O Fundo do Coração

Showgirls, de Paul Verhoeven

A nova dançarina de Las Vegas fica irritada com as atitudes sexistas dos homens ao redor. Os “compradores”, seus “clientes”, sempre dizem algo relacionado ao seu corpo, seu trabalho, e o que desejam mesmo é ver seios, nada de arte.

E talvez a moça, interpretada por Elizabeth Berkley, ainda tenha esperanças de produzir algo artístico: os shows em Las Vegas, nos teatros dos hotéis, são produções com certo luxo, com muita gente envolvida, não mera demonstração de corpos nus.

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Desse conflito vem a estranheza de Showgirls, de Paul Verhoeven: um emaranhado de situações nas quais sua heroína sem muita expressão tenta ser mais que objeto. Ainda que a abordagem não seja nova, tem aqui um verniz interessante, trabalho de velocidade invejável e um cineasta com controle absoluto da narrativa.

O crítico ácido poderia desculpar Verhoeven apelando às intenções de um brincalhão, um diretor livre para mostrar os exageros dos Estados Unidos – a começar pela cidade escolhida para dar vez à obra, na qual abundam jogos, sexo, dinheiro, luzes neon.

A mesma cidade que Martin Scorsese escolheu para Cassino, ou que inspirou Coppola em seu O Fundo do Coração (com recriação em estúdio). Cada um deles com diferentes intenções. Scorsese inclina-se mais uma vez à máfia, à linha de produção do dinheiro; Coppola, às idas e vindas de um casal em conflito, ao amargor do amanhecer; e Verhoeven, a uma garota que deseja vencer na vida a todo custo.

A comparação com A Malvada justifica-se em partes. O clássico de Joseph L. Mankiewicz expõe com clareza o espaço das duas mulheres ao centro da trama. Showgirls embaralha posições. A menina nova na cidade, equivalente à personagem de Anne Baxter, é quase todo tempo vítima dos outros e depois se transforma.

A rivalidade entre dançarinas ganha mais peso na parte final, momento em que Nomi Malone (Berkley) entende que só poderá ter algo maior ao empurrar sua principal concorrente (a caricata Gina Gershon) escada abaixo. Ninguém se salva.

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Ambígua, Nomi ora repudia os homens e suas intenções, ora se aproveita de suas características físicas – sua dança, seu corpo – para dominá-los. Sua construção é frouxa: antes a menina sonhadora, passa à vilã sem profundidade, de passado obscuro.

Se o espectador fica de mãos vazias com essa dançarina à beira da estrada, no início e no fim, o mesmo não se pode dizer do trabalho de direção e da fotografia. A Las Vegas de espaços interiores não difere da forma externa: abundam luzes neon, roxo, vermelho, o clima de sonho constante que leva, por consequência, ao espetáculo mecânico.

O crítico Inácio Araújo evoca RoboCop, também de Verhoeven. “Showgirls retoma esse ideia de armadura. A diferença – sensível – é que desta vez a nudez será a couraça das garotas que batalham, no palco, pelo estrelado.” Nos filmes americanos do cineasta holandês, as personagens quase sempre escapam à naturalidade.

A mecanização torna Showgirls menos erótico do que parece. Ou quase nada. É a contradição condenável aos olhos da maioria, de uma ousadia sem alma, confundida com gratuidade, com uma boneca que não consegue passar qualquer emoção.

O sexo – ou sua aproximação – é sempre um espetáculo. Cada rodopio, agachada, cada retorno aos camarins de espelhos e luzes resume-se a uma corrida única, assumida coreografia. Verhoeven aposta nessa falsidade, em uma vida de espetáculo, de mentira.

(Idem, Paul Verhoeven, 1995)

Nota: ★★★☆☆

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13 filmes sobre relacionamentos em crise

Nem sempre existe amor perfeito no cinema. É o que se vê nos dez filmes abaixo: um amontoado de idas e vindas e sentimentos verdadeiros – tudo em meio a discussões e conflitos. Também um oceano de dores, de descobertas. Há obras que mostram casais unidos após anos, confrontando problemas; outras, como A Mãe e a Puta, lidam com amantes jovens, com suas dificuldades em ter algo sério ou simplesmente viver o momento.

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Aurora, de F.W. Murnau

O homem tem uma amante da cidade e, após pensar em matar a mulher, tenta reconquistá-la. O título original dessa obra-prima fala sobre uma “canção de dois humanos”.

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Viagem à Itália, de Roberto Rossellini

Provavelmente o melhor de Rossellini, o filme apresenta a crise de um casal que viaja pela Itália e passa pelo solo de vulcões e velhos cadáveres conservados.

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A Noite, de Michelangelo Antonioni

Na segunda parte da Trilogia da Incomunicabilidade, Mastroianni e Jeanne Moreau caminham sem rumo: pela cidade, por hospitais e festas. Pela manhã, precisam se confrontar.

a noite

Nós Não Envelheceremos Juntos, de Maurice Pialat

O grande Pialat mostra um relacionamento conturbado entre um bruto cineasta e sua mulher, que sempre o aceita de volta. Isso, claro, poderá mudar.

nós não envelheceremos juntos

A Mãe e a Puta, de Jean Eustache

Em cena, nessa obra-prima de Eustache, não estão pessoas casadas. São amantes livres, em Paris, ainda com questionamentos sobre o tempo passado, o Maio de 68.

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Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman

O filme de Bergman também deu origem a uma minissérie e está entre os melhores exemplares sobre conflitos amorosos na tela. Passa do casamento à separação, depois ao adultério.

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Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O diretor fez esse filme em homenagem à sua musa, Diane Keaton, e traz a história de um comediante em dúvida sobre seus relacionamentos. Oscar de melhor filme.

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O Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola

O extravagante musical de Coppola apresenta um casal em fim de relacionamento. Pela noite, eles conhecem outras pessoas e uma nova jornada cheia de cores.

o fundo do coração

Noites de Lua Cheia, de Eric Rohmer

Ela não quer viver com ele, deseja ser independente. Ele não a entende, mas aceita. Nessas idas e vindas, ambos descobrem que amor e liberdade nem sempre são compatíveis.

noites de lua cheia

Closer, de Mike Nichols

Quatro peças distribuem-se em um jogo complicado: o jornalista ama a stripper e talvez não saiba, a fotógrafa prefere a segurança do médico e demora a descobrir isso.

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Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

O casal, até certa altura, parece ter acabado de se conhecer. Mais tarde o passado vem à tona nesse filme maravilhoso, no qual Kiarostami questiona o que é verdadeiro e o que é cópia.

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Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater

Eles estiveram juntos em filmes passados, separaram-se e voltaram a se encontrar. Agora estão casados: vivem aquele ponto em que tudo parece se dissolver.

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Meu Rei, de Maïwenn

Mulher acredita ter encontrado o homem de sua vida. Depois, grávida, ela passa a enfrentar os obstáculos dessa relação a dois, entre idas e vindas e doses de drama.

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