Milos Forman

Milos Forman (1932-2018)

Fazer cinema é como amar: você tem que sentir um frio na barriga a cada nova paixão. Eu não sinto mais essa sensação. Então não há o que contar. E, no meu caso, se não há desejo, não há como dar prosseguimento ao tipo de obra que eu construí, centrada no embate entre o indivíduo e as instituições.

(…)

Para fazer um filme, você precisa de tempo para entender o que ele representa, como narrativa, como linguagem, como gesto político. Não tenho mais esse tempo. Estou velho. Não houve problemas com Hollywood, até porque, nos EUA, onde vivo como cidadão naturalizado americano, ninguém jamais será tratado como artista excluído se tiver ideias minimamente rentáveis, por mais polêmicas que sejam. A questão comigo hoje é mais do que cansaço. É a sensação de que não há mais interesse pela verdade individual. Ninguém mais quer se debruçar sobre o ponto de vista de um autor e dissecar seus sentimentos. E cinema para mim é compartilhar verdades minhas e trocá-las pelas verdades dos outros, a verdade do espectador, do crítico.

(…)

Tecnologia nenhuma é difícil de dominar quando você entende da técnica do cinema. Mas de nada adianta um parque tecnológico sofisticado se você não tiver uma boa história para contar. Esse é o paradoxo estético do cinema.

Milos Forman, em entrevista ao jornal O Globo (junho de 2014; leia a entrevista completa aqui). Abaixo, o cineasta nos bastidores de Um Estranho no Ninho, que lhe rendeu o primeiro Oscar de melhor diretor.

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Qual o segredo de seu apelo?

Eu não sei. Quando era adolescente e no começo de meus 20 anos, meus amigos costumavam me chamar de “O Grande Sedutor” – mesmo que eles soubessem que eu não era definitivamente nada atraente – porque parece que eu possuo alguma coisa invisível, mas infalível.

E agora, como ator, você é pago por isso. A sedução é seu negócio.

(Risos) Certo. Mas não quero forçar minha vontade em cima de ninguém. Quero ter a vontade. Quero que seja do modo que é, e acredite em mim, do jeito que é (abre um enorme sorriso) é bom pra caramba.

Jack Nicholson, ator e diretor, em entrevista para Nancy Collins, na revista Rolling Stone (29 de março de 1984; a entrevista foi reproduzida no livro As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stone, editora Larousse, pg. 198). A entrevista ocorreu às vésperas da cerimônia do Oscar de 1984, na qual Nicholson recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante por Laços de Ternura, de James L. Brooks. Abaixo, o ator em um de seus trabalhos mais famosos, Um Estranho no Ninho, de Milos Forman.

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Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Demora um pouco para R.P. McMurphy descobrir que ser louco não significa negar as regras do sistema. No sanatório ao qual foi enviado, ser louco é justamente o contrário: ter medo das mudanças.

Pois McMurphy deseja-as a todo instante em Um Estranho no Ninho, de Milos Forman. Não serve à prisão ou ao sanatório, um homem de espírito livre que nega qualquer forma de ordem em um tempo de desordem e contestação. Um desajustado.

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Imaginativo, raivoso, engraçado, McMurphy representa o confronto com o sistema; é alguém indecifrável que poderia estar em uma prisão, mas foi classificado como louco e, por isso, levado ao sanatório. Mostra-se malandro, de lábia aguda, ao mesmo tempo estranhamente amável graças aos pedidos por mudança.

Sua chegada deixa um rastro de loucura. E só. Logo sobra um homem aos pedaços, depois com quase a nada, obrigado a imaginar – e narrar – um jogo que não teve a oportunidade de assistir pela pequena televisão. Sua imaginação e seus argumentos serão capazes de confrontar a personificação da ordem e da frieza nos traços da enfermeira Ratched (Louise Fletcher).

O filme estrutura-se nesse embate e Ratched, quase irreal, nem sempre parece ser uma vilã. É calculista, controlada. Seu lado supostamente sádico nunca se revela. Sempre há uma dúvida sobre seus problemas e os problemas do próprio sistema – o que leva a um ou ao outro, ou se ambos não são, na verdade, a mesma coisa.

Quem produz os loucos? É o que Forman questiona, com o roteiro de Lawrence Hauben e Bo Goldman, a partir da obra de Ken Kesey.

McMurphy resiste, luta e, para provar força, tenta arrancar um bebedouro preso ao chão. Nem sempre chega a tanto. É melhor com palavras, com a encenação da loucura, com a fúria que o leva justamente à humanidade. Estranho e cativante.

Ao tentar convencer a todos de que tão importante quanto uma terapia em roda é assistir ao jogo na televisão, ele insiste no fim da rotina. “Dane-se a rotina, voltamos a ela depois.” E pouco antes: “Uma mudança não faz mal, variar um pouco”.

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Um Estranho no Ninho utiliza o sanatório como espaço de alienação. A chegada de um homem pode, ou não, mudar tudo. Contestador, o mesmo assusta e instiga os outros. Faz com que se movam, aos poucos, para fora. Pede liberdade, deseja quebrar o vidro para que alguém escape – mesmo que seja um único homem.

A obra de Forman clama por essa fuga. Vê-se, por exemplo, a pequena personagem de Sydney Lassick prender a respiração, forçar o peito, aumentar a própria pressão para depois dizer o que parecia preso.

E diz. Todos dizem alguma coisa em determinado momento. Até mesmo o frágil Billy (Brad Dourif) – torturado pelas palavras de Ratched – tem algo a dizer, pois a palavra, aqui, é a contestação principal ao sistema que produz sonâmbulos, que fala para dentro e, no fim do túnel, apela às técnicas de tortura e apaga a mente de seus internos.

Como McMurphy, Jack Nicholson tem uma interpretação iluminada. Descabela-se para conseguir o que deseja, e quase sempre não consegue. Fala sem parar, às vezes sozinho e às vezes sem saber que o homem ao lado, um grande índio, pode compreendê-lo. Se o homem branco grita sem ser ouvido, nada mais irônico que o índio fechado em si mesmo e, depois, rumo à liberdade.

A raiva do protagonista deixa influências. É o sinal de que nem todos são loucos como parecem em Um Estranho no Ninho. Estão presos às suas próprias regras, vítimas de um sistema branco e frio.

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest, Milos Forman, 1975)

Nota: ★★★★★⤴

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À época, em 1975, um filme como Tubarão poderia parecer estranho. Mais tarde, seria quase regra. Tornar-se-ia, então, a maior bilheteria de seu ano, o primeiro filme a ultrapassar 100 milhões de dólares em ingressos nos Estados Unidos. Algo mudava.

Spielberg apontou ao retorno das grandes produções, o cinemão de entretenimento. Apenas dois anos depois viria Guerra nas Estrelas. A história seguinte é conhecida. Em 1975, Tubarão dividia espaço com outros grandes filmes, de autores já com carreira consolidada, como John Huston, e outros próximos de grande sucesso, como Milos Forman. Ano de filmes extraordinários, inesquecíveis, como provam os 20 abaixo.

20) O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston

Bela aventura de Huston com uma dupla incrível à frente, Michael Caine e Sean Connery, exploradores que desejam se dar bem em terras distantes.

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19) Dersu Uzala, de Akira Kurosawa

História de amizade entre um militar e um homem da tribo Goldi. Depois de tentar o suicídio, Kurosawa foi convidado pelos soviéticos para fazer esse belo filme.

dersu uzala

18) A História de Adèle H., de François Truffaut

Amor e sofrimento, com a mulher, Adèle, filha de Victor Hugo, em busca do homem que ama, em meio à guerra, com a extraordinária direção do francês Truffaut.

a história de adele h

17) O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski

Começa com uma filmagem, quando a atriz (Romy Schneider) fica paralisada em cena e não consegue dizer “eu te amo”. Zulawski explora a relação entre arte e vida real.

o importante é amar

16) Xala, de Ousmane Sembene

Crítica aos novos poderosos na África independente (ou nem tanto), com um encerramento bizarro e a personagem que crê estar impotente após o terceiro casamento.

xala

15) Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmüller

A trajetória de um fraco mafioso, Pasqualino, que termina em um campo de concentração, sob as ordens de uma líder alemã gorda e que o trata como um rato.

pasqualino sete belezas

14) Um Lance no Escuro, de Arthur Penn

O cinema com mistério, em seu lado marginal, sobre dublês e estrelas decadentes, enquanto Gene Hackman é o detetive em busca de uma ninfeta desaparecida.

um lance no escuro

13) Picnic na Montanha Misteriosa, de Peter Weir

Outra bela produção cheia de mistério, a comprovar o então bom momento do cinema australiano. Aborda o desaparecimento de algumas garotas em uma montanha.

picnic na montanha misteriosa

12) Tubarão, de Steven Spielberg

Após alguns filmes originais, entre eles o incrível Encurralado, Spielberg entrega esse arrasa-quarteirão. Nenhum filme sobre tubarão, depois, conseguiria o mesmo resultado.

tubarão

11) Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

Entre comédia e tragédia, Lumet oferece esse belo retrato da sociedade da época, na qual assaltantes humanizados dão corpo às imagens que a mídia tanto deseja.

um dia de cão

10) A Honra Perdida de Katharina Blum, de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta

Poderosa crítica à imprensa, que persegue a protagonista, a estranha e distante Katharina Blum. Ela está apaixonada por um suspeito de terrorismo procurado pela polícia.

a honra perdida de katharina blum

9) Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach

Uma história marginal com uma protagonista impensável: em suas andanças, Maria torna-se Lilian, passa do campo à cidade, e revela um país de cabeça para baixo.

lilian m

8) Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

A impressão é de que nada ocorre. Por algum tempo, vê-se apenas a mulher em seu espaço: na cozinha, fazendo comida, ou trabalhando, recebendo homens por ali.

jeanne dielman

7) Barry Lyndon, de Stanley Kubrick

Épico frio, extraordinário, que começa com um embate de armas, com o aventureiro a quem tudo dá errado para dar certo. Depois, o oposto: tudo dá certo para dar errado.

barry lyndon

6) Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Obra de choque, testamento de seu autor, assassinado por um garoto de programa pouco antes de o filme estrear. Mescla tortura, jovens inocentes e fascistas.

saló ou os 120 dias de sodoma

5) O Espelho, de Andrei Tarkovski

A mulher espera pelo marido, fora de casa, sobre a cerca. Tarkovski consegue uma das mais belas imagens do cinema, com as lembranças de um homem sobre a infância.

o espelho

4) Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O diretor italiano explora novamente a identidade, com o repórter que vê a oportunidade de mudar de vida ao assumir o nome de um homem morto, em um hotel distante.

profissão repórter

3) Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Texto afiado, com Jack Nicholson explosivo e um ambiente nem sempre fácil de abordar: o hospital psiquiátrico. É mais trágico que engraçado, e pode levar às lágrimas.

um estranho no ninho

2) A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Obra grande em diferentes sentidos, com Angelopoulos a abordar a história da Grécia. Tem alguns dos planos-sequência mais extraordinários do cinema moderno.

a viagem dos comediantes

1) Nashville, de Robert Altman

O típico filme-coral de Altman, com mais de 20 personagens, com uma cidade em festa, com a política ao fundo e ecos de tempos passados: o assassinato em local público.

nashville

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Com a Guerra do Vietnã em curso e o escândalo Watergate, os Estados Unidos viviam anos amargos durante a década de 70. O Oscar reconheceu alguns grandes e novos autores, como Altman, Coppola, Milos Forman, Woody Allen, Cimino e outros.

A liberdade desse cinema infelizmente durou pouco: com filmes como Tubarão e, depois, Guerra nas Estrelas, os estúdios voltaram a dar as cartas. O resultado seria sentido mais tarde, nos anos 80. Nesses anos de cinema de autor, o Oscar reuniu sua melhor safra de indicados, como se vê abaixo.

10) Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

O encerramento dá o tom da Nova Hollywood: Jack Nicholson decide ir embora, abandonar tudo, e a câmera fixa-se na estrada. Poderoso.

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9) Rede de Intrigas, de Sidney Lumet

Ao vivo, para todo o país, o apresentador de televisão enlouquece, fala o que vem à mente e se torna o novo profeta das massas.

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rede de intrigas

8) Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

Alex, o delinquente imortalizado por Malcolm McDowell, perde sua liberdade em nome do desejo de controle do Estado.

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laranja mecânica

7) A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich

No cinema, os jovens vivem dias de descoberta: beijos, abraços, alguma libertinagem. Na tela, a obra-prima Rio Vermelho.

Vencedor do ano: Operação França

a última sessão de cinema

6) Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

Os homens de Coppola surfam enquanto destroem aldeias de camponeses nesse grande filme de guerra com a “Cavalgada das Valquírias”.

Vencedor do ano: Kramer vs. Kramer

apocalypse now

5) Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

As paredes vermelhas envolvem o público em um universo fechado, feminino, no qual uma mulher vive seus últimos dias.

Vencedor do ano: Golpe de Mestre

gritos e sussurros

4) Taxi Driver, de Martin Scorsese

O protagonista – herói para alguns, monstro para outros – circula por Nova York e sonha com uma chuva para “limpar” toda a cidade.

Vencedor do ano: Rocky: Um Lutador

taxi driver

3) A Conversação, de Francis Ford Coppola

Ao fim, o protagonista toca saxofone em sua casa destruída, isolado, após descobrir ser vítima de sua própria prática: ele foi grampeado.

Vencedor do ano: O Poderoso Chefão – Parte 2

conversação

2) Nashville, de Robert Altman

Esse musical tem um político feito de voz e promessas, e tem também gente alegre e trágica – mais trágica não estivesse em uma comédia.

Vencedor do ano: Um Estranho no Ninho

nashville

1) Chinatown, de Roman Polanski

O diretor polonês dá sobrevida ao noir com um detetive curioso, com uma mulher de moral duvidosa, com o vilão de John Huston. E com água.

Vencedor do ano: O Poderoso Chefão – Parte 2

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