Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

O filme que ensinou Wim Wenders a fazer cinema

Foi com esse filme, O Homem do Oeste, que de repente eu entendi como os filmes são feitos. Eu era finalmente capaz de ler toda aquela arquitetura. Claro que poderia ter acontecido com outros filmes – mas, não por coincidência, aconteceu com os de Anthony Mann. Ali, eu percebi como uma cena era construída com planos abertos – Mann fazia planos abertos fantásticos. Só outro mestre, John Ford, alcançava a perfeição de seus planos, planos médios, closes, planos gerais, planos em movimento e steadicam. Claro que você pode aprender isso em qualquer filme, mas eu aprendi a arte de fazer cinema com uma série de filmes de Anthony Mann exibida na Cinemateca [Francesa] – e especialmente com O Homem do Oeste. (…) Em O Homem do Oeste, entendi como um cineasta pode guiar seu olhar, te deixar confortável e te colocar no meio da cena. Entender isso foi um longo passo para mim, quase uma revelação.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pg. 21). Abaixo, Gary Cooper em O Homem do Oeste.

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Bastidores: Era Uma Vez em Tóquio

(…) no começo da década de 70, quando eu estava em Nova York pela primeira vez e já tinha feito dois ou três filmes, um dia um amigo me perguntou se já tinha visto os filmes de certo diretor japonês. Seu nome era impronunciável e eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas meu amigo insistiu e me disse: “você vai gostar dele”. Então eu fui a uma sessão vespertina de um filme chamado Era Uma Vez em Tóquio. Este é o filme da minha vida. Claro que não esperava muito, mas a partir da primeira cena, fui atingido como nunca antes numa sala de cinema. Sentei-me com os olhos abertos, a boca escancarada, e chorei durante a maior parte do filme – mas nem percebi. Não conseguia acreditar no que via. Ali estava a história mais simples que tinha visto na vida. A história de uma família: um pai, uma mãe, seus filhos crescidos e netos. Havia ali casamentos e funerais; eles trabalhavam, comiam, conversavam, caminhavam. Nada espetacular, nada que nem de longe lembrasse uma história. Mas era mais cativante que as melhores aventuras que tinha visto até então. Fiquei ali, sentado, até o fim da última sessão do dia. Vi aquele filme quatro vezes seguidas, e ao final, eu sabia bem o nome do cineasta e tinha certeza de que não me esqueceria dele pelo resto da minha vida: Yasujiro Ozu. Ele me mostrou o que eu nem sabia que poderia existir. Algo como um paraíso perdido no cinema, onde as coisas finalmente são nada mais que elas próprias. Onde não existe medo algum, apenas a vida como ela é.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pgs. 24 e 25). Abaixo, a atriz Setsuko Hara é dirigida por Ozu nas filmagens de Era Uma Vez em Tóquio.

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Bastidores: Blow-Up – Depois Daquele Beijo

Ainda estava na escola de cinema, ainda ganhava meu dinheiro como crítico, quando vi mais um dos filmes da minha vida. Era o último filme de Antonioni que estreou na Alemanha em 1968, Blow-Up – Depois Daquele Beijo. Ali encontrei a mesma linguagem arquitetônica e clara que me encantou tanto nos filmes de Anthony Mann, mas a história não se passava num lugar místico do Oeste, aquilo era Londres. Encontrei as mesmas aplicações filosóficas e metafísicas que vi nos filmes de Bergman, mas também sequências como a do parque que eram estritamente pinturas – pinturas em movimento. E antes de qualquer coisa, o filme era embalado por rock and roll. Os Yardbirds estão tocando uma de minhas músicas favoritas nesse filme: “Train Kept A-Rollin”. Entendi então que filmes poderiam flutuar entre ficção e realidade, entre filosofia, fotografia e pintura. Cinema era tudo que me interessava, finalmente tinha começado a entender.

Wim Wenders, cineasta, sobre um dos filmes de sua vida. A declaração foi extraída de seu depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pg. 23).

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Entrevista: Miguel Barbieri Jr.

Antes da entrevista, o crítico Miguel Barbieri Jr. havia acabado de sair de uma cabine (sessão voltada à imprensa), no cinema Reserva Cultural, na avenida Paulista. Assistiu, uma semana antes da estreia, o último filme de Philippe Garrel, Um Verão Escaldante. Para ele, um filme menor, que não agradou. Na mesma sessão estava Inácio Araújo, que depois elogiaria a produção na Ilustrada. Para Miguel, no entanto, não se tratava de grande coisa: o filme de Garrel, uma semana depois, chegaria às bancas acompanhado por apenas uma estrelinha na cotação da Veja São Paulo.

“Gostei de Amantes Constantes, mas não de A Fronteira da Alvorada”, disse, antes de degustar um croissant e dar uma entrevista para este site. Falador mas ponderado, Miguel ocupa a função de crítico na revista da Editora Abril há mais de 10 anos. Segundo um breve perfil no site da editora, vê mais de 400 filmes por ano e, em suas palavras, livre de preconceitos. Na hora de pregar os olhos na tela grande, um blockbuster do momento merece a mesma dedicação que uma produção premiada em Cannes.

Na profissão, Miguel vê de tudo e, com exceção do período em que está em férias, preenche sozinho as várias páginas da revista dedicadas ao cinema – o que ele chama de roteiro e nas quais diz “ter tudo”. Fala também das estrelinhas utilizadas pela revista para dar nota aos filmes, das incursões por caminhos variados até chegar à posição de crítico de cinema, da Mostra de São Paulo e da abundância de “especialistas” atualmente na internet. “Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais”, afirma. “O leitor não é bobo.”

No livro Os Filmes da Minha Vida – Volume 3, você dá um longo depoimento sobre o que lhe formou enquanto crítico de cinema. Você diz que descobriu os filmes um pouco acidentalmente, com 13, 14 anos, por pura curiosidade. Você se tornou crítico por acidente ou já tinha isso na cabeça?

Quando eu tinha uns 14 anos, eu tinha um caderninho, no qual anotava minhas observações sobre filmes. Não sei se era uma crítica. Eu recortava algumas notícias e colocava ali. Não sei onde foi parar esse caderno. Havia críticas do Rubens (Ewald Filho) que guardava nele, também do Edmar Pereira, do Jornal da Tarde, do Rubem Biáfora, que escrevia no Estadão. Eu escrevia alguma coisa e colava a crítica deles. Já profissionalmente, eu nunca pensei em ser crítico porque nunca pensei em ser jornalista. Para você ter uma ideia, eu fiz Biológicas no colegial. Não sabia se queria ser médico, se queria ser biólogo. No terceiro ano do colegial, dei uma guinada total. Achei que pendia muito mais para artes, para cultura, até mesmo para psicologia. Embora tenha feito Biológicas, fiz, depois, um cursinho para Humanas. Prestei para publicidade, arquitetura… Quando temos 17 anos, não sabemos muito bem o que queremos, não é? E prestei jornalismo na PUC. Mas, na verdade, não queria fazer jornalismo, mas o foi o único lugar em que acabei entrando. No primeiro ano, na PUC, tinha aquilo que eles chamavam de básico, e você fica menos com sua turma de jornalismo – uma ou duas vezes por semana. Não sei se hoje ainda é assim, mas há 30 anos era. E, na época, nas aulas com o básico, comecei a fazer amizades com pessoas que não faziam jornalismo. Enfim, terminei por fazer a faculdade e descobri o fazer cinema também na faculdade, com um curta-metragem que ganhou prêmio, uma brincadeira que fiz com um amigo meu, que era estilista. Consistia em pegar algumas amigas da classe e fazer uma transformação. Era uma viadagem que tínhamos feito (risos) e que acabou dando certo. E acabamos ganhando um prêmio em Campinas. Gostei de fazer cinema e gostava muito de ir ao cinema, mas nunca pensei em casar as duas coisas, ou seja, jornalismo com cinema. O que eu queria mesmo era trabalhar com publicidade e, se tivesse feito isso, hoje estaria bem melhor de vida (risos). Terminando a faculdade, fui morar um ano em Paris, que é uma vitrine cinematográfica que não tem em lugar nenhum do mundo, não é? Nem em Nova York não tem. E, quando não tinha nada para fazer em Paris, onde fui para fazer um curso de vídeo e onde fiz um cursinho de arte e francês, ia muito ao cinema. Vi ciclos do Fassbinder, do Wim Wenders, cineastas que descobri lá, que estavam no auge. Era o início dos anos 1980. Quando voltei de Paris, fui trabalhar com publicidade, não fui ser jornalista logo de cara. Trabalhei dois anos com isso e parei. Não era meu caminho.

No mesmo livro, você fala de uma dificuldade que existia no Brasil, mesmo antes do vídeo, que era encontrar alguns filmes. Antigamente, ou o crítico ia ao cinema ou ele não via nada. Se perdesse a sessão, acabava não vendo mais o filme. Hoje, com a facilidade de encontrar as obras, é mais fácil ser crítico de cinema?

Hoje você tem muito mais acesso. Naquela época você tinha a televisão, onde era possível pegar reprises de alguma coisa, também os cineclubes, mas essa facilidade não existia. Cheguei a pegar o primórdio do vídeo e abri uma locadora (Over Vídeo, uma das primeiras locadoras de vídeo de São Paulo) com uma amiga minha em 1986, que durou até 1998. Foi uma grande experiência. E, ainda antes, comecei a descobrir filmes porque meu cunhado tinha um videocassete. As locadoras estavam surgindo aqui no Brasil. Na época, fiquei sócio da Vídeo Clube do Brasil. Por ali também vi muita coisa, sobretudo filmes dos anos 1980 e mais antigos. A qualidade era péssima, porque era tudo pirata. Via alguns do Coppola, mais antigos, também de Woody Allen.

E nessa experiência, do outro lado do balcão, quando indicava filmes você já fazia crítica de cinema?

(Pensa um pouco.) Não… Era uma relação diferente. O que me trouxe foi uma experiência para saber o que o público gosta. Isso eu trago muito, hoje, ao meu trabalho. Ou seja, sempre procuro escrever para quem está me lendo. E aí que cheguei e disse para mim mesmo que gostaria de ser crítico, já que havia me formado em jornalismo. Na época havia poucos nesse ramo. Hoje em dia, em uma cabine, pode ter até 100, 200 pessoas nas mais badaladas. Nesta semana (a entrevista foi feita no dia 25 de maio) teve a do Homens de Preto (a terceira parte da série) e estava cheia. Agora há blogs, sites, jornais variados. Mas na época em que comecei, você ia nas cabinas e tinha poucas pessoas. Tinha o Merten (Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão), o Zanin (Luiz Zanin Oricchio, crítico do Estadão) e outros poucos, como o Inácio (Araújo, da Folha de S. Paulo). Em 1992, uma amiga minha, aquela que era minha sócia, era editora cultura do Diário Popular, hoje o Diário de São Paulo. E ele me disse que estava mandando embora o crítico de vídeo. Ela perguntou se eu queria assumir. Disse que não sabia, que nunca havia escrito crítica. Mas ela argumentou que eu já tinha visto muitos filmes e me deu alguns toques. Para ter uma ideia, eu escrevia, ia na casa dela, mostrava e ela fazia apontamentos. Então eu comecei…

Então, se não fosse a locadora, você não teria se tornado crítico de cinema?

Não só pela locadora, mas se não fosse o meio se abrir. Sempre achei que era uma panela. Havia o Rubens e alguns outros. Não tinha essa coisa mais ampla como é hoje. E não sei se isso é muito bom.

Acha que o excesso de gente escrevendo na internet banalizou o trabalho do crítico?

Acho. Perdeu um pouco o critério. Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais. E o leitor também sabe ler aquele crítico com quem está acostumado. O leitor não é bobo. Para você ter uma ideia, no Diário eu fiquei de 1992 a 2000 e, depois, até 2012, na Vejinha. São dois lugares apenas onde eu trabalhei. Claro que fiz freela para outros lugares. Já fiz uma revista que teve dois ou três números apenas, mas não era um exercício de crítica. Quando entrei na Vejinha, percebi que o público era outro se comparado com o do Diário Popular. Tinha que escrever de uma outra maneira e, não digo indicar, mas saber para qual público eu estava falando. E isso foi a locadora que me deu, como experiência. Em um bate-papo no Cinesesc eu falei isso: não gosto do último filme de Godard, o Film Socialisme. Detesto. E o fato não é nem eu detestar, mas jamais poderia indicar esse filme para um leitor da Vejinha. Não é o perfil desse leitor. Se escrevesse na Cahiers du Cinema até poderia ser, mas não é o caso.

Acha que quem lê a Veja São Paulo busca mais entretenimento, programa com a família, não um filme do Godard?

Pode até ser uma visão errada minha, mas acho que não. Pelas cartas que eu recebo, pelo que eu escuto, é um gosto médio. E meu espaço, hoje, comparado àquele que eu tinha na época do Diário, é muito pequeno. Tem gente que gosta. Um colega, inclusive, disse usar meus textos para demonstrar exemplos de concisão. Nunca tinha percebido isso: em dez ou 15 linhas acabo escrevendo o que eu acho de determinado filme. Por incrível que pareça, hoje eu não sei se teria saco de escrever coisas tão grandes. Não digo capacidade, mas saco.

Sobre seu trabalho na Veja São Paulo, você vê muita coisa.

Vejo praticamente tudo.

Mas você vê porque é seu trabalho, sua obrigação. Se não fosse crítico, você assistiria tantos filmes assim?

Uma coisa que me irrita demais, ao ir ao cinema como espectador comum, é o público. Hoje em dia está infernal. Gente com celular. A luz do celular me irrita, gente conversando. Muita coisa me irrita. Uma vez ou outra, quando perco algum filme, tenho que ir ao circuito. Talvez eu selecionaria mais os filmes se não fosse crítico, mas gosto de ver tudo. Gosto de ver Homens de Preto, gosto de ver Missão Impossível. Também gosto de ver um Hasta La Vista, um Koreeda (Hirokazu Koreeda, cineasta japonês), um Philippe Garrel (cineasta francês).

Não acha seu espaço, na Veja São Paulo, um pouco limitado?

Na verdade, aquilo é um roteiro. E como roteiro e serviço acho o melhor que tem. Se você parar para pensar em qualquer outro veículo, você não tem algo tão bem esmiuçado, pelos menos em cinema. E detalhe: escrito por uma única pessoa. Sem querer falar mal de outros veículos, mas a Folha tem mais críticos e, se ver o roteiro, vai ver que tem quatro estrelas para um filme, três para outro, duas para outro – mas são críticos diferentes que estão escrevendo. Na Vejinha sou eu e minha opinião. Então, quem confia em mim, vai ler o que escrevo. O espaço é um roteiro de cinema e, por ser um roteiro, acho que tem tudo. Falamos de festivais variados, de mostras importantes. Me perguntam se, além das estreias, eu vou a essas mostras. Não dá. Tem várias, muita coisa. A única que tento acompanhar melhor é a Mostra Internacional de Cinema. Não dá para ir em muitos outros, como o É Tudo Verdade, Anima Mundi. É uma questão de tempo mesmo.

Sobre as estrelinhas, na revista, acho que isso sempre geram amor e ódio. Até hoje, se bem me lembro, só vi três filmes com cinco estrelas na Veja SP: O Segredo de Brokeback Mountain, o recente A Separação e Violência e Paixão, do Visconti.

Antes, acho que eu já havia dado cinco estrelas para As Invasões Bárbaras e alguma outra coisa que voltou ao circuito, algum clássico. A coisa das estrelinhas surgiu quando eu estava lá. Estou lá há 12 e isso deve ter surgido há uns 7 ou 8. De uma hora para outra resolveram colocar as estrelinhas. E ficou estabelecido que era de uma a cinco estrelinhas. A bombinha veio depois, com o filme da Eliana, inclusive, que é O Segredo dos Golfinhos. Aquilo era o fundo do poço, não tinha mais onde chegar. Pensei: gente, temos que dar uma coisa ainda menor.

Mais ou menos como ocorreu com o filme da Carla Perez.

Sim, o Cinderela Baiana. Se tivesse a bombinha, naquela época, com certeza. Cinco estrelas, segundo meus editores, devem vir acompanhadas de muito critério. Você não pode comparar um ótimo filme de hoje como um clássico, desses que voltam ao cinema, como Amarcord. Se você reparar em teatro, nunca tinha cinco estrelas. É o que falam: só se for Shakespeare com a Fernanda Montenegro. Ela fazendo Lady Macbeth (risos). De uns tempos para cá, eu estou, aos poucos, tentando. A Separação foi um caso assim. E tem outras coisas: meu editor mudou e a confiança em mim, nesses 12 anos, foi ficando cada vez maior. Quando entrei na Veja SP era mais complicado, não havia tanta confiança. Sou o crítico de cinema que mais tempo ficou na Vejinha. O Orlando Margarido ficou um tempo, a Neusa Barbosa também. Acho que eles gostam de mim. E adoro o que eu faço. Adoro ver filmes e faço com prazer. Acho também que sou uma pessoa sem preconceito, o que considero muito importante. Vou ver um filme do Garrel com o mesmo prazer que vou ver um Missão Impossível e Os Vingadores. A disposição é a mesma.

Quando está em casa e quer ver um filme que te satisfaz, o que você assiste?

Então, ultimamente tenho assistido algumas coisas. Revi Doutor Jivago, Ladrão de Casaca, Bonequinha de Luxo, O Iluminado, Nascido para Matar. Revi com uma vontade muito maior do que uma coisa nova. É muito difícil eu ter tempo para ver uma coisa que eu gosto. Para ter uma ideia, tenho dez filmes baixados no computador, filmes que não saíram no Brasil e provavelmente não vão sair. A única forma de ver esses filmes é baixando. Claro que não baixo filmes de coisas que estão passando, que saíram no Brasil ou vão sair. Nesses casos, vejo nas cabines ou, muitas vezes, recebo o DVD de algumas distribuidoras. Isso também é um problema, pois, como sou obrigado a ver tudo, acabo vendo sete ou oito filmes por semana. E tenho três ou quatro dias na semana, no máximo, para ver filmes. Tenho segunda, terça, geralmente de manhã. Quarta-feira eu não posso, devido ao fechamento da revista. Quinta, se saio tarde da redação na quarta, não dá, e resta a sexta. Se o horário de uma cabine não se encaixa, tenho que me virar, muitas vezes, com o DVD.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, são mais 400 filmes em duas semanas. Acompanhar a Mostra não se tornou uma batalha inglória?

No ano passado já deram uma enxugada. O Leon (Cakoff, fundador do evento) já não estava muito bom. De 300 filmes, acho, caiu para 200 e poucos. O que acho que falta na Mostra é critério seletivo. Todo ano, na Veja SP, faço um quadro dando algumas dicas do que vai passar no evento. É claro que é um quadro de cartas marcadas, com os filmes mais esperados, com vencedores de Cannes, Berlim etc.

Que é exatamente aquilo que sairá depois no circuito.

É, de certa forma. Mas gosto também de descobrir algumas coisas. Nunca me esqueço da primeira coletiva da Mostra que cobri para a Vejinha. Levantei o braço e perguntei para o Leon: “Gostaria que você desses uns toques, do que acha legal ser indicado ao leitor”. Ele disse: “Isso é trabalho seu. Nosso trabalho é trazer os filmes, o trabalho de vocês é selecionar e dizer o que é bom e o que não é”. Depois disso, meu amigo… (risos) Mas era uma pessoa maravilhosa. Adoro o Leon. Ele que me convidou para fazer Os Filmes da Minha Vida e tenho grande gratidão por ele. O que eu faço, em tempos de Mostra, é ir ao escritório deles um mês antes, ver uma lista do que deverá vir, dou uma pesquisada e vejo se tem ganhadores de prêmios e filmes importantes. Para mim, a Mostra começa um mês antes. E, quando efetivamente começa, para trabalho tenho apenas uma semana, porque quando uma edição da revista sai o evento já está acabando. E todo ano eu fico muito perdido. Todo ano é a mesma coisa. Não sei se vejo filmes que vão estrear, para me adiantar. Não sei se vejo os clássicos que estão voltando, com cópias restauradas. No ano passado, gostaria muito de ter revisto Taxi Driver. Não vi e me dá raiva. E gosto de fazer um “seguidinho”: pegar um cinema e ficar por lá, em sessões seguidas. Três ou quatro filmes diretos.

Mas, de vez em quando, surge um Mistérios de Lisboa por ai e pode tomar o dia todo, não é?

Às vezes ocorre isso ou tem, no meio, aquele filme bosta e você se pergunta: “O que isso está fazendo aqui?” Portanto, acho que às vezes falta um critério de seleção. Não é só porque é um filme pervertido, underground, que precisa estar passando na Mostra. E, no ano passado, os organizadores fizeram uma coisa que não sei se farão esse ano: eles não trouxeram os filmes que passaram no Festival do Rio, o que acabou gerando certo desconforto. Mas a Mostra é o grande evento. São Paulo tem muita oferta, muita coisa. Não sei se pode ser comparada a Paris, mas talvez seja a segunda ou terceira cidade mais importante em termos de cinema. Veja, por exemplo, um cinema como o Frei Caneca, a diversidade de títulos que tem, que une desde blockbusters a filmes iranianos. O que o Leon e o Adhemar (Oliveira, criador do Espaço Unibanco e que também dá depoimento em Os Filmes da Minha Vida 3) fizeram por São Paulo foi algo sensacional, mas isso é aqui. Você sabe que eu faço Veja Rio e agora estou fazendo Veja Belo Horizonte. Para ter uma ideia, essa semana não havia os dez melhores filmes em Belo Horizonte. Não tinha filmes para completar os dez, todos com três estrelas. No Rio tem. O Rio é até meio chato, pois alguns filmes ficam eternamente em cartaz. Se bobiar, ainda está passando O Artista por lá. Em São Paulo sai mais rápido.

Rafael Amaral (07/08/2012)

Entrevista: José Rubens Demoro Almeida

Em seus encontros com estudantes e interessados por cinema em geral, o professor de direito José Rubens Demoro Almeida carrega alguns livros fundamentais para se compreender a sétima arte. Ou apenas para ter uma ideia de sua grandiosidade. Mas, ao lado dele, folhear os livros deixe de ser necessário. Basta ouvi-lo. Rubens relata, nessas sessões, os significados, os gestos ocultos, os signos e as representações que tanto inquietam à luz do projetor.

Em uma sessão no Cineclube Consciência, em Jundiaí, Rubens falou aos presentes após o grande musical Cabaret, de Bob Fosse, e não deixou de apresentar seus pontos de vista sobre as relações entre os palcos e o nazismo. Tentava mergulhar cada vez mais, revelar cada vez mais: passava por pensadores para falar das questões do controle, do totalitarismo e do mal como “gesto banal”. Está tudo em Cabaret, abaixo de sua música, abaixo do inesquecível sorriso de Liza Minnelli.

Quem viu tudo isso durante o filme de Fosse? Não se sabe. Mas, com a carga de conhecimento e referências de Rubens, as coisas ficaram um pouco mais claras aos participantes da sessão.

Desde agosto de 2009, Rubens coordena o Grupo Imago para estudos e pesquisas sobre Cinema e Direito com professores e alunos do Unifai (Centro Universitário Assunção), na Vila Mariana, em São Paulo. A turma reúne-se mensalmente para apresentar um filme escolhido e estudado previamente. Após a sessão, em gesto cineclubista, ocorre um debate no qual os participantes têm a oportunidade de expor ideias e pontos de vista. Ou, simplesmente, dizer se gostou do filme ou não.

Formado pela PUC-SP, em 1977, atualmente Rubens dá aulas de direito na Unifai. Como todo amante do cinema dedicado a compartilhar conhecimento, também passa por outras instituições, grupos e cinemas de rua – principalmente os de rua. Na entrevista abaixo, ele fala do trabalho com o Grupo Imago, da presença do cinema em instituições de ensino e de suas paixões pessoais.

O cinema deveria ser matéria de escola?

Em princípio, considero que as artes em geral deveriam ter um espaço próprio na educação e formação do aluno. No ensino fundamental, deveria haver um incentivo às crianças para o conhecimento e desenvolvimento artístico, o mesmo acontecendo em níveis deferentes de abordagens, nos ciclos posteriores. Quanto ao cinema em particular, entendo necessária uma adequação e uma nova visão de sua concepção e história. É de conhecimento geral o quanto as gerações recentes de alunos são ligadas às imagens nos mais diversos meios de comunicação. As tecnologias de transmissão de imagens tem se transformado assustadoramente e numa velocidade inusitada. Esta superexposição às imagens compromete um pouco a relação do jovem com o cinema, num sentido mais tradicional (uma sala escura, numa tela grande, na companhia de outras pessoas, em geral desconhecidos) porque não há – ou não tem ocorrido – uma educação do espectador do cinema, que o tem mais como simples diversão, sem compromisso. Como disciplina regular a ser ministrada em escolas, o cinema poderia acompanhar outras matérias que visem a formação integral do cidadão. O cinema pode e deve estar presente na escola, em todos os níveis educacionais, como importante e eficiente instrumento do ensino e da educação, formador e provocador de reflexões e visões críticas do mundo.

Como surgiu a oportunidade de coordenar um grupo de estudos e pesquisas focado em cinema? O que faz o grupo?

Sempre fui muito ligado ao cinema e em todas as minhas atividades, acadêmicas ou não, gostava de estabelecer relações com filmes que me vinham à lembrança, a partir de alguma ideia ou tema. Quando aluno de pós-graduação da professora Maria Garcia na PUC-SP, apresentei um trabalho com a exibição de alguns trechos de filmes e comentários sobre o contexto de produção, realização e sua importância na história e linguagem do cinema. E o trabalho nem era de comunicação ou de cinema em particular, mas de Direito. Posteriormente, procurei desenvolver mais este pequeno trabalho para dar-lhe um contorno mais acadêmico, de tal modo que pudesse ser integrado às linhas de pesquisas do Curso de Direito. Em 2009, apresentei o projeto de grupo de estudos de cinema e direito no Centro Universitário Assunção, a Unifai, onde hoje sou professor. A professora Lúcia Helena Polleti Bettini, coordenadora do Curso de Direito, não só o aprovou como o apoiou. Em agosto de 2009, iniciaram-se as reuniões do Grupo Imago de estudos e pesquisas em cinema, direito e educação, que permanece até hoje e reúne professores e alunos interessados principalmente em cinema.

Em seus encontros com alunos, com pessoas que possuem uma visão de cinema ligada apenas aos blockbusters e ao produto que está nas salas de shoppings, qual é a reação deles quando são confrontados com os filmes que você apresenta?

Posso comparar as reações de alguns alunos, e mesmo de alguns professores, às dos espectadores da sessão dos irmãos Lumière em 1895, que se surpreenderam com as imagens em movimento da chegada do trem à estação: espanto e curiosidade. O filme comentado, contextualizado, analisado, debatido é outro filme numa outra dimensão de compreensão do cinema: deixar de apenas “ver” filmes (sejam eles blockbusters ou não) para aprender a “ler” o cinema.

Lembra-se de alguma reação inesperada em um aluno nesse grupo ou mesmo em algumas andanças por outros cineclubes e sessões?

Tive boas experiências relatadas. Uma em especial – e da qual guardo como uma boa lembrança de uma reação inesperada – foi a de um aluno, pai de família, que participou de uma reunião onde foi exibido e debatido o filme CinemaParadiso, de Giuseppe Tornatore. É um filme a que recorro para salientar, no início dos trabalhos dos grupos, a paixão pelo cinema e como esta paixão transforma vidas e pessoas. Ao final da reunião, o aluno foi a uma locadora, alugou o filme e, à noite, “convocou” toda a família, mulher e filhos, para assistirem juntos. Pessoas que nunca – ou raramente – se juntavam num sábado à noite, cada um cuidando de seus interesses ou cumprindo outros compromissos, passaram duas horas assistindo a um filme que os emocionou muito, como relatou o aluno posteriormente, para as quais fez questão de lembrar os comentários e as observações do grupo.

Tive a oportunidade de participar algumas vezes de debates com você, em sessões de filmes variados, com públicos variados. Nelas, me chamou a atenção alguns pensadores que você trouxe à roda de discussão, como o Foucault. Considera importante mesclar o cinema à filosofia e a outras áreas do pensamento?

Considero essencial esta relação do cinema com outras áreas do conhecimento, em especial com a filosofia. O cinema provoca, instiga reflexões, olhares inusitados, questiona vidas e mostra uma porção particular da dimensão da existência humana. Esta apreensão da realidade, pela interpretação artística, demanda uma visão apurada. Afinal, durante duas horas entregamos nossos cérebros aos realizadores do filme, e isto não é pouca coisa. Estudo muito autores que abordam o cinema e os filmes com os olhares da filosofia, da história, do direito, da psicologia, da sociologia, além dos próprios teóricos do cinema (Bazin, Truffaut, Eisenstein, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, entre outros) ou críticos (J. B. Duarte, Inácio Araújo, Luiz Carlos Merten). Autores, como Michel Foucault, Theodor Adorno, sempre reservaram espaço em suas obras para reflexões filosóficas sobre o cinema, tanto como indústria de massa, tanto como produção artística. Slavoj Zizek tem ótimos ensaios e artigos sobre o cinema, um em especial sobre Hitchcock. Juan Antonio Rivera, professor espanhol de filosofia, usa o cinema em suas aulas e escreve muito sobre esta experiência ímpar de reflexão filosófica. Entre nós, Júlio Cabrera, argentino professor da Universidade de Brasília, estabelece em suas obras relações sobre cinema e filosofia, sem esquecer Edgar Morin, sociólogo e filósofo contemporâneo, que também dedica parte de sua produção às questões cinematográficas. Há uma vasta produção literária e filosófica sobre cinema, tanto no Brasil como no exterior. Explorar estas concepções e relações aumenta muito o prazer de assistir aos filmes.

Qual a visão, em geral, que o jovem universitário tem, hoje, do cinema? Dá para generalizar?

Não tenho tantos contatos assim com um número grande de universitários para poder generalizar uma concepção de visão deles sobre o cinema. A generalização seria perigosa pois seria parcial, de apenas alguns alunos de cursos superiores. Aqueles com quem mantenho conversas e mesmo aqueles que participam das reuniões dos grupos têm manifestado uma curiosidade e uma vontade de conhecer mais, instigados pelos filmes e debates que se seguem. Conheço também muitos alunos, jovens ainda, que são “cinéfilos” de carteirinha, com muita informação e referências de cinema, de causar inveja.

Nas investidas com este público, pensando na introdução do cinema, qual são os cineastas e filmes que você tem trazido às discussões?

Na introdução ao cinema a um público novo, gosto de fazer um apanhado geral da história e da evolução da linguagem cinematográfica, simples e didática: a partir dos Irmãos Lumière, de Mélliès, Eisenstein, Griffith. O primeiro sucesso popular de filme com trilha sonora sincronizada de OCantordeJazz, a exploração da cor em technicolor de …EoVentoLevou, ou de OMágicodeOz, passando pelos filmes referências do expressionismo alemão (O Gabinete do Dr. Calligari ou Nosferatu), do surrealismo (UmCãoAndaluz), o neorrealismo italiano (Roma,CidadeAberta, LadrõesdeBicicleta), a época de ouro do cinema norte-americano (Casablanca), a nouvelle vague francesa (Acossado, Osincompreendidos), o cinema dos anos 1970 (Sem Destino, A Primeira Noitedeum Homem, PerdidosnaNoite). Enfim, destaco apenas alguns filmes mais conhecidos, mas que auxiliam a despertar a necessidade de um conhecimento mais aprofundado, que poderá vir a seguir.

Existe alguma obra que você considera chave a essa introdução?

Não posso escolher um filme “chave” para esta introdução. Considero importante destacar a construção de uma linguagem própria cinematográfica a partir de A ChegadadoTrem à Estação (Lumière), passando por ViagemàLua (Mélliès), seguindo com Intolerância (Griffith) até EncouraçadoPotemkin (Eisenstein).

Já foi confrontado por algum aluno, ou mesmo alguém do público nestes encontros?

Não me recordo de ter sido “confrontado”. Não sei em que sentido a expressão foi empregada. Se já me deparei com atitudes, ou manifestações críticas, claro, fazem parte do debate, da discussão. O cinema proporciona inúmeras interpretações. Em geral, considero que o entusiasmo que manifesto nas sessões, o prazer de compartilhar ideias, reflexões, visões, a partir de filmes, fazem com que as participações sejam amistosas, animadas, alegres. Por conta disto, procuro me preparar bem para conduzir cada encontro: revejo o filme a ser exibido, estudo sua ficha técnica, confronto elenco, diretores, produtores, leio críticas e comentários sobre a obra, faço referências ao contexto histórico de seu tema ou de sua produção, para dominar o maior número de informações possíveis e fundamentar as discussões e os debates, para que todos, ou pelo menos boa parte dos presentes, ao final vejam “outro filme depois do filme”.

No campo de sua vida pessoal, como surgiu a paixão pelo cinema? Você assistia filmes durante sua graduação, em faculdades, quando era jovem?

Minhas lembranças de cinema são de infância e as devo muito a meus pais. Meu pai trabalhava como gerente de cinema. Minha mãe sempre gostou de cinema e comentava muitos sobre vários filmes. Sempre morei em bairro de São Paulo, numa época em que os cinemas de rua ainda existiam e eram uma das poucas diversões populares. Passava boa parte de meus dias no cinema, vendo e revendo filmes de todos os tipos e origens: brasileiros, espanhóis, franceses, mexicanos, italianos, japoneses e, claro, americanos. Era um pouco como o menino Totó de CinemaParadiso. Colecionava fotogramas, assistia ao filme da cabine de projeção e, como Truffaut (de A NoiteAmericana), colecionava cartazes e fotos de filmes. Depois, quando já cursava direito na PUC-SP, não perdia a oportunidade assistir aos filmes mais importantes, nos cinemas ou mesmo as exibições especiais promovidas pelos grêmios estudantis.

O que alguém como você, um adorador de Alfred Hitchcock, pensa do cinema americano atual?

Gosto muito do cinema americano, cresci com ele nas décadas de 1950 e 1960. Hitchcock tem muita importância para mim, sua filmografia, sua história, sua aguda e sarcástica apreciação da alma humana, dos dilemas e angústias humanas, que são universais. Que o diga Kurosawa, não é? Mas não é o único. Gosto muito de outras obras de outros diretores, de outras origens inclusive. O cinema norte-americano sempre viveu o dilema da pressão da indústria, do espetáculo, do mercado, em confronto com a qualidade dos filmes. Mesmo na época de grande produção americana dos anos 1940, não se pode negar que Hollywood produziu obras memoráveis e de notável qualidade artística, embora os grandes estúdios priorizassem sempre os lucros da produção. Hoje temos uma proliferação de filmes com grande apelo popular – ou, diria melhor, adolescente – porque este é o mercado a ser atingido e que dá retorno. Nem sempre estes “blockbusters”, que inundam a maioria das salas de cinema dos grandes centros de consumo, ficam marcados por sua qualidade e contribuição artística cinematográfica. É uma pena, porque acabam ocupando os cinemas e diminuem o espaço para outras obras, americanas ou não. Há bons filmes que acabam não sendo exibidos, e, quando são, ou ficam muito pouco tempo em cartaz, em apenas uma sala, num horário “alternativo”, ou vão direto para as locadoras em formato DVD, quando vão. Quantos filmes exibidos nas sessões da Mostra de São Paulo, por exemplo, seguem em carreira comercial? Alguns poucos. Outros tantos (ANostalgiadaLuz é um exemplo) são relegados ao acesso apenas na internet, porque nem em DVD são lançados. Este é um efeito perverso de filmes financiados por poderosos grupos econômicos, destinados ao consumo rápido e juvenil.

Entre aulas, debates e muito trabalho, resta tempo para ver tantos filmes recentes no cinema? O que assistiu de bom nos últimos meses nas grandes salas?

Resta tempo, sim, para ir ao cinema. Ir ao cinema faz um bem imenso. É uma experiência única. Mas tenho que selecionar bem o filme e a sala, porque o tempo é pouco. Escolho os filmes pela importância de sua produção, pelo tema abordado, pelo diretor e atores. Escolho o cinema pela qualidade de sua projeção e som. E, se possível, porque nem sempre é, sessões mais vazias. Assisti e gostei de Hugo, de Martin Scorsese, por razões óbvias. E de O Artista também. Gostei demais de A Separação, de Asghar Farhadi. Vi AÁrvoredaVida e Melancolia. Adorei UmConto Chinês. Gostei muito de OPalhaço.

O cinéfilo tende a ser um ser solitário ou o contrário, um ser com facilidade de se socializar devido ao convívio com outros, em uma sala escura?

Não me considero cinéfilo, mas um amante de cinema e de tudo o que lhe diga respeito. Sou um “cinemeiro”. Gosto de estudar, de ler, de escrever e preparar aulas sobre filmes, sobre autores, sobre o cinema. Eu gosto do cinema. E compartilho este prazer com muita gente (amigos, alunos, professores). Não há solidão no cinema. Você sempre está em boa companhia: Humphrey Bogart, Penélope Cruz, Ingrid Bergman, Grace Kelly, Woody Allen, Charles Chaplin. Quem poderia querer mais?

Existe algum risco de a internet acabar com o ritual coletivo de ir ao cinema?

O cinema, ao longo de sua história, foi sempre confrontado por outras tecnologias. Quando silencioso, sofria a concorrência do rádio. Depois, com a televisão, teve que aumentar as dimensões da tela e produzir em cores e com som estereofônico. Depois com a técnica em 3D. A internet, não se pode negar, é a “senhora” de nossos tempos. Mas não tem a magia do “escurinho do cinema”. E não impedirá o que você chama de “ritual coletivo de ir ao cinema”, se contarmos com os trabalhos de todos os amantes, cinéfilos e educadores apaixonados pela sétima arte.

Rafael Amaral (09/05/2012)