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Nazarin, de Luis Buñuel

O padre que vaga pelo México do início do século 20 foi comparado a Dom Quixote, sendo uma nova encarnação do outro, “pois crê na religião como o Quixote acreditava num outro valor abolido: a cavalaria”, escreve Georges Sadoul. Peregrino, o homem vaga para comprovar a existência de Deus a si mesmo, contra uma terra estranha.

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Não serão poucos os percalços em Nazarin, de Luis Buñuel: o herói prega a bondade e a fé aos distorcidos, ora ou outra ao nada, e às vezes tenta evitar aqueles que parecem impossibilitados de inclinação, como prostitutas e bandidos. Perder a fé é a única coisa que esse homem, ao longo da jornada, não pode se permitir.

Ao apostar no bom, Buñuel segue em sentido oposto ao de outros filmes que dirigiu, sobretudo os de sua fase final: é a realidade que se apodera do absurdo, não o contrário. O mundo religioso entra em choque com os atos de brutalidade de pessoas pequenas, animais que, metro a metro, sem demora, trombam com o padre Nazário (Francisco Rabal).

O catolicismo que pratica não faz mais sentido ao prever a abdicação do mundo supostamente aceito, o do trabalho pelo salário (não pela comida), o da transição à morte pelo prazer sexual, ou por qualquer outro prazer mundano (não pelo divino). Face a isso, sucumbe, claro, à dúvida. Prende-se antes em si, antes de ser levado a uma cela.

Antes de se tornar peregrino e assumir os contornos de um vagabundo, Nazário vivia em um quarto sem comida. Ao canto, imagens religiosas, móveis velhos, a parede distorcida pelo concreto mal distribuído. Uma vida de pobreza para o homem em seu pequeno templo, no qual, para entrar, é preciso pular a janela. Desajeitada, a passagem dá o tom geral.

A fé em estado simples, para Buñuel, pode se converter em algo engraçado, quase sempre irônico. Seu padre, ainda que amável, destina-se à derrota – mesmo sem aceitá-la com facilidade, firme até o fim em suas convicções, e apesar de quase ser tomado pela sensatez. A derrota (ou a descoberta), sabe o cinéfilo, chegará em Viridiana.

A prostituta que Nazário abriga em sua casa, Andara (Rita Macedo), colocará fogo no local. Na companhia de Beatriz (Marga López), ela cai no mundo para não ser presa. O padre tem destino semelhante. Ao agora marginal, como às mulheres, resta a estrada.

Os três terminam juntos. Por algum momento, ambas clamam pelo amor dele, reservado apenas para Deus. Beatriz, atacada pelo desejo sexual, descontrola-se, parece possuída pelo Diabo. Mais tarde, acaba por aceitar o destino que lhe aguarda: o casamento com um homem bruto, alguém que, apesar dos problemas, ela ainda deseja.

Andara, mais explosiva, encontra o amor em um anão. Quer dizer, ela deixa que o mesmo se declare, que a siga nessa viagem de problemas, enquanto se sente desejada. Na briga, chutará o pequeno, chamado de sapo, para argumentar depois que estava apenas fora de si. Ele fica no ponto em que sempre esteve, a seus pés, e volta a segui-la.

Nazário depara-se com um militar, um padre e uma jovem rica à beira da estrada de terra. Os três poderes estão unidos contra pessoas comuns, gente que vive não pelo poder do Estado, da Igreja ou da burguesia. Eis o problema do padre: ele vive para Deus, o que parecerá pouco em terra em que todos querem sobreviver a qualquer custo.

Os absurdos da realidade abundam. Na cadeia, após ser espancado por um preso, o protagonista é questionado por outro encarcerado sobre o valor de sua vida. O outro, em resumo, argumenta que eles – o bom e o mau – estão no mesmo estado, sob o mesmo teto. A existência pela espiritualidade, segundo Buñuel, não tem sentido. Mas os religiosos verão de outra forma: trata-se apenas de uma entre outras provações.

(Nazarín, Luis Buñuel, 1959)

Nota: ★★★★☆

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Z, de Costa-Gavras

A farsa impõe-se sem esforço: um dos generais, ainda no início de Z, fala em democracia, em excluir os “ismos” e é aplaudido por seus pares. A falsidade pertence aos fardados. Na maior parte do tempo, o fingimento corre em sala fechada, entre os mesmos homens que deveriam zelar pela verdade, mas que insistem em falsificar situações.

A oposição prepara-se para trazer a uma cidade de 500 mil habitantes o presidente de seu partido, deputado, ativista, homem sério que não se esculpe como herói. Alguns dos melhores momentos desse grande filme residem na forma como ele expõe sua seriedade, no momento em que caminha ao teatro em que vai discursar – entre uma pancada e outra, na ida e na volta. A segunda é fatal. Ele é vivido por Yves Montand.

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O que vem em seguida é a investigação, reconstituição minuciosa feita de recortes, sobretudo de cortes, de saltos (no mesmo plano, para outros), de velocidade invejável: um filme político com elementos cômicos, ao mesmo tempo uma fita policial sem muito requinte e que sufoca o espectador. Ou, como diria Pauline Kael sobre o diretor Costa-Gavras, “ele nos toma em seu poder e nos espreme para reagirmos como deseja”.

A impressão é a de ter sido atropelado pela enxurrada de imagens, a partir da montagem brilhante de Françoise Bonnot, desses recortes que se impõem, dessa maneira estridente de falar de tantas coisas ao mesmo tempo sem que nada caia, sem que se perca um segundo sequer dos fios que se entrelaçam. Cinema exemplar a serviço de uma causa.

Não se duvida das intenções políticas. Por outro lado, o que fica mesmo é a luta da liberdade contra o autoritarismo. Não são necessários nomes por aqui – nem de partidos, nem de pessoas, nem da cidade ou do país em que é ambientada essa história veloz. Está tudo ali, escrito, sem que seja necessário explicitar. E se é para se criticar, que se faça de dentro para fora, na redoma dos leões, aqui feitos idiotas graças à força cômica.

Comédia, sim, e outra vez a serviço do teatro tosco. Não estranha que os honestos não encontrem um teatro e que o político recém-chegado seja morto em praça pública, como que jogado às bestas, à redoma de pessoas que viram tudo e nada. O que todos enxergaram, sob o risco do açoite, foi mesmo um atropelamento, não a cacetada.

Outras vêm, outras quase são dadas: um homem recebe uma paulada, no meio da rua, e logo um grupo de apoiadores fascistas recobre-o em sombras para dizer que o mesmo caiu e bateu a cabeça. Outra vez, a farsa. Depois, no hospital, esse homem – testemunha tão importante, que conhece um dos assassinos do ativista – é visitado por outro matador. Por pouco não perde a vida: estava ali, na sala vazia e enorme, branca, um jornalista (Jacques Perrin).

Diferentes personagens cruzam-se nesse filme político. Um deles, o juiz que investiga o caso, é interpretado por Jean-Louis Trintignant, soturno, escondido nos óculos escuros. Curiosamente, a investigação é levada à frente pelo homem ao centro, despolitizado, a quem a verdade insinua-se: fala antes de “incidente” e, mais tarde, talvez sem perceber, encontra o termo “assassinato”. Descortina o abuso. O filme prefere a seriedade.

Na sala do juiz, perto do encerramento, os militares ocultam a comédia nas fardas, nas medalhas, mas ela logo ganha a vez na dissimulação, na porta que não abre. Eles – um a um, encurralados pelos mesmos jornalistas – não escapam. Pena que as boas intenções não resistam à força: o epílogo explica a tragédia, quando as vítimas desse jogo voltam a ser encurraladas, sem que, a despeito do cômico, abra-se espaço ao alívio.

Sobre o político assassinado, alguns flashes, ou cortes, dão luz ao passado. Um passado incerto, misterioso, e talvez até ele – “acima de qualquer suspeita” – tenha lá seus pecados. Em frente a uma loja, sorri à mulher que ajeita a peruca sobre o manequim e retorna, em lembranças, à face de uma mulher que retira a própria peruca.

Sua mulher (Irene Papas), à força, entre um movimento e outro, também segue ao passado enquanto aguarda, quase sempre em silêncio, notícias do marido. Não ao passado distante. Um passado vivo, doloroso, pelos recortes que compõem esse filme magistral, no qual o espectador em momentos é golpeado pela farsa, em outros pelo humanismo.

(Idem, Costa-Gavras, 1969)

Nota: ★★★★★

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Clash, de Mohamed Diab

Cabem, em um mesmo camburão militar, tipos diferentes em um Egito em ebulição: de membros da Irmandade Muçulmana a manifestantes a favor dos militares, de radicais a jornalistas, de homens adultos a mulheres e crianças. Todos estão presos em um dia de protestos, a observar a luta a partir das janelas do veículo, a tentar sobreviver.

A direção de Mohamed Diab é dinâmica e não deixa perder o interesse em momento algum. A ideia, contudo, já foi explorada outras vezes: reunir em espaço exíguo pessoas de inclinações políticas distintas e de lados diferentes. Ao ver Clash, vem à mente Um Barco e Nove Destinos, de Alfred Hitchcock, ambientado na Segunda Guerra Mundial.

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O filme egípcio começa com o camburão vazio. Vê-se sua estrutura metálica enquanto se ouve o trânsito, o som das ruas, a buzina dos veículos. Ainda que o som remeta à realidade, a imagem que se impõe é quase irreal, espaço inabitável e inatingível, uma pintura como representação do cárcere.

Pois será também real e ganhará movimento, proximidade. A exploração do espaço é fundamental. E se às vezes o que há dentro mais parece irreal e absurdo, um teatro de faces conhecidas, de demarcações, discursos políticos, o que há fora carrega o horror da realidade: tudo o que explode a partir da janela é filmado com extremo realismo.

Nessa divisão – entre o espaço do texto, da concentração das faces, das luzes calculadas e, do outro lado, o que mais parece documentário, correndo do lado de fora –, vê-se a força que o filme exerce. E que torna seu desfecho tão difícil. A partir de uma guerra de interpretações, de pessoas que pedem aproximação cada vez maior, é difícil crer em um término que leve a outro estado senão o da liberdade.

O sentido do confinamento tem a ver com a cegueira política. No pequeno espaço, todos se convertem em humanos, e a certa altura todos precisam se ajudar. Nesse camburão, os confinados estão sob o poder de uma força totalitária, sob a evocação da humanidade ou da selvageria, ou uma ou outra, ao passo que fora tudo é conflito.

A intenção, claro, é colocar o espectador como prisioneiro. Não apenas do espaço, mas das pessoas. Em uma batalha interna encampada por gente de lados opostos, resta crer na possibilidade de que essas mesmas pessoas sejam parecidas. Em meio a tantos solavancos, é difícil diferenciar uma ou outra.

Mesmo um grupo favorável à intervenção militar no Egito termina no camburão. Ao atirar pedras contra os jornalistas que já estavam ali, acusados de atuarem a favor da Irmandade Muçulmana, esse grupo é preso no camburão. Islâmicos favoráveis ao regime deposto também são detidos em seguida. O confronto é então inevitável.

Os confinados são colocados à margem: aos militares assistidos pelos vãos da janela ou da porta, não significam nada porque não fazem mais parte da guerra do lado de fora. E quando um soldado revolta-se e resolve ajudá-los, termina preso no camburão. É um sinal de humanismo raro entre o confronto que toma as ruas.

A clausura imposta por Diab é, primeiro, metafórica: de um lado ou de outro dos conflitos, as personagens são reduzidas a quase nada. São expostas à brutalidade dos militares, depois à da própria turba revoltada que toma as ruas. De um lado para outro no veículo apertado, elas não têm mais ninguém a recorrer, ou em quem acreditar.

(Eshtebak, Mohamed Diab, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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A Passageira, de Salvador del Solar

O táxi fornece proteção. Um bloqueio contra o ambiente externo. No banco de trás do veículo, a câmera está presa a um único eixo enquanto a edição oferece diferentes locais, do lado de fora, alternados aos olhos do taxista, em mais um dia de trabalho.

É a rotina do protagonista, antes um militar a serviço dos poderosos, agora um taxista. Esse faz-tudo ainda serve de criado para seu coronel impotente, na cadeira de rodas. A Passageira, de Salvador del Solar, oferece primeiro esse homem à margem, cuja vida – quase resumida a um pequeno quarto, à solidão – não tem mais sentido.

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É pela passageira, a garota que pensou ter esquecido, que ele encontra um sentido: a tentativa de reparar o passado, de ajudar essa menina que foi abusado pelo coronel no tempo dos militares. O tempo que chega é outro: os problemas passaram dos conflitos entre diferentes, entre ideologias, ao conflito originado pelo dinheiro.

O filme trata da memória, da tentativa de reparar o passado. Os crimes dos militares de novo deixam feridas abertas. Aqui, Magallanes (Damián Alcázar), o taxista, acredita que pode ajudar a menina com uma boa quantia de dinheiro. Crê, pobre homem, que poderá extorquir o coronel, por meio de seu filho advogado, para se vingar.

Mas Magallanes também era um militar. Taxista, nessa nova roupagem, ele tenta negar o que era, ou apenas se desvencilhar da antiga personagem. Não suporta quando um velho amigo, outro militar, diz que sente saudades da época em que eram fortes.

Nesse novo tempo, vê-se Lima, no Peru, tomada pelas pessoas em seus pequenos negócios, com meninas a vender celulares na porta dos carros, com palestras motivacionais voltadas a formar novos vendedores. O poder é do dinheiro.

E isso explica por que o amigo, o dono do táxi, sente-se tão fraco em seu comércio, com sua mulher, no qual nada parece acontecer. Apenas cobrança, apenas o que o mesmo dinheiro – do táxi, das corridas feitas pelo amigo – devolve-lhe no fim do dia. Um espírito de sobrevivência sem força, quase velado, à maneira das relações comerciais.

A ideia de paz, contudo, é ilusória. Os poderosos militares e seus descendentes estão ricos, em grandes casas, em carros caros, e com seus criados. A massa que emerge da aparente bagunça busca sua colocação no sistema. Já Magallanes está em uma posição diferente: é o que restou de um tempo perdido, quase um fantasma entre os outros.

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Por isso, a profissão de taxista serve-lhe bem: ao mesmo tempo em todos os lugares e em ponto algum, sempre em deslocamento e sem nada a fazer senão esperar o dia passar para devolver o carro e seus trocados, para depois voltar ao pequeno quarto.

A polícia serve os poderosos. A justiça é ilusória. E isso se desenha quando Magallanes acredita ter o plano perfeito para arrancar dinheiro do filho do coronel, ao reviver uma antiga fotografia na qual o líder militar aparece com uma adolescente e com uma garrafa em mãos, seu troféu. Mas o verdadeiro prêmio, bem sabe o público, é a garota.

É a imagem que resume as tensões sociais: a garota índia no colo do militar. O abuso, o poder, a embriaguez – tudo percorre aquela foto revivida, dessa vez como instrumento para extorsão e, acredita o protagonista, arma para corrigir problemas passados.

O que se tirou das vítimas, entre elas a garota, não pode ser recuperado. Magallanes demora a descobrir isso. Em um momento de descanso, ele observa a paisagem feita de pequenas casas, nos locais – a periferia – em que se volta ao trabalho, nos quais os clientes primeiro perguntam o preço para depois aceitar a corrida de táxi.

O protagonista torna-se um criminoso. O diretor oferece uma viagem em busca de significado, cheia de suspense, uma narrativa que prefere ocultar pequenas passagens, mas uma jornada que só se realiza sob os sinais da violência. Nessa sociedade de inversões, o criado dos militares terminará como começou.

O filme não perde o fôlego em momento algum, deixando de lado personagens distantes. Ao contrário, e apesar de seus pecados, a começar por Magallanes há um homem que não se esconde, de face limpa, sem barba e com cabelo curto, que não suporta o passado.

(Magallanes, Salvador del Solar, 2015)

Nota: ★★★★☆

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