nouvelle vague francesa

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut

Há sempre a impressão de incompletude ao longo de Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Pedaços pelo caminho, como na cena em que o trio – Jules, Jim e Catherine – caminha pela mata, observando objetos perdidos entre o verde.

Tudo um pouco difuso, com idas e vindas, pessoas que não aceitam definição fácil. Tentam construir algo, mas isso não se concretiza. Buscam o amor, é certo, e este não chega porque talvez desejem amar demais. À frente, Jim (Henri Serre) diz a Catherine (Jeanne Moreau) que eles fracassaram ao tentar encontrar o amor verdadeiro.

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Diz muito, ainda que o essencial: eles teriam fracassado na busca pelo equilíbrio. Triste e verdadeiro, da comédia ao drama, ou à compreensão da derrota. A frase soa poderosa como outra, de Sem Destino, dita por Dennis Hopper, ao afirmar ao amigo que eles jogaram tudo fora. Em Jules e Jim, a busca pelo amor; em Sem Destino, a busca por outro país possível e tolerante. Nos dois casos, a derrota de uma geração.

Em posse do livro de Henri-Pierre Roché, Truffaut leva o público às aventuras de seu trio, às tentativas do amor livre e intenso. Vivem entre guerras: passam por uma, ainda na primeira parte da obra, e chegam às portas da Segunda Guerra Mundial, depois.

Lamentam os rumos da Europa: a essa altura, os alemães já queimam livros em praça pública, com uma enorme fogueira sob o foco da câmera, no cinejornal assistido por Jules, Jim e Catherine. Eles correm à margem da História. Suas histórias, no espaço íntimo, feita de inúmeras idas e vindas, de rompimentos, é o que interessa a Truffaut.

Jules, interpretado por Oskar Werner, é alemão. Jim, um francês. Estão de lados opostos quando estoura a guerra, e se preocupam com a possibilidade de machucar o outro no conflito. Voltam a se encontrar, depois, quando Jules está casado com Catherine.

De difícil compreensão, ela é o ponto central. Irrompe entre os rapazes não para separá-los. É livre, quer amar mais de um homem. Ama os dois. Sua luta, como Jim afirma no mesmo diálogo revelador, no fim, é para inventar o amor. O que o trio vive é um ensaio, uma possibilidade. Jules e Jim é o mais apaixonado dos filmes de Truffaut.

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A bela entre eles, ou com eles, surge aos poucos. Antes de encontrá-la, a dupla descobre estátuas femininas entre a mata. Contemplam a arte – fixa, bela, porém morta. Catherine brinca com os rapazes. Pela rua, na primeira saída a três, resolve confrontá-los: veste-se de homem, intitula-se Thomas, e os convida para uma corrida.

O amor livre proposto por Truffaut vem embalado pela fotografia de Raoul Coutard, com a câmera de um lado para outro, a girar, a seguir a “locomotiva” Thérèse (Marie Dubois), a namorada de Jim que percorre a sala com seu cigarro, soltando fumaça.

O filme é veloz, não para nunca. E, ao mesmo tempo realista, a mise-en-scène de Truffaut permite o irreal, por exemplo, no momento em que o rosto de Catherine é paralisado por instantes para mais tarde ganhar movimento. O diretor brinca com as possibilidades da linguagem cinematográfica em uma aventura de amor, em um universo de exageros, de palavras perdidas, nunca sem sentido.

Como Catherine, Jeanne Moreau tem o papel de sua vida. Não é a “locomotiva” abobalhada, faladora, jovem, tampouco a menina de cabeça oca feita apenas para o sexo e apresentada, a certa altura, para Jim. É, como se define aqui, uma visão, mulher fora de seu tempo. Pode amar dois ou mais homens enquanto tenta inventar o amor.

(Jules et Jim, François Truffaut, 1962)

Nota: ★★★★☆

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Um Só Pecado, de François Truffaut

Escritor e intelectual, homem influente, Pierre Lachenay (Jean Desailly) é prisioneiro da própria máscara, a do homem correto, polido, bom pai de família. Sua vida muda em uma viagem para Lisboa, quando conhece uma bela aeromoça, Nicole.

Durante Um Só Pecado, o diretor François Truffaut investe nessa vida à base de interpretações: cada pequeno detalhe faz sentido, da mecanização do mundo ao seu oposto, aos gestos inesperados – alguns deles levados apenas ao espectador.

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Estranho mundo romântico recoberto pelo suspense: a cada nova entrada ou saída de Pierre, a cada nova escapada e mentira (mas recobertas de sentimentos), o espectador parece ser levado ao suspense, pois talvez sobre culpa nesse grande filme.

É no centro que está a influência de Hitchcock, no plano-detalhe das mãos que se tocam, ainda nos créditos, no detalhe das mesmas mãos que apagam e acendem as luzes, no olhar de Pierre, ao fim, à menina que fala no interior da cabine telefônica – quando o tempo da beleza é também o tempo do suspense, quando o banal faz toda a diferença.

Em linhas gerais, Pierre é vítima de seu próprio disfarce. Provável que ele mesmo não reconheça isso. Sua vida tem um choque quando redescobre o amor – e, em carta, confessa-o para depois jogá-la fora, porque talvez não possa ir além das intenções.

E quando consome, quando assume seu amor pela amante, é ela quem deixa espaço para isso: ele, no fundo, é um impotente, alguém sem condições de deixar a velha vida e assumir a nova, ou apenas alguém impossibilitado de se dobrar ao puro desejo.

Precisa da força de sua mulher – a verdadeira força do filme, interpretada por Nelly Benedetti – para deixar sua casa. Para ele, a saída talvez seja demais, e quando pode, a certa altura, ainda retorna para tirar vantagem: volta a fazer sexo com a esposa, tragado pela atração da antiga vida, ou pela dificuldade de renunciar a ela.

A fraqueza persegue-o: faz com que corra, durante um encontro, para servir ao papel do grande escritor, apresentador, a falar da obra de André Gide antes da apresentação de um filme, e depois retorne para o pequeno hotel onde está a amante.

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Se sua vida é dupla, a vida da mulher, Franca (Benedetti), é uma só – ainda que pareça viver mais de um papel. Nesse ponto, Truffaut deixa ver a essência da obra: aquele que parece natural é quem interpreta, e quem parece viver mais de um papel – o da mulher amável e depois o da explosiva e assassina – é quem renuncia à interpretação.

O escritor está às sombras: precisa apagar as luzes para consumar o pecado. Na sequência do cinema, vai para trás da tela e, insignificante, é visto à sombra de Gide, sobre quem falava e que se agiganta na tela voltada para os espectadores.

Nesse filme de amor recoberto por suspense, ainda resta a beleza da amante (Françoise Dorléac), de quem pouco se sabe. Quando o pai dela surge para uma visita, o protagonista ainda aguarda, na escada, para ouvir a filha cumprimentar o velho homem. Precisa ter certeza da normalidade que não encontra na moça.

Dessa necessidade de apresentar o menor, o detalhe, e que faz pensar novamente no momento em que o homem observa a moça na cabine telefônica, vem a grandeza da obra de Truffaut, muito além da história de traição.

É, no fundo, sobre a necessidade de interpretar, recheado de pequenas coisas banais e importantes ao suspense, com uma bela, jovem e talvez enganadora amante, a quem o amor talvez seja algo ainda inalcançável.

(La peau douce, François Truffaut, 1964)

Nota: ★★★★☆

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15 grandes rostos da nouvelle vague francesa

Além de cineastas e outros profissionais da sétima arte, a nouvelle vague trouxe uma galeria de grandes faces. Esses atores e atrizes também fizeram carreira em filmes fora do movimento, antes e depois dele. Alguns morreram prematuramente, outros continuam na ativa.

Estudiosos divergem sobre o início e o fim da nouvelle vague. Segundo a versão mais aceita, começaria em 1958 ou 1959, com Nas Garras do Vício ou Os Incompreendidos, e seguiria até os embates de Maio de 1968. Abaixo, ícones dividem espaço com atores menos lembrados, em lista para resgatar um momento único da História do Cinema.

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Anna Karina

A bela de Godard, mas também de Rivette e outros. Em Viver a Vida, fez história com lágrimas que remetem a Dreyer e sua Joana D’Arc. Também trabalhou sob a direção do mestre Valerio Zurlini no belo Mulheres no Front, de 1965.

viver a vida

Bernadette Lafont

Seu primeiro filme, o curta Os Pivetes, foi dirigido por François Truffaut, com quem voltaria a trabalhar em Uma Jovem Tão Bela como Eu. No primeiro, é a beleza distante, aos olhos dos meninos atrevidos. Mais tarde esteve no extraordinário A Mãe e a Puta.

os pivetes

Brigitte Bardot

Antes de Godard e O Desprezo, Bardot marcou época como a menina livre de E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim. Estavam escancaradas ali as portas do paraíso: Saint-Tropez, onde a mesma se banharia em ambas as obras, e onde seria seguida por diferentes homens.

o desprezo

Claude Jade

A primeira aparição da jovem atriz em Beijos Proibidos, de Truffaut, é talvez o ponto alto do filme. Ela aproxima-se do vidro e, do lado de fora, acena para Antoine Doinel. É o par perfeito para o jovem em dúvida, com quem voltaria a se encontrar nos filmes seguintes.

beijos proibidos

Corinne Marchand

Bastou apenas uma personagem para que Corinne ficasse marcada como uma das musas da nouvelle vague: a protagonista de Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda, sobre os momentos de tensão que antecedem a retirada de um importante exame médico.

cleo das 5 as 7

Delphine Seyrig

O rosto misterioso de O Ano Passado em Marienbad. Mais: o rosto difícil de esquecer, o da mulher que vive com o enteado e recebe a visita de um velho amor em Muriel, outro de Alain Resnais. E como deixar de lado, entre outros, o incrível Jeanne Dielman?

o ano passado em marienbad

Françoise Dorléac

Outra atriz bela de poucos papéis, lembrada, sobretudo, por sua personagem em Um Só Pecado, de Truffaut, e que morreu cedo, em um acidente de carro, em Nice, em 1967. Pode ser vista também em Armadilha do Destino e Duas Garotas Românticas.

um só pecado

Jean Seberg

Apesar de ter trabalhado em grandes produções, a americana Seberg seria lembrada por sua personagem em Acossado, Patricia Franchini, que pelas ruas de Paris vende o New York Herald Tribune. A atriz contracenou antes com David Niven em Bom Dia, Tristeza.

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Jean-Louis Trintignant

Trabalhou ao lado de diversos cineastas, entre eles Vadim (E Deus Criou a Mulher), Claude Lelouch (Um Homem, Uma Mulher) e Eric Rohmer (Minha Noite com Ela). Fora do tempo da nouvelle vague, ainda contribuiria com outros mestres, como Kieslowski.

minha noite com ela

Jean-Pierre Léaud

Eternizado como Antoine Doinel nos cinco filmes que Truffaut dedicou à personagem. E não só: também esteve em filmes de Godard, como no divertido Masculino-Feminino e, pouco depois, no maoísta A Chinesa, de 1967. Esteve no recente e encantador O Porto.

os incompreendidos

Jean-Paul Belmondo

Podia ser um pequeno criminoso em Acossado e, no ano seguinte, 1961, o padre de Léon Morin, de Jean-Pierre Melville. Ator versátil, de expressão inesquecível, e de filmes nem sempre lembrados como Duas Almas em Suplício, de Peter Brook.

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Jean-Claude Brialy

Viveu o protagonista de Nas Garras do Vício, um dos filmes que lançaram a nouvelle vague. Voltaria em outro de Chabrol, logo depois, Os Primos, e em diversas produções marcantes como Uma Mulher é Uma Mulher e, mais tarde, O Joelho de Claire.

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Jeanne Moreau

Provavelmente o rosto feminino mais importante da época, a Catherine de Jules e Jim, papel que a imortalizaria. Viveu outras personagens intensas em grandes filmes como Eva, A Baía dos Anjos, A Noite e, pouco antes, em Amantes e Ascensor para o Cadafalso.

Jeanne Moreau

Maurice Ronet

Esteve no mesmo Ascensor para o Cadafalso ao lado de Moreau e, de novo com o diretor Louis Malle, interpretou a personagem principal em Trinta Anos Esta Noite. Com Alain Delon, dividiu a cena em outros bons filmes: O Sol por Testemunha e A Piscina.

Trinta Anos Esta Noite

Stéphane Audran

O olhar enigmático é sua marca registrada. Pode ser visto nos filmes de Claude Chabrol, com quem foi casada até 1980. E com ele fez grandes filmes, incluindo um pequeno papel em Os Primos, Entre Amigas e, mais tarde, A Mulher Infiel e O Açougueiro.

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