O Regresso

O Regresso, de Alejandro González Iñárritu

O homem é quase sempre um animal selvagem destinado a lutar contra a morte. É o que diz O Regresso, sobre um caçador atacado por um urso, enterrado vivo, obrigado a rastejar e comer o que encontrar pela frente para sobreviver. Por outro lado, esse aparente animal tem sensibilidade, ama o filho morto, sonha com a mulher. Possui espiritualidade para enfrentar a natureza bruta e, ao que parece, sem sentido.

A busca por um significado, algo que retire o homem do espaço dos animais, ocupa boa parte do filme. Alguns sinais indicam que não há mais saída, como o índio enforcado e com uma placa na qual se lê “Nós somos selvagens”. A jornada do protagonista, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), inclui tanto o espírito quanto a selvageria, a religiosidade e a natureza, a aparência do animal e a do verdadeiro humano.

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A vingança é um traço humano, movido por planos e emoções. Ou também faz parte da vida dos animais, que não suportam conviver com inimigo que aniquila seus descendentes? No filme de Alejandro González Iñárritu, Glass encontra ainda cedo seu algoz, John Fitzgerald (Tom Hardy), também um caçador, homem frio e implacável.

O filme começa com as viagens de Glass ao seu próprio interior, ao passado, ao encontro da bela mulher, à exposição da espera dela, em algum paraíso, pelo homem que parece já ter visto de tudo pelas suas andanças, entre guerras e chacinas.

O filme prende-se ao maniqueísmo: quando prefere o lado físico, é melhor; quando parte para o espírito, com longas caminhadas nas quais a personagem não sai do lugar, percebe-se a necessidade de humanizar o protagonista a todo custo.

Glass é exceção. Quase todos os outros preferem a selvageria. Não faltam sequências para justificá-la, como o conflito da abertura, com os índios; como o encontro de Glass com outros índios ou mesmo com outros homens. O entendimento é difícil. Aos poucos, a natureza torna-se o menor dos problemas. O maior deles é o homem.

A extraordinária fotografia é de Emmanuel Lubezki. Não por acaso, alguns momentos parecem ter saído dos filmes recentes de Terrence Malick, ainda que a busca pelo espírito, aqui, não chegue à mesma profundidade. Retorna a preferência pelo plano-sequência: como em Gravidade ou Filhos da Esperança (todos com fotografia de Lubezki), não se escapa ao caminho, ao movimento constante.

Como O Regresso, são filmes sobre pessoas em situações extremas, nos quais a fotografia desempenha papel importante ao lançar o espectador à profundidade do universo e, ao mesmo tempo, à respiração das personagens, ao contato próximo, íntimo, às pequenas partículas de água e sangue ora ou outra jogadas na lente.

É, por isso, um filme sobre a transformação de um selvagem em um homem consciente (ou apenas um homem), que renasce mais de uma vez para pensar em sua vingança, se ela realmente lhe dará algo sólido – questionamento provocado justamente pelo vilão.

Ao contrário do algoz, Glass tem escolhas. O Regresso oferece uma trilha estranha sob os sinais da selvageria, como o grande urso surgido do interior da mata para atacar o herói ou o búfalo encurralado pelos coiotes. Esses sinais da vida natural convertem-se em horror. O homem, em seu interior, combate-os: converte-se em espírito.

(The Revenant, Alejandro González Iñárritu, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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Grandes cenas de ação nem sempre estão atreladas a orçamentos gordos, abusos de pirotecnia, tampouco a efeitos digitais em excesso (e muitas das cenas abaixo comprovam isso). São momentos saídos de filmes lançados nos últimos dez anos. Como se pode ver, é uma lista cheia de doses de emoção. E, vale lembrar, uma lista pessoal.

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20) Invasão à embaixada americana (Argo, de Ben Affleck)

Em 1979, durante a Revolução Iraniana, a Embaixada dos Estados Unidos é invadida. Em Argo, o momento ganha recriação empolgante, com a bandeira americana em chamas, tensão e alguns de seus membros escapando pelos fundos (abaixo).

argo

19) O pouso e a luta sobre a plataforma (Star Trek, de J.J. Abrams)

O retorno à franquia, com os heróis jovens, foi um acerto. E a escolha de J.J. Abrams para comandar a história, ainda mais. A sequência em questão é espetacular, quando Kirk, na companhia de dois agentes, salta no Espaço e chega à plataforma.

star trek

18) O ataque do urso (O Regresso, de Alejandro González Iñárritu)

É o início do calvário do protagonista, vivido por Leonardo DiCaprio. O conflito com o animal é impressionante. Após sobreviver a esse ataque, o herói passa o filme em busca de sua regeneração, entre muito gelo, também em busca do assassino de seu filho.

o regresso

17) Tiros na fronteira (Sicario: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve)

Um belo filme pouco lembrado na temporada de premiações de 2016, com boa interpretação de Emily Blunt como a agente do FBI que vai à fronteira com o México em missão especial. A sequência em questão é um dos pontos altos da obra.

sicario

16) Perseguição no estádio de futebol (O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella)

Sem edição perceptível, o plano-sequência chama a atenção. Os heróis, entre a multidão que assiste ao jogo futebol, procura pelo assassino de uma garota. Eles resolvem se embrenhar no estádio quando descobrem que o procurado é torcedor fanático.

o segredo dos seus olhos

15) Embate na casa de Calvin (Django Livre, de Quentin Tarantino)

Questões de raça são evidentes: é possível ver o olhar de ódio aos negros em cada gesto de Calvin Candie, o barão vivido por Leonardo DiCaprio, cuja morte, com um tiro no peito, dá vez ao banho de sangue na parte final da obra. É Django contra todos.

django livre

14) O tsunami (Além da Vida, de Clint Eastwood)

Dramas também podem ter grandes sequências de ação. Esse belo filme de Eastwood trata de vidas paralelas, de pessoas que, ora ou outra, são afetadas pelo sobrenatural, e começa com o tsunami que destruiu a costa da Tailândia em 2004.

além da vida

13) Perseguição na Turquia (007 – Operação Skyfall, de Sam Mendes)

Como de costume na franquia 007, a sequência inicial é sempre arrebatadora. Ou deveria ser. A de Operação Skyfall é uma das melhores da série, com Bond perseguindo um vilão pelas ruas, telhados e sobre os trilhos de trem (abaixo), em Istambul.

skyfall

12) Caçada noturna (Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen)

Esse grande filme dos Irmãos Coen tem ao centro um atravessador, um serial killer e um policial desiludido. Na cena em questão, o atravessador (Josh Brolin) tenta escapar de homens que retornam ao local de uma chacina à procura de uma mala de dinheiro.

onde os fracos não tem vez

11) Chacina no bar (Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino)

Antes dos tiros, Tarantino leva a longos e engraçados diálogos, com o jogo de cartas na cabeça, espiões passando-se por alemães e um alemão de verdade que senta à mesa para desmascarar os outros. Ou para mostrar como se pede uma cerveja na Alemanha.

bastardos inglórios

10) Colisão com lixo espacial (Gravidade, de Alfonso Cuarón)

Os astronautas são avisados, ainda nos primeiros instantes, que estão na rota de lixo espacial em órbita. É o início dos problemas da cientista interpretada por Sandra Bullock. Após o choque, ela fica à deriva, no Espaço, tentando se salvar.

gravidade

9) Exército encurralado (13 Assassinos, de Takashi Miike)

Os 13 samurais do título preparam uma emboscada ao tirano líder de um clã. Diferente da bela versão de 1963, dirigida por Eiichi Kudô, Mike dedica mais sangue e mais tempo à batalha final, que acaba ocupando quase metade de seu filme.

13 assassinos

8) O Dia dos Mortos (007 Contra Spectre, de Sam Mendes)

Difícil imaginar que Spectre conseguiria, pelo menos em sua sequência de abertura, antes dos créditos, superar Skyfall. Passado na Cidade do México, o momento é de pura empolgação, com Daniel Craig correndo para todos os lados, entre lutas e explosões.

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7) Matança na igreja (Kingsman: Serviço Secreto, de Matthew Vaughn)

Um dos filmes de aventura mais divertidos dos últimos anos, Kingsman tem uma sequência violenta e da qual, vale lembrar, seu protagonista é excluído. Quem ganha espaço é o agente vivido por Colin Firth, em momento de pura quebradeira.

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6) Transportando dois assaltantes (Drive, de Nicolas Winding Refn)

É para lembrar que grandes sequências de ação também podem ser construídas com pouco. Para lembrar que carros em alta velocidade, em clima realista, podem ser mais interessantes que o exibicionismo de Velozes e Furiosos e seus derivados.

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5) Tempestade de areia (Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller)

O filme inteiro é uma grande e única sequência de ação – ou, exageros à parte, é quase isso. A entrada na tempestade de areia dá vez ao delírio máximo da obra: é quando carros e homens são lançados ao ar, em “dia adorável”, como diz Nicholas Hoult (abaixo).

mad max

4) Acidente na torre (Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson)

A explosão que anuncia a chegada do petróleo atinge o garoto, filho do protagonista vivido por Daniel Day-Lewis. O menino é lançado para trás, perde a audição. O petróleo jorra por todos os lados, enquanto os homens assistem a subida das chamas.

sangue negro

3) Soldado abatido pela bomba (Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow)

A sequência de abertura, a mais emocionante do filme de Bigelow, antecipa o que vem a seguir: a presença dos americanos em uma terra à qual não pertencem, os olhares cruzados, o risco da explosão a cada pequeno movimento.

guerra ao terror

2) Luta na sauna (Senhores do Crime, de David Cronenberg)

O capanga Nikolai (Viggo Mortensen) é encurralado por dois assassinos na sauna e tem de lutar com ambos, nu, pela própria vida. Uma sequência emocionante, física, com muito sangue e belamente orquestrada pelo mestre Cronenberg.

senhores do crime

1) Perseguição a Harvey Dent (Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan)

Filmes de super-heróis também têm momentos emocionantes. A sequência em questão vale pelo todo, quando o Coringa (Heath Ledger) tenta capturar Harvey Dent (Aaron Eckhart) pelas ruas de Gotham City e Batman (Christian Bale) luta para impedi-lo.

batman cavaleiro das trevas

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Os 20 melhores vilões do cinema nos últimos dez anos

Os melhores vilões do cinema recente não possuem superpoderes. São marcantes graças às composições, às presenças, em bons filmes, com personagens feitas à medida para determinados atores. Em alguns casos, sequer precisam exagerar. A lista abaixo tem personagens de obras lançadas entre 2006 e 2016 e, sem dúvida, difíceis de esquecer.

20) Robert Ford (Casey Affleck) em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Alguns vilões causam repúdio pela fraqueza, pela maquinação. É o caso do Robert Ford, o traidor de Jesse James (Brad Pitt), novamente levado às telas nesse belo filme de Andrew Dominik, um faroeste revisionista. Valeu a Casey uma indicação ao Oscar.

o assassinato de jesse james pelo covarde robert redford

19) John du Pont (Steve Carell) em Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

Outro ser repulsivo, que tenta provar virilidade com a luta greco-romana. Personagem real, ele financiou atletas que lutaram nas Olimpíadas, entre eles os irmãos Schultz. Difícil entendê-lo, com seus ataques de ciúme, seu jeito controlador.

foxcatcher

18) Frank Costello (Jack Nicholson) em Os Infiltrados

O espectador entende a apreensão da personagem de Leonardo DiCaprio, em seus primeiros encontros com o vilão: não é fácil se aproximar de alguém como Costello. Carrega a maldade nos menores traços. Mais uma atuação explosiva de Nicholson.

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17) Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) em Django Livre

Uma das diversões de Calvin é servir seus cães famintos com escravos fujões. Ou martelar inimigos em pleno jantar. DiCaprio faz o que Tarantino gosta: mata e se diverte ao mesmo tempo, em um faroeste violento com a marca do diretor.

django livre

16) Bernie Rose (Albert Brooks) em Drive

Ao ajudar um criminoso (Oscar Isaac), o protagonista (Ryan Gosling) acaba comprando briga com alguns mafiosos. Mata um a um, até chegar ao líder, Bernie, que em momentos parece se divertir. Outras vezes cômico, Brooks de novo prova talento.

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15) Lucille Sharpe (Jessica Chastain) em A Colina Escarlate

Lucille é irmã de Thomas (Tom Hiddleston), casado com a inocente Edith (Mia Wasikowska). Como a mãe ciumenta de Interlúdio, de Hitchcock, ela tem um plano para destruir a garota. Mas não poderia prever o poder da moça em contatar os mortos.

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14) Silva (Javier Bardem) em 007 – Operação Skyfall

Entre os acertos desse episódio da série, o melhor com Daniel Craig, está a escolha do ator para interpretar o inimigo. Sua caracterização coloca-o em oposição perfeita ao herói: é efeminado, cínico, de cabelo tingido e doentio, ao modo de Bardem.

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13) Semyon (Armin Mueller-Stahl) em Senhores do Crime

Líder da máfia russa em Londres, homem que finge bondade, que muda os trejeitos rapidamente. Em seu caminho está uma parteira (Naomi Watts) que busca informações sobre uma criança, além de um de seus capangas, vivido por Viggo Mortensen.

senhores do crime

12) Franck Neuhart (Guillaume Canet) em Na Próxima, Acerto no Coração

O filme não esconde a identidade do assassino em série: é, ao mesmo tempo, o criminoso e o policial que trabalha no caso. O espectador acompanha os passos desse tipo repulsivo, com detalhes dos crimes e sua dificuldade de se relacionar com os outros.

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11) Edwin Epps (Michael Fassbender) em 12 Anos de Escravidão

O senhor dos escravos acorda no meio da noite para violentar uma de suas escravas, sua preferida (Lupita Nyong’o). Mais tarde, quando ela sai em busca de um sabonete, ele mostra sua fúria: prenda-a em um tronco e, por várias vezes, desfere golpes de chibata.

12 anos de escravidão

10) John Fitzgerald (Tom Hardy) em O Regresso

Mata o filho do protagonista, que assiste à ação, impotente, e depois sai à caça do algoz. Com sua fala ponderada, Hardy consegue captar a atenção do espectador com extrema frieza. O ator havia provado talento em filmes como Bronson e Locke.

o regresso

9) O Comandante (Idris Elba) em Beasts of No Nation

O líder de um grupo de jovens paramilitares, em um país africano em guerra civil, mantém os meninos como escravos: ensina-os a matar, a empunhar armas. O filme de Cary Joji Fukunaga é uma das boas surpresas do cinema recente. Elba rouba a cena.

beasts of no nation

8) Killer Joe Cooper (Matthew McConaughey) em Killer Joe – Matador de Aluguel

Os outros também não são confiáveis, tampouco merecem sair ilesos. Mas ninguém em cena supera Joe Cooper, atraído por uma garota jovem quando é contratado pelo irmão dela para matar a mãe de ambos. E nada será como a família planejava.

killer joe

7) Amy Dunne (Rosamund Pike) em Garota Exemplar

O marido interpretado por Ben Affleck confessa, em narração, ainda no início, que gostaria de abrir a cabeça da mulher, Amy, e saber o que há dentro. Não demora muito para se descobrir um pouco de seu interior: ela está disposta a acabar com a vida dele.

garota exemplar

6) Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) em Bastardos Inglórios

Com grande cachimbo, o nazista Landa tenta conseguir informações com um francês, no início do filme, que estaria escondendo judeus. Prática frequente: finge camaradagem antes de revelar suas práticas, ao atirar e estrangular suas vítimas.

bastardos inglórios

5) Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) em O Abutre

O caçador de acidentes, de corpos mutilados, vaga pela noite em busca de imagens. E depois as vende para redes de televisão. É capaz de tudo para conseguir seu material. Chega a adulterar o local dos crimes e a esconder informações da polícia.

o abutre

4) Coringa (Heath Ledger) em Batman: O Cavaleiro das Trevas

Superar Jack Nicholson é uma tarefa árdua. Ledger conseguiu e deu à personagem, até o momento, sua melhor caracterização – e ganhou um Oscar póstumo por ela. Sem passado, com rosto cortado e maquiagem borrada, é a encarnação do mal.

batman

3) Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) em Sangue Negro

O vilão de Day-Lewis suja as mãos com petróleo e sangue, mente, engana o próprio filho e a igreja para conseguir o que deseja. Começa como um explorar solitário para se tornar líder de um império no filme extraordinário de Paul Thomas Anderson.

sangue negro

2) Capitão Vidal (Sergi López) em O Labirinto do Fauno

O padrasto que qualquer garota odiaria ter. Síntese de uma sociedade patriarcal e retrógrada, ele espera da mulher – a mãe da protagonista – apenas um filho, a criança como fruto daquele momento político, na Espanha de Franco.

o labirinto do fauno

1) Anton Chigurh (Javier Bardem) em Onde os Fracos Não Têm Vez

Mesmo com tantas personagens humanas, fragilizadas (como em Mar Adentro), Bardem será lembrado pelo papel de um assassino implacável movido por convicção, nunca por outros interesses. O filme dos irmãos Coen é poderoso, frio, inesquecível.

onde os fracos não tem vez

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A hora e a vez de Leonardo DiCaprio

A imagem de Jack Dawson, o pobretão que embarca no Titanic após vencer um jogo de baralho, levou Leonardo DiCaprio à fama mundial. Nela, o jovem tem a franja lançada aos olhos, o sorriso adolescente, apaixonado e malicioso.

Seria a imagem a persegui-lo: o eterno rosto bonito, o galã inconformado com a ausência entre os indicados ao Oscar de 1998. Com o tempo a imagem mudou: DiCaprio atingiu o amadurecimento, provou ser mais que beldade.

titanic

Os filmes realizados depois de Titanic (acima) não fizeram muito por ele, ainda que tentasse. O Homem da Máscara de Ferro é esquecível, e nele o ator é um (duplo) luxo à parte. A Praia tenta dizer algo, a todo esforço, e quase chega lá.

A parceria com Martin Scorsese começa em Gangues de Nova York. No início da carreira, o ator havia trabalhado com o favorito do diretor ítalo-americano, Robert De Niro, em O Despertar de um Homem. Do encontro nasce uma grande inspiração.

Sob o comando de Scorsese, em Gangues, sua personagem não convence: como ocorre a alguns atores da era clássica, DiCaprio não cai bem em qualquer figura de época. O ator passava da beleza da franja aos olhos, do rosto de galã, a algo bruto, com o cabelo seboso e o cavanhaque em destaque. Nem sempre é fácil esconder a beleza.

E não era sujo o suficiente para figurar ao lado do carniceiro de Daniel Day-Lewis, que rouba todas as cenas em que aparece. Apequena o outro com facilidade.

DiCaprio precisava de uma personagem forte, protagonista, de novo com Scorsese. A parceria estende-se: logo surge O Aviador (abaixo), de 2004, no qual a ousadia vale a pena: na pele de um magnata sob os efeitos do transtorno obsessivo compulsivo, louco por estrelas de Hollywood e aviões, ele consegue uma de suas melhores performances.

o aviador

O ator vive Howard Hughes. Em algumas sequências, o magnata está nu, sozinho, vendo imagens na grande tela, distante do mundo. Scorsese compõe momentos propositalmente irritantes, e com eles DiCaprio lambuza-se de possibilidades.

Sob Scorsese, como se veria depois em O Lobo de Wall Street, o ator parece não temer o exagero. E o diretor tampouco estava interessado no convencional, ainda que Os Infiltrados, com sua carga dramática e ação esperadas, não chegue a ser grande.

Nesse remake, o ator de novo é difícil de definir, na zona entre o bandido e o policial. Scorsese leva ao absurdo, à tragédia final em que ninguém (ou quase) merece sair ileso e pela porta da frente. Depois, em O Lobo, tem-se o oposto: tudo dá errado o tempo todo, em toneladas de exagero – com mulheres belas, drogas, dinheiro em excesso, prédios, casas nababescas e ainda mais dinheiro –, para tudo dar certo.

Pois DiCaprio resgata seu jeito moleque no corpo do homem adulto, à vontade, como o desleixado e brincalhão de Prenda-me Se For Capaz, de Spielberg, dono do olhar vibrante visto antes no lunático e magnata Hugues, outra história de excessos.

o lobo de wall street

Pouco interessantes são as figuras feitas à medida de qualquer astro hollywoodiano, em filmes como Diamante de Sangue e A Origem. Melhor continuar com Jordan Belfort (acima), amarrado a uma cadeira de avião após uma entre tantas viagens de droga, ou a debochar de um agente do FBI com suas lagostas e o brilhante iate à beira-mar.

Ninguém segura Belfort: ao aterrissar no berço das possibilidades e do enriquecimento, Wall Street, seus olhos brilham. Nasceu para aquele lugar. DiCaprio conduz aos poucos a uma balada, faz o que quer, e Scorsese carrega tudo com maestria.

Nem todos os atores ganham um Oscar ao abusar do despojamento, como um demônio engraçado. Albert Finney perdeu ao ser indicado por As Aventuras de Tom Jones; Kevin Spacey venceu por sua composição em Beleza Americana.

Às vezes é necessário sangrar, levar a estágios impensáveis de sofrimento. Chega-se assim a Hugh Glass (abaixo), o DiCaprio feito para ganhar prêmios, sujo, cortado e com os cabelos e sobrancelhas cobertos pela neve, como o Yuri Jivago de David Lean.

o regresso

Sua história passa por viagens internas e externas, pela morte do filho, pela luta com um grande urso, pelo sono no interior de um cavalo (para não morrer de frio) e pela vingança. O Regresso, de Alejandro González Iñárritu, convoca o espírito.

Por isso, mais de uma vez DiCaprio mergulha em seu interior, nessa religiosidade que humaniza, que às vezes cansa: ele encontra-se com a mulher e com seu lado mais agradável em outro universo, e o espectador sabe o que isso significa.

O ator dispensa a beleza: não é mais o jovem de franja lançada aos olhos ou o misterioso homem do casarão visto pelo narrador, o misterioso que se coloca a brindar a todos em suas festas disputadas, o Jay Gatsby sem nada a oferecer.

Em uma indústria em que prêmios contam tanto, é a vez de DiCaprio agarrar seu Oscar. Ninguém tinha dúvidas de sua capacidade. Glass, a personagem da vez, personifica o difícil caminho para se provar algo, feito de sangue e determinação.

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Os filmes de Alejandro González Iñárritu

Ao romper sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga, após Babel, muita gente achava que Alejandro González Iñárritu perderia a força. Ocorreu o oposto: seus últimos filmes mostram vigor, com textos originais e ótimas interpretações.

Com os conterrâneos Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro, ele compõe um famoso trio de cineastas mexicanos e tem mostrado sólida carreira e prêmios na bagagem – entre eles o Oscar, vencido em 2015, um ano após Cuarón levar o seu.

Amores Brutos (2000)

Três histórias paralelas na cidade do México: um jovem com um cão que participa de rinhas, uma modelo que sofre um acidente e perde seu cão, um andarilho que trabalha como matador de aluguel e tenta reencontrar a filha. Em seu longa-metragem de estreia, o diretor mexicano colheu elogios em excesso. Indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

amores brutos

21 Gramas (2003)

Vidas voltam a se cruzar nesse drama de elenco forte, e de novo com um roteiro de Guillermo Arriaga, que ainda contribuiria com Iñárritu em Babel. O destaque fica com Naomi Watts, como a ex-viciada em drogas que perde a família em um atropelamento. Em meio ao drama pesado, ela esbarra na personagem de Sean Penn e tudo muda.

21 gramas

Babel (2006)

O problema é a arma, que passa de mão em mão, e que termina por desestabilizar personagens em diferentes histórias. Ou, pode-se supor, o problema está nas diferentes línguas, fronteiras, formas de fazer todos parecerem diferentes demais. O destaque vai para as coadjuvantes Adriana Barraza e Rinko Kikuchi, em diferentes pontos do mundo.

babel

Biutiful (2010)

Filme forte, feito de mal-estar, no qual Javier Bardem é Uxbal, homem dividido, em mais uma grande interpretação. Ao longo de sua jornada, ele tem problemas com a família, com os imigrantes que alicia, com si mesmo: o protagonista vive em estado terminal. Em uma das cenas mais fortes, corpos são levados pelas ondas do mar.

biutiful

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

Riggan, antes um ator famoso, agora tendo de provar seu talento nos palcos da Broadway, ainda é possuído por um demônio passado: Birdman, a personagem que desempenhou na tela grande. O paralelo com a carreira de Michael Keaton, eternizado como Batman, é apenas detalhe. O ator tem aqui seu melhor momento e deveria ter ganhado o Oscar.

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O Regresso (2015)

Grande em tudo, a começar pelo alcance da câmera inquieta, pela violência, pelos olhares assustados de índios e homens brancos. O protagonista (Leonardo DiCaprio) quase morre ao ser atacado por um urso e, após perder o filho, busca vingança. Iñárritu consegue bons resultados ao abordar o conflito entre religiosidade e selvageria.

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