Monte Carlo

Stroheim segundo Jean Renoir

Ele me ensinou muita coisa. O mais importante desses ensinamentos talvez seja que a realidade só passa a ter valor quando submetida a uma transposição. Em outras palavras, só é artista aquele que consegue criar seu pequeno mundo. Não é nem em Paris, nem em Viena, nem em Monte Carlo ou Atlanta que vivem os personagens de Stroheim, de Chaplin, de Griffith. Eles vivem no mundo de Stroheim, de Chaplin, de Griffith.

Mais tarde, tive a honra de ter Stroheim como intérprete de A Grande Ilusão. Ele fez tudo para me fazer esquecer que ele havia sido um dos profetas de nossa profissão. Sou-lhe grato por isso, mas menos que pelas lições essenciais que ele me dera, vinte anos antes.

Jean Renoir, cineasta, em texto escrito no início de 1959 e reproduzido no livro O Passado Vivo, reunião de artigos do próprio Renoir (Editora Nova Fronteira; pg. 117). Abaixo, Stroheim, Jean Gabin e Pierre Fresnay dividem a cena em A Grande Ilusão.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a-grande-ilusao

Veja também:
15 comédias malucas e inesquecíveis do cinema clássico

Esposas Ingênuas, de Erich von Stroheim

A mudança do Conde Sergius Karamzin é constante. Sua face transforma-se e do suposto bom homem sai um estranho sorriso. É seu flerte com o mal, sua revelação em Esposas Ingênuas: torna-se o aproveitador que deseja conquistar mulheres e ganhar dinheiro.

O diretor Erich von Stroheim também acumula a personagem central. Sua história de linhas simples passa-se em Monte Carlo, Mônaco, onde Sergius e duas primas – ou amantes disfarçadas – arrendaram uma mansão para aplicar golpes.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

esposas ingenuas2

Famoso por lutar contra as regras dos estúdios, Stroheim compõe um filme sobre ambição e máscaras. Parte das sequências ocorre em cenários verdadeiros. Em momentos, fica a impressão de que o diretor apropriou-se de verdadeiras multidões, com soldados, gente para todos os lados, para levar a seu filme.

Como se veria depois no extraordinário Ouro e Maldição, homens e mulheres tem o mesmo peso. Por todos os lados, a traição, o desejo, a mistura de diferentes intenções que não suportam o jogo de aparências: o aproveitador e seu terno branco, o cassino improvisado na mansão e seus papéis falsos para enganar os convidados.

Os trapaceiros não se transformam em suas personagens apenas para percorrer ruas, salões e cassinos. Eles vivem sob as formas de suas personagens, inclusive com gestos de gente poderosa, à mesa, também na forma como se dirigem à criada.

É até possível acreditar, em dado momento, nos sentimentos de Sergius, quando fala em seu sobrenome, ou quando lamenta ter de apelar a algumas atitudes para sobreviver. É como se acreditasse em sua própria personagem – parte da construção cruel do diretor.

Ainda que pareça apenas um drama frívolo de idas e vindas, ao qual se acrescenta o sorriso do marido traído, Stroheim constrói sequências que beiram a loucura e não poupa o espectador de tamanho cinismo.

esposas-ingenuas

Ao descobrir, pelo jornal, que Monte Carlo acaba de receber um importante líder americano, Sergius é tentado a conquistar sua mulher. As primas fazem parte de toda sua mentira: enquanto ele lança charme à dama casada, as demais se incumbem de passear com o outro homem, entre pequenos barcos e salões movimentados.

Em uma dessas saídas, Stroheim dá vez à melhor sequência do filme: em meio à tempestade, Sergius carrega a mulher casada (Miss DuPont) pelo rio, até chegar à pequena casa de uma senhora estranha e desdentada.

Passam a noite por ali. Enquanto a mulher dorme, Sergius observa-a como um vampiro próximo a atacar sua vítima, atitude a ser repetida mais tarde, no desfecho. O homem despe-se facilmente da personagem galante e respeitadora.

Nem mesmo a empregada está livre das mentiras de Sergius. Para retirar seu dinheiro, o pouco que economizou com trabalho duro, ele recorre à rápida transformação: cobre a face com as mãos e joga pingos de água na mesa, como se fossem lágrimas.

Não raro, a obra de Stroheim mostra-se aterrorizante: a liberalidade daquele paraíso é apenas uma fachada. Impera o jogo, a interpretação, o jeito do ator central em não ser ninguém senão sua própria personagem, homem dentro de outro, que pode mostrar bravura em alguns momentos e o exato oposto segundos depois.

Quando escala uma casa para abusar da menina deficiente que vive em seu interior, o espectador percebe que Sergius é realmente capaz de tudo. Alguém difícil de classificar, eternizado pelo poder de Stroheim, à sua forma camaleônica.

(Foolish Wives, Erich von Stroheim, 1922)

Nota: ★★★★★

Veja também:
John Ford, anos 30