Mônica e o Desejo

Bastidores: Mônica e o Desejo

Desdenhado quando de sua estreia no circuito comercial, Monika é um filme do mais original dos cineastas e é para o cinema de hoje o que O Nascimento de uma Nação foi para o cinema clássico. Assim como Griffith influenciou Sergei Eisenstein, Abel Gance, Fritz Lang, Monika levou ao apogeu, com cinco anos de vantagem, esse renascimento do jovem cinema moderno que tinha por sumos sacerdotes um Fellini, na Itália, um Aldrich, em Hollywood, em um Vadin (ou será que nos enganamos?), na França.

Jean-Luc Godard, cineasta, sobre o filme Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman. Texto publicado na revista Arts, em julho de 1958.

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Última Felicidade, de Arne Mattsson

Os jovens não suportam viver sob o julgamento dos outros. Eles dançam e se divertem em Última Felicidade, de Arne Mattsson, ambientado no campo. Contra eles está o olhar corrosivo do pároco, representação do passado, do conformismo.

O ambiente repressivo leva mais uma vez ao confronto entre tradição e modernidade – entre os jovens pecadores e os religiosos. À mesa, o pároco fala sobre o desrespeito aos domingos, sobre o problema das danças, do teatro, dessa diversão.

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Quando o protagonista questiona ele sobre a tolerância cristã, seu gesto é rápido: levanta-se e fecha a janela, como se o barulho de fora – os jovens que se divertem aos domingos – fosse um insulto à ordem religiosa.

O protagonista é um rapaz da cidade, Göran Stendahl (Folke Sundquist), que vai ao campo passar um tempo com o tio. O que seria uma temporada estende-se: o filme de Mattsson baseia-se na passagem das estações, entre o verão de libertação e o inverno triste, entre o calor dos jovens e constatação, ao fim, da frieza da morte.

Aqui, Göran será julgado ainda no início, quando chega ao cemitério. Os outros o encaram como a doença que veio de fora, responsável por levar uma jovem à perdição – mas nem todos estão convencidos disso, ou tomados pelas ideias e palavras do pároco.

As imagens de Mattsson levam ao amor idealizado, ao jovem forte, irretocável, cuja face deixa saber cedo sobre sua bondade. A menina, sua amada, oferece o mesmo: é o anjo que se despe – como a Mônica de Ingmar Bergman, ainda mais importante quando o assunto é sexo no cinema – e que não deixa dúvidas.

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Kerstin (Ulla Jacobsson) vai dos 14 aos 17 anos sem mudar. Mulher forte, ao mesmo tempo a adolescente em dúvida, sob a pressão dos outros – do pároco, de sua ajudante mais velha, do homem com aparente deficiência mental e que ronda os ambientes, como uma criança, ou apenas um servo cego da Igreja. Homem em estado infantil.

Ela ainda resiste em sua forma angelical, e o filme não se inclina ao cinismo. Se a Mônica de Harriet Andersson toma o protagonismo de seu universo e confronta o espectador, Kerstin é mantida presa e incompreendida.

O filme tem sequências incríveis. Mattsson apresenta o paraíso dos jovens vivos, rebeldes, sob a luz brilhante que emana do fundo e delineia os corpos – também a luz que quase não deixa vê-los quando estão nus na água.

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Em outra situação, o casal central entrega-se ao desejo: estão juntos e sozinhos (ou quase) em uma noite chuvosa, no pequeno cômodo de madeira de Kerstin. Raios e trovões sintetizam o conflito contra os outros, a abalar o suposto paraíso.

Depois de encarar os moradores do campo, Göran foge do cemitério. À beira do lago, a câmera toma distância e passa entre a vegetação que sai das águas. O rapaz aos poucos desaparece. Sobram a natureza bruta e certo vazio.

O amor idealizado não sobrevive ao velho mundo totalitário da igreja, à velha ordem de seus líderes, sequer ao homem infantil que nada sabe sobre a vida senão o que parece bom e o que não parece. O casal ao centro não cabe na percepção simplista da maioria.

Nota: ★★★★☆

Cinco atrizes que erotizaram o cinema nos anos 50

O cinema moderno tem grande dívida com algumas atrizes e seus diretores. Algumas marcaram época em mais de um filme. Para outras, bastou uma cena. Quando o cinema passou a abordar a sexualidade de maneira aberta, após o fim da Segunda Guerra Mundial, algumas mulheres desafiaram os bons costumes e o puritanismo.

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Um tempo de mudanças, da libertinagem na contramão do suposto fim do mundo, dos conflitos políticos e perseguições, como o macarthismo. Tempo de “Rock Around the Clock”, de jovens protagonistas como James Dean, de Saint-Tropez e do “viver o hoje”.

Harriet Andersson

Demorou um pouco para Mônica e o Desejo ser reconhecido como divisor de águas. Até então, nenhum filme havia tratado a sexualidade com tamanha naturalidade. Como Mônica, Harriet Andersson guarda inocência e libertinagem, e chega mesmo a encarar o espectador – no “plano mais triste da história do cinema”, como diria Jean-Luc Godard.

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Melina Mercouri

Misto da mulher livre de sua época e, ao mesmo tempo, com expressões que remetem às damas do cinema clássico, como Gilda e Lola Lola. Na pele da personagem Stella, da obra de Mihalis Kakogiannis, ela reivindica sua posição ao palco. Livre, coloca os homens a seus pés: não quer casar ou ter relacionamentos duradouros, apenas viver.

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Marilyn Monroe

Diferentes filmes mostram Monroe como a mulher desejável, capaz de captar o olhar da cinefilia da época. Desde Os Homens Preferem as Loiras, ou mesmo como a cantora de O Rio das Almas Perdidas, chegando à bela laçada de Nunca Fui Santa, Marilyn dá vida à deusa do sexo, de rosto angelical, ainda assim feita de pura carne.

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Brigitte Bardot

Logo na abertura de E Deus Criou a Mulher, a loura Bardot está nua, ao sol, e pede ajuda do homem para se cobrir. Assim, Roger Vadim sintetiza as mudanças da época. Ao lado da atriz, há a exploração do paraíso, Saint-Tropez, refúgio ideal nos tempos da Guerra Fria – ao qual iria Godard com seu O Desprezo, e justamente com Bardot.

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Jeanne Moreau

Nada poderia preparar o espectador para o escândalo de Amantes, de Louis Malle, lançado em 1958. É sobre uma mulher entediada com o casamento e à procura de novas aventuras. A certa altura, leva o amante para casa e, no dia seguinte, escolher fugir com ele. A traição é quase aventura obrigatória, inconsequente e desesperada.

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Jean-Luc Godard, cineasta, sobre o filme Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman. Texto publicado na revista Arts, em julho de 1958.

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