militarismo

Na Solidão do Desejo, de John Flynn

O desejo leva o protagonista, o sargento, a perseguir o soldado sob seu comando; a ordem o mantém no traje que veste, do qual não se separa o filme inteiro. O homem militar debate-se o tempo todo, grita, lança ordens para tentar provar – a certa altura em vão – que ainda pode comandar aqueles homens – ou domar seus sentimentos.

O início, em preto e branco, encaminha à Segunda Guerra Mundial. Soldados americanos, entre eles Albert Callan (Rod Steiger), invadem um covil nazista, uma grande casa de campo. Há troca de tiros. Callan, sem munição, persegue um alemão pela mata. A morte desse homem, fruto de uma briga, retornará mais tarde em Na Solidão do Desejo.

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De volta à França, nos anos 50, o mesmo Callan precisa lidar com seus instintos. Ele é convocado a liderar uma base americana. O sentimento estranho que passa a nutrir por um jovem soldado alto, Tom Swanson (John Phillip Law), remete, em algum momento, à mesma violência que o espectador viu-o despejar na abertura.

O diretor John Flynn, a partir do roteiro de Dennis Murphy, de seu próprio livro, conduz o espectador a esses gestos impensáveis, ao homem que pouco a pouco perde as forças. Homem à beira da selvageria, a quem resta apenas – e de novo – a selva, a ideia de se perder, de perseguir alguém para matar – o inimigo, ou ele próprio.

Resta ao homem confinado o sexo ou a morte. De qualquer forma, em boa parte da história ele esconderá suas intenções. A crítica ao militarismo é latente: sob a farda há o animal a explodir, alguém que, na guerra, poderia matar para liberar seu desejo. No entanto, passado o conflito, à mesma personagem sobra apenas o poder, o mando, o grito.

Ator melhor para o papel não há. É o caso de dizer que poucos poderiam fazê-lo. Personagem rara que conduz suas fraquezas pelos mesmos canais em que correm suas forças: um homem aplacado por não ter o que deseja, por não conseguir fazer sua ordem chegar àquele que deveria se curvar ao mestre, o belo rapaz louro, o escolhido.

O protagonista é Callan, o que faz o filme mais excitante. Após sua chegada à base americana na França, o espectador começa a conhecer o outro, Tom, alguém correto e cujas escapadas reduzem-se à companhia da namorada, francesa perfeitinha (Ludmila Mikaël) que, como ele, talvez não tenha visto, ou não se lembre, dos horrores da guerra.

O público só não odeia mais Callan porque o mesmo nada tem senão seu poder, a ordem reduzida àquele espaço, à farda de estrelas que o leva a enfileirar subalternos, sobre o solo de lama e pedras, para fazê-los limpar tudo o que há pela frente. Essa necessidade de limpeza, de ordem, levada à frente desde sua chegada, aponta ao inverso.

Em Na Solidão do Desejo, os clichês militares perdem espaço para a dor e a melancolia de homens esquecidos, sem uma guerra para lutar, sem inimigos para matar, mantidos em suas jaulas, apenas com o sexo à flor da pele. Não dá para não reparar na forma com que um soldado mais velho observa Tom retirando as calças. As mulheres do lado de fora são inatingíveis (ou quase). Os homens têm apenas a si próprios.

Mais tarde, quando o desejo torna-se insuportável, Callan avança ao previsto. O contato físico dos homens é estranho, desajeitado; Tom tenta escapar do outro. O mais velho desaba, deixa ver sua completa fraqueza. O filme oferece o tombo desse militar que não chega nunca à vilania, homossexual reprimido, aprisionado à própria farda.

(The Sergeant, John Flynn, 1968)

Nota: ★★★★☆

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A saga de Bill Rohan

Enquanto os adultos estão mais preocupados em jurar amor à bandeira e, a distância, condenar as atitudes de Hitler, crianças como Bill Rohan brincam entre o barulho das bombas. Os destroços forjam ambientes perfeitos para garotos como ele.

O diretor John Boorman, em Esperança e Glória, visita sua infância sob os efeitos da Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra. Ele é o pequeno Bill, com os olhos pregados no filme de faroeste, ainda no início, enquanto crianças pulam sem parar na sala de cinema.

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As crianças são sempre tratadas como crianças. E se por um lado elas parecem verdadeiras, por outro não se exclui o poder da imaginação, a forma como alguns absurdos ganham tom engraçado e como a nostalgia permite distorção e até exageros.

Isso não é novidade e já foi visto antes em obras como Amarcord, para ficar apenas em um exemplo. Boorman revisita a infância com comédia: sua família – pai, mãe e duas irmãs – tem traços inesquecíveis, e é transformada pela guerra.

Quando tudo parece pender ao drama, a câmera retorna ao rosto de Bill, que lamenta; quando tudo parece ser engraçado ou absurdo demais, de novo a chave está no menino: ao que parece, ele pode ser mais maduro que os adultos em cena.

Em Esperança e Glória, as crianças não desejam descobrir o mundo adulto. A própria guerra já impõe o seu pior: dos céus, as bombas caem em locais diferentes, de forma aleatória. Nesse sentido, esse mundo doentio – e adulto – força sua própria entrada.

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Ao contrário, Bill deseja apenas viver. É o sinal da infância. As crianças estão alheias – ou quase – ao conflito. Preferem as partes, não o todo. No caso de Bill, preocupa-se com seus bonecos de chumbo, ou com os estilhaços de bomba que estão em sua casa quando há um incêndio.

O diretor toma lição com Vittorio De Sica e seu monumental Ladrões de Bicicleta, do período neorrealista italiano: em uma jornada de erros, as crianças podem servir de guia aos adultos, sem perder por isso suas principais características e necessidades.

No caso de Bill, há o toque do tempo, da memória. O filme é narrado a partir das lembranças do adulto. Lembra-se do pai militar que traz para casa a geleia dos alemães, da mãe que flerta com outro homem, da irmã que se entrega aos prazeres com um soldado canadense e dos meninos que juntam armamentos com o que sobra entre as casas destruídas pelas bombas e que aos poucos se deparam com o sexo oposto.

A guerra é absurda, o mundo militar também. Na sequência mais famosa de Esperança e Glória, um menino agradece a Adolf Hitler pela bomba que explode em sua escola. As crianças, assim, não terão aula, e Bill pode retornar para a casa de campo com o avô.

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Em 2014, 27 anos depois, Boorman retorna à saga de Bill Rohan com Rainha & País (foto abaixo). Apesar de o clima ainda dar vez à comédia de descobertas, algo se transforma.

É a imposição do próprio tempo, a impossibilidade de o diretor – dessa vez de olho em sua juventude – abordar o passado com alegria, ainda que tente. Bill, mais velho, é convocado para o serviço militar. A guerra ainda não chegou ao fim.

As bobagens do mundo adulto continuam por ali, nos livros militares e suas regras, nos líderes que abusam do poder e, sobretudo, do tom de voz e das tradições. No fundo, são homens fracos, contra os quais estão os despreocupados como Bill.

É, de novo, um filme sobre a tentativa de driblar o mundo opressivo e chato, que lança bombas e se impõe a todo o instante. O menino, ao se tornar soldado, busca seu lugar no mundo, como se não houvesse muitas opções.

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Como ele próprio dirá, no início, ao ver algumas pessoas fazendo um filme perto de sua casa, a vida não deixa repetir determinados atos. É diferente do cinema. Tal observação faz pensar no próprio Boorman e em sua direção, na sedução da câmera, do espetáculo no qual tudo não deixa de ser falso e paradoxalmente verdadeiro.

Ao terminar com a imagem da câmera, é como se Boorman enfim chegasse à realidade, àquela parte que não deixa espaço ao falso – contra tudo o que veio antes, em Esperança e Glória e Rainha & País. O mundo em guerra ou o militarismo de quartel será sempre uma saída ao absurdo, à brincadeira insolente por natureza.

Com a câmera, ao fim, chega-se à maturidade, à formação do homem que descobre o cinema. Ao longo de sua vida, os filmes já estavam por ali, primeiro para distrair, depois para questionar – como é o caso de Rashomon, obra-prima de Kurosawa.

No mundo adulto, Bill deixará de brincar entre destroços. O ambiente ao redor fica mais frio. Um amigo antes divertido – agora sem uma perna, no hospital – não tem a mesma graça. O jeito é recorrer à câmera, com sua maneira de representar o passado.

Notas:
Esperança e Glória: ★★★★☆
Rainha e País: ★★★☆☆

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