nouvelle vague japonesa

Os primeiros filmes de Nagisa Oshima

A cena final de Uma Cidade de Amor e Esperança, primeiro filme de Nagisa Oshima, anuncia o que viria mais tarde. Nela, uma menina joga um pombo para o alto, para que seu irmão dispare contra ele. O pombo, aqui, é a representação de outro menino, pobre e de mãe doente, que termina vítima do trabalho, em local degradante.

Para Oshima, a cidade e a modernização são opressivas. Suas personagens, em seus primeiros filmes, são vítimas dessa sociedade desorganizada. O mesmo seria observado em Juventude Desenfreada e Túmulo do Sol – o segundo e o terceiro trabalho.

uma cidade de amor e esperança1

Com Uma Cidade de Amor e Esperança, formam uma bela trilogia (mesmo informal) sobre a chamada “nouvelle vague japonesa”. Tal como no movimento francês e as mudanças ocorridas em outros diversos países, novos cineastas trouxeram novas abordagens e possibilidades ao cinema japonês. Oshima era um deles.

Se sua primeira obra ainda parece ter personagens bondosas, as outras duas jogam fora as esperanças do público. E jogam sem remorso. Oshima, por sinal, parece ter pouca ou nenhuma esperança nesse novo homem tragado pela modernidade desenfreada. Suas imagens fazem do universo de Kim Ki-Duk e seu recente Pietà algo até feliz. E, se há alguma concessão, elas ficam em Uma Cidade de Amor e Esperança.

É a história de um menino que, certo dia, vende um pombo para conseguir dinheiro. Sua mãe é tuberculosa e sua irmã tem deficiência. Contudo, o pombo vendido aos garotos ricos sempre retorna a seu ninho, o que possibilita ao menino vendê-lo novamente. Nessa volta há uma bela síntese do sistema, do dinheiro que sai e retorna, da sobrevivência a qualquer custo, como também da esperança simbolizada pelo pombo. Como mais tarde se verá, ela dura pouco. O pombo será exterminado.

O segundo filme de Oshima é ainda mais interessante, com adolescentes pelas ruas mal iluminadas, em busca de aventuras e caronas. A menina ao centro envolve-se com um bandidinho barato. Eles bolam um golpe: ela seduz homens que lhe dão carona e ele surge em seguida, para espancar esses homens. Logo, a menina sai de casa, passa a viver com o rapaz. Logo, esse amor vira loucura e o filme encaminha-se a uma tragédia.

juventude desenfreada

Em um belo momento, Oshima mostra o casal sobre troncos de madeira, em um universo cercado pela morte, dos mais feitos vistos no cinema. Cenário semelhante será observado no terceiro filme do diretor, Túmulo do Sol, também focado em uma juventude levada pela criminalidade, com assassinatos, suicídios e brigas de gangue.

O título anuncia a morte de um país – o Japão – e tem ligado a ele a imagem do sol que se põe, no horizonte, como marca do fim. Começa com a triste imagem de trabalhadores assediados por uma organização que compra sangue. O material extraído do corpo das pessoas, explica uma personagem, servirá à indústria de cosméticos.

O Túmulo do Sol tem inúmeras personagens. Oshima, com maestria, compõe um painel a partir dessas vidas, sem revelar quem é a personagem central. Ainda mais, quem merece confiança e se alguém a merece. Ao fundo, sempre, está a imagem da cidade, com seus barracos, prédios, com seus córregos poluídos onde cadáveres são despejados. Os primeiros filmes do mestre são assim: amostras de uma nação mergulhada no caos, sem traços de humanidade observada, antes, nos filmes de outros mestres japoneses como Ozu e Kurosawa. Para Oshima, a humanidade acabou.