Muriel

15 grandes rostos da nouvelle vague francesa

Além de cineastas e outros profissionais da sétima arte, a nouvelle vague trouxe uma galeria de grandes faces. Esses atores e atrizes também fizeram carreira em filmes fora do movimento, antes e depois dele. Alguns morreram prematuramente, outros continuam na ativa.

Estudiosos divergem sobre o início e o fim da nouvelle vague. Segundo a versão mais aceita, começaria em 1958 ou 1959, com Nas Garras do Vício ou Os Incompreendidos, e seguiria até os embates de Maio de 1968. Abaixo, ícones dividem espaço com atores menos lembrados, em lista para resgatar um momento único da História do Cinema.

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Anna Karina

A bela de Godard, mas também de Rivette e outros. Em Viver a Vida, fez história com lágrimas que remetem a Dreyer e sua Joana D’Arc. Também trabalhou sob a direção do mestre Valerio Zurlini no belo Mulheres no Front, de 1965.

viver a vida

Bernadette Lafont

Seu primeiro filme, o curta Os Pivetes, foi dirigido por François Truffaut, com quem voltaria a trabalhar em Uma Jovem Tão Bela como Eu. No primeiro, é a beleza distante, aos olhos dos meninos atrevidos. Mais tarde esteve no extraordinário A Mãe e a Puta.

os pivetes

Brigitte Bardot

Antes de Godard e O Desprezo, Bardot marcou época como a menina livre de E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim. Estavam escancaradas ali as portas do paraíso: Saint-Tropez, onde a mesma se banharia em ambas as obras, e onde seria seguida por diferentes homens.

o desprezo

Claude Jade

A primeira aparição da jovem atriz em Beijos Proibidos, de Truffaut, é talvez o ponto alto do filme. Ela aproxima-se do vidro e, do lado de fora, acena para Antoine Doinel. É o par perfeito para o jovem em dúvida, com quem voltaria a se encontrar nos filmes seguintes.

beijos proibidos

Corinne Marchand

Bastou apenas uma personagem para que Corinne ficasse marcada como uma das musas da nouvelle vague: a protagonista de Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda, sobre os momentos de tensão que antecedem a retirada de um importante exame médico.

cleo das 5 as 7

Delphine Seyrig

O rosto misterioso de O Ano Passado em Marienbad. Mais: o rosto difícil de esquecer, o da mulher que vive com o enteado e recebe a visita de um velho amor em Muriel, outro de Alain Resnais. E como deixar de lado, entre outros, o incrível Jeanne Dielman?

o ano passado em marienbad

Françoise Dorléac

Outra atriz bela de poucos papéis, lembrada, sobretudo, por sua personagem em Um Só Pecado, de Truffaut, e que morreu cedo, em um acidente de carro, em Nice, em 1967. Pode ser vista também em Armadilha do Destino e Duas Garotas Românticas.

um só pecado

Jean Seberg

Apesar de ter trabalhado em grandes produções, a americana Seberg seria lembrada por sua personagem em Acossado, Patricia Franchini, que pelas ruas de Paris vende o New York Herald Tribune. A atriz contracenou antes com David Niven em Bom Dia, Tristeza.

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Jean-Louis Trintignant

Trabalhou ao lado de diversos cineastas, entre eles Vadim (E Deus Criou a Mulher), Claude Lelouch (Um Homem, Uma Mulher) e Eric Rohmer (Minha Noite com Ela). Fora do tempo da nouvelle vague, ainda contribuiria com outros mestres, como Kieslowski.

minha noite com ela

Jean-Pierre Léaud

Eternizado como Antoine Doinel nos cinco filmes que Truffaut dedicou à personagem. E não só: também esteve em filmes de Godard, como no divertido Masculino-Feminino e, pouco depois, no maoísta A Chinesa, de 1967. Esteve no recente e encantador O Porto.

os incompreendidos

Jean-Paul Belmondo

Podia ser um pequeno criminoso em Acossado e, no ano seguinte, 1961, o padre de Léon Morin, de Jean-Pierre Melville. Ator versátil, de expressão inesquecível, e de filmes nem sempre lembrados como Duas Almas em Suplício, de Peter Brook.

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Jean-Claude Brialy

Viveu o protagonista de Nas Garras do Vício, um dos filmes que lançaram a nouvelle vague. Voltaria em outro de Chabrol, logo depois, Os Primos, e em diversas produções marcantes como Uma Mulher é Uma Mulher e, mais tarde, O Joelho de Claire.

jean-claude brially

Jeanne Moreau

Provavelmente o rosto feminino mais importante da época, a Catherine de Jules e Jim, papel que a imortalizaria. Viveu outras personagens intensas em grandes filmes como Eva, A Baía dos Anjos, A Noite e, pouco antes, em Amantes e Ascensor para o Cadafalso.

Jeanne Moreau

Maurice Ronet

Esteve no mesmo Ascensor para o Cadafalso ao lado de Moreau e, de novo com o diretor Louis Malle, interpretou a personagem principal em Trinta Anos Esta Noite. Com Alain Delon, dividiu a cena em outros bons filmes: O Sol por Testemunha e A Piscina.

Trinta Anos Esta Noite

Stéphane Audran

O olhar enigmático é sua marca registrada. Pode ser visto nos filmes de Claude Chabrol, com quem foi casada até 1980. E com ele fez grandes filmes, incluindo um pequeno papel em Os Primos, Entre Amigas e, mais tarde, A Mulher Infiel e O Açougueiro.

o açougueiro

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Chantal Akerman (1950-2015)

Era uma das grandes cineastas contemporâneas, uma intérprete singular, e frequentemente sublime, de uma ideia de modernidade cinematográfica. Era “filha” do casamento entre a Nouvelle Vague – como disse centos de vezes, a vocação despertou-se-lhe, tinha ela 15 anos, quando viu o Pierrot le Fou de Godard – e a vanguarda americana, os Warhols, Mekas, Brakhages e etc. que conheceu de perto quando, ainda novinha, no princípio dos anos 1970, foi apanhar a cauda da então fervilhante cena artística nova-iorquina.

Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema, no site Público (leia aqui o texto completo).

1975 se tornaria um ano capital para o cinema. A estética do blockbuster começava a tomar forma. Não demoraria para os filmes de verão se tornarem, praticamente, produtos do ano inteiro, com suas câmeras inquietas, montagens aceleradas e picotadas, efeitos especiais bombásticos, músicas tonitruantes e infantilização. O cinema ficaria explosivo, cada vez mais reduzido – salvaguardadas as honrosas exceções de sempre – a uma máquina de produzir sensações superficiais reduzidas à visceralidade do imediatismo à flor da pele, com pouco espaço de comunicação com a razão geradora do pensamento. O cinema como arte do olhar desvendado pela racionalidade analítica – algo que os grandes mestres egressos do cinema silencioso ou seus atentos discípulos levaram décadas para firmar e daí engendrar o conceito de “arte cinematográfica” – começava a se transformar em outra coisa e, logo, a não fazer sentido. Pois Chantal Akerman, em 1975, parecendo dotada de uma inusitada capacidade de premonição, fez de Jeanne Dielman um filme-manifesto. É como se a ela fosse dada a missão de reconduzir o cinema aos trilhos e, com isso, devolver ao espectador sem medo de experimentos e vanguardas a possibilidade e o tempo de ver, de examinar o plano em sua arquitetura, de conferir os elementos em cena, de acompanhar o trabalho de uma atriz em estado de graça – Delphine Seyrig (a musa de Alain Resnais, vista em O Ano Passado em Mariembad / L’année dernière à Marienbad / 1961 e Muriel / Muriel ou Le temps d’un retour / 1963) no pleno domínio daquilo a que chamamos contenção, como senhora absoluta de seus movimentos.

José Eugenio Guimarães, cientista social (leia aqui o texto completo). Abaixo, Delphine Seyrig em cena no extraordinário Jeanne Dielman, de 1975.

Jeanne

Bastidores: os filmes de Alain Resnais

Algumas imagens flagram o trabalho de Alain Resnais, em uma carreira extraordinária, por diferentes décadas. Conhecido como “cineasta do tempo e da memória”, ele trabalhou com diversos atores e, nos últimos anos de vida, cultivou um elenco formidável, de rostos que se repetiam nas últimas obras, como Vocês Ainda Não Viram Nada! e o testamento Amar, Beber e Cantar. Abaixo, o homem em seu trabalho.

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O Ano Passado em Marienbad (1961)

o ano passado em marienbad

Muriel (1963)

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Stavisky… (1974)

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Providence (1977)

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providence

Meu Tio da América (1980)

meu tio da américa

Ervas Daninhas (2009)

ervas daninhas

Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012)

vocês ainda não viram nada

Amar, Beber e Cantar (2014)

amar beber e cantar

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Stavisky…, de Alain Resnais

O jeito de Jean-Paul Belmondo não deixa mentir. Ou o contrário: permite que se minta a todo o momento, ainda que o espectador, em Stavisky…, reconheça essa mentira.

Como Serge Alexandre Stavisky, ele é revestido de beleza pelo diretor Alain Resnais, em uma história supostamente verdadeira. Os letreiros da abertura, sobre liberdade de interpretação, são uma desculpa.

Simples: todo filme supostamente baseado em eventos reais lida, diretamente, com a ficção. Questões da falsidade. “Fatos reais” existem apenas na realidade. O Stavisky… de Resnais toca a verdade a partir de ideias, de seu resultado final.

stavisky foto

Para tanto, Belmondo não precisa se preocupar. Ele está à vontade, como o trapaceiro rico, o galã irresistível, talvez o político que deseje mudar as regras do jogo quando se fala, sem parar, em Hitler, Mussolini, fascismo na Espanha, Stálin e Trotsky.

Mais ainda, o líder soviético caçado pelo estalinismo é observado aqui, em paralelo, na época em que se exilou na França. Em momento algum ele encontra Stavisky.

Para Resnais, interessa mais o estado do mundo a partir do trapaceiro, não do idealista. Ou, como parece irônico, os trapaceiros são aqueles que na verdade bagunçam as coisas. A Justiça deveria estar mais atenta a eles, menos aos idealistas políticos.

Enquanto Trotsky é recebido na França, Stavisky desfila por belos elevadores de madeira lustrada, com parceiros, assistentes, passando pelo teatro, a olhar todos aqueles que vivem para ele. A questão teatral é cara: Stavisky, no fundo, é um grande ator.

Nesses golpes políticos, de fascistas a negociadores, todos precisam de interpretação. Como em O Conformista, de Bertolucci, a beleza serve para se aliviar tudo o que é inegavelmente podre. Mas não consegue esconder o pior.

O rico trapaceiro está com seus negócios em ruínas: faz dívidas para manter sua vida como está, com seus jogos, gastanças noite adentro e belas mulheres. Abrir mão de tudo aquilo é renunciar à respiração, à vida.

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Ao seu lado está o sinal do passado, um velho barão interpretado por ninguém menos que Charles Boyer, cuja classe foi emprestada várias vezes ao cinema clássico. É tipo de ator que, com pouco, impõe grande respeito.

O filme de Resnais nasce dessas fusões e é mais formal quando comparado às suas obras passadas, como Muriel e A Guerra Acabou. No entanto, ainda há algo em comum com os outros: a personagem Stavisky é um camaleão, alguém que não se deixa revelar.

Ou vale questionar, ainda, se ela não seria alguém autêntica, que representava os excessos de sua época, dona de uma morte mal explicada. Fica o que parece evidente: a morte por suicídio, como ocorreu ao pai.

Há grande cuidado com o visual, a ponto de parecer falso, ou uma imagem emoldurada de um tempo perdido – como em O Grande Gatsby, de Jack Clayton. O teatro ajuda a compor essa ideia, ou simplesmente a forma como o palco parece importante para Stavisky. A certa altura, ele chega a ler um texto em um teste de elenco.

Interessante notar o desejo do protagonista em estar em meio à política. Por isso, cai em descrédito: ela é feita não por idealistas, mas por malandros da alta sociedade, homens de ternos caros, cercados por belas mulheres, flores brancas e pedras preciosas. Aos idealistas resta o deslocamento, o exílio. O mundo não pertence a eles.

Nota: ★★★☆☆