Omar Sharif

Doutor Jivago, 50 anos

Entre homens diferentes, a bela Lara (Julie Christie) leva mais que a atenção da personagem-título, o Jivago de Omar Sharif. Ele, de traços exóticos; ela, menina fina, anjo em meio a uma revolução. A partir do livro de Boris Pasternak, o cineasta David Lean dá luz a uma grande história de amor, entre as melhores do cinema moderno.

Toda vez que Jivago encontra Lara, em diferentes situações, é ao olhar dela que a câmera volta-se: Lean mantém o homem no plano palpável, enquanto a mulher vive em outro universo, inatingível, sempre a ser descoberta.

É justamente a história do amor inatingível, o que faz pensar na morte do herói, ao fim: a necessidade de tocá-la, entre a multidão, após sair de um bonde, enquanto ela perde-se em meio aos outros – e talvez sequer seja Lara aquela mulher entre tantas.

Aos 50 anos, Dr. Jivago continua belo, filme extenso como quase não se faz – da época em que grandes épicos com quatro horas de duração também representavam ganhos de bilheteria, espetáculos para ver em tela grande e com direito a intervalo.

dr jivago

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Omar Sharif (1932-2015)

Omar Sharif (1932–2015)

Quando soube que David Lean faria um filme de Doutor Jivago, comprei o livro e comecei a lê-lo, para ver se havia um papel para mim. Nunca imaginei que me pediriam para fazer o papel central, porque pensava que as pessoas me conheciam como um árabe em um camelo e que não poderiam pensar em mim como um poeta russo.

O que era difícil imaginar aconteceu: o papel de Yuri Jivago terminou no colo de Omar Sharif, lembrado até então como o Ali de Lawrence da Arábia – também do mestre David Lean. Ninguém esquece sua aparição neste épico, com o camelo no “fim” da paisagem do deserto, lentamente à frente, aos olhos do herói de Peter O’Toole.

Ambos – um egípcio e um inglês – eram pouco conhecidos. Na tela, a química perfeita, entre a rudeza e a aparente sensibilidade do escritor, o que Sharif deveria levar a sua personagem seguinte, Yuri. O terreno, então, era o da Revolução Russa. Mais de uma vez é possível ver seu rosto de desespero, às vezes sem saber o que fazer. Homem forte, ao mesmo tempo deslocado, humano demais a tantas convulsões.

Ao analisar Lawrence da Arábia, a crítica Pauline Kael observou em Ali um “xeque bonitão, de líquidos olhos castanhos e falas convencionalmente simples de dizer”. A presença forte do ator quase dispensa essas palavras, como se tudo soubesse sobre o deserto e suas guerras.

doutor jivago

Os dez melhores indicados ao Oscar que não venceram o prêmio (anos 60)

Os ganhadores dessa década apontam mais ao futuro que ao passado: há a comédia ácida de Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse) e também o musical um pouco fora dos padrões (Amor, Sublime Amor); também do malicioso e divertido (As Aventuras de Tom Jones) ao moderno (Perdidos na Noite). Com os indicados não foi diferente: os filmes já mostravam as tendências da Nova Hollywood, tal como o mundo dividido, sem o jeito família de antes. Personagens erráticas, em filmes que traziam uma nova geração de cineastas contra outra, quase sepultada.

10) Becket, o Favorito do Rei, de Peter Glenville

Richard Burton e Peter O’Toole mantêm uma relação que vai além da simples amizade nesse grande drama de época, com atuações memoráveis da dupla.

Becket

9) A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols

O jeito de Ben Braddock (Dustin Hoffman) em lidar com a sexualidade – além de conviver com os flertes da senhora Robinson (Anne Bancroft) – deu um choque no cinema americano.

a primeira noite de um homem

8) O Sol é para Todos, de Robert Mulligan

O nome Atticus Finch virou sinônimo de honestidade, de luta pelos direitos dos negros contra a América branca e reacionária. Oscar para Gregory Peck.

o sol é para todos

7) Quem tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols

O duelo entre Elizabeth Taylor e Richard Burton faz parte de um jogo perverso: eles alimentam ódio e amor em mesma dose, nesse filme poderoso de Nichols.

quem tem medo de virginia woolf

6) Doutor Jivago, de David Lean

Após outros grandes épicos, Lean entrega o papel de Jivago a Omar Sharif, cujo olhar perdido, em meio à guerra e à neve, não cai no esquecimento.

doutor jivago

5) Z, de Constantin Costa-Gavras

Com seu thriller político, Gavras marca presença entre os cineastas contestadores de seu tempo. Aqui, os inimigos fazem um assassinato parecer acidente.

z costa-gavras

4) Terra de um Sonho Distante, de Elia Kazan

A certa altura da carreira, Kazan viu a necessidade de contar a história de sua família, dos velhos laços, e mostrou a jornada de um rapaz grego rumo à América. E ao sonho.

terra de um sonho distante

3) Desafio à Corrupção, de Robert Rossen

Como Fast Eddie Felson, Paul Newman tem a personagem de sua vida, homem cheio de tropeços que tenta dar a volta por cima ao enfrentar Minnesota Fats (Jackie Gleason).

desafio à corrupção

2) Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick

O “amor à bomba” de Kubrick é a melhor crítica à Guerra Fria do cinema, com os caipiras que colocam tudo a perder e um presidente perdido em sua sala de guerra.

dr. fantástico

1) Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn

É a hora de torcer aos bandidos, parece dizer Penn em sua nação ao contrário, nessa balada de dois amantes pelas estradas empoeiradas, nos tempos da Depressão.

Bonnie e Clyde

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