O Segredo de Brokeback Mountain

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

A sala na qual entram os dois jovens em busca de emprego, na abertura, é escura, um pouco opressora. Depois dela vem a paisagem, a libertação, mas também o isolamento. Em O Segredo de Brokeback Mountain, Ang Lee lida com essa contradição: os homens só chegam à liberdade quando distantes da civilização, ainda que isolados.

A liberdade vem seguida da proibição. Os homens encaram a paisagem como se pudesse ser alcançada, tocada, enquanto a natureza impõe a busca pelo calor – como animais enlaçados – e o estranho desconhecimento de si mesmo, o sentimento que toma novas proporções. A natureza ainda é desconhecida aos dois homens.

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Ang Lee faz um filme de homens, sensível, que ultrapassa a história da paixão momentânea. Brokeback, no Estado do Wyoming, é o ambiente ao qual os amantes terão de fugir. Espécie de paraíso intocado pela civilização, a mesma que, à imagem da cidade, colocará peso sobre os ombros de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal). Ambos são contratados para trabalhar como pastores de ovelha na tal montanha – sozinhos, sob o desafio do isolamento e da natureza.

Enquanto seguem à montanha, Ang Lee apresenta a organização de toda aquela vastidão: as plantas, a água, os picos, as árvores e o homem – desbravador – com seu rebanho perfeitamente distribuído. As ovelhas unidas representam equilíbrio. O homem vive um drama antigo, humano demais: é condenado a desbravar, a romper. E isso chega justamente quando Ennis e Jack descobrem o desconhecido e, até então, proibido: o amor entre dois homens, os desbravadores, os machos de bota e chapéu.

O primeiro contato é carnal, conflituoso. Daquela noite sobra estranhamento. Será levado ao dia todo. Ennis monta o cavalo, corre pela montanha e chega à imagem central de um filme ora ou outra levado à violência: uma ovelha morta, com as tripas e o sangue à mostra. Ang Lee resume o equilíbrio quebrado.

A relação dos amantes, segundo o roteiro de Larry McMurtry e Diana Ossana, nasce sempre do rompimento, da desobediência, contra a ordem, contra a sociedade de fora e, entre a mata, na montanha, como o desejo de instituir outra ordem possível, na qual dois homens poderão viver juntos e talvez felizes.

O Segredo de Brokeback Mountain, entre as décadas de 60 e 80, mostra que a suposta nova ordem ainda era um sonho. Ennis entende, aceita a solidão e, mesmo com os sinais de Jack em seu trailer, ao fim, está preso àquele local frio, à pequena casa como representação da vida em sociedade que tanto lhe impôs obstáculos.

Jack torna-se vítima dos instintos, do desejo de quebrar o equilíbrio da sociedade à qual ora ou outra se vê alienado – seja pela mulher careta com o gosto pela calculadora, seja pelo sogro autoritário, seja pelos pais conservadores.

O peso da sensibilidade de Ang Lee é imenso. O bruto converte-se em leveza, e ainda assim não retira dos homens um certo jeito de ser. Brigam, esbravejam, exteriorizam amostras de truculência no mundo que não os entende. Viver em Brokeback seria um sonho, como a imagem do cartão postal à qual Ennis está condenado a retornar. Imagem que simula a janela, possível liberdade.

Ennis, quando criança, é obrigado a ver um homem morto. O pai segura sua cabeça para que veja. Obrigado a ver, a entender como são as regras nessa civilização estranha. A lembrança é compartilhada com o amante. Mescla infância à morte, estabelece a proibição. O homem morto vivia com outro homem.

A dificuldade de encarar a verdade retornará em momento-chave e já citado, no encontro de Ennis com a ovelha morta. O espectador aproxima-se do animal, de seu interior, da morte, da natureza violada. É difícil encará-la. Anuncia, por isso, o pior.

(Brokeback Mountain, Ang Lee, 2005)

Nota: ★★★★★

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Nem sempre dá para entender as escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar. Há filmes que ganham estatuetas importantes, mas terminam a noite sem a mais cobiçada: a de melhor filme. E ainda que a Academia costume conceder os prêmios de filme e direção na maior parte das vezes à mesma obra, são vários os casos em que preferiu fatiar. A lista abaixo traz sete obras-primas que ficaram com o prêmio de melhor diretor, o que não significa que sejam superiores aos ganhadores da estatueta principal. Mas vale refletir e comparar.

As Vinhas da Ira, de John Ford

O segundo dos quatro Oscars que Ford recebeu em sua carreira. O diretor ainda é o recordista em número de estatuetas nessa categoria. Conta a história de uma família que viaja em busca de trabalho e uma terra para viver nos Estados Unidos da Grande Depressão. Vencedor de melhor filme na ocasião: Rebecca, a Mulher Inesquecível.

O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston

Huston ficou com o prêmio de direção e, pelo mesmo filme, seu pai, Walter, abocanhou o de coadjuvante. Um faroeste belíssimo, em preto e branco, sobre três homens que se embrenham no México em busca de ouro. O que começa com camaradagem dá vez à loucura e mais tarde ao confronto. Vencedor de melhor filme na ocasião: Hamlet.

Um Lugar ao Sol, de George Stevens

A história do jovem pobre com um tio rico e que, da noite para o dia, entre um pouco de amor e outro tanto de oportunismo, vê a possibilidade de ingressar no mundo dos grã-finos. O problema é que ele já engravidou outra mulher. A dificuldade de viver uma vida dupla o leva à tragédia. Vencedor de melhor filme na ocasião: Sinfonia de Paris.

Cabaret, de Bob Fosse

Esse grande musical moderno de Bob Fosse levou oito estatuetas douradas, entre elas a de diretor, atriz (Liza Minnelli) e ator coadjuvante (Joel Grey), mas não a de melhor filme. Na Alemanha à beira do nazismo, o cabaré é a fuga ao show e a um pouco de libertinagem. Vencedor de melhor filme na ocasião: O Poderoso Chefão.

Reds, de Warren Beatty

O diretor, também ator famoso, levou anos para colocar a história do jornalista John Reed na película. O resultado é uma obra monumental cuja estrutura narrativa traz declarações de pessoas que conviveram com as figuras reais retratadas, mesclando documentário e ficção. Vencedor de melhor filme na ocasião: Carruagens de Fogo.

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

A história de amor entre dois rapazes (Jake Gyllenhaal e Heath Ledger) que dividem algum tempo pastoreando ovelhas em uma montanha. Do encontro nasce uma relação inesperada que atravessa décadas e, devido ao preconceito, não aparece aos olhos de todos. Comovente e delicado. Vencedor de melhor filme na ocasião: Crash – No Limite.

Gravidade, de Alfonso Cuarón

Uma cientista está presa ao espaço em que nada tem fim, em que tudo parece aberto e, ao mesmo tempo, onde se vive em clausura. A vida no espaço é impossível. Cuarón investe em planos-sequência extraordinários e coloca o público no interior dessa luta pela sobrevivência. Vencedor de melhor filme na ocasião: 12 Anos de Escravidão.

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Logo no início dos anos 2000, o Oscar foi para Gladiador e, mais tarde, para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Crash: No Limite. Alguma coisa estava errada: filmes populares, mas sem a mesma qualidade de antigos vencedores, começavam a ganhar estatuetas. Como se vê, o Oscar nunca foi tão desinteressante. É a década do 11 de Setembro, com Michael Moore tão vaiado quanto aplaudido ao ganhar o Oscar por Tiros em Columbine, com Polanski ganhando o seu (mesmo sem ir buscá-lo). E quando Martin Scorsese finalmente recebeu o prêmio – mas não por seu trabalho mais interessante. Não dá para querer tudo.

10) Traffic: Ninguém Sai Limpo, de Steven Soderbergh

Três histórias diferentes, com tonalidades diferentes, lançam personagens no mundo das drogas – do policial na fronteira do México à dama que faz tudo para tirar o marido da cadeia.

traffic

9) Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood

Três garotos têm a infância marcada por um crime que continuará a persegui-los anos depois. Entre eles está a personagem de Sean Penn, cuja filha é assassinada.

sobre meninos e lobos

8) O Tigre e o Dragão, de Ang Lee

Com esse incrível filme de artes marciais, o diretor de Razão e Sensibilidade traz grandes cenas de ação e ainda deixa espaço para uma tocante história de amor.

o tigre e o dragão

7) Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

Termina com a morte de Hitler no lugar menos imaginado: enquanto assistem a um típico filme nazista, a tela é tomada pela moça judia, que decreta o fim dos inimigos.

bastardos inglórios

6) Capote, de Bennett Miller

A obra passa-se depois do crime, com campos gelados, com o outro lado da vida americana: é o clima que inspira Truman Capote a escrever A Sangue Frio.

hoffman

5) As Horas, de Stephen Daldry

Enquanto Virginia Woolf (Nicole Kidman) mostra-se depressiva, seu livro Mrs. Dalloway muda a vida de outras pessoas, décadas mais tarde. É o momento de sobreviver ou deixar tudo.

as horas

4) Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney

O apresentador de televisão Edward R. Murrow (David Strathairn) compra briga com o senador Joseph McCarthy, contra sua “caça às bruxas”. Tempo de paranoia.

boa noite e boa sorte

3) Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman

Como em A Regra do Jogo, Altman leva suas personagens a uma grande casa para despi-las: elas revelam novos caminhos e o tal assassinato talvez não seja o mais importante.

assassinato em gosford park

2) O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

O amor entre dois brutos é a saída para Lee mostrar sensibilidade apesar de tudo: de tempos em tempos eles reencontram-se, lutam para ficar juntos, e contra a própria sociedade.

brokeback mountain

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

A obra-prima de Anderson tem Daniel Day-Lewis em seu melhor papel, com as mãos molhadas de sangue, tendo de afagar o filho encharcado pelo petróleo. Obra de gênio.

sangue negro

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Os 20 melhores filmes nomeados ao Oscar nos últimos dez anos

Desconfiar do Oscar é comum. Mais ainda, é compreensível: nos últimos 10 anos, o número de filmes indicados – e mesmo vencedores – não chega a empolgar. No entanto, vale citar alguns destaques, que por muitos motivos merecem seguir vivos. Dos 20 listados abaixo, cinco venceram, outros nem passaram perto disso e correm o risco de cair no esquecimento. A lista tem apenas filmes indicados à categoria principal, que a partir de 2010 passou a ter até 10 concorrentes.

20) Bravura Indômita, de Ethan e Joel Coen

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19) Munique, de Steven Spielberg

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18) Django Livre, de Quentin Tarantino

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17) Os Infiltrados, de Martin Scorsese

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16) A Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris

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15) O Artista, de Michel Hazanavicius

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14) Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

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13) A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

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12) A Rede Social, de David Fincher

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11) Capote, de Bennett Miller

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10) Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow

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9) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

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8) Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney

boa noite e boa sorte

7) Amor, de Michael Haneke

amor

6) A Árvore da Vida, de Terrence Malick

a árvore da vida

5) Menina de Ouro, de Clint Eastwood

menina de ouro

4) Gravidade, de Alfonso Cuarón

gravidade

3) O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

brokeback mountain

2) Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen

onde os fracos não têm vez

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

sangue negro

Entrevista: Miguel Barbieri Jr.

Antes da entrevista, o crítico Miguel Barbieri Jr. havia acabado de sair de uma cabine (sessão voltada à imprensa), no cinema Reserva Cultural, na avenida Paulista. Assistiu, uma semana antes da estreia, o último filme de Philippe Garrel, Um Verão Escaldante. Para ele, um filme menor, que não agradou. Na mesma sessão estava Inácio Araújo, que depois elogiaria a produção na Ilustrada. Para Miguel, no entanto, não se tratava de grande coisa: o filme de Garrel, uma semana depois, chegaria às bancas acompanhado por apenas uma estrelinha na cotação da Veja São Paulo.

“Gostei de Amantes Constantes, mas não de A Fronteira da Alvorada”, disse, antes de degustar um croissant e dar uma entrevista para este site. Falador mas ponderado, Miguel ocupa a função de crítico na revista da Editora Abril há mais de 10 anos. Segundo um breve perfil no site da editora, vê mais de 400 filmes por ano e, em suas palavras, livre de preconceitos. Na hora de pregar os olhos na tela grande, um blockbuster do momento merece a mesma dedicação que uma produção premiada em Cannes.

Na profissão, Miguel vê de tudo e, com exceção do período em que está em férias, preenche sozinho as várias páginas da revista dedicadas ao cinema – o que ele chama de roteiro e nas quais diz “ter tudo”. Fala também das estrelinhas utilizadas pela revista para dar nota aos filmes, das incursões por caminhos variados até chegar à posição de crítico de cinema, da Mostra de São Paulo e da abundância de “especialistas” atualmente na internet. “Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais”, afirma. “O leitor não é bobo.”

No livro Os Filmes da Minha Vida – Volume 3, você dá um longo depoimento sobre o que lhe formou enquanto crítico de cinema. Você diz que descobriu os filmes um pouco acidentalmente, com 13, 14 anos, por pura curiosidade. Você se tornou crítico por acidente ou já tinha isso na cabeça?

Quando eu tinha uns 14 anos, eu tinha um caderninho, no qual anotava minhas observações sobre filmes. Não sei se era uma crítica. Eu recortava algumas notícias e colocava ali. Não sei onde foi parar esse caderno. Havia críticas do Rubens (Ewald Filho) que guardava nele, também do Edmar Pereira, do Jornal da Tarde, do Rubem Biáfora, que escrevia no Estadão. Eu escrevia alguma coisa e colava a crítica deles. Já profissionalmente, eu nunca pensei em ser crítico porque nunca pensei em ser jornalista. Para você ter uma ideia, eu fiz Biológicas no colegial. Não sabia se queria ser médico, se queria ser biólogo. No terceiro ano do colegial, dei uma guinada total. Achei que pendia muito mais para artes, para cultura, até mesmo para psicologia. Embora tenha feito Biológicas, fiz, depois, um cursinho para Humanas. Prestei para publicidade, arquitetura… Quando temos 17 anos, não sabemos muito bem o que queremos, não é? E prestei jornalismo na PUC. Mas, na verdade, não queria fazer jornalismo, mas o foi o único lugar em que acabei entrando. No primeiro ano, na PUC, tinha aquilo que eles chamavam de básico, e você fica menos com sua turma de jornalismo – uma ou duas vezes por semana. Não sei se hoje ainda é assim, mas há 30 anos era. E, na época, nas aulas com o básico, comecei a fazer amizades com pessoas que não faziam jornalismo. Enfim, terminei por fazer a faculdade e descobri o fazer cinema também na faculdade, com um curta-metragem que ganhou prêmio, uma brincadeira que fiz com um amigo meu, que era estilista. Consistia em pegar algumas amigas da classe e fazer uma transformação. Era uma viadagem que tínhamos feito (risos) e que acabou dando certo. E acabamos ganhando um prêmio em Campinas. Gostei de fazer cinema e gostava muito de ir ao cinema, mas nunca pensei em casar as duas coisas, ou seja, jornalismo com cinema. O que eu queria mesmo era trabalhar com publicidade e, se tivesse feito isso, hoje estaria bem melhor de vida (risos). Terminando a faculdade, fui morar um ano em Paris, que é uma vitrine cinematográfica que não tem em lugar nenhum do mundo, não é? Nem em Nova York não tem. E, quando não tinha nada para fazer em Paris, onde fui para fazer um curso de vídeo e onde fiz um cursinho de arte e francês, ia muito ao cinema. Vi ciclos do Fassbinder, do Wim Wenders, cineastas que descobri lá, que estavam no auge. Era o início dos anos 1980. Quando voltei de Paris, fui trabalhar com publicidade, não fui ser jornalista logo de cara. Trabalhei dois anos com isso e parei. Não era meu caminho.

No mesmo livro, você fala de uma dificuldade que existia no Brasil, mesmo antes do vídeo, que era encontrar alguns filmes. Antigamente, ou o crítico ia ao cinema ou ele não via nada. Se perdesse a sessão, acabava não vendo mais o filme. Hoje, com a facilidade de encontrar as obras, é mais fácil ser crítico de cinema?

Hoje você tem muito mais acesso. Naquela época você tinha a televisão, onde era possível pegar reprises de alguma coisa, também os cineclubes, mas essa facilidade não existia. Cheguei a pegar o primórdio do vídeo e abri uma locadora (Over Vídeo, uma das primeiras locadoras de vídeo de São Paulo) com uma amiga minha em 1986, que durou até 1998. Foi uma grande experiência. E, ainda antes, comecei a descobrir filmes porque meu cunhado tinha um videocassete. As locadoras estavam surgindo aqui no Brasil. Na época, fiquei sócio da Vídeo Clube do Brasil. Por ali também vi muita coisa, sobretudo filmes dos anos 1980 e mais antigos. A qualidade era péssima, porque era tudo pirata. Via alguns do Coppola, mais antigos, também de Woody Allen.

E nessa experiência, do outro lado do balcão, quando indicava filmes você já fazia crítica de cinema?

(Pensa um pouco.) Não… Era uma relação diferente. O que me trouxe foi uma experiência para saber o que o público gosta. Isso eu trago muito, hoje, ao meu trabalho. Ou seja, sempre procuro escrever para quem está me lendo. E aí que cheguei e disse para mim mesmo que gostaria de ser crítico, já que havia me formado em jornalismo. Na época havia poucos nesse ramo. Hoje em dia, em uma cabine, pode ter até 100, 200 pessoas nas mais badaladas. Nesta semana (a entrevista foi feita no dia 25 de maio) teve a do Homens de Preto (a terceira parte da série) e estava cheia. Agora há blogs, sites, jornais variados. Mas na época em que comecei, você ia nas cabinas e tinha poucas pessoas. Tinha o Merten (Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão), o Zanin (Luiz Zanin Oricchio, crítico do Estadão) e outros poucos, como o Inácio (Araújo, da Folha de S. Paulo). Em 1992, uma amiga minha, aquela que era minha sócia, era editora cultura do Diário Popular, hoje o Diário de São Paulo. E ele me disse que estava mandando embora o crítico de vídeo. Ela perguntou se eu queria assumir. Disse que não sabia, que nunca havia escrito crítica. Mas ela argumentou que eu já tinha visto muitos filmes e me deu alguns toques. Para ter uma ideia, eu escrevia, ia na casa dela, mostrava e ela fazia apontamentos. Então eu comecei…

Então, se não fosse a locadora, você não teria se tornado crítico de cinema?

Não só pela locadora, mas se não fosse o meio se abrir. Sempre achei que era uma panela. Havia o Rubens e alguns outros. Não tinha essa coisa mais ampla como é hoje. E não sei se isso é muito bom.

Acha que o excesso de gente escrevendo na internet banalizou o trabalho do crítico?

Acho. Perdeu um pouco o critério. Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais. E o leitor também sabe ler aquele crítico com quem está acostumado. O leitor não é bobo. Para você ter uma ideia, no Diário eu fiquei de 1992 a 2000 e, depois, até 2012, na Vejinha. São dois lugares apenas onde eu trabalhei. Claro que fiz freela para outros lugares. Já fiz uma revista que teve dois ou três números apenas, mas não era um exercício de crítica. Quando entrei na Vejinha, percebi que o público era outro se comparado com o do Diário Popular. Tinha que escrever de uma outra maneira e, não digo indicar, mas saber para qual público eu estava falando. E isso foi a locadora que me deu, como experiência. Em um bate-papo no Cinesesc eu falei isso: não gosto do último filme de Godard, o Film Socialisme. Detesto. E o fato não é nem eu detestar, mas jamais poderia indicar esse filme para um leitor da Vejinha. Não é o perfil desse leitor. Se escrevesse na Cahiers du Cinema até poderia ser, mas não é o caso.

Acha que quem lê a Veja São Paulo busca mais entretenimento, programa com a família, não um filme do Godard?

Pode até ser uma visão errada minha, mas acho que não. Pelas cartas que eu recebo, pelo que eu escuto, é um gosto médio. E meu espaço, hoje, comparado àquele que eu tinha na época do Diário, é muito pequeno. Tem gente que gosta. Um colega, inclusive, disse usar meus textos para demonstrar exemplos de concisão. Nunca tinha percebido isso: em dez ou 15 linhas acabo escrevendo o que eu acho de determinado filme. Por incrível que pareça, hoje eu não sei se teria saco de escrever coisas tão grandes. Não digo capacidade, mas saco.

Sobre seu trabalho na Veja São Paulo, você vê muita coisa.

Vejo praticamente tudo.

Mas você vê porque é seu trabalho, sua obrigação. Se não fosse crítico, você assistiria tantos filmes assim?

Uma coisa que me irrita demais, ao ir ao cinema como espectador comum, é o público. Hoje em dia está infernal. Gente com celular. A luz do celular me irrita, gente conversando. Muita coisa me irrita. Uma vez ou outra, quando perco algum filme, tenho que ir ao circuito. Talvez eu selecionaria mais os filmes se não fosse crítico, mas gosto de ver tudo. Gosto de ver Homens de Preto, gosto de ver Missão Impossível. Também gosto de ver um Hasta La Vista, um Koreeda (Hirokazu Koreeda, cineasta japonês), um Philippe Garrel (cineasta francês).

Não acha seu espaço, na Veja São Paulo, um pouco limitado?

Na verdade, aquilo é um roteiro. E como roteiro e serviço acho o melhor que tem. Se você parar para pensar em qualquer outro veículo, você não tem algo tão bem esmiuçado, pelos menos em cinema. E detalhe: escrito por uma única pessoa. Sem querer falar mal de outros veículos, mas a Folha tem mais críticos e, se ver o roteiro, vai ver que tem quatro estrelas para um filme, três para outro, duas para outro – mas são críticos diferentes que estão escrevendo. Na Vejinha sou eu e minha opinião. Então, quem confia em mim, vai ler o que escrevo. O espaço é um roteiro de cinema e, por ser um roteiro, acho que tem tudo. Falamos de festivais variados, de mostras importantes. Me perguntam se, além das estreias, eu vou a essas mostras. Não dá. Tem várias, muita coisa. A única que tento acompanhar melhor é a Mostra Internacional de Cinema. Não dá para ir em muitos outros, como o É Tudo Verdade, Anima Mundi. É uma questão de tempo mesmo.

Sobre as estrelinhas, na revista, acho que isso sempre geram amor e ódio. Até hoje, se bem me lembro, só vi três filmes com cinco estrelas na Veja SP: O Segredo de Brokeback Mountain, o recente A Separação e Violência e Paixão, do Visconti.

Antes, acho que eu já havia dado cinco estrelas para As Invasões Bárbaras e alguma outra coisa que voltou ao circuito, algum clássico. A coisa das estrelinhas surgiu quando eu estava lá. Estou lá há 12 e isso deve ter surgido há uns 7 ou 8. De uma hora para outra resolveram colocar as estrelinhas. E ficou estabelecido que era de uma a cinco estrelinhas. A bombinha veio depois, com o filme da Eliana, inclusive, que é O Segredo dos Golfinhos. Aquilo era o fundo do poço, não tinha mais onde chegar. Pensei: gente, temos que dar uma coisa ainda menor.

Mais ou menos como ocorreu com o filme da Carla Perez.

Sim, o Cinderela Baiana. Se tivesse a bombinha, naquela época, com certeza. Cinco estrelas, segundo meus editores, devem vir acompanhadas de muito critério. Você não pode comparar um ótimo filme de hoje como um clássico, desses que voltam ao cinema, como Amarcord. Se você reparar em teatro, nunca tinha cinco estrelas. É o que falam: só se for Shakespeare com a Fernanda Montenegro. Ela fazendo Lady Macbeth (risos). De uns tempos para cá, eu estou, aos poucos, tentando. A Separação foi um caso assim. E tem outras coisas: meu editor mudou e a confiança em mim, nesses 12 anos, foi ficando cada vez maior. Quando entrei na Veja SP era mais complicado, não havia tanta confiança. Sou o crítico de cinema que mais tempo ficou na Vejinha. O Orlando Margarido ficou um tempo, a Neusa Barbosa também. Acho que eles gostam de mim. E adoro o que eu faço. Adoro ver filmes e faço com prazer. Acho também que sou uma pessoa sem preconceito, o que considero muito importante. Vou ver um filme do Garrel com o mesmo prazer que vou ver um Missão Impossível e Os Vingadores. A disposição é a mesma.

Quando está em casa e quer ver um filme que te satisfaz, o que você assiste?

Então, ultimamente tenho assistido algumas coisas. Revi Doutor Jivago, Ladrão de Casaca, Bonequinha de Luxo, O Iluminado, Nascido para Matar. Revi com uma vontade muito maior do que uma coisa nova. É muito difícil eu ter tempo para ver uma coisa que eu gosto. Para ter uma ideia, tenho dez filmes baixados no computador, filmes que não saíram no Brasil e provavelmente não vão sair. A única forma de ver esses filmes é baixando. Claro que não baixo filmes de coisas que estão passando, que saíram no Brasil ou vão sair. Nesses casos, vejo nas cabines ou, muitas vezes, recebo o DVD de algumas distribuidoras. Isso também é um problema, pois, como sou obrigado a ver tudo, acabo vendo sete ou oito filmes por semana. E tenho três ou quatro dias na semana, no máximo, para ver filmes. Tenho segunda, terça, geralmente de manhã. Quarta-feira eu não posso, devido ao fechamento da revista. Quinta, se saio tarde da redação na quarta, não dá, e resta a sexta. Se o horário de uma cabine não se encaixa, tenho que me virar, muitas vezes, com o DVD.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, são mais 400 filmes em duas semanas. Acompanhar a Mostra não se tornou uma batalha inglória?

No ano passado já deram uma enxugada. O Leon (Cakoff, fundador do evento) já não estava muito bom. De 300 filmes, acho, caiu para 200 e poucos. O que acho que falta na Mostra é critério seletivo. Todo ano, na Veja SP, faço um quadro dando algumas dicas do que vai passar no evento. É claro que é um quadro de cartas marcadas, com os filmes mais esperados, com vencedores de Cannes, Berlim etc.

Que é exatamente aquilo que sairá depois no circuito.

É, de certa forma. Mas gosto também de descobrir algumas coisas. Nunca me esqueço da primeira coletiva da Mostra que cobri para a Vejinha. Levantei o braço e perguntei para o Leon: “Gostaria que você desses uns toques, do que acha legal ser indicado ao leitor”. Ele disse: “Isso é trabalho seu. Nosso trabalho é trazer os filmes, o trabalho de vocês é selecionar e dizer o que é bom e o que não é”. Depois disso, meu amigo… (risos) Mas era uma pessoa maravilhosa. Adoro o Leon. Ele que me convidou para fazer Os Filmes da Minha Vida e tenho grande gratidão por ele. O que eu faço, em tempos de Mostra, é ir ao escritório deles um mês antes, ver uma lista do que deverá vir, dou uma pesquisada e vejo se tem ganhadores de prêmios e filmes importantes. Para mim, a Mostra começa um mês antes. E, quando efetivamente começa, para trabalho tenho apenas uma semana, porque quando uma edição da revista sai o evento já está acabando. E todo ano eu fico muito perdido. Todo ano é a mesma coisa. Não sei se vejo filmes que vão estrear, para me adiantar. Não sei se vejo os clássicos que estão voltando, com cópias restauradas. No ano passado, gostaria muito de ter revisto Taxi Driver. Não vi e me dá raiva. E gosto de fazer um “seguidinho”: pegar um cinema e ficar por lá, em sessões seguidas. Três ou quatro filmes diretos.

Mas, de vez em quando, surge um Mistérios de Lisboa por ai e pode tomar o dia todo, não é?

Às vezes ocorre isso ou tem, no meio, aquele filme bosta e você se pergunta: “O que isso está fazendo aqui?” Portanto, acho que às vezes falta um critério de seleção. Não é só porque é um filme pervertido, underground, que precisa estar passando na Mostra. E, no ano passado, os organizadores fizeram uma coisa que não sei se farão esse ano: eles não trouxeram os filmes que passaram no Festival do Rio, o que acabou gerando certo desconforto. Mas a Mostra é o grande evento. São Paulo tem muita oferta, muita coisa. Não sei se pode ser comparada a Paris, mas talvez seja a segunda ou terceira cidade mais importante em termos de cinema. Veja, por exemplo, um cinema como o Frei Caneca, a diversidade de títulos que tem, que une desde blockbusters a filmes iranianos. O que o Leon e o Adhemar (Oliveira, criador do Espaço Unibanco e que também dá depoimento em Os Filmes da Minha Vida 3) fizeram por São Paulo foi algo sensacional, mas isso é aqui. Você sabe que eu faço Veja Rio e agora estou fazendo Veja Belo Horizonte. Para ter uma ideia, essa semana não havia os dez melhores filmes em Belo Horizonte. Não tinha filmes para completar os dez, todos com três estrelas. No Rio tem. O Rio é até meio chato, pois alguns filmes ficam eternamente em cartaz. Se bobiar, ainda está passando O Artista por lá. Em São Paulo sai mais rápido.

Rafael Amaral (07/08/2012)