O Discreto Charme da Burguesia

The Square, de Ruben Östlund

A arte é um território do qual nem todos desejam tirar algo visceral. Ou, mais ainda, como propõe Ruben Östlund em The Square, um templo de perfeição em que todos parecem capazes de conviver com as diferenças e pensar o mundo – desde que não se suje o smoking de alguém ou derrube sua taça de champanhe. O resultado, claro, expõe o fracasso e a impotência de uma certa sociedade polida.

Sociedade que frequenta museus, ou que vive de seus lucros. E ainda que a mira de Östlund pareça desmerecer a arte, é bom se precaver: o cineasta atira, sobretudo, na sociedade que a cerca, na hipocrisia que leva alguns artistas – ou, como é o caso aqui, alguns patrocinadores da arte – a criar supostos quadrados de tolerância e aceitação.

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Engano que dá luz a esse filme brilhante, comédia que ri das pessoas e de seus absurdos, mas que se recusa a criar monstros fáceis – como se viu também no filme anterior do mesmo diretor, o poderoso Força Maior. Discursos canalizados pela arte, ou pelos microfones voltados a uma plateia manjada, nem sempre combinam com atos verdadeiros.

É o que move The Square: a história do diretor de um museu prestes a lançar uma nova exposição, baseada no quadrado ao qual deseja levar o público e fazê-lo pensar. Ao mesmo tempo simples e, é verdade, engenhoso: o quadrado – grande, pequeno, imaginário ou não – é o espaço em que se testam as pessoas, a possibilidade de convivência.

O quadrado de Christian (Claes Bang) é seu museu, sua vida a bordo de um belo carro, seus dias em shoppings com as filhas pequenas, com muitas sacolas, suas noites no apartamento frio e escuro que não divide com ninguém. Ainda no início, enquanto caminha pela rua, ele é vítima de uma encenação – a briga entre um casal – e tem a carteira e o celular furtados. O crime muda a rotina do diretor.

Após descobrir onde estão seus pertences, o protagonista decide afrontar os criminosos: escreve uma carta com ameaças e distribui em todos os apartamentos de um prédio, com a intenção de chegar ao quadrado dos delinquentes. Aos poucos, Östlund revela que os indesejados – criminosos, mendigos, o garoto que exige retratação, ou qualquer pessoa que não faça parte daquela redoma de conforto – acabarão entrando no espaço do protagonista.

A exemplo dos ruídos, do inesperado que tende a desequilibrar os discursos, os rituais, o templo de contornos impecáveis e limpeza traduzido pelo museu: o choro do bebê durante a reunião, o celular que insiste em tocar nos momentos errados, o homem com problemas psiquiátricos que fala alto e impede a continuidade de uma apresentação.

Östlund deixa o mal-estar gotejar até seu acúmulo, momento em que explode, situação em que o homem é macaco – ou finge – contra os supostos civilizados em ternos caros, em um jantar. É quando a convivência no quadrado torna-se insuportável: o fim, sabe-se, não é dos melhores, ou não pode ser: os sociáveis convertem-se em animais.

Toca, no campo temático, nas investidas de Buñuel. Em O Anjo Exterminador ou O Discreto Charme da Burguesia, para ficar em dois exemplos, o mestre espanhol demole a classe alta e seus bons modos. Mas Östlund não se limita ao confronto de classes. Está em jogo, mais ainda, a impossibilidade de a arte servir ao encontro entre seres que dela se alimentam e a realidade da qual não escapam.

Não é, ainda assim, sobre o estado da arte. É sobre o estado do mundo. O estado que induz a pensar, inevitável, na falsa polidez, ao passo que o cinema revela extremos: do museu segue-se à rua, ao mendigo que custa a se manter parado enquanto escorrega à calçada, ou ao outro que dorme coberto por plástico, sob a chuva intensa.

O homem, na pele do protagonista ou na de qualquer outro convidado a sobreviver com um símio entre mesas, a agir de maneira inesperada, descobre sua impotência. Até tenta corrigir seus erros, voltar atrás, pedir desculpas ao menino que ofendeu. Seus movimentos são marcados pela calma com que o cineasta conduz a narrativa, com cada peça no lugar certo. Mescla o horror à graça e dá vez a algo insuportável.

(Idem, Ruben Östlund, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Força Maior, de Ruben Östlund

13 filmes que demolem os bons modos da sociedade

Trágicos e, em alguns casos, cômicos, os filmes abaixo descortinam – para emprestar a metáfora visual de Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia – o palco no qual vivem os seres em questão, humanos aparentemente bondosos e educados. Aos poucos, eles revelam-se malvados, desbocados, selvagens e acabam quebrando o decoro que rege o meio. São 13, mas poderiam ser mais. Muito mais.

Amantes, de Louis Malle

Na época o filme causou certo escândalo, fez de sua heroína, Jeanne Moreau, um dos símbolos da libertação sexual da década de 50, ao lado de musas como Brigitte Bardot. Ela, uma mulher rica em um casamento entediante, decide embarcar em aventuras sexuais. Aos poucos, Malle desmonta certa imagem intocada dos ricaços em questão.

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A Presa, de Nagisa Oshima

O cineasta japonês fez uma dezena de filmes cruéis sobre personagens no limite, entre crimes, estupros e suicídios. Neste caso, um trabalho ambientado na época da Segunda Guerra, quando os moradores de um vilarejo tornam um homem negro e estrangeiro refém. Precisam então decidir o que fazer com ele, à medida que a selvageria aflora.

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O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados vão embora antes do início do jantar. Deixam os patrões sozinhos com seus convidados. O que deveria durar pouco se estende: os ricos convidados dessa celebração não conseguem escapar do castelo. Aos poucos se convertem à animalidade antes estranha e precisam apelar às mais diversas situações para sobreviver e talvez escapar.

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A Caça, de Carlos Saura

O que deveria ser um dia de caça como qualquer outro se transforma em um inferno. O ambiente árido é palco para a viagem de quatro amigos, que foram ao local caçar coelhos. Não se dão conta do perigo de portar armas e da possibilidade de dispararem contra o próximo. É sobre o desejo de poder, em plena Espanha de Franco.

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Teorema, de Pier Paolo Pasolini

De olhar enigmático, Terence Stamp é o anjo sedutor que passa a viver entre uma família aparentemente perfeita e, aos poucos, seduz seus membros: o pai, a mãe e os filhos. Interessante notar que talvez essa personagem não seja má nem boa. Oferece apenas a transformação. É um dos trabalhos mais famosos do polêmico diretor.

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O Conformista, de Bernardo Bertolucci

Um fascista sem alma é convocado pelo regime de Mussolini para matar seu antigo professor, que está em Paris na companhia de sua bela (e livre) mulher. Ele não apenas se vê impotente como incapaz de lidar com seus desejos. Obra-prima do diretor italiano, a partir do livro de Moravia, sobre um homem levado pela multidão.

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O Discreto Charme da Burguesia, de Luis Buñuel

Por ter se dedicado a demolir os bons modos da sociedade, sobretudo a burguesa e religiosa, o mestre espanhol merece mais um filme nesta lista. Aqui, mostra como um grupo de pessoas da alta sociedade sempre fracassa ao tentar concretizar uma refeição. Fica entre o cômico e o absurdo, e às vezes até mesmo com toques de horror.

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Filme Demência, de Carlos Reichenbach

O protagonista é Fausto, aqui em versão nacional, em uma viagem externa e interna entre seus sonhos e a metrópole imunda, São Paulo. Empresário falido que perdeu a fábrica de cigarros que era de seu pai, homem sem esperança que procura entre as mulheres algum alívio e é guiado pelo demônio – justamente ele – ao paraíso.

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Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

Dois executivos, em viagem a trabalho, querem machucar alguém. Ambos perderam as namoradas e resolvem maltratar o sexo oposto. Não se trata de uma vingança contra qualquer mulher, mas contra todas. Representantes da classe de engravatados dos anos 90, eles escolhem uma datilógrafa bela e muda para seduzirem e depois descartarem.

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Felicidade, de Todd Solondz

Um grupo composto por diferentes tipos: o pedófilo à frente de uma família supostamente feliz, o rapaz que faz estranhas ligações telefônicas e busca sexo passageiro, a escritora que deseja ser estuprada para entender o crime, a vizinha solitária que se revela assassina. Toda uma sociedade “bela” pouco a pouco demolida.

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Festa de Família, de Thomas Vinterberg

O cineasta já se dedicou outras vezes ao mal-estar na sociedade, como em Submarino e em A Caça, mas nunca de maneira tão mordaz quanto em Festa de Família, ainda seu melhor longa-metragem. O cenário não poderia ser mais conveniente: a festa para celebrar um patriarca, na qual verdades sobre seu passado vêm à tona – e à mesa.

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Beleza Americana, de Sam Mendes

Homem traído pela mulher resolve mudar de vida: larga o emprego para viver como vivia em sua juventude, volta a malhar e compra o carro de seus sonhos – quando era jovem. Mas o custo da “bela vida” logo bate à porta: o vizinho militar e homofóbico e, sobretudo, seu filho, que vende drogas e passa a namorar a filha do protagonista.

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Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

São seis relatos, ou contos, que expõem o ser humano no limite, justamente à beira da selvageria. O avião que é guiado por um louco, a garçonete que decide se vingar de seu cliente, a noiva que descobre – no dia do casamento – a traição do noivo, entre outros. Mais um caso em que os bons modos são demolidos em tom abertamente cômico.

relatos selvagens

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Os dez melhores filmes de todos os tempos segundo Woody Allen

O famoso cineasta americano nunca escondeu seu lado cinéfilo e prestou homenagem a vários autores em diferentes momentos da carreira – às vezes em pequenas citações, às vezes de maneira escancarada. A lista abaixo foi publicada pelo Instituto Britânico de Filmes (veja aqui), na eleição dos Melhores Filmes de Todos os Tempos, em 2012, que ouviu uma penca de críticos e diretores renomados.

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Em bilhete ao jornalista Eric Lax, em 2005, Allen fez uma lista com mais títulos, inclusive separando os americanos e gêneros como musical e comédia. Cineastas como Renoir, Bergman e Kurosawa dominam sua relação. Esse compilado, com comentários do próprio diretor, pode ser visto no livro Conversas com Woody Allen. No caso da lista abaixo, do BFI, Allen não a fez em ranking. O blog traz a relação por ano de lançamento.

A Grande Ilusão, de Jean Renoir

A amizade entre um líder francês e outro alemão durante a Primeira Guerra Mundial. O filme é citado de passagem em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, em uma festa “descolada” em Los Angeles.

a grande ilusão

Cidadão Kane, de Orson Welles

A história do magnata Charles Foster Kane (Welles). O diretor seria lembrado algumas vezes por Allen, incluindo uma reprodução da famosa cena da sala de espelhos, de A Dama de Shangai, levada à comédia Um Misterioso Assassinato em Manhattan.

cidadão kane

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica

Filme neorrealista sobre a odisseia de um homem em busca de sua bicicleta furtada, ao lado do filho e de toda a miséria do pós-guerra, na Itália dos anos 40. Allen também é fã de Vítimas da Tormenta.

ladrões de bicicleta

Rashomon, de Akira Kurosawa

Quatro versões para um mesmo crime são narradas a partir de diferentes pontos de vista. Obra que lançou a carreira de Kurosawa no Ocidente.

rashomon

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Um cavaleiro acaba de voltar das Cruzadas e é convidado a um jogo de xadrez com a Morte. Bergman seria sempre lembrado por Allen, com referências a Morangos Silvestres (a visita ao passado em Noivo Neurótico) e a imagem da Morte em A Última Noite de Bóris Grushenko.

o sétimo selo

Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick

Um coronel honesto (Kirk Douglas) vê-se obrigado a defender três soldados acusados de covardia, pelo alto escalão, durante a Primeira Guerra Mundial. Primeira obra-prima de Kubrick.

glória feita de sangue

Os Incompreendidos, de François Truffaut

Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é repreendido pela família, pelo professor, enfim, pelo mundo adulto que o cerca e escolhe fugir pelas ruas de Paris. Obra inaugural da nouvelle vague.

os incompreendidos

Oito e Meio, de Federico Fellini

Os dilemas de um cineasta (Marcello Mastroianni, fazendo o próprio Fellini) que não consegue terminar seu filme. Essa obra-prima seria homenageada por Allen em Memórias.

oito e meio

O Discreto Charme da Burguesia, de Luis Buñuel

Por diversas vezes, um grupo de burgueses não consegue terminar suas refeições. Mais um trabalho do espanhol com críticas à burguesia, aos militares e à Igreja, com os pés fincados no surrealismo.

o discreto charme da burguesia

Amarcord, de Federico Fellini

O cotidiano de Rimini durante os tempos do fascismo, na Itália, a partir da vida de várias personagens. Pura nostalgia, com Fellini abordando o próprio passado, a juventude e as descobertas sexuais.

amarcord

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Entrevista: Beto Brant

A certa altura de Cão Sem Dono, o protagonista Ciro diz que “todo mundo tem cicatrizes”. Nesse caso, a cicatriz pode ser entendida como uma marca de história, algo que prende as pessoas a locais, que revela suas raízes.

Fazer cinema, para o cineasta Beto Brant, foi uma forma de viajar, de conhecer o mundo, de viver intensamente. Em uma conversa com o Palavras de Cinema, ele contou o que o move, detalhes de seus trabalhos, o que pensa da crítica e, sobretudo, o que está por trás de seu cinema.

beto brant

Ao falar de suas obras, não esquece os colaboradores. Sobretudo o produtor e diretor Renato Ciasca, seu parceiro de décadas, e o escritor Marçal Aquino. Mesmo sem dizer, Brant deixa claro que o cinema é um projeto coletivo, uma relação de olhares, de transformações – um projeto comum, um “testemunho de inquietação”, com o Brasil e suas contradições ao fundo.

Brant é um homem de fala simples, direto, sem rodeios. Pensa antes de falar e, não raro, deixa ver sua paixão por contar histórias e “esculpir o tempo”.

Como nasceu seu interesse por cinema e por que resolveu ser cineasta?

Eu comecei a fazer quanto tinha 18 ou 19 anos, quando um amigo me convidou para fazer super 8. E aí entendi o poder da linguagem do cinema, da sintaxe, e aprendi que aquela história que eu aprendia, aquela história geopolítica, econômica, mercantilista, das guerras, que a gente aprende na escola, era possível estudar através de outros aspectos. Nesse caso, aspectos humanos. A literatura, o teatro e o cinema abrem outra perspectiva para você conhecer a humanidade. E depois o cinema passou a ser para mim um grande pretexto para passear, para conhecer o mundo. Conhecer pessoas. Um pretexto para viver intensamente.

Seu cinema toca em várias situações da história de nosso país. Por exemplo, a Ditadura Militar em Ação Entre Amigos, a exploração do meio ambiente e também do índio em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios. Você considera o seu cinema político e acredita que ele reflete a realidade de nosso país?

Nesse projeto estão envolvidos o Renato Ciasca, que é meu sócio e produtor, e também o Marçal Aquino, que é escritor e autor de roteiros. Existe sim um compromisso de testemunho, de testemunhar nossa inquietação. Claro que os filmes não são panfletários, não se justificam apenas por suas mensagens subversivas. Mas é sim uma consciência política de intervir. O Marçal Aquino, por sua origem jornalística, tem textos impregnados por essa questão política. A gente tem nos primeiros filmes uma trilogia, Os Matadores (foto abaixo), Ação Entre Amigos e O Invasor. Você tem a questão da violência do campo, a “pistolagem”, a fronteira. Já tem questões dos Sem Terra lá em 1995. A violência política em Ação Entre Amigos nos anos de chumbo e também sua resistência armada. O filme é contemporâneo e reflete essa geração nos dias de hoje. E em O Invasor, a tensão, que é muito forte, entre o Centro e a periferia em São Paulo. Todos os filmes procuram discutir esses temas. Todos têm finais abertos para promover a inquietação em quem assiste.

os matadores1

O cinema pode mudar a forma como vemos a sociedade?

Minha geração crê nisso. Veja por exemplo um cara como o Cláudio Assis, meu amigo desde os anos 90. Ele era um cineclubista, um cara que viajava com um projetor 16 mm pelo interior de Pernambuco passando filmes para promover a discussão. A tradição desse cinema cineclubista oferecia ao público uma dramaturgia fora do tradicional, que contrasta com essa hegemônica, a dos conglomerados de comunicação. A editoria dos programas dessas redes de comunicação tem uma direção muito clara. E o cinema, como tem produção descentralizada, há uma pluralidade de discursos, o que só ajuda o espectador a formar sua opinião sobre esses diversos assuntos.

Ainda sobre as questões sociais, gostaria de falar sobre seu primeiro filme, Os Matadores. Já faz quase 20 anos de seu lançamento. O Brasil hoje mudou muito, em comparação ao Brasil que você encontrou naquela época? O filme segue atual?

Completamente atual. Agora mesmo, quando filmei Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, no Pará e no norte em geral, essa questão da “pistolagem” ainda é muito forte. A gente soube [de histórias semelhantes às dos filmes], em todos os filmes que fizemos. Quando lançamos Ação Entre Amigos, na mesma época, um general aposentado veio a público contar, por um problema de consciência dele, e testemunhou seus crimes políticos. E quando estávamos filmando O Invasor (foto abaixo), surgiu um crime semelhante no Ceará [envolvendo dois homens que eliminaram um sócio]. Essa é uma “antena” muito forte do Marçal, que é um jornalista de formação, com uma visão muito analítica do momento em que vivemos. Quando fomos realizar Eu Receberia e fomos ao Pará, o tema era a nova corrida ao garimpo, e o fato é que, quando chego lá, havia uma luta pelo direito da terra, das comunidades ribeirinhas com as madeireiras. Havia um cabo de guerra, um movimento de 70 comunidades contra o tráfico ilegal [de madeira] e lutando pela fiscalização, pelo direito de terra. Achei aquilo mais forte, mais atual para colocarmos no filme, mais urgente e vivo. Mantemos a estrutura do livro, o que é seu cerne, da discussão humana, de seus personagens principais, e contextualizamos nisso que é contemporâneo. Hoje mesmo eu vi no jornal que prenderam um bando de grileiros, uma gangue forte que estava em uma região próxima do lugar em que a gente filmou.

o invasor

O que te atrai tanto nas histórias do Marçal?

Não só o fato de ele ser um cara ligado no mundo, presente e inquieto, mas pelo talento narrativo que ele demonstra, da sintaxe e da construção da história, a forma como ele constrói o olhar. E a gente já tem um pacto de muitos anos, de amizade…

E com o Renato [Ciasca] também…

Com o Renato também. E a gente não filma exatamente o livro, mas fazemos uma leitura. Esse jogo está muito implícito. O Marçal nunca ficou magoado quando um personagem sumiu ou porque foi contextualizado em outro lugar. Ele [Marçal] gosta do diálogo, de ver a reinvenção do que escreveu. Quando ele tem um livro novo, eu quero ler. Vou na casa dele tomar um café. Ele escreve um livro tendo eu como sua primeira opção [para fazer a adaptação ao cinema].

Sobre o Eu Receberia (foto abaixo), há uma cena que me inquieta e gostaria de saber sua interpretação. Trata-se da primeira imagem do filme, que é aquela moça nua [Lívea Amazonas], parcialmente coberta de areia. Uma cena selvagem e ao mesmo tempo erótica. O que significa essa cena?

Dentro do filme, para mim é muito claro: é um fotógrafo que fotografa mulheres [o personagem central] e é como se ele estivesse fotografando aquela menina. E na cena seguinte, inclusive, ele está chegando naquela cidade com a máquina. Aquele é o ponto de vista dele. Ele está em um local de conflito e aquela é uma mulher de traços indígenas, com uma força da natureza. Para mim, é uma entidade. A menina simboliza aquele lugar, a beleza do lugar.

O Cauby me parece um personagem misterioso. A gente sabe um pouco sobre a personagem da Camila Pitanga e do personagem de Zécarlos Machado. Mas o Cauby, ao mesmo tempo em que parece ser o protagonista, é misterioso, o homem que anda pelo mundo. Você se identifica com esse personagem?

Sim. O Cauby do Marçal, do livro, é um pouco mais intelectual, e o que dá a densidade do livro é que ele já viveu a história e a relata. É o relato de um passado. Ele já tem a dor. O Cauby no filme é puro, porque ele vê a história acontecer, vai pelo presente, e então tem a imaturidade. Isso é muito diferente do ponto de vista narrativo do livro. Outra questão é que o Cauby do Marçal é mais intelectualizado, ele tem uma ilusão maior. O animal de estimação dele no livro é um tatu. No nosso, é um camaleão. Já que a minha linguagem é a imagem, eu vou fazer o Cauby mais ligado à imagem, à psicodelia, um camaleão que vive na árvore e está livre. O Renato e eu propusemos um Cauby diferente.

eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Tem algum cineasta, vivo ou morto, com uma linguagem que te atrai?

Eu não sou de… “pagar pau” para nomes e figurões (risos). Enquanto estou criando, a minha inspiração é a própria imagem, o meu embate com a realidade. Minha inspiração é com o objeto que eu vou filmar. No entanto, às vezes, quando estou fazendo um roteiro, me preparando, assisto um filme e isso me inspira de alguma maneira. No caso de Crime Delicado, eu tinha visto O Discreto Charme da Burguesia, do Buñuel. Aquilo de alguma maneira me impulsionou àquele caminho que o filme tomou. Para meu primeiro curta, Aurora, eu estava vendo Kusturica, Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e assim o clima de filmar ficou diferente. Como gosto de viajar, procuro ver filmes que me levem também para outro lugar, que tenham uma inquietação. Ver um filme turco, espanhol, colombiano, é também um jeito de eu tomar contato com outros locais. [Para fazer] cinema é fundamental você ter curiosidade pelo outro. Se você não tem, você nem faz e nem assiste.

Você lê as críticas sobre seus filmes ou elas não importam?

Gosto de ler. Quando lanço um filme, não vejo a hora de ler o que o Zanin [Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo] escreve. É um cara que me interessa. É um diálogo, né? Para você saber como o tempo que você “esculpiu” (risos) – olha eu aqui citando o Tarkovski – “bateu” no outro. É também o caso de um ensaísta como o Ismail Xavier [teórico e professor de cinema] ou a Lúcia Nagib [professora de cinema], que escreveu um livro com um capítulo dedicado a O Invasor. Acho fantástico como um ensaísta, um pensador, consegue desembaralhar as cartas e tocar em semânticas, com uma conexão, uma costura, com um significado que é uma novidade para mim e que é legal de descobrir. A gente faz [a criação cinematográfica] de uma maneira muitas vezes intuitiva, e o sujeito treinado a raciocinar vai lá e busca uma ideia que te surpreende. Eu gosto sim de ler. O que não gosto é de ler a crítica do cara que não entrou no filme e vai pela negação, por aquilo que o filme não tem segundo a concepção dele. Isso não dialoga comigo.

A imprensa, em geral, tem sido generosa com seus filmes?

Sempre tenho tido uma recepção favorável. Sou de um tempo em que a comunicação era feita por jornais diários, que era a grande repercussão que tinha o filme. Hoje tem muita gente escrevendo em blog. Outro dia, entrei em um blog e tinha um texto muito legal sobre o Eu Receberia. Sem querer encontrei esse texto e achei tão legal que enviei para o Marçal. Eu tinha achado uma agulha em uma caixa de costura (risos). É legal quando o cara faz uma análise “de dentro” do filme. E para nós é um diálogo bom. Já faz quase dez anos que não leio jornal. Parei na época do Mensalão. Estava perdendo muito tempo lendo jornal e disse para mim mesmo que deveria fazer coisas mais legais para minha vida. Claro que leio matérias jornalísticas, mas pela internet, e escuto rádio. Não estou alienado. Mas receber o jornal, pegar o papel, é uma prática que não tenho mais. Eu adoro pegar o jornal na mão, mas me alforriei, não quero mais. Estou liberto da imprensa diária. Acho fabuloso isso, de estar todo mundo escrevendo. A geração do meu filho está escrevendo, está engajada, e é uma geração que já cresceu sem o jornal diário.

Foto do topo: Beto Brant nos bastidores de Crime Delicado (crédito: Priscila Prade).

30 anos sem Luis Buñuel

Leia aqui um texto sobre a carreira do diretor. Abaixo, seus dez melhores filmes segundo este blogueiro.

10) Simon do Deserto (1965)

simon do deserto

9) Ensaio de um Crime (1955)

ensaio de um crime

8) Viridiana (1961)

viridiana

7) Esse Obscuro Objeto de Desejo (1977)

esse obscuro objeto de desejo

6) O Alucinado (1953)

alucinado

5) A Bela da Tarde (1967)

bela da tarde

4) O Discreto Charme da Burguesia (1972)

o discreto charme da burguesia

3) Os Esquecidos (1950)

os esquecidos

2) Um Cão Andaluz (1928)

um cão andaluz

1) O Anjo Exterminador (1962)

o anjo exterminador