O Homem que Nunca Pecou

John Ford, anos 30

Antes de revolucionar o faroeste com No Tempo das Diligências e se tornar sinônimo do gênero, John Ford realizou algumas das melhores aventuras dos anos 30. Passou pelos filmes de guerra, pelo filme-catástrofe e, às beiradas, até pelo cinema político.

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A década prova que Ford estava além do gênero que lhe deu fama e pelo qual gostava de ser lembrado. À época, era um realizador confiável aos estúdios, que, ainda antes, havia aprendido sobre o ofício ao lado de mestres como D. W. Griffith. Em O Nascimento de uma Nação, Ford fez uma ponta como ator.

Seus filmes dos anos 30 têm em comum a agilidade, histórias simples – no melhor sentido possível – e grandes sequências de ação. Cinema clássico em plena atividade, com o diretor lançando até três filmes por ano, como em 1935, com O Homem que Nunca Pecou, Nas Águas do Rio e O Delator. O último lhe valeu o primeiro Oscar.

A guerra é tema constante em sua obra. Sob as Ondas, de 1931, chama a atenção pela leveza e distância como trata as personagens, sem grande peso dramático. É sobre um grupo de marinheiros americanos contra um imbatível submarino alemão. Sua sequência final, com bombardeios e soldados escondidos em um barco, é poderosa.

O mesmo se vê no desfecho de A Patrulha Perdida, de 1934: do mar aberto, Ford passa ao deserto, com soldados em conflito. Entre eles, o grandalhão de Victor McLaglen e o sinistro de Boris Karloff, famoso pelo monstro de Frankenstein, aqui um fanático que pode pôr tudo a perder.

McLaglen, colaborador frequente de Ford, imortalizado pelo Judas em busca do perdão em O Delator, é o último dos homens nesse grande filme de guerra. Se o ator deixa certezas sobre o heroísmo em A Patrulha Perdida, no outro investe na face do perdedor que entrega o melhor amigo, revolucionário irlandês, às autoridades.

Ao lado de A Mocidade de Lincoln, O Delator é o drama mais famoso de Ford da década de 1930. No entanto, e à contramão de boa parte dos filmes americanos desse momento, aposta em personagem amarga e derrotada.

O Gypo Nolan de McLaglen deseja mudar e, para tanto, acredita que precisa de dinheiro. Quer controlar seus vícios, ou simplesmente suas emoções: deixa ver ainda mais sua culpa a cada movimento rumo às pessoas que traiu, a cada beco que cruza. Entrega-se com pouco, enquanto o ator atinge grande atuação.

Como Ford, McLaglen ganhou um Oscar. Desbancou três atores que concorriam por O Grande Motim – entre eles Charles Laughton, como o inesquecível capitão Bligh.

Os tipos errantes de Ford fazem a diferença. São coadjuvantes que roubam a cena, talvez por mostrarem mais realismo, ao contrário dos heróis. É o caso do também grande Thomas Mitchell, o médico beberrão que precisa fazer um parto em meio à catástrofe que coloca fim a O Furacão, de 1937.

As mesmas “imperfeições”, depois, com o mesmo ator: em No Tempo das Diligências, Mitchell é o alcoólatra Josiah Boone, dessa vez em caravana que sintetiza os Estados Unidos, com a “terra de John Ford” ao fundo.

Por outro lado, há excesso de perfeição, ou necessidade de heroísmo, em outras personagens desses dois filmes (certo tipo imbatível, anterior à guerra que se avizinha), o Terangi de John Hall e, sobretudo, o Ringo Kid de John Wayne.

O melhor de Quatro Homens e uma Prece, por sinal, é outro tipo engraçado, o mulherengo vivido por David Niven, que cria sons inesquecíveis para se comunicar com um garçom latino, em um barco cheio de bandidos, em filme pouco marcante.

Outra figura de destaque nos filmes de Ford dos anos 30 é o ator Will Rogers, sempre o mesmo, com filmes na medida: o bom americano honesto e caipira. Duas belas obras mostram essa face: Juiz Priest e Nas Águas do Rio. No primeiro, Rogers é o juiz interiorano disposto a combater a força dos cínicos que desejam tomar seu tribunal. Ele rejeita a seriedade vista, mais tarde, no jovem Lincoln de 1939.

Mágico sem esforço, Priest resolve questões por acaso: é o tipo que se debruça no túmulo da mulher, à noite, para lhe fazer companhia. Não requer quase nada. Vive para unir os outros. Protagonista do filme, mas coadjuvante naquele universo. O mesmo ocorre em Nas Águas do Rio.

Em mais uma parceria entre Ford e Rogers, o ator é John Pearly, comandante de um navio e na companhia de uma bela moça. Ambos desejam salvar o companheiro dela, injustamente condenado à morte. Os Estados Unidos sulistas de Ford incluem religião, fanatismo e homens dispostos a fazer sua própria Justiça.

Dois homens em um, em Edward G. Robinson, podem ser vistos no ótimo O Homem que Nunca Pecou. O ator de Alma no Lodo interpreta duas personagens, ao mesmo tempo o funcionário exemplar de um grande escritório e o temido criminoso.

Robinson pode ser os dois com igual excelência, enquanto Ford brinca com as excentricidades de seu país, enquanto homens engravatados adiantam-se para cuspir fogo, e enquanto Jean Arthur – imortalizada graças às personagens dos filmes de Frank Capra – deixa tudo mais descompromissado.

Mais tarde, com No Tempo das Diligências e A Mocidade de Lincoln, ambos de 1939, o cinema de Ford chega a outro patamar. Para o grande diretor, os anos 30 – mas também os anos 20 ou ainda antes, época do grande O Cavalo de Ferro – sinalizam um diretor em perfeita sintonia com o sistema de estúdios, funcionário confiável e artista completo – ainda que preferisse o primeiro ao segundo rótulo.

Foto 1: No Tempo das Diligências
Foto 2: O Delator
Foto 3: O Furacão

Veja também:
Bastidores: O Delator

Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

O reino de máscaras e cópias encontra no cinema um espaço privilegiado. São muitos os filmes que fazem essa abordagem, com personagens divididas, a confrontar o outro, estranho e não raro inerente. A lista abaixo traz filmes de diferentes épocas, alguns baseados em autores famosos, levando o espectador a labirintos e sem respostas fáceis.

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O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

O diretor Stroheim interpreta a personagem-título, ventriloquista que entra em confronto com seu próprio boneco, Otto, sua outra face, seu contato com o mundo feito de festas e amores, de sequências musicais nos palcos da Broadway. Dois lados de um mesmo homem, cujo embate poderá levá-lo à miséria, também à loucura.

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O Médico e o Monstro, de Rouben Mamoulian

A clássica história baseada no livro de Robert Louis Stevenson. Fredric March ganhou seu primeiro Oscar como Henry Jekyll e o oposto, o senhor Hyde, o homem e o monstro, sob os cenários e a câmera subjetiva utilizada na abertura – e segunda a qual todos os espectadores também se tornam parte daquele homem, ou daquela criatura.

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O Homem que Nunca Pecou, de John Ford

Filme menos lembrado do mestre Ford, com Edward G. Robinson em papel duplo: o funcionário padrão que nunca chega atrasado ao trabalho, também o bandido mais temido na cidade. Claro que as duas figuras a certa altura se encontrarão, e claro que a provável troca de papéis gerará situações curiosas. Vale a descoberta.

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Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

Após não conseguir salvar a mulher amada, o detetive de James Stewart vê a possibilidade de transformar “outra” mulher na anterior. Aos poucos, ele descobre que se trata da mesma. Obra-prima de Hitchcock com Kim Novak na pele da loura misteriosa Madeleine Elster e, depois, na da morena Judy Barton.

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Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

O próprio Bergman considerava Quando Duas Mulheres Pecam – ou Persona, como é também conhecido – um de seus filmes mais completos. É o encontro de duas mulheres, depois isoladas em uma ilha, a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que emudeceu, e a enfermeira falante Alma (Bibi Andersson), em um poderoso jogo de máscaras.

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O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso contrata uma organização para simular sua própria morte. Ele deseja mudar de vida e se tornar mais jovem. Na nova roupagem, com seu segundo rosto, ganha a forma do galã Rock Hudson. No entanto, a mudança trará consequências. O grande thriller de Frankenheimer banha-se no clima da Guerra Fria.

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura

O título refere-se à bebida servida nos encontros das personagens. Saura aproxima-se de Buñuel, do surrealismo, com seus tambores de Calanda, e explora uma história às raias do absurdo. É sobre um homem impotente que tenta transformar uma mulher em outra, a morena em loura atraente, a exemplo do já citado Um Corpo que Cai.

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Partner, de Bernardo Bertolucci

Baseado em O Duplo, de Dostoievski, é o filme do cineasta italiano que mais se aproxima do clima político de 68, com seus jovens contestadores e a estrutura que flerta com Jean-Luc Godard. O estudante ao centro, interpretado por Pierre Clémenti, tem suas convicções abaladas quando passa a ser confrontado por seu duplo.

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Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

Antes dos extraordinários A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza, Roeg dividiu com Cammell a direção desse filme conectado com seu tempo, sobre um gângster (James Fox) que, em fuga, pinta o cabelo e termina na grande casa de Turner (Mick Jagger). Com doses de psicodelia, eles começam a se fundir.

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Irmãs Diabólicas, de Brian De Palma

A história de uma mulher que perdeu sua irmã siamesa após a separação dos corpos. Fica a cicatriz, a marca do rompimento em um filme curioso do arquiteto De Palma, sempre se banhando no universo de Alfred Hitchcock. Há o voyeurismo nas sequências da janela, quando a jornalista observa um assassinato, e também a dupla personalidade.

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Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

A personagem de Jack Nicholson, repórter desiludido, vê a oportunidade de mudar de vida: ela assume a identidade do homem no quarto ao lado, em um hotel, em um ponto remoto do globo. Antonioni volta ao campo da identidade nesse belo filme. O encerramento é inesquecível: a câmera percorre o quarto e atravessa as grades da janela.

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Três Mulheres, de Robert Altman

O filme de Altman deve algo a Quando Duas Mulheres Pecam, de Bergman, e insere ainda uma terceira figura feminina. Aborda a relação de duas mulheres (Shelley Duvall e Sissy Spacek) quando passam a trabalhar juntas em uma casa de repouso e quando uma tenta se tornar a outra. Altman, em grande momento, propõe um enigma.

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Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos de Cronenberg compartilham a mesma profissão e a mesma ciência: a ginecologia. Mas ambos expõem suas diferenças, o que aumenta o clima destrutivo, ajudado pela mulher entre eles, a misteriosa Geneviève Bujold. Um dos grandes trabalhos do diretor de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Marcas da Violência.

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A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

A ideia é curiosa: todas as pessoas teriam um duplo em algum lugar do mundo. A protagonista e sua cópia são vividas por Irène Jacob. Ainda no início, uma consegue ver a outra, em um ônibus, enquanto a segunda fotografa seu duplo sem saber. O resultado é mais um trabalho exemplar de Kieslowski, aqui em sua primeira incursão pela França.

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Clube da Luta, de David Fincher

Incluir o filme de Fincher nesta lista é correr o risco de revelar muito. Seu protagonista é alguém sem caminho (Edward Norton), que descobre na violência um novo sentido para a vida. E descobre que essa busca pode, a certa altura, ganhar proporções inimagináveis – enquanto segue atormentado pela figura de Brad Pitt.

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Cidade dos Sonhos, de David Lynch

Duas mulheres, uma loura e uma morena, faces da mesma moeda, na Hollywood delirante de Lynch. Ao que parece, começa como sonho, com a chegada de uma jovem atriz (Naomi Watts) a Los Angeles e os problemas de outra (Laura Harring), que sofreu um acidente e perdeu a memória. Para muitos, o ponto alto da carreira do diretor.

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Adaptação, de Spike Jonze

Outro sobre o mundo do cinema. Aborda as relações de um roteirista (interpretado por Nicolas Cage, e que pode ser o próprio Charlie Kaufman) com seu duplo, seu gêmeo que sempre aparece para soltar palpites sobre sua vida. Detalhe: o roteiro desse filme inventivo é assinado por Charlie Kaufman e um inexistente Donald Kaufman.

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O Rabo do Tigre, de John Boorman

O protagonista, um empresário, descobre que seu duplo vive pelas ruas e representa o outro lado do sistema capitalista em questão: é seu gêmeo que foi deixado para trás, que, diferente dele, não teve as mesmas oportunidades. A aparência kafkiana dá espaço à abordagem social. O duplo retorna para atormentar o protagonista endinheirado.

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O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve

Muitos cinéfilos consideram o filme incompreensivo, com passagens absurdas, como o encerramento com a aranha gigante no interior do quarto. Os tons pastéis salientam um clima de sonho, a cercar o público de dúvidas. E o protagonista, vivido por Jake Gyllenhaal, almeja ser como seu duplo, um ator de vida movimentada.

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Viva a Liberdade, de Roberto Andò

Político atingido por pressões de todos os lados decide desaparecer. Seu partido, na Itália, decide colocar seu irmão gêmeo no seu posto. O que poderia ser um desastre torna-se uma vitória: o outro fala o que vem à mente e logo se torna um sucesso com o eleitorado. E, como costume, há uma (dupla) interpretação acertada de Toni Servillo.

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O Duplo, de Richard Ayoade

Jesse Eisenberg serve bem à personagem, rapaz impotente que tenta se aproximar de uma bela moça (Mia Wasikowska), no trabalho, e que passa a ser atormentado por seu duplo. A cópia representa tudo o que ele não é, e talvez tudo o que sonhasse ser. Mais uma adaptação direta de O Duplo, de Dostoievski, e em um universo surreal.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Ator tenta provar que pode dar a volta por cima, com uma peça séria na Broadway, enquanto é atormentado pelo passado: a personagem que ele viveu no cinema, o herói Birdman, retorna para cobrá-lo, para salientar sua fraqueza nesse labirinto de atores, parentes, nesse meio em que todos tentam se entender e no qual tudo parece efêmero.

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