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Bastidores: Me Chame pelo Seu Nome

Um dia, sentamos [James] Ivory e eu na cozinha da minha casa e vimos que a melhor forma de verter aquele livro do [André] Aciman para as telas seria buscar o nosso ponto de vista mais particular. Não posso te definir tecnicamente essa perspectiva, porque a descoberta de um filme é uma operação intuitiva. As referências e alusões são claras.

(…)

Sou diretor bertolucciano, inspirado pelo legado visual de Bernardo Bertolucci, e nós [ele e o diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom] buscamos deixar traços desse mestre nessa recriação de um cinema europeu de tônus mais clássico.

Luca Guadagnino, cineasta. As declarações foram dadas ao site Omelete no Festival de Berlim (leia a matéria aqui). Abaixo, ele dirige os atores Timothee Chalamet e Armie Hammer.

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Entrevista: Marcelo Hessel

O crítico de cinema e jornalista Marcelo Hessel é direto quando se trata de cinema e, aos 31 anos, demonstra grande sobriedade nos textos que escreve para o site Omelete. Na entrevista abaixo, ele fala sobre o não entendimento do público sobre o trabalho do crítico (“O trabalho não é ver filmes, o trabalho é escrever sobre filmes”), sobre a invasão dos filmes dublados (“Quem se importa com legendas é uma minoria”) e sobre o que lhe impressionou no cinema no último ano.

Marcelo é nascido em São Paulo, integrou a APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), colaborou em veículos como a revista Bizz, é autor do Almanaque do Cinema (Ediouro) e atualmente edita o Omelete. Abaixo, a entrevista completa.

A impressão de quem não conhece um crítico de cinema é a de que ele assiste filmes todos os dias, de tudo um pouco. Como é em seu caso? Você tem algum controle, de quantos assiste por semana, por mês? Você seleciona o que vê ou vê de tudo, o que pintar pela frente?

Eu queria ter um controle do que eu assisto, fichas mesmo, mas não mantive isso no começo e acho difícil começar agora. Vez ou outra entro no Mubi pra ranquear umas coisas e favoritar outras, mas nada com método. Tento ver pelo menos um filme por dia e equilibrar entre exigências (estreias no cinema, filmes relacionados com pautas em que estou trabalhando) e filmes que me interessam independente do ofício.

As pessoas entendem bem o trabalho do crítico de cinema, hoje, ou ainda existe algum preconceito, de que o trabalho não é trabalho, mas diversão?

Nem os próprios críticos entendem bem o trabalho… Quanto às pessoas, não acho que seja preconceito, mas uma má compreensão. O trabalho não é ver filmes, o trabalho é escrever sobre filmes, e isso traz uma série de compromissos que muitos não entendem, aceitam ou não se dão o trabalho de entender.

O público que gosta de ler críticas de cinema tem migrado dos jornais para a internet? Quem lê suas críticas é mais jovem que o leitor de jornal?

Não sei dizer. Acho que todo leitor, de críticas ou de qualquer outra coisa, está deixando os jornais.

Nos últimos anos, estamos vendo um número cada vez maior de filmes dublados nas salas de cinema. Também na tevê a cabo. Qual o motivo desse aumento? Acha que tem algo a ver com o poder aquisitivo da “nova” classe C?

Os números de audiência da tevê a cabo são maiores nos canais dublados. Já no cinema acho que isso está ligado à predominância dos filmes infantis. Talvez a “nova” classe C amplifique isso, mas a impressão que eu tenho é que o público médio em qualquer lugar do mundo prefere o áudio na sua língua nativa, se estiver disponível. Quem se importa com legendas é uma minoria.

Os cineclubes são boas opções para ver filmes antigos em tela grande? Tenho a impressão, às vezes, que muitos deles se tornaram agremiações políticas, assim como festivais de cinema pelo Brasil. Estou enganado?

Não acho que a política domine cineclubes como domina festivais. Me parece que espaços como o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) são os mais democráticos que se poderia desejar.

O cinema nacional passou por grandes mudanças. Antes havia mais atitude, ao que parece, em nomes como Joaquim Pedro de Andrade e Nelson Pereira dos Santos. Não falta uma veia mais autoral aos cineastas atuais?

A produção de cinema no Brasil é enorme, mas a exibição pública desses filmes é muito problemática. Não dá pra quantificar, mas eu acho que há mais cineastas hoje no Brasil com algo a dizer do que havia na época do cinema novo – o problema é que eles não encontram meios de levar isso a mais pessoas.

Você concorda com a teoria do autor, cunhada pelos Cahiers? Ou acha que cinema é fruto de grandes colaborações, um trabalho feito a várias mãos?

A política dos autores é muito cômoda pra quem escreve sobre filmes, porque cria um viés de aproximação com os filmes que é sempre permissível, mas já era limitada desde aquela época. Em Hollywood a figura do produtor sempre teve importância equiparável à do diretor, alguns até hoje são mais “cineastas” do que os próprios diretores, e estamos vendo isso na produção de tevê americana.

Filmes para pensar, como O Espião que Sabia Demais, parecem hoje desafiadores se comparados com os blockbusters que chegam a cada nova temporada. A indústria confia na inteligência do público de cinema?

Não acho que O Espião que Sabia Demais seja um “filme pra pensar”. Essa expressão carrega uma carga muito negativa, como se apenas um grupo de iluminados fosse capaz de assimilá-lo. É um filme que exige atenção do espectador para acompanhar a trama, o que é totalmente diferente. A indústria não confia em nada; a indústria tenta atirar em tudo pra não correr o risco de errar. Já quem conta histórias não precisa pensar nisso, porque sempre vai haver um produtor ou um executivo que só se preocupa com isso, no lugar dele.

Acha que, com o fortalecimento de nossa indústria de cinema nacional, com o fenômeno Tropa de Elite, o cinema pode voltar a ser a arte popular que um dia já foi?

O cinema é uma arte popular no Brasil. Desde sempre nossas comédias levaram pessoas ao cinema e elas continuam levando.

A televisão e, depois, a internet sepultaram essas esperanças?

A televisão e a internet são rivais da indústria, não do cinema.

Não tem dias em que você cansa de ver filmes tão cerebrais, como O Espião que Sabia Demais, e simplesmente quer ver algo como Legalmente Loira? Ainda dá para se surpreender com os blockbusters de verão?

Eu pego todo filme com a esperança de ser surpreendido. Entrar com pré-julgamentos inviabiliza o trabalho e a experiência do filme.

Dos filmes que viu no último ano, qual o surpreendeu mais?

Um Método Perigoso (leia aqui a crítica de Marcelo).

Rafael Amaral (23/02/2012)