Mônica e o Desejo

Oito características para mergulhar no universo de Ingmar Bergman

De tão grande, deu vida a um universo próprio, o bergmaniano. Das histórias lineares às penetrações na alma humana, Ingmar Bergman construiu um cinema autoral. Algumas de suas principais características podem ser vistas na lista abaixo, que, bom lembrar, não pretende resumir sua obra – com 70 créditos de direção, incluindo filmes para a televisão e documentários que registram a realização de seus próprios trabalhos.

8) A ligação com o passado

A ligação de algumas personagens de Bergman com o passado é tão grande que elas chegam a vê-lo diante dos olhos. Melhor exemplo está em Morangos Silvestres, na viagem que um velho professor faz para receber uma condecoração, momento em que se encontra com o passado. Em outro caso, a psiquiatra de Face a Face vê-se perturbada pelas memórias de sua infância. Não raro, os filmes de Bergman exploram situações de sua vida, como traumas de infância, a exemplo do famoso e premiado Fanny & Alexander. Há também as personagens construídas a partir de figuras e ambientes que ele frequentava, como pastores, igrejas e o cristianismo que passam por vários de seus longas, como Luz de Inverno.

7) O isolamento

Em seus mergulhos em seres perturbados, Bergman muitas vezes contou histórias de pessoas isoladas. Em Luz de Inverno, por exemplo, o pastor e protagonista percebe-se sem respostas, em uma igreja vazia. Em O Sétimo Selo, um ator está sozinho (ou quase) quando se refugia sobre uma árvore, na floresta, pouco antes de encontrar a morte.

Para muitas dessas histórias, Bergman contou com um ambiente perfeito, a ilha de Fårö. O espaço em questão tem grande importância para o cineasta. É o local onde se estabilizou, onde viveu por pelo menos 40 anos. Rodou ali grandes filmes, entre eles alguns que marcaram uma virada em sua carreira, como Através de um Espelho, sobre uma família que se mobiliza para lidar com os transtornos mentais de uma mulher, e o sempre lembrado Quando Duas Mulheres Pecam, no qual duas mulheres vivem alguns dias de isolamento.

“O cineasta encontrou aqui a calma necessária para se submeter à disciplina rígida que sempre buscou, a fim de respeitar suas loucuras”, diz Hervé Aubron ao visitar a ilha, em texto publicado na revista Cahiers du Cinéma na ocasião da morte de Bergman, em 2007.

6) Transtornos mentais

Em Através de um Espelho, Harriet Andersson tem um grande momento como uma esquizofrênica que estaria buscando uma comunicação com Deus. Sobre essa personagem, Bergman diz que sua intenção era “apresentar um caso de histeria religiosa ou, se quisermos, uma esquizofrenia do tipo religioso”.

Anos depois, com A Hora do Lobo, o mestre consegue outro retrato devastador de uma personagem com transtornos mentais. Vivido por Max von Sydow, o protagonista mora em um local isolado com a esposa grávida (Liv Ullmann). Ali, ele é atormentado por seus pesadelos. A parceira Ullmann seria a protagonista, ainda depois, de Face a Face, outra obra de Bergman que aborda o desequilíbrio mental.

5) O teatro

Além de grande cineasta e escritor, Bergman foi um homem do teatro. Trabalhou nos palcos e adaptou autores famosos. Às telas, naturalmente, levaria esse universo que conhecia tão bem. Em Noites de Circo, o espectador acompanha as confusões amorosas de uma trupe circense que se prepara para um novo espetáculo. Em O Rosto, moradores céticos de uma cidade tentam desmascarar um mágico e seu grupo de artistas.

Em muitos de seus trabalhos, Bergman nunca escondeu a farsa em tons teatrais, como em suas comédias. Basta pensar no pouco lembrado O Olho do Diabo, no qual Don Juan (Jarl Kulle) é convocado pelo Diabo (Stig Järrel) para voltar a Terra e tentar seduzir uma jovem virgem (Bibi Andersson) prestes a se casar. A direção de atores e o texto, sem qualquer naturalismo, têm inegável relação com o teatro.

4) A tentativa de penetrar o universo feminino

As mulheres estão no centro do cinema de Bergman. O cineasta viveu com muitas, dirigiu outras várias. Suas histórias dão poder às mulheres, a começar pela Monika de Mônica e o Desejo, em seu verão libertador ao lado do rapaz que não pode domá-la. Ela (Harriet Andersson) foge com ele (Lars Ekborg) em um barco. Vivem dias à deriva, longe da sociedade. Mas nem tudo sai como desejavam e, a certa altura, são obrigados a retornar.

Com Mônica e o Desejo, Bergman libertou o corpo feminino no cinema. É um filme moderno por excelência, no qual sua personagem encara a câmera na sequência mais famosa, na qual explicita a cumplicidade do público e ainda lhe devolve uma carga erótica poucas vezes vista no cinema. É o filme, em suma, em que a mulher é liberta.

Outros vários filmes tentariam dar conta do olhar feminino, de suas projeções, de suas particularidades. Quando Duas Mulheres Pecam, claro, deve ser citado como uma das mais interessantes entre essas tentativas de mergulho, estudo profundo da identidade. Também vale lembrar, entre tantos, dos extraordinários O Silêncio e Face a Face.

3) A morte

Bergman deu corpo e forma à morte em O Sétimo Selo, no qual essa figura feita a preto, da cabeça aos pés, de rosto marcado como o de um palhaço, convida um cavaleiro para sua derradeira partida de xadrez. O cineasta confessa que foi na época desse filme que começou a lidar melhor com a morte. Antes, causava-lhe medo pensar na possibilidade de não encontrar nada após a vida senão um vazio. Ou seja, o nada. “Naquele tempo, eu ainda vivia com uns restos estiolados de uma fé de criança”, diz Bergman, sobre O Sétimo Selo, em Imagens.

Anos mais tarde vem Gritos e Sussurros, talvez seu filme mais duro, feito em tintas vermelhas, com as mulheres que cercam sua irmã moribunda (Harriet Andersson), à beira da morte. Um filme não sobre o fim, mas sobre o que fica, como as lembranças e a atitude dos outros em relação àquele que se despede. Obra para chamar de perfeita.

2) Os closes

O cineasta sueco é famoso por esculpir faces. Toda a vida humana em um rosto. Em artigo na Folha de S. Paulo, o ator e diretor Guilherme Weber argumenta que Bergman resgatou o poder do close no cinema após os diálogos começarem a carregar muitos significados e não exigir tanto a aproximação da câmera, com o advento do cinema falado, e após a televisão roubar o close para si. “Durante certo tempo, o cinema fugiu do rosto em primeiro plano para se diferenciar dessa estética televisiva, mas alguns diretores souberam resgatar o close-up e dar a ele seu próprio significado. Ingmar Bergman foi o mestre nisso”, opina Weber.

No mesmo artigo, o ator e diretor cita uma frase de Bergman que dá uma boa ideia da importância da face para o diretor: “O rosto é um teatro em está nu, ele chega antes de mim, ele me significa para os outros. O rosto no cinema tende a adquirir autonomia a partir do close, esse monstro figurativo que dá expressão a tudo, mesmo às coisas”.

A face explode, expande, como forma de ver o ser, a alma, em praticamente todos os filmes de Bergman. Em Quando Duas Mulheres Pecam, faces de duas mulheres chegam a se fundir na tela – e é provável que alguns espectadores acreditem ver uma só personagem. Uma alimenta-se da outra, vive pela outra, integra-se à outra.

1) O silêncio de Deus

Em mais de um filme de Bergman, as personagens não têm respostas às tragédias do mundo. A tentativa de comunicação com Deus é frustrada, ou se dá por caminhos estranhos. Filho de pastor luterano, Bergman tinha motivos de sobra para crer e, ao que tudo indica, a partir de seus escritos, seguiu acreditando em Deus até boa parte da vida.

À frente, seu cinema expressará dúvidas e crises de fé, entre obras que deixam um respiro de esperança, como O Sétimo Selo, e outras aprisionantes, que não oferecem saída às personagens, como No Limiar da Vida ou A Hora do Lobo.

Outras vezes, mesmo trabalhando com roteiros que não escreveu, Bergman não deixa claro se é possível se apegar ao imaterial ou ouvir a voz Divina. Em A Fonte da Donzela, o pai (Max von Sydow) grita para Deus após matar os assassinos de sua filha e encontrar o corpo da moça. A resposta é um milagre: uma fonte de água nasce no local em que estava o cadáver. Uma resposta supostamente divina após uma série de atos violentos.

Entre todas as obras de Bergman, nenhuma faz pensar tanto no silêncio de Deus como Luz de Inverno. Pequeno grande filme que o diretor considerava sua realização mais feliz, sobre um pastor (Gunnar Björnstrand) que não consegue diminuir as aflições de um dos membros de sua comunidade (Max von Sydow), então perto de se suicidar. Filme triste, frio, direto, às vezes silencioso, no qual os sinais religiosos resumem-se à arquitetura e às esculturas da igreja em que está seu protagonista.

Filmes das imagens acima, na ordem mostrada: Fanny & Alexander, Através de um Espelho, A Hora do Lobo, Noites de Circo, Mônica e o Desejo, Gritos e Sussurros, Quando Duas Mulheres Pecam e Luz de Inverno.

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Bergman encara a morte

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Bastidores: Mônica e o Desejo

Desdenhado quando de sua estreia no circuito comercial, Monika é um filme do mais original dos cineastas e é para o cinema de hoje o que O Nascimento de uma Nação foi para o cinema clássico. Assim como Griffith influenciou Sergei Eisenstein, Abel Gance, Fritz Lang, Monika levou ao apogeu, com cinco anos de vantagem, esse renascimento do jovem cinema moderno que tinha por sumos sacerdotes um Fellini, na Itália, um Aldrich, em Hollywood, em um Vadin (ou será que nos enganamos?), na França.

Jean-Luc Godard, cineasta, sobre o filme Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman. Texto publicado na revista Arts, em julho de 1958.

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Última Felicidade, de Arne Mattsson

Os jovens não suportam viver sob o julgamento dos outros. Eles dançam e se divertem em Última Felicidade, de Arne Mattsson, ambientado no campo. Contra eles está o olhar corrosivo do pároco, representação do passado, do conformismo.

O ambiente repressivo leva mais uma vez ao confronto entre tradição e modernidade – entre os jovens pecadores e os religiosos. À mesa, o pároco fala sobre o desrespeito aos domingos, sobre o problema das danças, do teatro, dessa diversão.

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Quando o protagonista questiona ele sobre a tolerância cristã, seu gesto é rápido: levanta-se e fecha a janela, como se o barulho de fora – os jovens que se divertem aos domingos – fosse um insulto à ordem religiosa.

O protagonista é um rapaz da cidade, Göran Stendahl (Folke Sundquist), que vai ao campo passar um tempo com o tio. O que seria uma temporada estende-se: o filme de Mattsson baseia-se na passagem das estações, entre o verão de libertação e o inverno triste, entre o calor dos jovens e constatação, ao fim, da frieza da morte.

Aqui, Göran será julgado ainda no início, quando chega ao cemitério. Os outros o encaram como a doença que veio de fora, responsável por levar uma jovem à perdição – mas nem todos estão convencidos disso, ou tomados pelas ideias e palavras do pároco.

As imagens de Mattsson levam ao amor idealizado, ao jovem forte, irretocável, cuja face deixa saber cedo sobre sua bondade. A menina, sua amada, oferece o mesmo: é o anjo que se despe – como a Mônica de Ingmar Bergman, ainda mais importante quando o assunto é sexo no cinema – e que não deixa dúvidas.

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Kerstin (Ulla Jacobsson) vai dos 14 aos 17 anos sem mudar. Mulher forte, ao mesmo tempo a adolescente em dúvida, sob a pressão dos outros – do pároco, de sua ajudante mais velha, do homem com aparente deficiência mental e que ronda os ambientes, como uma criança, ou apenas um servo cego da Igreja. Homem em estado infantil.

Ela ainda resiste em sua forma angelical, e o filme não se inclina ao cinismo. Se a Mônica de Harriet Andersson toma o protagonismo de seu universo e confronta o espectador, Kerstin é mantida presa e incompreendida.

O filme tem sequências incríveis. Mattsson apresenta o paraíso dos jovens vivos, rebeldes, sob a luz brilhante que emana do fundo e delineia os corpos – também a luz que quase não deixa vê-los quando estão nus na água.

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Em outra situação, o casal central entrega-se ao desejo: estão juntos e sozinhos (ou quase) em uma noite chuvosa, no pequeno cômodo de madeira de Kerstin. Raios e trovões sintetizam o conflito contra os outros, a abalar o suposto paraíso.

Depois de encarar os moradores do campo, Göran foge do cemitério. À beira do lago, a câmera toma distância e passa entre a vegetação que sai das águas. O rapaz aos poucos desaparece. Sobram a natureza bruta e certo vazio.

O amor idealizado não sobrevive ao velho mundo totalitário da igreja, à velha ordem de seus líderes, sequer ao homem infantil que nada sabe sobre a vida senão o que parece bom e o que não parece. O casal ao centro não cabe na percepção simplista da maioria.

Nota: ★★★★☆

Cinco atrizes que erotizaram o cinema nos anos 50

O cinema moderno tem grande dívida com algumas atrizes e seus diretores. Algumas marcaram época em mais de um filme. Para outras, bastou uma cena. Quando o cinema passou a abordar a sexualidade de maneira aberta, após o fim da Segunda Guerra Mundial, algumas mulheres desafiaram os bons costumes e o puritanismo.

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Um tempo de mudanças, da libertinagem na contramão do suposto fim do mundo, dos conflitos políticos e perseguições, como o macarthismo. Tempo de “Rock Around the Clock”, de jovens protagonistas como James Dean, de Saint-Tropez e do “viver o hoje”.

Harriet Andersson

Demorou um pouco para Mônica e o Desejo ser reconhecido como divisor de águas. Até então, nenhum filme havia tratado a sexualidade com tamanha naturalidade. Como Mônica, Harriet Andersson guarda inocência e libertinagem, e chega mesmo a encarar o espectador – no “plano mais triste da história do cinema”, como diria Jean-Luc Godard.

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Melina Mercouri

Misto da mulher livre de sua época e, ao mesmo tempo, com expressões que remetem às damas do cinema clássico, como Gilda e Lola Lola. Na pele da personagem Stella, da obra de Mihalis Kakogiannis, ela reivindica sua posição ao palco. Livre, coloca os homens a seus pés: não quer casar ou ter relacionamentos duradouros, apenas viver.

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Marilyn Monroe

Diferentes filmes mostram Monroe como a mulher desejável, capaz de captar o olhar da cinefilia da época. Desde Os Homens Preferem as Loiras, ou mesmo como a cantora de O Rio das Almas Perdidas, chegando à bela laçada de Nunca Fui Santa, Marilyn dá vida à deusa do sexo, de rosto angelical, ainda assim feita de pura carne.

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Brigitte Bardot

Logo na abertura de E Deus Criou a Mulher, a loura Bardot está nua, ao sol, e pede ajuda do homem para se cobrir. Assim, Roger Vadim sintetiza as mudanças da época. Ao lado da atriz, há a exploração do paraíso, Saint-Tropez, refúgio ideal nos tempos da Guerra Fria – ao qual iria Godard com seu O Desprezo, e justamente com Bardot.

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Jeanne Moreau

Nada poderia preparar o espectador para o escândalo de Amantes, de Louis Malle, lançado em 1958. É sobre uma mulher entediada com o casamento e à procura de novas aventuras. A certa altura, leva o amante para casa e, no dia seguinte, escolher fugir com ele. A traição é quase aventura obrigatória, inconsequente e desesperada.

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