mundo do espetáculo

Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper

A transformação de uma cantora de talento em Lady Gaga diz muito sobre a nova versão de Nasce uma Estrela: os candidatos e candidatas ao posto precisam se adaptar aos palcos, servir a uma monstruosidade chamada “mundo do espetáculo”. Não que não fosse assim há décadas. As regras do jogo feito à purpurina são antigas.

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A nova versão é dirigida por Bradley Cooper, também um dos roteiristas e à frente do elenco, ao lado de Gaga. As linhas gerais continuam intactas: astro da música entra em decadência enquanto sua parceira de palco emerge como estrela. Linhas da versão de 1976, que levou a história ao mundo da música com Barbra Streisand e Kris Kristofferson.

Se Streisand pode ser a mesma o tempo todo, do anonimato à condição de artista famosa, Gaga não tem o mesmo privilégio: ao longo da obra, ela precisa se tornar algo distante do natural – e, é verdade, algo que alimenta a crítica ao mundo dos famosos. É, em cena, a Gaga conhecida, que precisou se despir para ser a mesma.

Nem nos créditos deixará de lado o nome de sucesso. Diferente de Streisand, que nunca chega a parecer um produto mecanizado, Gaga, ainda que com inegável voz para a música e presença forte na tela, reforça o limbo em que vivem as estrelas.

Cooper mostra que não basta ter talento: de uma forma ou outra, a depender de quem projeta o artista ao sucesso, é necessário vestir uma personagem. É preciso se submeter às chamadas “tendências”, ao império da moda. Gaga, por isso, terá de ser Gaga – como uma obrigação, ao passo que o público fica cansado com tamanha falsidade.

O filme cai. Da naturalidade, do jeito menina que se descobre, que enfrenta o grande público e se apaixona, passa à figura montada. Poderia ser uma crítica contundente, mas Cooper recua. Nunca assume por completo o problema, o de uma indústria que vive de mutações, de peças, de prêmios, de escândalos, de hits passageiros.

Desvia, mira sua personagem, Jack, cantor afundado na bebida, a certa altura sem poder sobre si mesmo. A moça ama-o. O sentimento é recíproco. Sobre ambos está o peso do mundo do espetáculo, massa de moer carne feita aos mais equilibrados, ou àqueles que aceitam perder os cabelos – um pouco da alma – e servir com profissionalismo.

Como Gaga, talvez perto do que seja de verdade (sugestão ao risco do erro); diferente de Jack, homem que existe aos montes, que não aguentou esse mesmo mundo cruel. A ele soma-se o passado de problemas familiares, com o pai e o irmão, refúgio dramático da versão de Cooper – sem lançar toda a culpa no meio em que vive.

Para estar ali ele precisa da bebida. Eis a ironia de Nasce uma Estrela: o mais autêntico é o mais desequilibrado. Desde o início, ele recolhe-se, como se quisesse se esconder; a fala grossa ajuda no tom dramático, trágico; com o motorista, sai em busca de um bar, qualquer um, justamente o local em que se depara com a amada.

A versão de Cooper tem méritos. A falsidade do universo que traz à tona está mais alinhada à versão de 1954, com Judy Garland e James Mason, menos à de 1976. Diferente das duas anteriores, consegue colocar na tela um casal com química. Cooper e Gaga constroem, na primeira metade, uma história de amor convincente.

A versão de Frank Pierson é enfraquecida pela presença de um Kris Kristofferson desalmado, também por parecer apenas um veículo para Barbra Streisand soltar a voz. Neste caso, o cantor em decadência não carrega o mesmo drama e mais parece um adolescente revoltado que picha paredes por diversão e atira contra os indesejados.

Ainda assim, é preciso reconhecer o quanto a aparência suja, real, contribui à alma do filme: a versão de 76 é um retrato da época, na qual artistas revoltados não queriam ser apenas peças fabricadas. Podiam ser eles mesmos. O novo Nasce uma Estrela mostra que bastam o homem, a mulher e um pouco de música. O que vem depois estraga.

(A Star is Born, Bradley Cooper, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Vídeo: Nasce uma Estrela (1954)

Reality – A Grande Ilusão, de Matteo Garrone

Do microcosmo ao microcosmo. Em Reality – A Grande Ilusão é assim: o homem é pequeno, pequeno demais, e não sabe. Acredita ser grande, o centro do mundo, rodeado por câmeras e nascido para a fama. A televisão sustenta essa ilusão.

Por isso, o filme começa nos céus, vai ao solo e chega a uma festa de casamento: um mundo à parte, diferente, no qual há uma imagem do passado, uma carruagem com cavalos brancos, na forma como o noivo e a noiva são cercados pela beleza. Há, claro, um pouco de falsidade: espetáculo armado para um dia feliz.

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Depois, ao fim, retorna ao céu e, mais uma vez, do alto, o homem torna-se um microcosmo, menos que um ponto de luz. Perde-se.

Não poderia ser mais irônica a opção do diretor Matteo Garrone, engraçado à mesma medida que cruel. Ao longo de Reality, ele não deseja aliviar as coisas para o público, tampouco para sua personagem central, o peixeiro Luciano (Aniello Arena).

No império do efêmero, Luciano é a vítima perfeita: um homem simples, de família simples, de roupas coloridas, em um bairro antigo de Nápoles. Corre através dele um universo diferente daquela bela ilusão e felicidade intermináveis da televisão, vendidas no famoso reality show Big Brother.

O nome, como muita gente já sabe, faz referência ao livro 1984, de Orwell, no qual o homem, no futuro, é assistido e tem seus passos vigiados por uma ditadura.

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Na obra de Garrone, o homem nega ser um microcosmo e segue a lei religiosa até as últimas consequências: aos olhos de Deus, ele é único, um filho que merece atenção, ser visto e, portanto, não pode ser esnobado. Acredita ter nascido para o espetáculo.

Luciano é uma pequena parte. Eleito o centro por Garrone, ele quer estar na televisão. A busca tem início em um teste no qual ele encontra – pela segunda vez – um ex-participante do programa de televisão chamado Enzo (Raffaele Ferrante), dono de frases manjadas e naturalmente repulsivo.

Não bastasse o teste, Luciano é ainda chamado a Roma, para outro, o que faz com que ele se sinta mais importante, perto da fama e das câmeras.

Os dias seguintes são piores: cada pessoa que aparece em sua banca de peixes passa a ser um potencial espião mandado pelo programa de tevê, para que ele seja investigado. Reality leva o público aos olhos de Luciano, pouco a pouco em um processo de loucura no qual ele é sempre assistido e perseguido.

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De um lado há o consumo excessivo nos robôs vendidos por Luciano e sua mulher, Maria (Loredana Simioli). De outro, a religião, espécie de Big Brother de outros tempos, com um Deus que tudo vê, que pune e altera o curso do universo.

De tão presente, a religião chega a se misturar ao olhar de Luciano, embebedado pela ideia do sucesso e dinheiro. Ele conversa com duas senhoras religiosas e, de repente, todos falam a mesma língua, alienados.

O desejo pelo sucesso liga Reality a Belíssima, grande filme de Luchino Visconti sobre uma mãe que faz de tudo para que a filha torne-se atriz de cinema. Os bastidores do espetáculo, contudo, são apresentados como um palco de gente desumana.

Em Reality, os bastidores sequer são apresentados. Luciano está sempre à margem, do lado de fora, e descobre que a única maneira de fazer parte é pela invasão. Ele recorre a qualquer coisa pelo simples prazer em descortinar aquele espetáculo: ver, de perto, o que ocorre próximo aos escolhidos e mandados ao interior do Big Brother.

Ele chega a ver, através de vidros, aquela suposta vida feliz. Em diversos planos-sequência, Garrone retorna a câmera aos olhos de encanto de Luciano, nunca cansado de ver, sempre disposto a ver mais. Ele consome pelos olhos e seu desejo leva-o, devagar, àquele meio onde gravitam beleza e vazio. Não poderia terminar em outro local senão na casa, mas como intruso, nunca como um convidado.

O drama do protagonista é ser um devoto àquele novo Deus: o “grande irmão” implacável que pune e destrói. Mais ainda: termina às gargalhadas, um “escolhido” em meio às luzes perdidas em gigante escuridão, no meio do nada, em lugar nenhum.