Mike Nichols

A Festa, de Sally Potter

Sete pessoas supostamente civilizadas reúnem-se para celebrar um momento político, o que talvez seja o auge de uma carreira: a indicação de uma mulher para comandar o Ministério da Saúde inglês. Reunião de amigos, de seres esclarecidos que poderiam – e deveriam – apelar sempre ao diálogo. Um deles leva uma arma. Outro faz revelações inesperadas.

Em A Festa, de Sally Potter, pouco a pouco os momentos de desequilíbrio passam a explicar essas sete pessoas para além daquela hora, para fora daquele espaço fechado: o espectador, pela força do texto, começa a explorar a história de cada um a partir do que eles, em pouco tempo, tem a oferecer: um estereótipo.

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Desde o início, claro, tentam escapar a ele, ou ocultá-lo. Alguns mais, outros menos. A nova ministra, Janet (Kristin Scott Thomas), finge-se controlada, troca mensagens com um amante. Seu marido (Timothy Spall) bebe em excesso e recorre aos discos de vinil antes de fazer suas revelações. A mulher finge controle, ele parece mais autêntico.

O primeiro casal a chegar é formado por April (Patricia Clarkson) e Gottfried (Bruno Ganz). Casal feito de opostos, o que talvez explique a união: ela fala o que os outros tentam esconder, alfineta os convidados com comentários ácidos, à medida que ele recorre ao espírito, à filosofia de vida oriental, à contramão do ateísmo de Bill (Spall).

Chega também à celebração o casal formado por Martha (Cherry Jones) e Jinny (Emily Mortimer). Traz boas novas: a segunda está grávida. Milagre moderno, milagre da ciência: o casal gay terá trigêmeos a partir de fertilização in vitro. Em seguida, aparece ainda o descontrolado Tom (Cillian Murphy), que corre ao banheiro para cheirar cocaína.

A fotografia em preto e branco de Aleksei Rodionov estabelece um clima de porta-retrato, e o faz por ironia. As cores em questão conferem frieza. Dão a impressão que aquelas pessoas estão ainda mais rendidas a seus papéis, ainda mais presas à representação do equilíbrio ocidental: uma festa em que todos põem às claras suas diferenças, em que os comentários políticos escapam aos cantos, em que se celebra a diversidade.

A Festa faz pensar em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike Nichols – em seu preto e branco, em sua inevitável “lavagem de roupa suja”, em suas personagens explosivas que fogem às drogas. Mas as personagens de Nichols, da peça de Edward Albee, sobem ao “palco” com mais facilidade; Potter traz seus seres sempre ao mundo real.

É nesse ponto que o filme revela-se frágil: a direção titubeia entre picos de falsidade e descidas ao estado aceitável. Se atores como Spall, Ganz e Clarkson parecem participar de uma brincadeira, de um microcosmo da falência das relações humanas, os outros tentam elevar a seriedade, mais no terreno do drama do que no da farsa.

O trabalho de Potter beneficia-se de pequenos exageros, do impensável. Nesse retrato cômico, os instantes podem mudar tudo – à nova ministra, ao seu marido embriagado, ao visitante cocainômano. Por outro lado, alguns dos convidados à festa que nunca ocorre resistem apenas para constatar a idiotice alheia.

(The Party, Sally Potter, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Difícil Arte de Amar, de Mike Nichols

A Difícil Arte de Amar, de Mike Nichols

O que primeiro se impõe em A Difícil Arte de Amar é o abismo entre sexos. Meryl Streep, de um lado, é o ponto de emoção, de fragilidade – o ponto mais próximo do público, ao qual a câmera volta-se para revelar.

Ocorre exatamente isso na sequência em que ela está no cabeleireiro, rara ao cinema americano da época. Basta o movimento rumo à atriz, a seu rosto no espelho, para o espectador descobrir o que pensa a personagem, e o que muda os rumos do filme.

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Nessa difícil vida a dois, ainda que prazerosa, Rachel Samstat (Streep) descobre que está sendo traída. Há algo a destacar: na cena em que nada parece ocorrer, o diretor Mike Nichols mostra o que está em jogo, que tudo está perto de desmoronar: é o ponto em que o espectador descobre o “sentimento feminino”, o faro, a percepção.

E não se trata de dizer que o sexo feminino é mais fraco – mesmo contra um sempre demoníaco Jack Nicholson. Na aparente fragilidade, tem-se o dilema de uma vida toda: como se desviar desse homem com quem Rachel tem um filho, e de quem espera outro? Como escapar dessa vida a dois à qual tanto se habituou?

Em um belo momento, Streep vaga pela rua, desnorteada, em busca de um táxi; em outro, desesperada, corre para a casa do pai, na qual está o filho, apenas para colocar o telefone no gancho, na esperança de que seu companheiro volte a procurá-la.

Nicholson, antes, é o homem, a rocha: sua primeira cortesia à futura companheira, quando se encontram pela primeira vez (em uma igreja), expõe, de cara, o risco, ao mesmo tempo o desejo. Ela não tem dúvidas.

Entranha de sentimentos, mas nada muito profundo. A direção de Nichols, com a fotografia de Néstor Almendros, concentra forças na leveza sem nunca comprometer o público com o que parece impossível à “vida real” – tudo contrário ao melodrama, embalado pela suposta sofisticação dos relacionamentos adultos.

O roteiro de Nora Ephron, baseado em seu próprio livro, não pretende ser uma história de amor – pelo menos não é o que Nichols traduz. O universo feminino prevalece, com a insistência em captar as dores da protagonista e suas expressões.

Em Mark Forman, até o fim, vê-se o próprio Nicholson, ou seja, o ator, o homem, o contraponto difícil de explicar. A culpa não recai sobre ele. A vingança é driblada, dá vez à mulher que junta forças para dizer “não” sem recorrer à tradução.

(Heartburn, Mike Nichols, 1986)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Segredos do Poder, de Mike Nichols
13 filmes sobre relacionamentos em crise

Segredos do Poder, de Mike Nichols

Sentir-se intoxicado pelos sinais da vida americana não é difícil em Segredos do Poder, de Mike Nichols. A começar pela expressão do candidato à corrida presidencial, o governador Jack Stanton (John Travolta), moldado ao jogo de aparências.

Um filme sobre política feita por políticos, homens de um mundo novo e estranho da propaganda. Há sempre o excesso, a dificuldade de esconder os pecados: há sempre alguma mulher a denunciar o candidato, a acusá-lo de sexo fora do casamento.

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Claro que ele rebaterá a acusação. Usará fieis escudeiros para buscar provas contrárias, ou para descobrir algo que possa acabar com a corrida do concorrente. No campo do poder vale tudo, mas Nichols não joga com o suspense ou com o drama.

Prefere a comédia, o jeito irônico do protagonista reservado, o candidato, e sobre o qual pesam dúvidas. Não é fácil acusá-lo. Ele mantém distância. Nichols faz uma radiografia do real, porque a verdade é sempre ocultada, sempre submetida à propaganda.

Até o fim, o sorriso falso de Travolta (perfeito para o papel) deixa perguntas. Seria apenas uma interpretação? Ou seria alguém que acredita no próprio papel a ponto de sequer perceber ser um canastrão, produto barato do marketing político?

Como A Grande Ilusão, de Robert Rossen, Segredos do Poder é contado pelo olhar de um jovem idealista. Ao político reserva-se a dúvida. Ao jovem, não se espera nada senão a ética, a maneira como se move em desespero, como se põe ao lado do espectador e oferece, sem surpresas, a segurança do olhar sóbrio (e talvez ingênuo).

Ao que parece, Henry (Adrian Lester) é escolhido para integrar a campanha de Stanton porque é negro, além de neto de um importante líder negro. É um estrategista de campanha, profissão à qual se lançam as raposas, não homens como ele.

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O protagonista tenta se convencer de que o candidato realmente vale a luta: não quer embarcar nessa candidatura apenas para produzir e vender um produto; quer, antes, ter certeza de que o produto pode ser vendido sem que precise esconder defeitos.

Tudo indica que ele não sabe muito sobre a engrenagem das coisas, e que ainda crê naquele homem sorridente, no meio da noite, sozinho, comendo uma rosquinha em uma lanchonete cercada por luzes verdes, em meio à escuridão. É a essa lanchonete que o mesmo jovem negro segue, à contramão dos outros escudeiros, para ter o prazer de encontrar ali o homem simples, não o candidato viciado em palanques.

E Stanton pode oferecer esse lado, o que talvez denuncie a ilusão que lança sobre si mesmo: ele realmente crê na personagem que moldou durante décadas, que vestiu e da qual não se separou mais. Personagem que preparou para ser o novo presidente.

Diferente, assim, do Broderick Crawford de A Grande Ilusão, o caipira convertido em governador e que não esconde, em suas passagens por bastidores, ser um político sem qualquer escrúpulo. Stanton é de outra estirpe: é a propaganda viva.

Stanton é estranho, pacato, típico americano médio e camarada, casado com a “mulher perfeita” encarnada por Emma Thompson, a única que não precisa mais acreditar em seus discursos. Em um filme em que quase tudo é falso, colorido e desagradável, a companheira é material obrigatório ao candidato e possível presidente.

(Primary Colors, Mike Nichols, 1998)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

13 filmes sobre relacionamentos em crise

Nem sempre existe amor perfeito no cinema. É o que se vê nos dez filmes abaixo: um amontoado de idas e vindas e sentimentos verdadeiros – tudo em meio a discussões e conflitos. Também um oceano de dores, de descobertas. Há obras que mostram casais unidos após anos, confrontando problemas; outras, como A Mãe e a Puta, lidam com amantes jovens, com suas dificuldades em ter algo sério ou simplesmente viver o momento.

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Aurora, de F.W. Murnau

O homem tem uma amante da cidade e, após pensar em matar a mulher, tenta reconquistá-la. O título original dessa obra-prima fala sobre uma “canção de dois humanos”.

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Viagem à Itália, de Roberto Rossellini

Provavelmente o melhor de Rossellini, o filme apresenta a crise de um casal que viaja pela Itália e passa pelo solo de vulcões e velhos cadáveres conservados.

viagem à itália

A Noite, de Michelangelo Antonioni

Na segunda parte da Trilogia da Incomunicabilidade, Mastroianni e Jeanne Moreau caminham sem rumo: pela cidade, por hospitais e festas. Pela manhã, precisam se confrontar.

a noite

Nós Não Envelheceremos Juntos, de Maurice Pialat

O grande Pialat mostra um relacionamento conturbado entre um bruto cineasta e sua mulher, que sempre o aceita de volta. Isso, claro, poderá mudar.

nós não envelheceremos juntos

A Mãe e a Puta, de Jean Eustache

Em cena, nessa obra-prima de Eustache, não estão pessoas casadas. São amantes livres, em Paris, ainda com questionamentos sobre o tempo passado, o Maio de 68.

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Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman

O filme de Bergman também deu origem a uma minissérie e está entre os melhores exemplares sobre conflitos amorosos na tela. Passa do casamento à separação, depois ao adultério.

cenas de um casamento

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O diretor fez esse filme em homenagem à sua musa, Diane Keaton, e traz a história de um comediante em dúvida sobre seus relacionamentos. Oscar de melhor filme.

noivo neurótico

O Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola

O extravagante musical de Coppola apresenta um casal em fim de relacionamento. Pela noite, eles conhecem outras pessoas e uma nova jornada cheia de cores.

o fundo do coração

Noites de Lua Cheia, de Eric Rohmer

Ela não quer viver com ele, deseja ser independente. Ele não a entende, mas aceita. Nessas idas e vindas, ambos descobrem que amor e liberdade nem sempre são compatíveis.

noites de lua cheia

Closer, de Mike Nichols

Quatro peças distribuem-se em um jogo complicado: o jornalista ama a stripper e talvez não saiba, a fotógrafa prefere a segurança do médico e demora a descobrir isso.

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Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

O casal, até certa altura, parece ter acabado de se conhecer. Mais tarde o passado vem à tona nesse filme maravilhoso, no qual Kiarostami questiona o que é verdadeiro e o que é cópia.

cópia fiel

Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater

Eles estiveram juntos em filmes passados, separaram-se e voltaram a se encontrar. Agora estão casados: vivem aquele ponto em que tudo parece se dissolver.

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Meu Rei, de Maïwenn

Mulher acredita ter encontrado o homem de sua vida. Depois, grávida, ela passa a enfrentar os obstáculos dessa relação a dois, entre idas e vindas e doses de drama.

meu rei

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Dez filmes recentes com relacionamento gay