopim é reservado à palavra: o insulto. Os homens em questão se deixam arrastar à violência física, aqui inevitável: o palestino ataca o cristão, que resolve recorrer à justiça para se ver desculpado.

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Sabe-se mais pelo cristão, o verdadeiro protagonista. Tony (Adel Karam) é a fúria em pessoa. Sua história de vida aos poucos retorna. Não deixa de ser irônico que isso ocorra no jogo de perguntas e respostas do tribunal, quando o mesmo percebe ser igualmente vítima daquele teatro erigido para ultrapassar um mero processo sobre o insulto.

Tony é casado, sua mulher está grávida. No desenrolar dos embates, o parto é problemático, o filho nasce prematuro. Enquanto os adultos não escapam às questões políticas conduzidas pela palavra, olhos de pai e mãe miram a vida que luta para resistir, ao pequeno tronco que infla e indica que é possível (ainda) respirar com aparelhos.

O passado do refugiado palestino, Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha), é ainda mais escancarado: bastam suas expressões frias, o jeito como tenta desviar, sua forma de guardar a explosão até não aguentar mais. Inevitável: é dele, e não do outro, que parte o impulso à agressão física. O extremismo repousa no homem inegavelmente honesto.

Na sociedade marcada pela politização e pelo ódio, escondidos nos becos da cidade observada do alto, o conflito dos dois servirá de resumo: será apropriado pelos advogados, pela imprensa. Voltam assim ao passado para contar a trajetória de cada homem, dos lados, como se só o passado pudesse indicar o veredicto futuro.

Não deixa de ser, em seu humanismo latente, um filme sobre a História, e sobre como é levada ao centro de um tribunal que não pode ignorá-la. Será esse retorno a abertura à confusão, à dificuldade de se enxergar a origem do problema: no fundo, todos são vítimas. Do resultado não emergem apenas inocentes ou culpados. A questão continua.

A justiça, diz o diretor Ziad Doueiri, coautor do roteiro, opta pela inocência na dificuldade – ou mesmo impossibilidade – de chegar a uma conclusão. Melhor pecar pela opção branda nessa sociedade de bandeiras à rua e carros em chamas, na qual até o tribunal converte-se em arena de combates entre cristãos e palestinos.

O movimento de câmera em excesso inquieta o espectador em um filme de texto forte. A aparência de velocidade esbarra em puro exibicionismo, para se chegar, talvez, ao fervor que induz à ação. Os diálogos são superiores. Sequer ao alto precisava subir: o embate entre homens, do pequeno espaço do bairro ao tribunal, é, sabe-se, muito maior.

(L’insulte, Ziad Doueiri, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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A Longa Caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee

Mais que drama feito às lágrimas, Ang Lee prefere pequenos gestos sensíveis. Retira de muitas cenas o efeito esperado, fraqueza ou força, covardia ou heroísmo de alguém retraído como Billy Lynn (Joe Alwyn). Sobra mesmo a sensibilidade do soldado, ao qual outro, vivido por um inesperado Vin Diesel, conhecido brucutu, diz que ama.

Diz também para outros soldados, em momento-chave, na experiência em campo contra os inimigos, quando estão prestes a guerrear. Poderia, fosse outro filme, soar pesado, ou deslocado; com Ang Lee, em A Longa Caminhada de Billy Lynn, beira a perfeição. Esses homens confessam não o típico amor, mas o pedido para que vivam para os outros.

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É um ritual, ponto em que precisam confessar, mesmo que isso signifique corar o rosto rosado de Billy ou de qualquer outro adolescente que sabe algo sobre sexo, pouco ou nada sobre amor. Espaço último para se pensar em tal gesto, o do astro de Velozes e Furiosos, para somar outro tijolo à arquitetura de Lee em sua passagem pela história de Billy.

São três caminhos nessa narrativa costurada entre passado e presente: os momentos da guerra no Oriente Médio, os dias em família e as horas como estrela ao lado de um grupo famoso, em um estádio, para vender – servir, sobretudo – o produto americano. De garoto perdido, sem entender o que o cerca nos três casos, Billy converte-se em desejada marca.

A história americana está cheia dessas representações que, em determinados casos, nos momentos certos, podem valer mais que uma bandeira ou um hino: a imagem que reproduz o heroísmo – àqueles que assistem, distantes, do conforto de suas casas. “No lugar certo, na hora certa”, Billy foi captado pela imagem: ao ângulo, oferece o herói.

O rapaz por trás do vídeo seco, a certa distância, começa a ser descortinado: do atraso para se juntar aos colegas de farda, no início, à dificuldade para se comunicar com uma bela líder de torcida que primeiro pisca para ele, depois corre ao seu encontro, em esconderijo improvisado, para lhe roubar alguns beijos. A vergonha deixa ver a sensibilidade.

Quando se pensa em pessoas convertidas em marcas, ao modo do Tio Sam em seu “I want you”, difícil não pensar na história por trás da imagem dos homens que fincaram a bandeira americana em Iwo Jima, clicada por Joe Rosenthal. Virou filme, em 2006, pelas mãos de Clint Eastwood. Na tela, homens servem igualmente de marionetes à propaganda, à arrecadação de dinheiro, à roda do espetáculo.

Para Billy, tudo parece novo. A poucos metros, vê um universo de consumo e tradição traduzido em toneladas de comida, em pessoas que pagam para ver o espetáculo do futebol americano, em líderes de torcida que se chacoalham para empolgar, em uma limousine futurista que leva os soldados ao estádio no dia em que se convertem em estrelas. Em Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow precisou apenas de uma sequência para resumir tudo isso: o soldado em frente a uma gôndola forrada de cereais, em um supermercado.

O espetáculo e sua suposta felicidade não encontram espaço no olhar de Billy. Contrapõem sua longa caminhada pela guerra, à mercê da incerteza de qualquer ataque, de qualquer olhar cruzado de pessoas desconhecidas, até aquele palco feito de luzes e festa. Sua forma não esconde, seu recuo (ou medo) não promete um produto embalado para filmes sobre heróis: ele não tem qualquer inclinação ao modelo esperado pelos patrocinadores do show ou pelos homens que ainda tentam transformar sua caminhada em filme.

À sua maneira, Lee faz um filme por trás de outro, daquele que louvaria o patriotismo, a história dos texanos no Iraque que revive o Álamo do imaginário comum: a caminhada real de um e outros rapazes nada chegados à interpretação, àquele papel de bravura, envelopados pelo telão cristalino, pela música explosiva, pela torcida, pelo piscar de olhos irresistível de alguma dama do Texas. Imagens americanas que, no Billy de olhos tristes, rebaixados, causam susto ou repulsa tamanha a agressividade.

O patriotismo é agressivo: parte de um e termina no colo de todos. Resume-se na fala do repulsivo empresário Norm (Steve Martin): após o gesto de bravura de Billy, a companhia dos soldados, segundo ele, deixa de pertencer apenas ao protagonista e aos colegas fardados. É agora de todos. Norm, contudo, não colocará o mesmo patriotismo à frente do dinheiro. Nem o espetáculo. Lee chega então àquilo que move o país em questão.

(Billy Lynn’s Long Halftime Walk, Ang Lee, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Clash, de Mohamed Diab

Cabem, em um mesmo camburão militar, tipos diferentes em um Egito em ebulição: de membros da Irmandade Muçulmana a manifestantes a favor dos militares, de radicais a jornalistas, de homens adultos a mulheres e crianças. Todos estão presos em um dia de protestos, a observar a luta a partir das janelas do veículo, a tentar sobreviver.

A direção de Mohamed Diab é dinâmica e não deixa perder o interesse em momento algum. A ideia, contudo, já foi explorada outras vezes: reunir em espaço exíguo pessoas de inclinações políticas distintas e de lados diferentes. Ao ver Clash, vem à mente Um Barco e Nove Destinos, de Alfred Hitchcock, ambientado na Segunda Guerra Mundial.

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O filme egípcio começa com o camburão vazio. Vê-se sua estrutura metálica enquanto se ouve o trânsito, o som das ruas, a buzina dos veículos. Ainda que o som remeta à realidade, a imagem que se impõe é quase irreal, espaço inabitável e inatingível, uma pintura como representação do cárcere.

Pois será também real e ganhará movimento, proximidade. A exploração do espaço é fundamental. E se às vezes o que há dentro mais parece irreal e absurdo, um teatro de faces conhecidas, de demarcações, discursos políticos, o que há fora carrega o horror da realidade: tudo o que explode a partir da janela é filmado com extremo realismo.

Nessa divisão – entre o espaço do texto, da concentração das faces, das luzes calculadas e, do outro lado, o que mais parece documentário, correndo do lado de fora –, vê-se a força que o filme exerce. E que torna seu desfecho tão difícil. A partir de uma guerra de interpretações, de pessoas que pedem aproximação cada vez maior, é difícil crer em um término que leve a outro estado senão o da liberdade.

O sentido do confinamento tem a ver com a cegueira política. No pequeno espaço, todos se convertem em humanos, e a certa altura todos precisam se ajudar. Nesse camburão, os confinados estão sob o poder de uma força totalitária, sob a evocação da humanidade ou da selvageria, ou uma ou outra, ao passo que fora tudo é conflito.

A intenção, claro, é colocar o espectador como prisioneiro. Não apenas do espaço, mas das pessoas. Em uma batalha interna encampada por gente de lados opostos, resta crer na possibilidade de que essas mesmas pessoas sejam parecidas. Em meio a tantos solavancos, é difícil diferenciar uma ou outra.

Mesmo um grupo favorável à intervenção militar no Egito termina no camburão. Ao atirar pedras contra os jornalistas que já estavam ali, acusados de atuarem a favor da Irmandade Muçulmana, esse grupo é preso no camburão. Islâmicos favoráveis ao regime deposto também são detidos em seguida. O confronto é então inevitável.

Os confinados são colocados à margem: aos militares assistidos pelos vãos da janela ou da porta, não significam nada porque não fazem mais parte da guerra do lado de fora. E quando um soldado revolta-se e resolve ajudá-los, termina preso no camburão. É um sinal de humanismo raro entre o confronto que toma as ruas.

A clausura imposta por Diab é, primeiro, metafórica: de um lado ou de outro dos conflitos, as personagens são reduzidas a quase nada. São expostas à brutalidade dos militares, depois à da própria turba revoltada que toma as ruas. De um lado para outro no veículo apertado, elas não têm mais ninguém a recorrer, ou em quem acreditar.

(Eshtebak, Mohamed Diab, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Rock em Cabul, de Barry Levinson

A possibilidade de uma grande cantora estar escondida em uma caverna, em um vilarejo no meio do deserto afegão, é quase remota. Ainda que apareça apenas na metade de Rock em Cabul, de Barry Levinson, a moça (Leem Lubany) dá outra rota ao protagonista, o produtor musical Richie Lanz (Bill Murray).

Disposto a ganhar dinheiro fora dos Estados Unidos, ele é um dos vários americanos a explorar a guerra no Oriente Médio, com uma cantora para se apresentar aos soldados.

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rock em cabul

Seu rostinho bonito (Zooey Deschanel) logo vai embora. Para piorar, leva o passaporte do produtor e o deixa sozinho entre mercenários, comerciantes de armas, nativos mal encarados e taxistas amantes da cultura ocidental. Com anos de experiência, Richie sabe como vender sonhos: conta para todos, mais de uma vez, como descobriu Madonna.

E suas mentiras, ou apenas o jeito malandro de ser, terminam por salvá-lo: trata-se de mais um filme sobre a infiltração da cultura ocidental no Oriente, ou, mais ainda, sobre como tudo termina (sempre) com a afirmação do poder dessa indústria cultural.

O diretor Levinson volta a passear por terreno que conhece. Em seu primeiro filme, o extraordinário Quando os Jovens se Tornam Adultos, as personagens personificam a cultura norte-americana, os receios adolescentes, as transformações.

Mais tarde, com Rain Man, um belo aproveitador (Tom Cruise) descobre que o pai deixou a herança para um irmão que ele não sabia ter, autista, vivido na medida por Dustin Hoffman. Para ganhar algo, ele logo utiliza o irmão – com incrível dom para cálculos – para faturar alto nos cassinos de Las Vegas.

Com os americanos no Oriente Médio, Levinson realiza Mera Coincidência, sobre como Hollywood inventou uma guerra para encobrir um escândalo sexual. Rock em Cabul retoma o poder do espetáculo.

O ponto baixo de seu novo filme é apostar no potencial salvador da cultura americana. Não demora nada para os afegãos – da aldeia perdida no deserto – transformarem-se em “gente do bem”. A mudança de Richie é a consequência, prova de que Murray funciona melhor como anti-herói beberrão, malandro, não como o salvador da pátria.

(Rock the Kasbah, Barry Levinson, 2015)

Nota: ★★☆☆☆

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Seis filmes recentes sobre a mulher no Oriente Médio

Protagonizados por mulheres e ambientados no Oriente Médio, os filmes abaixo têm mais em comum: todos não deixam ver o inimigo materializado. Está ali, em cada canto, ao mesmo tempo oculto. Em cena surgem costumes ultrapassados, diferentes prisões. Os homens, em alguns casos, sequer aparecem. Coitados, às vezes eles esboçam o esperado, em papel menor.

As mulheres são lutadoras, naturais, como a garota que deseja apenas andar de bicicleta ou as meninas que não entendem por que são levadas a casar com desconhecidos.

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Cairo 678, de Mohamed Diab

A situação também foi vista e gerou polêmica no Brasil: as mulheres, no Egito, tornaram-se vítimas de abusos constantes no transporte público. O filme acompanha a rotina de Faysa (Bushra), sem dinheiro para se locomover com táxi e obrigada a usar o ônibus. A narrativa leva-a a se encontrar com outras mulheres, em outras histórias, para denunciar casos de abuso. A certa altura, Faysa é obrigada a apelar para a violência e termina investigada pela polícia.

cairo 678

E Agora, Onde Vamos?, de Nadine Labaki

Ainda que não seja empolgante, o trabalho de Labaki – que dirigiu um curta que integra Rio, Eu Te Amo – coloca em discussão o conflito entre homens católicos e mulçumanos e o papel da mulher nessa sociedade. Passa-se em uma pequena comunidade no Líbano, entre drama e comédia, quando as mulheres começam a criar meios de distrair os homens para evitar novos conflitos. A bela Labaki, além de diretora, assume o papel central em seu filme.

e agora onde vamos

A Pedra de Paciência, de Atiq Rahimi

A mulher só consegue se revelar ao marido porque o mesmo encontra-se em estado vegetativo. Enquanto corre a guerra do lado de fora, no Afeganistão, ela conversa com o homem, confessa-se, enquanto ele, imóvel, talvez ouça tudo, talvez nada. O drama expõe intimidade e prisão. A condição é dolorosa: mesmo presa, ela (Golshifteh Farahani) não nega fidelidade. A pedra do título envolve uma lenda. Com esse objeto, as mulheres podem então se confessar.

a pedra de paciência1

O Sonho de Wadjda, de Haifaa Al-Mansour

O sonho da protagonista, interpretada por Waad Mohammed, é ter uma bicicleta. No entanto, apenas meninos locomovem-se com bicicletas na Arábia Saudita. Meninas como Wadjda logo percebem que mulheres não podem sair de casa sem o véu e dependem dos homens. O filme milita a favor da causa feminina com naturalidade, o que o faz ainda melhor: a menina deseja apenas andar de bicicleta e provar que pode ser mais veloz que seu amigo.

o sonho de wadjad

O Julgamento de Viviane Amsalem, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

Apesar do alinhamento político com alguns países do Ocidente, ao que parece Israel pouco evoluiu quando se trata da libertação feminina. O extraordinário filme de Ronit (a protagonista) e Shlomi expõe a cruzada da triste Viviane em busca do divórcio. Trata-se de uma sessão fria de humilhações, enquanto os juízes, todos homens, colocam, por diferentes vezes, dúvidas sobre a conduta da personagem. Com belo roteiro, o filme impressiona e não raro revolta.

o julgamento de viviane amsalem

Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven

O título original é Mustang, o que faz pensar em algo selvagem, livre. E o que desejam as meninas ao centro, as cinco graças, é liberdade. Trancadas na casa em que vivem com a avó e o tio autoritário, em uma região afastada da Turquia, elas buscam formas de espaçar: a certa altura se encontram com rapazes que passam por ali ou mesmo fogem para assistir uma partida de futebol. Aos poucos se separam, quando passam a ser levadas a casamentos arranjados.

cinco graças

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