Nós que Nos Amávamos Tanto

Ettore Scola (1931–2016)

A comédia pode ter traços grotescos, fazer rir do horrível. E o drama profundo deixa espaço para momentos de graça. O cinema de Ettore Scola é um pouco assim: lida com o inverso, pois não quer ser real em excesso – apesar de político, de social.

O fascismo está ali, contido, inseparável, como se vê em Um Dia Muito Especial. E a graça ocupa parte considerável do dia de um homem e uma mulher que acabam de se encontrar, um professor homossexual e uma dona de casa desanimada.

ettore scola

História bela que ultrapassa a política: é sobre o amor impossível entre seres desesperados, cada um deles com seus problemas para resolver, ou para esquecer.

Scola promove o encontro entre o universal e o particular. Como outros contemporâneos, move-se entre a comédia e a tragédia, no cinema político italiano dos anos 60, que também trouxe nomes importantes como Marco Bellocchio e Elio Petri.

No entanto, Scola mostrava características de cineastas da safra anterior. Ao maior deles, Federico Fellini, ele dedica seu último filme, Que Estranho Chamar-se Federico, homenagem de gigante para gigante, entre a ficção (a farsa) e o documentário (o real).

feios, sujos e malvados

Há na tela o encontro com o Federico jovem, do jornal humorístico Marco Aurelio, no qual o próprio Scola trabalharia mais tarde. Tal como algumas personagens de seu mestre, no cinema de Scola os seres têm leveza e malícia. Um filme como Nós que Nos Amávamos Tanto deve muito, inegavelmente, a Fellini – e o próprio aparece na tela.

Com Feios, Sujos e Malvados (foto acima), tem-se o grotesco para rir. A comédia que incomoda, sem deixar escapar o real pelas bordas: estão por ali a favela, os explorados, os malandros que desejam alguma vantagem, o glutão e repulsivo Nino Manfredi.

Outros atores serviram bem a Scola, como Alberto Sordi e, claro, Vittorio Gassman. Tipos perfeitos para o cineasta e sua comédia particular, suas reuniões de tanta gente, em família, com traços tipicamente italianos. Gente próxima e verdadeira.

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Que Estranho Chamar-Se Federico, de Ettore Scola

Que Estranho Chamar-se Federico, de Ettore Scola

Os diretores Federico Fellini e Ettore Scola chegaram ao cinema e ao jornalismo em tempos diferentes. Quando o segundo começou a dirigir, o primeiro já havia realizado algumas obras-primas. Quando o segundo conseguiu emprego no jornal humorístico Marco Aurelio, Fellini já havia se estabelecido por lá.

Essa proximidade não parece fruto do acaso em Que Estranho Chamar-se Federico e talvez não passe de um belo ajuste, como se Scola recorresse ao cinema – sua forma de expressão, sua arte – para mostrar a proximidade a Fellini.

que estranho chamar-se

Scola dirige e traz os sonhos de Fellini à tona: as mulheres gordas, os palhaços, os mágicos, a dançarina negra, o homem das bolhas de sabão, a prostituta. O diretor já havia esbarrado no outro, em tela, em Nós que Nos Amávamos Tanto, quando Fellini interpreta a si próprio, ao lado de Mastroianni, no set de A Doce Vida.

Em Que Estranho Chamar-se Federico, partes da vida de Fellini – seja ficção, seja documentário – tornam-se saídas para mostrar a necessidade do sonho, de qualquer coisa que permita escapar da realidade. E quando um homem de Mussolini aparece na redação de Marco Aurelio, todos levantam as mãos, como idiotas.

Não poderia ser mais engraçado. Para Fellini ou para Scola – e talvez mais para o primeiro –, a vida não deve ser levada tão a sério. Mais vale sonhar. Para Scola, após décadas de trabalho, chega a hora de revisitar Fellini: o artista inspirador e a maneira de viver pelas recorrentes janelas da arte. Estão ali os cenários grandes e falsos, as transições do preto e do branco às cores, o carro com prostitutas e pintores.

Nota: ★★★☆☆