Naomi Kawase

Sabor da Vida, de Naomi Kawase

Por alguns momentos, Naomi Kawase persegue o movimento dos cozinheiros, suas mãos, seus gestos. A senhora revela paixão a cada investida, o rapaz faz daquilo apenas mais um dia de trabalho. A câmera aproxima-se desses corpos, dessas pessoas que trocam de lado, que remexem o feijão ao fogo e, logo cedo, preparam o doce para vender.

A sensibilidade e o cuidado dão a ideia de que há mais que trabalho, mais que objetos e alimentos por ali. A senhora Tokue (Kirin Kiki) defende a conversa com o alimento, como se tivesse vida, ou como se sempre se estabelecesse uma relação de proximidade. É do diálogo, ou de sua falta, que fala Sabor da Vida. Em cena, gerações encontram-se.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A senhora em busca de emprego bate à porta. Surge à janela do rapaz, o cozinheiro Sentarô (Masatoshi Nagase). Apesar da necessidade de um ajudante, ele não acredita que ela – por causa da idade, da aparente fraqueza física – dê conta do trabalho. Para provar talento, a candidata deixa por ali um pote com sua pasta de feijão.

A surpresa é imediata quando Sentarô resolve prová-la. Ele próprio nunca comeu uma pasta tão boa. Resolve então contratar a mulher. E a senhora – de quem pouco se sabe – passa a surgir por ali, ainda antes do sol nascer, para “conversar” com os feijões que, como lembra, e como Kawase sustenta em imagens, possuem uma história.

No fundo, Sabor da Vida sustenta a conexão entre as pessoas e a natureza, o que já estava em outros filmes de Kawase. Pessoas que se perdem pela mata, pelo oceano, gente que se descobre nesse contato. E se a natureza soa falha em alguns momentos – os leprosos em cena, a começar por Tokue, apontam à questão -, a mesma senhora simpática – apesar de tudo – resolve driblar os obstáculos: é com o feijão que resolve dialogar.

Seres presos, também: o rapaz, que saiu da prisão e vive sozinho, em conflito com si próprio ao não conseguir dialogar, depois tomado por sentimentos; a menina, que foge de casa após a mãe não permitir que fique com seu pássaro de estimação; e, claro, a própria Tokue, isolada com outras pessoas que combatem ou combateram a hanseníase.

O pássaro preso é sua representação. E chega a ela, também não por acaso, a missão de libertá-lo enquanto se põe a falar as palavras finais, enquanto Kawase mira ao alto – às árvores, à lua, às cerejeiras, à natureza que pede para ser contemplada.

Quem conhece os filmes de Kawase pode estranhar o drama feito de lágrimas em Sabor da Vida. É verdade que a diretora chega perto do exagero, no seu limite, mas nunca o invade. A própria natureza desse drama ajuda a contar a história sem que se renda à apelação: é uma obra que clama pela necessidade de se ouvir a história dos outros, não pela necessidade de se falar ou gritar, de se deixar explodir para se valer de uma mensagem.

Contra essa opção por ouvir, a maioria prefere observar. Enxergam nas mãos de Tokue um problema, os sinais da lepra, ou do passado que talvez seja melhor ignorar: aquelas mãos aparentemente queimadas contam uma história de exclusão, de sofrimento, o que faz pensar nas guerras nas quais o Japão envolveu-se e nos problemas que isso trouxe ao seu povo.

Se há aqui um momento para falar mais alto, este é reservado ao plano final, feito em contra-plongée, com Sentarô em novo emprego, feliz, inspirado pela senhora que cruzou seu caminho. Grita para os outros no gesto mais forte. Ao que parece, fez as pazes com seu passado e drama. Ao fundo, cerejeiras em flor fazem-lhe companhia.

(An, Naomi Kawase, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
15 filmes para refletir sobre a morte (e sobre a vida)

Os 20 melhores filmes de 2015

Em um ano com tanto a esquecer, o cinema merece ser lembrado. São grandes não apenas os filmes da lista abaixo, mas também os ausentes. Muita coisa boa ficou de fora, obras marcantes como La Sapienza, Mia Madre, Mapas para as Estrelas, Casadentro e o recente e divertido Star Wars: O Despertar da Força. Que venha 2016!

20) Phoenix, de Christian Petzold

Sobrevivente do Holocausto muda de face e aceita interpretar um papel para se aproximar do marido traidor. Outra bela parceria entre Petzold e a atriz Nina Hoss.

phoenix

19) Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Após o extraordinário Era Uma Vez na Anatólia, Ceylan entrega mais um grande filme, com longos diálogos, drama que envolve família, cobiça e delinquência juvenil.

winter sleep

18) Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller

Espetáculo embalado a muita gasolina e tipos estranhos: o herói que passa boa parte do filme preso, a heroína de braço mecânico e os rapazes brancos e suicidas, entre outros.

mad max

17) Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard

O senhor Godard mais uma vez leva ao radicalismo e segue fiel à experimentação: ao dar adeus à linguagem cinematográfica convencional, não deixa ninguém indiferente.

adeus à linguagem3

16) Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

Filme urgente em tempos de extremismo, passado em uma pequena cidade aterrorizada por tipos armados, cujo sentido da imagem inicial retorna ao fim: a caça ao inocente.

timbuktu1

15) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

O jogo teatral é utilizado para questionar o cinema, a fragilidade do sucesso, a busca – tão atual em tempos de internet – pelo segundo seguinte, sob a ótica do estranho protagonista.

birdman 3

14) Casa Grande, de Fellipe Barbosa

A exemplo de Que Horas Ela Volta?, mas não com a mesma exposição, mostra a relação entre patrões e criados, entre o pai que perde dinheiro e o filho transformado.

casa grande1

13) De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

O garoto, vivido por Rod Paradot, não é fácil de engolir: revoltado com frequência, confrontador, que descobre a vida adulta aos trancos, com muitas quedas.

de cabeça erguida

12) O Julgamento de Viviane Amsalem, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

A peregrinação de Viviane, que tenta o divórcio por anos e termina julgada pelos homens que a cercam, incluindo juízes retrógrados e o marido inflexível.

o julgamento de viviane amsalem1

11) A Gangue, de Miroslav Slaboshpitsky

Os jovens deficientes auditivos formam uma gangue implacável: assaltam, torturam, aliciam meninas e tentam conviver entre si, em uma instituição de paredes frias.

a gangue

10) Força Maior, de Ruben Östlund

A imagem da bela família desmorona. Os problemas começam com a fuga do pai, que não fica para ajudar a mulher e os filhos na ocasião de uma avalanche.

força maior

9) Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

Retrato do próprio Brasil, cheio de exageros, no qual o protagonista, Assis Chateaubriand, diverte-se ao mesmo tempo em que acumula poder e muda a história.

chatô

8) O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

É difícil descrever o filme de Dumont, sua primeira comédia. Inclui meninos à beira mar, um cadáver escondido no interior de uma vaca e policiais desastrados.

o pequeno quinquin

7) Dívida de Honra, de Tommy Lee Jones

Faroeste classe A que revisa o gênero, sobre uma diligência formada por uma solteirona, um beberrão e três mulheres enlouquecidas. Obra de mestre.

dívida de honra

6) Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

A odisseia de uma mulher em busca de seu emprego, em contato com outros funcionários do trabalho, em um retrato do capitalismo no mundo atual.

dois dias uma noite1

5) O Segredo das Águas, de Naomi Kawase

Garota descobre o amor ao mesmo tempo em que assiste aos últimos dias da vida da mãe. Em paralelo, um crime é investigado na cidade à beira mar em que vivem.

o segredo das águas

4) Leviatã, de Andrey Zvyagintsev

O drama familiar mistura-se à corrupção política no incrível filme de Zvyagintsev, autor dos também ótimos O Retorno e Elena. Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

leviatã

3) As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes

A primeira parte da fantástica trilogia do português Gomes retrata a crise em seu país e na Europa a partir das histórias ficcionais de Xerazade.

as mil e uma noites

2) As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

Entre o velho mundo e a modernidade, menina sonha em levar sua família a um programa de televisão. Ao mesmo tempo, tem de lidar com as irmãs e o pai bruto.

as maravilhas

1) Norte, o Fim da História, de Lav Diaz

A situação de Raskólnikov, o protagonista de Crime e Castigo, é o ponto de partida para esse filme filipino de quatro horas de duração. Não houve obra mais bela lançada nos cinemas brasileiros em 2015. É feita de longos planos-sequência, com diálogos que aos poucos revelam a profundidade das personagens, tomadas pela ideia de um universo supostamente sem sentido ou pela necessidade de simplesmente seguir em frente.

norte o fim da história

PS: Todos os filmes da lista foram lançados no Brasil em 2015.

Veja também:
Os 20 melhores filmes de 2014

Cinco grandes filmes de 2015 dirigidos por mulheres

Alguns dos melhores filmes de 2015 foram dirigidos por mulheres. Por outro lado, alguns dos piores também, como Cinquenta Tons de Cinza (Sam Taylor-Johnson) e Invencível (Angelina Jolie). A lista abaixo se volta às obras relevantes.

Em comum, o drama familiar: histórias sobre reencontros, perdas, marginalidade, descobertas e, com o Brasil contemporâneo como pano fundo, uma pequena revolução com o reencontro entre mãe e filha. Apesar de alguns títulos serem de 2014, todos foram lançados nos cinemas brasileiros em 2015.

Casadentro, de Joanna Lombardi Pollarolo

A cineasta explora os espaços de uma casa enquanto suas personagens encontram dificuldades de comunicação. Passa-se em um dia calmo, quando a senhora Pilar (Élide Brero) recebe a filha e a neta para seu aniversário. Aos poucos, ganha peso o drama que envolve gerações, ao mesmo tempo em que as empregadas vivem em um mundo particular.

casadentro1

De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

Depois do agradável Ela Vai, a também atriz Bercot traz essa história poderosa sobre marginalização na adolescência. Ao centro está o jovem Malony (Rod Paradot), em busca do pouco amor da mãe, da companhia do pequeno irmão e cujo destino pode estar nas mãos de uma juíza (Catherine Deneuve). Filme de abertura do Festival de Cannes.

de cabeça erguida

As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

As transformações da sociedade italiana são captadas pelo olhar sensível, às vezes distante, da menina Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). Após assistir à gravação de um programa de televisão na região rural em que vive, ela sonha em participar de um concurso que pretende resgatar as “maravilhas” da Itália.

as maravilhas

Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

Provavelmente o filme brasileiro mais comentado do ano, radiografia poderosa das mudanças sociais ocorridas na última década. O cenário é a casa grande, espaço de patrões e empregados, palco para o inesperado: a menina, filha da criada, que vem para bagunçar as então estabelecidas relações de poder. Indicado do Brasil para concorrer ao Oscar.

que horas ela volta1

O Segredo das Águas, de Naomi Kawase

Dois adolescentes passam por intensas transformações familiares, enquanto deixam aflorar o desejo, enquanto tocam a natureza. E ainda dividem um segredo: logo na abertura, a garota vê o rapaz próximo à cena de um crime, à praia, onde o cadáver de um homem foi encontrado. Mais uma bela obra da japonesa Kawase, autora de Suzaku e Floresta dos Lamentos.

o segredo das águas

Veja também:
Cinco filmes recentes sobre o capitalismo selvagem

Cinco dramas japoneses do cinema recente

O que os filmes da lista abaixo têm em comum além de serem japoneses? Todos tratam de relações familiares. O tema é predominante no cinema japonês atual. E isso pode estar relacionado à tradição dos filmes familiares de Yasujiro Ozu. O diretor é o mestre dos pequenos dramas – mas pequenos às aparências. Ozu é gigante.

Na lista, por sinal, há a refilmagem de seu filme mais famoso, Era Uma Vez em Tóquio, chamado Uma Família em Tóquio. Além das relações familiares, as obras da lista abordam como lidar com a morte e as mudanças na sociedade. São belos dramas que não apelam a lágrimas fáceis. Ao contrário: são sinceros, às vezes diretos. Verdadeiros.

A Partida, de Yôjirô Takita

O protagonista descobre seu talento para a preparação de cadáveres em funerais ao modo japonês. O problema é que tal emprego não é aceito por todos em sua sociedade. Além disso, o mesmo rapaz tem problemas com o pai. O diretor Takita encontra bom equilíbrio nessa história tocante, e ainda ganhou um Oscar de filme estrangeiro.

a partida

Uma Família em Tóquio, de Yôji Yamada

Os filhos parecem ter boa relação com os pais. Mas os tempos mudaram: na cidade grande, o casal de velhinhos que visita os filhos está deslocado, entre a nova vida da cidade grande, os grandes prédios, e o cinismo quase imperceptível dos mais novos. O resultado prova que as histórias de Ozu seguem atemporais.

uma família em tóquio

Pais e Filhos, de Hirokazu Koreeda

Koreeda tem ganhado destaque, nos últimos anos, com filmes poderosos como Ninguém Pode Saber e O Que Eu Mais Desejo, ambos voltados à infância e envoltos em delicadeza. Em Pais e Filhos, ele aborda a troca de bebês na maternidade e como as famílias terão de lidar com a questão – entre os abismos do Japão atual.

pais e filhos

O Desejo da Minha Alma, de Masakazu Sugita

Menina pré-adolescente tem de encarar a morte dos pais após um terremoto. Ela e o irmão pequeno passam a viver com os tios e não conseguem se adaptar à nova realidade, com outra cidade, casa e escola. No caso da menina, ter de esconder a tragédia do irmão menor – que espera pelo retorno dos pais – torna-se um peso difícil de carregar.

o desejo da minha alma1

O Segredo das Águas, de Naomi Kawase

De novo, a morte ganha destaque. Uma adolescente tem de lidar com os últimos momentos da vida da mãe enquanto descobre o amor e a sexualidade na companhia de um amigo. O rapaz, por sua vez, tem problemas com sua mãe, o que levará a obra de Kawase – responsável pelo belo Suzaku, de 1997 – ao desfecho surpreendente.

o segredo das águas

Veja também:
Cinco filmes sobre imigração no mundo atual